segunda-feira, junho 23, 2025

Ar da graça

À medida que o tempo passa
e experiencio nele a vida,
draga-me a força do coletivo,
que me imputa a ânsia pelo outro,
o desejo de pertencimento.
Me deixo conduzir pelo tecido social,
misturo-me às águas alheias, estrangeiras,
torno-me ela, e ela se torna em mim.
Somos um só, vozes em uníssono,
moldados e desencaixados,
calados e expressos no vazio.
Me perco em meio ao todo.
A mesma força que me empurra para fora
me puxa, agora, de volta para dentro:
de volta para casa, de volta para mim.
Como o movimento de inspiração e expiração da respiração,
do ar da vida, ar da graça, ar da dança...

Ode à Van Gogh

O Invisível que Transcende
Em vida, foi um fantasma,
ninguém o via.
Na morte, tornou-se gênio,
todos o viram,
o reconheceram.

Sua dor
desenhou-se em cores vibrantes.

E agora,
Van Gogh brilha
na noite escura
de sua própria alma,
pintada nas telas,
em uma beleza
que não se consome,
mas se contempla.

domingo, junho 22, 2025

Sopro invisível

O ar que respiro
não se vê,
não se toca.

Ele passa e sequer o notamos,
sem alarde —
presença que sustenta
tudo o que vive.

Instantes sem ele
e o corpo se curva,
em agonia de morte,
privado do sopro.

É cômico
e trágico
que o essencial
seja invisível aos olhos.

Mas ele não reclama.
Não exige gratidão,
nem plateia.

Paira.
Flui.
Entrega-se inteiro
a cada peito que o acolhe.

Está em tudo,
e em todo lugar.
Não conhece muros.
Não pertence a ninguém.

Sopro antigo,
sopro primeiro.
Por ele viaja o som
da melodia que nos compõe.

Sopro divino,
espírito do mundo.

sábado, junho 21, 2025

Fogo da inspiração

Meus pensamentos e sonhos foram tomados e povoados por figuras ilustres que transcenderam seu próprio tempo e pátria. Com elas, dancei a melodia do entendimento; chorei o pranto do desconhecido. Com eles, estendi a mão à procura do numinoso.

A todas as almas humanas que atravessaram a ponte para o meu universo psíquico, onírico — espaço regido pelo inconsciente, que me mergulha e mistura às águas de um coletivo maior— acendo uma chama à luz da consciência, que se alastra pelos campos do que sou.

Fogo criativo, cujas estacas — linhas fortes da madeira de minhas raízes — alimentam e mantêm a trepidar, bravo e brando. Chamas a valsar no compasso do meu caminhar. Por vezes, queima e me consome. Por vezes, aquece e me acolhe. Paixão que toca o terreno sagrado da alma.

Nos olhos que miram, enfeitiçados, se acendem estrelas nas quais orbitam as sombras de si — e tudo o mais que nos torna inteiros. Comunhão entre corpo e espírito nos faz aspirar o céu, o éter, o eterno.

Não procure as estrelas no céu se você não consegue honrar o solo em que pisa.

sexta-feira, junho 20, 2025

Refrigério d’alma

Para muitos, a escrita é refúgio, refrigério d’alma.
Não se escreve para o mundo,
escreve-se para escutar o que em si silencia.
Cada palavra é um sussurro
que escapa da multidão de vozes externas
e encontra abrigo no papel.

Essa escrita não grita —
ela recolhe e acolhe.
Deita-se
como corpo cansado
no leito da linguagem.

É território sagrado da alma que se expressa
sem máscaras,
sem metas.

Ali, somos livres para ser:
espírito suspenso,
pairando no espaço
entre memórias, orações, amores, sabores,
e feridas que ainda não cicatrizaram.

Escreve-se para sarar
e para lembrar:
a pausa também é verbo,
a pausa também é verso.

Descanso.
Cura de feridas emocionais e existenciais.
Escuta.
Repouso psíquico.

quinta-feira, junho 19, 2025

Fênix do mar

Afasto-me cada vez mais de mim em todas as travessias que me recuso a fazer e por trás de todas as máscaras em que insisto em me esconder.

À margem, permanece um eu fincado feito estaca, a medir o nível do mar, observando as marés, dando um adeus em tom de lamento e apatia ao herói ferido que parte mar adentro, em um navio vermelho e vibrante, que choca os olhos insossos.

Ele se vai, rasgando águas pesadas em dispersão; delas, deixa um rastro de espuma branca e pura, que se dissolve lentamente em meio ao azul-marinho do silêncio.

De longe, sopra o sinal sonoro do navio, sumindo no horizonte, deixando à deriva as pequenas embarcações de si — órfãs, quebradas, sem rumo, sem remo.

A mão, num adeus, permanece em riste, até perder de vista o titã do oceano que se vai, deixando os olhos marejados e salgados do pranto.

Aos poucos, esmorece a força do braço erguido, pendendo lentamente até pousar paralelo ao corpo cansado e imóvel. A cabeça lhe pesa sobre os ombros e inclina-se em direção ao chão — duro, seco e frio.

Nos ouvidos, sopra o vento marítimo do passar do tempo das coisas.

Cresce no peito um suspiro profundo, que se esvai vagarosamente pelas vias nasais, num ar quente e pesado, até tocar o frio do mundo — acolhido em observação calada.

Em meio ao meu zarpar e ficar, o que nasce da morte sou eu mesma.

quarta-feira, junho 18, 2025

Peça solta

Quando minha presença me parece inadequada e as vestes da alma não caem bem no corpo que habito, visto-me com a capa da invisibilidade, ocultando-me para me proteger, num gesto antigo de sobrevivência.
Isso me pesa. Gera uma sensação perene de não pertencimento.
Todo ser está fadado ao desejo de pertencer, a um grupo, um lar, uma espécie, como se disso dependesse sua identidade.
Eu me pergunto, em silêncio: será que posso passar? Tenho permissão?
Peço permissão para cruzar os limites, mas os limites de quem?
Vejo que o pedido era interno, era meu. Nesse pedido moravam motivos que me escapavam à consciência.
Agarrada ao desejo inconsciente de fazer parte de um todo, fiz-me em pedaços, fragmentos.
Quero sair da caixa dos quebra-cabeças, essas peças soltas à procura de encaixe, cansadas de se moldar ao espaço que lhes cabe.
Desejo me desvincular do eterno não encaixe, respirar fundo e ocupar o meu próprio espaço.
Ter em mim meu pertencimento. Carregar em mim a minha própria casa e vagar mundo afora, com raízes nas palavras que me expressam.
Mas como me desconectar para, enfim, me conectar?
Um dos maiores medos do ser humano não é somente a morte, mas a rejeição, pois ela lhe parece uma ferida que mata em vida.
Tamanha é sua força que leva as pessoas a cruzarem seus próprios limites inúmeras vezes em busca da aprovação alheia.
Esse movimento mata lentamente, como um veneno de efeito prolongado, corroendo o ser até o completo desaparecimento de sua essência, tornando-o uma massa disforme e moldável pela coletividade.
Nessa dor, encontra um pertencimento, um falso abrigo no vazio de todos.
O medo visceral do olhar alheio, do julgamento e do pensar do outro carrega em si o desejo de controlar a imagem que o indivíduo criou de si mesmo para o mundo, controlar a forma como é visto, a fim de ser aceito e aplaudido.