segunda-feira, novembro 17, 2025
AI – Autenticidade Inerente
domingo, novembro 16, 2025
A arte de se conduzir
sábado, novembro 15, 2025
A Caminho de Casa
Por anos, inúmeros personagens dançaram em um baile de máscaras.
E, por trás delas, havia um ser desejoso de ser visto e reconhecido.
Buscou incessantemente a aprovação alheia.
Subiu montes para ser lembrado.
Foi notado, mas ao custo do esquecimento de si mesmo.
Agora se pergunta pelo sentido.
A própria palavra sentido fala da permissão de sentir.
Mas, ao tocá-la, encontrou um vazio silencioso.
E então, os olhos que tanto procuraram outros olhos
voltam-se para dentro.
Lançam suas flechas contra os próprios portões fechados,
tentando enxergar, através do espelho do outro,
a si mesmo como nunca antes ousou ver.
Deixo de viver no exílio de mim, como estrangeira em território alheio,
terça-feira, novembro 11, 2025
A Porta Azul
Certo dia, estava eu a vagar pela estação subterrânea de metrô em meu sonho, um lugar escuro, opaco. O ruído metálico do atrito dos freios dos vagões com os trilhos zumbia uma canção pós-moderna do cotidiano.
À frente, vi uma porta de cor azul profundo. Em busca de ar, de um sopro de leveza, abri-a de uma só vez: um mundo se revelou luminoso do outro lado, uma paisagem ao entardecer, com folhas de outono em tons avermelhados.
Diante de mim havia uma pequena árvore, com o tronco caído ao chão, voltada para um lago cristalino. Nele estava sentado um rapaz branco, de cabelos e barba ruivos, usando um chapéu de palha.
Toda a cena era uma pintura a óleo, com leves movimentos do soprar do vento, como pinceladas vivas. Ele era Van Gogh, e eu o admirava de longe, aquele homem cujos olhos se perdiam no horizonte da tela de sua própria pintura.
Um arquétipo sublime do inconsciente coletivo adentrou meu espaço psíquico pessoal para me lembrar da beleza do mundo.
Deixei meus estágios psíquicos moverem-se naturalmente, feito placas tectônicas que se ajustam ao movimento da Terra, e mergulhei para despertar de um sono profundo, como um artista que contempla a própria criação e nela se revela.
sábado, novembro 08, 2025
Eterna brevidade
quinta-feira, novembro 06, 2025
O exílio de si
Por muito tempo, virei o rosto
para não vê-la. Acreditava que ignorar minha sombra me afastaria do que havia
de mais incômodo em mim e me aproximaria da imagem ideal que eu criara de mim
mesma. Mas quanto mais a evitava, mais ela se fazia presente nas bordas das
minhas atitudes, nas reações desmedidas, nas relações que terminavam em ruína.
A sombra não desaparece com o olhar desviado; apenas muda de forma, camufla-se
nos outros e retorna a mim através da projeção.
Ela é a porção exilada da alma, o
estrangeiro interno que se sente deslocado e busca incessantemente um lugar de
pertencimento. É o arquétipo do que foi banido e clama por reintegração. Em sua
face humana, manifesta-se como insegurança, orgulho, raiva ou medo. Na
tentativa de não ser ferido, o indivíduo dominado por sua sombra destrói o
vínculo antes que o outro o faça. Crê estar se defendendo, mas apenas perpetua
o exílio.
Esse movimento é universal. Todos
nós, em algum grau, repetimos o gesto ancestral de afastar o que não queremos
reconhecer. O arquétipo da sombra surge, então, como o guardião das partes
esquecidas, aquele que preserva, em silêncio, o que a consciência não suportou
acolher. Ele contém a energia vital que a repressão desviou. Integrá-lo não é
ceder à escuridão, mas recuperar a totalidade perdida.
Quando projetada, a sombra se
reflete nos outros. Enxergamos neles os aspectos de nós mesmos que tememos
admitir. Por isso o mundo parece povoado de espelhos. O inimigo, o rival, o
estranho — todos podem carregar, invisivelmente, fragmentos da nossa própria
psique. Reconhecer isso exige coragem, pois implica abandonar a ilusão da
pureza e aceitar que luz e sombra coexistem em toda alma humana.
Ao voltar-me para dentro,
compreendo que julgar-me desconexa é condenar-me ao exílio de mim mesma.
Acolher a sombra é recolher o que foi disperso. Quando essa força é
reconhecida, deixa de incendiar os lugares e passa a iluminar caminhos. Sua
energia, antes destrutiva, torna-se criadora. O arquétipo, reconciliado,
converte-se em fonte de poder interior e sabedoria.
A viagem mais difícil é sempre a
que fazemos para dentro. É nela que atravessamos o território simbólico onde o
inconsciente fala por imagens e onde cada ser humano reencontra os próprios
opostos. Ao fim dessa travessia, compreendemos que a sombra não é inimiga, mas
guardiã do que fomos obrigados a abandonar. Integrá-la é o início do retorno ao
lar interior, o lugar onde a alma deixa de errar no escuro e enfim se reconhece
inteira.