quarta-feira, dezembro 10, 2025

Sublimação

Sinto, por vezes, uma sensação que me invade, como o despertar de um vulcão adormecido, prestes a entrar em erupção. O calor aumenta de dentro para fora, em ondas, como um magma precipitando-se do centro da Terra. Sobe uma inquietação, uma aflição que me tira o sossego, situada entre a dor e o prazer ansiado de algo que deseja arrastar o que está fora para dentro, um ímã a puxar o movimento que quer nascer.

Lava quente, líquido incandescente, libido em estado bruto, desprovida de sentido, agita-se buscando escape, liberando a tensão do conteúdo denso.

O movimento ascendente da energia que se evoca e se espalha de baixo forma uma pressão que irrompe em um estampido no ouvido, sensação similar à pressurização sentida em grandes altitudes, seguido de um zumbido insistente que se dilui aos poucos à medida que libero o fluxo de pensamentos em palavras e ideias textuais.

Quando o conteúdo toma forma e sentido à medida que se solta, vejo sublimados e canalizados os impulsos crus, vindos do caos não integrado do meu poço fundo. Direciono e miro o alvo de uma energia disforme que poderia muito bem me destruir ou dispersar, com algum esforço apreendido ao longo do tempo.

terça-feira, dezembro 09, 2025

Arcano número zero

O desconforto e o descompasso entre mim e o mundo tornaram-me íntima da melancolia, esse território pessoal escolhido para deslizar sobre a superfície das coisas e evitar que o atrito interno me impedisse de avançar para longe. Um estado de espírito que me guarda em seu invólucro silencioso, uma membrana entre eu e o outro, entre o ser e o adaptar-se, entre o viver e o sobreviver — uma cortina entre mim, a plateia e os bastidores.

Por trás das estruturas arcaicas que me moldam, nem mesmo eu fui capaz de olhar e ver que fiz dela meu escudo, para me manter suspensa acima do abismo de tudo aquilo que considero separado de mim. Corda bamba de ilusões.

Agora, com o desanuviar do pensar, vem o mal-estar após a longa embriaguez da mente dissociada. Surge a hesitação inicial própria da sobriedade que se segue — um estado ainda desconhecido, perdido, sem direção. Sento-me perplexa diante de sensações inéditas; o chão, de repente, me escapa, e lá estou na iminência de, mais uma vez, recriá-lo aos meus pés, simplesmente respondendo àquilo que os olhos já não podem ignorar.

É preciso alquimia: transmutar o reino etéreo dos pensamentos em ouro líquido, para irrigar as cavidades esquecidas do coração e materializar o estado do ser na realidade objetiva do mundo, alinhando-me à minha verdade e trazendo-me de volta ao calor da vida.

Afinal, mudei-me de casa. Arcano número zero.

segunda-feira, dezembro 08, 2025

O som do Tao

O Tao não se define, mas, se tivesse som, nasceria como um tom liminal,
um acorde leve que não se impõe, apenas vibra no ar,
uma nota suspensa sem começo e sem desfecho.
Desliza entre frequências, audível e inaudível,
como um sopro que atravessa frestas
e redesenha a paisagem em um tempo indefinido.

É a música que surge quando ninguém toca,
o silêncio que compõe o infinito,
a respiração do todo que nos atravessa.

Cria uma ambiência, um pulso entre-lugares,
um campo de transição onde tudo paira.
É sensação pura, névoa sonora que conduz
ao limiar entre vigília e sonho, matéria e ideia, presença e eco.
É neblina que envolve e apaga contornos.

Timbre etéreo que não se ancora, apenas ressoa,
como ondulações na água que se expandem.
Batida sutil, chamado longínquo,
calma que afrouxa margens e dissolve limites.

O tempo dilata, respira, atravessa,
e o clima se abre em sinergia, ascensão e mergulho.
O som se espalha na multidão em dança harmônica,
mesclando o diverso e o íntimo em ritmos alternados.

É uma frequência que pulsa dentro e fora,
matriz sonora primordial, sutra vibratório do Tao.
Um som que não finaliza, apenas se dissipa no ar,
como a última nota de um instrumento que continua tocando por dentro.

domingo, dezembro 07, 2025

Batismo da Alma

Distante, vejo uma nuvem chorar,
parindo dores condensadas.
As cores densas se precipitam
sobre os clarões elétricos
que rasgam o firmamento.

O céu, que ardeu o dia todo, enfim se despede
em meio às luzes esparsas
que beijam a terra em estrondos
e me abalam por dentro.

A sensação que me esbarra na pele
sopra suave,
para depois revelar sua outra face:
o açoite dos ventos nas janelas.

