quarta-feira, julho 09, 2025

Deserto do real

Por vezes, me invade um sentimento de opressão no peito, que rasga em pedaços o meu tão sonhado ideal de bem-estar. Sou lançada a uma zona de total desconforto. Minha mente, viciada em consertar falhas e encaixar peças, me escaneia em busca de erros. Procura classificar e ordenar qualquer vestígio de caos, elemento inaceitável na lógica cartesiana à qual minha razão se molda constantemente.

Nada deve escapar sem uma explicação plausível e imediata. Faço malabarismos internos para conter e organizar sentimentos, ações e decisões. Já aos ímpetos e instintos, ofereço silêncio, controle e repressão. Crio uma fachada limpa, simétrica, com uma proporcionalidade invejável. Tudo isso para me conceber como alguém aceitável em mim mesma e diante da sociedade.

Sigo adiante nessa fantasia bem-sucedida de modelo exemplar. Uma peça devidamente encaixada e funcional nas vidas secas de terras áridas. Eis o nosso deserto do real.

sábado, julho 05, 2025

Ruído que precede o despertar

Quando um raio luminoso surge no céu e irrompe sobre a terra num estrondo assombroso e repentino, pode se dispersar em uma faísca que queima uma árvore e se alastra pela floresta, ou pode se estancar, anulado pelo solo.

A carga massiva descarregada no contato entre céu e terra busca equilíbrio após o fenômeno que corta nossa paisagem como uma flecha mensageira do firmamento. O desconforto que provoca atinge-nos em cheio, faz sacudir o chão que pisamos e, por vezes, incendeia tudo ao redor, reduzindo a pó a vasta extensão de nossas certezas.

O som que nos desperta do sono profundo é incômodo como um grito no meio do silêncio. Logo após, instala-se um vazio opressor que nos obriga a encarar o que antes ignorávamos. Nossas mentes, viciadas em soluções imediatas e respostas rápidas, perdem-se no território desconhecido da transmutação. E ali, na fronteira entre o susto e o silêncio, a alquimia trazida à luz da consciência nos paralisa diante da escuridão de nós mesmos.

Meu núcleo carrega uma fúria de substâncias instáveis, prestes a se explodir em erupção. Temo a violência dessa força natural que poderia dizimar tudo o que construí. O autocontrole tornou-se a única defesa contra aquilo que mais temo em mim: a minha força.

sexta-feira, julho 04, 2025

União nos escombros

Dentro da minha devastação interna, recebo você, humilde viajante, sombra que se revela através do vento suave na face.
Seus cabelos soprados tornam nítidos os olhos agora brilhantes.
Personagem misterioso que lança sua cartada final sobre meu tabuleiro de jogos arruinado, ofereço-lhe um espaço verdadeiro, ainda que imperfeito, em meio aos escombros.

Acolho-o sem exigir que esteja limpo ou claro.
Em união por afinidade sincera, no improviso de um lar que desabou, comprometemo-nos a cumprir sua reconstrução por meio da nossa reconciliação e cumplicidade.

quinta-feira, julho 03, 2025

Mortos em vida

Em vida, temos muitas possibilidades do que poderíamos ser, uma abundância vazia, um transbordar de grandes nadas, mergulhados em mentes dispersas.
Nossa sociedade pode ser vista como um campo florido, povoado por borboletas que voam sonhando com flores em vitrines, mas nunca pousam nem polinizam o terreno já árido pela inação.
O que vemos são mariposas cegas, perdidas, trombando em luzes artificiais, cansadas da falsa esperança.

É preciso quebrar o encanto do que poderia ser e fincar os pés na lama fria e pesada do que é. Só assim a vida deixa de ser um catálogo de promessas vazias e começa a ser vivida de verdade.

Morto em vida é quem sente, mas não se arrisca, ama à distância, deseja, mas não se entrega. Seres estagnados, presos pelo medo de afundar e mergulhar.

Vidas mornas, tépidas, cascas sem brilho, amostras grátis de conteúdos vazios.
Vemos resultados por todos os lados, mas o processo é negado e anulado.
A colaboração, a construção conjunta e o trabalho paciente deram lugar a manuais de autoajuda que oferecem fórmulas prontas.

Arriscar-se não é sair correndo, é parar de fugir.
É se entregar ao vazio, ao silêncio, ao desconforto de não ter respostas e permitir que algo mude por dentro.

Você pode se arriscar na pausa que revela o essencial.
Pode se arriscar olhando para o que tem evitado sentir.
Pode se arriscar ao abrir mão de uma identidade que não te sustenta.
Pode se arriscar ao se render a um processo interno sem controle, mas verdadeiro.

Quer saber onde se arriscar? Pendure-se por dentro.
Deixe cair as máscaras, os papéis, a pressa.
E veja o que permanece.
É ali que mora o real.

Solte o controle do plano perfeito, da ilusão de que só se pode agir quando tudo estiver claro e calculado.
O sucesso não se garante antes do passo. Está preso a mentes que projetam, mas não sentem.

