segunda-feira, setembro 22, 2025
Cata-vento
segunda-feira, agosto 25, 2025
Clã dos Desajustados
Uma gota de água salgada escorre lentamente pelo sulco do rosto, traçado pelo giz da tristeza. Julguei-me condenada a um sonho não realizado, cárcere privado da narrativa de mim.
Olho para a escuridão da minha
casa e sinto a influência irresistível que me arrasta para o caos coletivo. O
desconforto é o impulso de caminhar sem encontrar chão firme, como andar sobre
pedras soltas em um caminho que se desfaz a cada passo.
Que tristezas e medos são esses
que invadem minha alma? Sinto-os como olhos de lobo, brilhando na penumbra do
tempo, observando cada movimento, cada hesitação.
O lamento nasce da sensação de
incompletude, do vazio de não me sentir “em casa” em lugar algum. O pesar surge
diante do risco da travessia: não saber se vou chegar, temer errar o passo, me
perder antes da conclusão, tropeçar nas próprias sombras.
Movo-me por dentro, guiada pelo
que faz sentido ao coração. Mas como avançar, se muitas vezes nem a ele escuto?
Cada batida parece falar uma língua que preciso reaprender a decifrar.
A alma é ousada: lança-nos no
abismo em busca de partes dispersas. A ferida chama a flecha que a reabre,
apenas para finalmente se fechar. Arrisca, uma vez mais, a repetição. A pior
ausência é a ausência de si: o eco que não se encontra em nenhum lugar, a
sombra que me assombra.
Eu pertenço ao clã dos
desajustados e desencaixados. Sou mutável, mas não moldável. Minhas mãos não
conseguem reter nem conter a essência que me escapa como éter. E ainda assim,
continuo a caminhar, recolhendo fragmentos de mim, sigo me perdendo para me
encontrar.