sexta-feira, maio 09, 2025

Penumbra

Quando me quebro, formam-se trincas, frestas e rasgos, por onde passa a luz que revela as sombras internas e gera um espaço lúgubre na penumbra da consciência.
Cria-se um cenário que, a princípio, parece desconfortável e desconhecido, envolto em uma aura de mistério, mesclando sentimentos de receio e curiosidade — este é o movimento de cortejo do inconsciente ao consciente.
Ele diz: Você chegou a um portal. Pode entrar.
Meus passos permanecem incertos; a mente fica à soleira, num prelúdio da obra que se inicia. Vacilo, mas sigo o brilho sereno do caminho. Minha presença se torna anímica.


Sob memória

Os que escolheram o esquecimento,
que se reconheceram na trama geral,
abraçaram seu papel além do campo de guerra,
além do céu e da terra.
Permanecem firmes no posto inalcançável à memória,
livres do peso das lembranças corrompidas.

quarta-feira, maio 07, 2025

Inteligência


Não se deve confundir raciocínio lógico com inteligência. O primeiro está na superfície, enquanto o segundo demanda profundidade. Inteligência vai muito além de conhecimento acumulado, aplicação de fórmulas, leitura de mapas e manuais. Ela provém de um saber interno que absorve, questiona e reflete, em um movimento fluido, daqueles que se permitem não apenas racionalizar, mas verdadeiramente sentir, aplicar e interiorizar o aprendizado por meio da experiência viva.


terça-feira, maio 06, 2025

O fantasma das massas

Nosso zeitgeist (espírito do tempo) tornou-se o fantasma das massas, movendo as cordas do ventríloquo que cada um se sujeitou a ser. Ao se submeter ao papel designado pela coletividade, o indivíduo abre mão do espírito da profundidade: vira as costas para o cerne de seu ser e fica à mercê da oscilação do pêndulo que sobe e desce conforme os ditames da sociedade.

Roteiros e ruínas

A transparência deu lugar ao transparecer — prefere-se parecer a ser.
Trocou-se o espelho pela tela, que oferece uma fantasia ao público.
No espelho, vejo-me como sou; na tela, projeto-me como quero parecer.
Todos à volta fazem o mesmo, na caverna de Platão.
Só enxergamos sombras projetadas na parede.
Visto minha indumentária, você a sua — atuamos uns para os outros, na expectativa dos aplausos.
Neste teatro de marionetes, quem escolhe o meu papel? 
Quem escreve o meu roteiro?
A que plateia me dirijo, quando estou nos bastidores, entre um ato e outro?
Protagonizamos, no tempo e no espaço, dramas infinitos, efêmeros, desprovidos de sentido — para, no final, tornarmo-nos apenas mais um fracasso entre tantos outros.

segunda-feira, maio 05, 2025

O silêncio da origem

Quando tudo começou,
foi preciso ficar em silêncio.
A vida, em ameaça de morte,
se escondia em cada célula
que se dividia em alerta,
multiplicando o medo e a esperança.

A estrutura do DNA —
frágil, sonhada — temia ruir
antes mesmo de estar pronta.
O castelo temia ruir,
ser invadido, exterminado,
a qualquer momento.

Mas o tempo passou.
O destino se cumpriu.
A vida prosperou:
deu à luz,
brotou.

Assim foi o início.
A jornada começou —
entre passos e tropeços,
lágrimas e sorrisos —,
e o mundo se desnudou
diante de olhos estreitos,
curiosos.

Verdades se revelaram,
caminhos se abriram,
desvios aconteceram,
retornos se deram.

Toda luz, toda expansão,
guiadas pela sede de saber,
trouxeram o caminho de volta:
para dentro.
Para o silêncio.
Para o vazio.

Desconhecido.
Escuro.
Presença de nada,
além de si mesma.

Somente o som da respiração,
o pulsar do coração —
como quem bate um tambor.

E então,
escapou uma faísca.
Acendeu-se uma lanterna
na vastidão imensa
desse universo
infinito
por explorar.

domingo, maio 04, 2025

O cântico das oposições

Meu mundo interno
é permeado por antagonismos —
espaços vazios e silenciosos,
terrenos povoados e barulhentos.

Não é feito apenas
de santuários pacíficos,
perfumados de incenso;
há também o cheiro do sangue pisado,
porque caminho
sobre minhas próprias feridas.

A busca sincera
atravessa o contraste —
não a harmonia forçada.

Os gritos que ecoam de dentro
não podem ser abafados
em nome de um equilíbrio
moldado por uma falsa paz interior.

Aqui há paz
e há guerra.
Luz e sombra.
Choro e riso.
Grito e sussurro.

O cântico das oposições
vive aqui.

Minhas palavras
são um caldeirão
onde fervem dores e amores,
sombras e luz.

Ali, o coração
cozinha as vivências,
transformando-as em alimento —

que nutre,
serve
e revela:

a mim,
e a quem desejar
desfrutar deste banquete.