sábado, maio 24, 2025

Trigo d’alma

Estrondos de trovões, abruptos, fazem a terra tremer, açoites dos ventos, céu carregado em mil megatons: forma-se a tempestade que varre os campos. Chuva de verão, ruidosa, se destaca, porém passageira — logo, dissipam-se as nuvens.

Chuva calma e tranquila serenamente cai sobre o solo fértil, verdadeiro alimento a fazer brotar o trigo d’alma — silenciosa e discreta, mas permanente e de efeito duradouro.

Assim seguem-se os ciclos sazonais: a natureza revela várias faces e nuances, mas nunca se detém sobre um só viés; segue o fluxo do eterno movimento: transmutação. As águas que nascem na fonte seguem a correnteza, de rumo desconhecido, desenhando a paisagem das planícies e montanhas.

Assim são a terra, o céu e o homem. Mais vale perseverar diante daquilo que é duradouro, para quem deseja trilhar o caminho que leva à estabilidade e à força interior, do que se deter sobre fantasias efêmeras, às quais, dedicamos uma vida inteira. Para aqueles que se voltam para si, há sempre um vasto território a desbravar. Permaneço fiel a mim.

sexta-feira, maio 23, 2025

Tudo Só Ei de Ser Eu

Venho caminhando em silêncio.
Nos pés — desconforto.
Sinto meu peso.
Meu corpo, desajeitado,
parece não caber na própria marcha.

Minha sombra cresce —
ao meio-dia da consciência.
O sol toca o zênite,
e tudo o que sou se projeta no chão.

Dos poros, vaza um suor frio.
Premonição
da aproximação.
Incerteza.

É chegada a hora:
diante dela, não recuar.
Permanecer.

Onde apoiar os pés para atravessar?
Confiarei.
Há de se sustentar
o meu peso,
até que se cumpra o tempo de ir.

E o que de mim surgir adiante,
que venha.
Não temerei a forma do que serei.

Tudo só ei de ser eu.

Band-Aid Afetivo

Um ser que cava no outro a terra que lhe falta para tapar o buraco vazio da alma segue engolindo tudo o que pode — como um sumidouro faminto.
O desespero pelo outro carrega, em si, o desprezo por si mesmo — espíritos aleijados à procura de muletas.
Não se busca afeto verdadeiro, mas apenas fantasias projetivas da carência de si.
Temos, então, o Band-Aid afetivo: um mero curativo descartável para feridas que nunca cicatrizam.

quinta-feira, maio 22, 2025

Epopeia cotidiana

O papel do escritor
é escrever para se elevar
acima do habitual,
eternizando a vivência comum.

Ao empunhar com firmeza a caneta,
ele abre caminhos pelas linhas escritas,
avançando em direção àquele que lê.
O corte e o aporte de suas ideias
tocam o leitor de inúmeras formas.

Dê-se a ele o cotidiano mediano,
e ele trará uma epopeia
de sabores e dessabores corriqueiros,
com o caráter de pequenos e breves atos heroicos.

Os acontecimentos vestem-se de palavras;
ao florear as situações ordinárias,
o escritor torna-as dignas de nota.

Colore-se o quadro da realidade
com tintas extraídas
da matéria bruta vital que corre nas veias.

No nascer e no morrer do dia,
faz-se a mágica do extraordinário,
expressa em versos.

quarta-feira, maio 21, 2025

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa e seu olhar de alma.
Esse olhar é um mergulho contínuo em diversas profundidades — ora na superfície, ora no abismo mais íntimo de si.
Olhares como o dele rasgam a capa aparente e penetram, feito feixe de luz na escuridão, a essência do nosso ser.
São como uma sonda, a explorar os mistérios de nossas galáxias interiores, captando vida no brilho das inúmeras estrelas que nos habitam.

terça-feira, maio 20, 2025

Colapso da viga mestra

Aos pés de quem, ou do quê, posso me ajoelhar e implorar para dar cabo à narrativa que não finalizo?
Ah! Sou mesmo incapaz de realizar tal proeza: derrotar a mim mesma, confrontar-me no espelho, despedir-me de mim, soltar minha mão, seguir brevemente a sós de mim, calar-me diante do que digo, romper comigo e negar-me o abraço que me prende.

E esses grilhões de elos duros? Falta-me o olhar que encontre ferramentas para removê-los. Onde se esconde o impulso do ato? Persiste a inutilidade das coisas que me açoitam a mente como vento em redemoinho, o cansaço do braço que se estende além dos limites e quase alcança — mas quase... — e então deixa cair, despedaçando aquilo que tanto se almeja.

Pudera eu deixar cair e despedaçar-me em rendição, simplesmente entregar-me, deixar-me levar, confiar, remover de uma vez a viga mestra — estaca cravada, firme na terra — e deixá-la mover-se como um bambu que verga no vento.

Ai, se eu me permitisse curvar ao chão para arrancar esta erva, extrair-lhe todo o corpo, do caule à raiz, e mastigar mais uma vez o amargo das folhas que por anos temperaram o chá.

O tempo permeia o traçado do relógio, gira ininterrupto, constante, no agora — e essa é a última hora antes do próximo badalar. Aproxima-se o último trem, que reduz vagarosamente sua marcha, aproximando-me do embarque. Temo deixá-lo passar. Os pés não se movem, nem os joelhos se dobram; estão fixos na estação, presos na fronteira. O corpo se congela na iminência.

O pedido de socorro não verbalizado, engolido na fraqueza da força, não irrompe feito trovão. Quão espessas são as paredes dessa represa? O colapso da estrutura imóvel é certo diante de uma força superior, que pousa sobre os ombros rijos suas mãos — leves e pesadas — empurrando-os para adiante, puxando-os para si, em um abraço de força desconhecida.

segunda-feira, maio 19, 2025

Escritor agiota

Escritor agiota.
Empresto riquezas convertidas em palavras.
Minha moeda? Poemas, contos, versos — breves ou profundos, conforme a sede de quem lê.
Cada leitor toma emprestado meu fôlego escrito, pagando juros em conhecimento.
Trocamos experiências como quem negocia ouro, na bolsa invisível da vida — onde a alma é a única commodity que importa.