Fragmentos temerosos de suas versões incompletas.
Uma multidão de vozes fala e não diz nada. Seguimos repetindo fórmulas para um desajuste íntimo e coletivo.
No fim, tudo não passa de opiniões, suposições e previsões do que só pode ser vivido.

De nada adianta preservar uma vida que não movimenta nada, a não ser que essa vida esteja pronta para se reconhecer como fonte.

A vida é uma travessia.
Se quiser atravessar, terá que enfrentar o fogo.
Mas esse fogo não vai te queimar, vai te forjar.

quarta-feira, julho 02, 2025

Marcha dos desejos

Qual o rumo de nossos desejos?
O desejo de reinar, de imperar, de ser soberano não é, por si só, ruim, nem denota soberba. Quando voltado para si mesmo, deixa de ser uma arma apontada para o outro e torna-se espelho da alma.
Chega como a chuva fina que amacia a terra. Não força, mas penetra fundo.
Sussurra que é hora de dizer "sim" com o coração inteiro, e "não" sem culpa.
É tempo de olhar para dentro, reunir as forças dispersas, reconhecer seus próprios recursos e colocá-los em movimento, com direção, sem pressa e sem fuga.
Quem já desertou de si pode agora retornar. Com coragem, não mais com medo.
Não vire as costas. Avance em seu próprio ritmo. Mantenha-se em marcha, mesmo que o passo seja pequeno.
Vá. Siga munido de si.
Mas não grite sua verdade a quem está surdo.
Não se apresse em se abrir a quem não demonstra maturidade ou escuta genuína.
Você pode estar emocionalmente pronto, mas o outro precisa ter estrutura para acolher o que vem de você. Escolha sabiamente suas parcerias e as batalhas que realmente valem o esforço.
Ofereça amor não porque te falte algo, mas porque há algo demais aí dentro, algo bonito, ardente, pulsante, que ao encontrar no outro um espaço, apenas pousa.

segunda-feira, junho 30, 2025

Juízes do Apocalipse: o tribunal invisível do cotidiano

Imersos em um mundo guiado pela lógica cartesiana e pelo peso morto de martelos que julgam processos em escala, nos colocamos no topo de supostas verdades absolutas. Ali, envoltos pelo manto opaco da razão, somos inundados por discursos de ódio, frustração e desprezo. Tudo se resume ao preto ou branco, ao oito ou oitenta. Não há espaço para nuances, para os tons que a vida concreta apresenta, tão distante das teorias de certo e errado.

Essa visão limitada, incapaz de ultrapassar o próprio reino de ideias rígidas, nos transforma em juízes do apocalipse. O dedo em riste aponta para fora, enquanto o espelho permanece encoberto, refletindo apenas projeções sombrias de nós mesmos. Esse movimento automático de escanear o outro em busca de falhas revela menos sobre o mundo e mais sobre quem acusa.

Por trás desse julgamento, esconde-se uma frustração profunda. Um desencantamento com a vida e consigo mesmo. Atiramo-nos, sem perceber, contra o paredão duro da ignorância, do medo, do egoísmo. Reagimos com raiva e desprezo diante do outro, e, por extensão, diante de nós mesmos.

Caras cobertas por carapuças venenosas, olhos obscurecidos por lentes espessas de crenças tóxicas. Seguem assim, apáticas, repetindo discursos amargos para tentar expelir a sujeira interna que nunca conseguiram limpar. Transbordam suas toxinas num gesto desesperado por algum tipo de purificação mental e emocional.

É preciso coragem para olhar de frente para as próprias falhas. Não para se vitimizar ou punir, mas para crescer. Crescer dói. Como uma semente que rompe sua casca para germinar. Requer maturidade entender que a vida não cabe em fórmulas. Há motivos invisíveis, nuances, mistérios que movem os gestos humanos, e isso exige menos pressa para julgar, mais humildade para escutar.

A existência é complexa. Ínfima. Exige abertura. Para aprender. Para acolher. Para respirar. E talvez, mais do que tudo, para viver com menos certezas e mais presença diante da vida que compartilhamos.

Talvez a salvação esteja na leveza de não saber e, ainda assim, acolher.

domingo, junho 29, 2025

Arquitetura da ilusão

A imaginação é um castelo de cartas
por entre as pirâmides de sua estrutura
equilibram-se as ilusões

Cartas dispostas em formato de A
pontas voltadas para o céu
simetria arquitetada por projeções assimétricas da mente
prontas para atirar

A estabilidade depende sempre
da disposição
e da inclinação

Mira incerta, tendenciosa
à mercê do que escapa
como o vento a derrubar
os cálices da ilusão

O entendimento me chega como um raio
que irrompe no céu noturno
extraindo a verdade num estalo
estampido que faz o coração
palpitar em sobressalto

O clarão cega e confunde
temporariamente
os olhos ajustados às sombras
retraindo as pupilas
como se pudessem escapar
do desconforto da luz

Por um segundo
mergulho no branco alvo do brilho repentino
e vejo, em assombro
meu verdadeiro tamanho

Permaneci tempo demais
nas demoradas formalidades
as que precedem o casamento das partes
que me constituem num todo de mim

Assim tomo consciência do transitório
à luz da eternidade do fim