sábado, outubro 11, 2025

O experimento

Eu não sou um brinquedo que possa ser consertado, mas ajo como se fosse.
Essa constante análise e observação de mim mesma, como uma substância in vitro dentro de um laboratório vivo que se observa em busca de falhas a serem corrigidas, talvez seja uma fuga da condição humana da qual faço parte.
O experimento que quer se experimentar.
Querer me consertar é um erro, prova de mais uma tentativa de negar aquilo que sou.
Nessa fantasia de ser um deus que identifica, classifica e corrige seus próprios erros, esqueço-me de que permaneço ainda humana.
E, assim, nego a mim mesma e à própria energia da qual provenho.

sexta-feira, outubro 10, 2025

Exílio

Certo dia, resolvi me calar.
E, no silêncio, algo subiu do peito: um incômodo, uma angústia, um medo do desconhecido.
Tudo em mim era sombra e escuridão.
Nenhuma forma, nenhuma sensação, apenas o vazio de não conhecer.

Não me pergunte quem sou. Nada sei sobre mim.
Se diante de um gênio da lâmpada eu tivesse três desejos, talvez ficasse muda,
sem saber o que pedir.
Seria fortuna?
Reconhecimento?
Amor?
Ou seriam esses os desejos da coletividade, sussurrando tentações em meus ouvidos?

Mas seria isso mesmo o que quero?
Se fosse, quem sabe já os teria vivido,
e eles, por sua vez, me teriam possuído até os ossos.
O que me mata é não saber se o são.

Habitar um destino sem rota,
estrangeiro,
cuja língua não falo,
é como viver uma condenação silenciosa,
um exílio interior,
uma segregação do que sou
a se propagar em cada célula deste corpo
que move, sem saber por quê,
esse grande desconhecido.

Deus vive através de mim
a experiência de não se conhecer.
Até que um dia se farte dessa incerteza.

terça-feira, outubro 07, 2025

Mesmo lugar

E nós, humanos,
mergulhados na euforia das ilusões,
das opções,
das repetições,

cá ficamos a dormir eternamente,
presos a um conforto desconfortável,
indo e vindo
pelos mesmos caminhos.

Apertados, atados,
parecemos avançar,
quando, na verdade,
retornamos
sempre
ao mesmo lugar.

segunda-feira, outubro 06, 2025

Um Leão por dia

Matar um leão por dia é o lema do rol dos vencedores.
Só esquecem que o leão que se mata hoje renasce amanhã, ainda mais forte.
O animal mais selvagem a enfrentar é a nossa própria resistência, que nos empurra para o abismo da repetição.

sexta-feira, outubro 03, 2025

Proteja seu cavalo e suba com ele

Tenho no mundo várias versões de mim, espalhadas pelo tempo e pelo espaço. São versões da minha própria vida e também da minha passagem pela vida dos outros, que projetam sobre mim inúmeros eus: memórias, criações, impressões. Fragmentos vazios daquilo que afirmam ser eu diante do mundo. Posso acreditar nesse filme ou não, mas, seja qual for a escolha, nenhum deles sou eu de fato. São apenas imagens ocas, quadros em movimento criados por mentes que sonham, acreditam e projetam, em busca de apoio e distração para longe do próprio vazio.

Reconhecer que todas essas versões são apenas reflexos é o primeiro passo. O segundo é mais exigente: caminhar e distanciar-se desses eus, aqueles que tanto conhecemos, ou que nos foram impostos, apresentados e representados. Deixá-los para trás, ainda que estejam sempre em nosso encalço, à espreita para nos puxar de volta, exige atravessar terras inóspitas e desconhecidas, tendo como única arma a intimidade consigo mesmo.

O desafio nasceu da invasão da narrativa do outro, mas me colocou diante do meu próprio eu desnudo, aquele que tantas vezes virei o rosto para não ver.

Proteja seu cavalo e suba com ele, passo a passo. Não importa o lamaçal: o broto sempre encontra caminho para a luz.

A saída não é derrotar a sombra, mas crescer a partir dela, como a planta que, justamente porque há terra pesada sobre si, encontra a força para romper e alcançar o sol.

quinta-feira, outubro 02, 2025

Projeção

O mal que habita em mim, mas teme encarar-se, esconde-se nas sombras do meu inconsciente inexplorado e me espreita. Ele pode ser, e de fato é, projetado no outro, no externo, a fim de aliviar a tensão gerada pela oposição interna. A projeção torna-se, então, um guia cego que me conduz a juízos de valor equivocados e a visões enganosas da realidade objetiva.

Infinito

Além da espessa camada de matéria sólida e pesada que me separa do céu, ergue-se ele: o mistério insondável, diante do qual minha consciência se lança, revira e se aferra.
Mas, a cada tentativa de aproximação, mais ele me escapa. Está além, sempre além.
Perdoa-me por querer compreender o que não se compreende, conceber o inconcebível, conter em moldes estreitos aquilo que não se deixa conter.
O infinito a nada se encaixa. E eu, nele, me encaixo.