O mundo cotidiano aperta o passo,
temeroso do choro celeste.

Enquanto eu, quero me encharcar,
sentir o arrepio na espinha,
a revoada dos cabelos.

Deixo-me ao relento
e recebo do alto
um afago.

A natureza do tempo me comove;
paro de correr com os outros
que buscam abrigo
na pressa que se esconde da chuva.

Eu, não.
Prefiro dançar sob ela
e batizar minha alma.

sábado, dezembro 06, 2025

Poética subterrânea

Nessa vida, bebi ávida das artes e das sinfonias que me embalaram,
encontrando nos livros companheiros ébrios de sarau
das minhas noites e matinês.
Mergulhei no universo dos símbolos e oráculos
numa escavação profunda do meu subterrâneo.
Desci com eles ao ventre da minha própria natureza,
oculta nas formas e fatos mundanos,
para encontrar o mistério do que sou.

Meus professores foram os erros e acertos da vida,
o que me permiti fazer e o que me autorizei sentir acima do intelecto,
a coragem do que deixei escapar pelos portões de casa para se revelar.

A verdade que tanto mereço é a minha própria.
Por que minha voz não alcança o tom do que sinto?
Um humor íngreme como o meu deixou-me girando na ciranda da vida,
sofrendo perseguições internas, até que meu corpo exausto se cansou de correr.

Com os olhos quase fechando, quase desistindo,
mirei a ameaça de frente: a ignorância.
Silenciosa, ergui um gesto rebelde de revolução pessoal.
O carrasco que vinha ao meu encalço se aquietou, calou-se.
Dei-lhe as costas e parti rumo a outra realidade.

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Pescador de almas

Ele fala por mim,
expressa o que sinto e não revelo,
como se o mistério se desvendasse em suas palavras.
É o espelho no qual me vejo: assusta-me e atrai-me,
água sagrada derramada em meu vaso vazio.

Um grito que me chama,
lente convexa que amplia minha visão sobre mim.
Ele é Sol no zênite, fogo que se consome,
e eu sou o éter que se dissolve, sentido sem forma,
propósito não vivido.

Ele se apropria de seus infinitos eus;
eu busco a mim e não encontro —
ou encontro e não reconheço.
Meus eus não conversam: ilhas que se desconhecem.

Ele me revela,
empresta-me voz, traduz-me na língua-mãe da minha alma.
Expõe minhas personas escondidas, silenciadas, dispersas.
Toca em mim o que nem eu toquei.

Arranca de mim o indefinível,
materializado num homem estrangeiro,
brilhante como estrela de inverno.
O impossível que não alcanço me alcança tão facilmente.

Como pode a morte me encontrar na esquina?
Vi-me nua diante dessa chama:
como pode alguém que não eu despir-me para meus próprios olhos?

Não é o homem — o homem morreu.
É o símbolo vivo, Sol no meu céu,
farol da minha busca interior,
do diálogo dos meus habitantes dispersos.

Ele é o que está fora e quer vir para dentro,
a palavra que meu silêncio esperava,
a flecha certeira que diz do que sinto mais do que penso.

Escreveu para mim e para tantos que, no futuro,
aguardávamos por suas palavras viajantes
que nos despertariam para nós mesmos.

É mar que me invade e me inunda, pescador de almas,
trazendo do fundo o alimento que nos nutre por inteiro.
Pessoa é o portal pelo qual atravesso.

 

quinta-feira, dezembro 04, 2025

Campo Sem Caça

A mulher segura uma cesta sem frutos.
Observa, não age,
forma sem conteúdo,
terra estéril.

A ela o nobre oferece um sacrifício,
mas não corre sangue.
Nada acontece.
Tudo permanece suspenso
em eterna iminência.
O encontro não tem vida,
não floresce.

Um cavalo robusto se aproxima.
Ele não é humano,
é do reino instintivo,
puro e verdadeiro,
amor em estado bruto, vigoroso.

Trota decidido em direção ao nobre,
que ergue o arco, desconfiado, ameaçado.
Mas o calor do animal o envolve
e o desarma.

Monta-o e segue a galope
rumo a um campo sem caça,
um homem que, por onde pisa,
não deixa pegadas,
não leva a lugar nenhum,
um ruído que ocupa espaço
com palavras vazias.

Cavalo e cavaleiro retornam,
o nobre de mãos vazias,
o cavalo com corpo e presença.
Ele é tudo o que o homem hesitante não é.

Os frutos estão na vida,
não na imaginação.
Uma união vazia,
uma cesta sem frutos.

Nenhum lugar é conveniente
para aqueles que, acordados,
ainda sonham.