sábado, outubro 18, 2025

O mistério da própria alma

Você está disposto a ser a versão de si mesmo que é, sem se ajustar ao outro ou aos ideais impostos?

O eu que quer nascer pode ser amado ou odiado. Se você o rejeita por medo antes mesmo de conhecê-lo, nunca saberá.

Pode amar uma criatura em gestação dentro de si, desconhecida, que precisa do seu afeto sem garantias, para que dela nasça um novo ser, parte de você?

Pode oferecer amor incondicional ou só amará sob condições?

O desejo de ser aceita, reconhecida, não vem da necessidade de se aceitar, se escolher e se reconhecer como valiosa?

Sou responsável por me aceitar. Não aceite menos do que merece e dê o máximo que puder.

A alma gesta um novo modo de ser, mais inteiro, mais conectado ao próprio instinto. O embrião psíquico se nutre no silêncio e na discrição, para que não seja abortado pela crítica, pelo medo ou pela razão excessiva de padrões impostos.

Você é capaz de amar um ser que ainda não conhece?

 

terça-feira, outubro 14, 2025

O incognoscível

Será que ele,
o incognoscível,
passa ignorando a pequenez
de um barco à deriva
na superfície de suas águas,

algo tão insípido
que mal provoca ondulações
perdidas na imensidão?

Desalento e abandono
sente a minúscula embarcação,
célula triste
desse organismo desconhecido.

Eu o acompanho com o olhar.
O eu quer falar e compreender,
ele quer silêncio e entrega.

Quem sabe,
se eu me deixasse levar pela maré,
não sentisse tanta falta.

segunda-feira, outubro 13, 2025

Não retorne à cidade fantasma

As paisagens congeladas dos álbuns de fotografia, momentos e memórias estáticos do passado, quando revisitadas pela consciência atualizada, que se move entre fragmentos estagnados, podem ganhar nova vida e roupagem.

As memórias nos chamam de volta, mas são apenas ecos.

Não retorne à cidade fantasma.
Não habite o inabitável.

O quadro se desgastou; os personagens atuaram, desempenharam seus papéis, cumpriram o propósito. A partir deste ponto, reconstrua a cena: envolva-a com uma nova visão, olhe-a sob outra perspectiva. Sua visão se alterou. E, com isso, a paisagem mudou. O passado já não é o mesmo visto deste ponto onde estou.

Os atores desta história, dos mais amados aos mais odiados, faces opostas de uma mesma moeda, guiaram-no até o lugar de onde agora seus olhos se voltam e observam, experimentando-se como fruto do próprio experimento. No instante em que a consciência desperta, tudo se desfaz e se refaz.

Ecos de vozes e falas, ouvidos por novos ouvidos, tornam-se outros; atos ganham novos sentidos, e o que era se reintegra ao que é sob meu novo olhar.

A pergunta que fica é:
E eu, o que farei do que fizeram comigo e do que fiz aos outros?
Usarei esses tijolos para erguer muros que me isolem, ou para construir uma casa que me acolha?

O que preciso mudar não é o mundo nem as pessoas, mas o meu olhar.
Alterar meus arquivos mentais corrompidos é o meu trabalho.
A cidade fantasma se desfaz ao toque do meu novo olhar, e com ele desengato a carroça de cadáveres que por tanto tempo arrastei.



sábado, outubro 11, 2025

O experimento

Eu não sou um brinquedo que possa ser consertado, mas ajo como se fosse.
Essa constante análise e observação de mim mesma, como uma substância in vitro dentro de um laboratório vivo que se observa em busca de falhas a serem corrigidas, talvez seja uma fuga da condição humana da qual faço parte.
O experimento que quer se experimentar.
Querer me consertar é um erro, prova de mais uma tentativa de negar aquilo que sou.
Nessa fantasia de ser um deus que identifica, classifica e corrige seus próprios erros, esqueço-me de que permaneço ainda humana.
E, assim, nego a mim mesma e à própria energia da qual provenho.

sexta-feira, outubro 10, 2025

Exílio

Certo dia, resolvi me calar.
E, no silêncio, algo subiu do peito: um incômodo, uma angústia, um medo do desconhecido.
Tudo em mim era sombra e escuridão.
Nenhuma forma, nenhuma sensação, apenas o vazio de não conhecer.

Não me pergunte quem sou. Nada sei sobre mim.
Se diante de um gênio da lâmpada eu tivesse três desejos, talvez ficasse muda,
sem saber o que pedir.
Seria fortuna?
Reconhecimento?
Amor?
Ou seriam esses os desejos da coletividade, sussurrando tentações em meus ouvidos?

Mas seria isso mesmo o que quero?
Se fosse, quem sabe já os teria vivido,
e eles, por sua vez, me teriam possuído até os ossos.
O que me mata é não saber se o são.

Habitar um destino sem rota,
estrangeiro,
cuja língua não falo,
é como viver uma condenação silenciosa,
um exílio interior,
uma segregação do que sou
a se propagar em cada célula deste corpo
que move, sem saber por quê,
esse grande desconhecido.

Deus vive através de mim
a experiência de não se conhecer.
Até que um dia se farte dessa incerteza.

terça-feira, outubro 07, 2025

Mesmo lugar

E nós, humanos,
mergulhados na euforia das ilusões,
das opções,
das repetições,

cá ficamos a dormir eternamente,
presos a um conforto desconfortável,
indo e vindo
pelos mesmos caminhos.

Apertados, atados,
parecemos avançar,
quando, na verdade,
retornamos
sempre
ao mesmo lugar.

segunda-feira, outubro 06, 2025

Um Leão por dia

Matar um leão por dia é o lema do rol dos vencedores.
Só esquecem que o leão que se mata hoje renasce amanhã, ainda mais forte.
O animal mais selvagem a enfrentar é a nossa própria resistência, que nos empurra para o abismo da repetição.