Em nossa sociedade narcísica,
erguemos muros invisíveis ao redor de nós mesmos, transformando-nos em
fortalezas de segurança máxima contra tudo e todos. Lá dentro, sonhamos com uma
liberdade que nos negamos a viver. Divididos entre juízes e vítimas — por
aparência, posição social ou qualquer outro critério ilusório — seguimos rumo a
solidão coletiva.
domingo, abril 27, 2025
Solidão coletiva
Falsos faróis
Somos guiados pelos faróis do medo,
que não emanam nada além de luz artificial.
Tememos cair nas sombras do esquecimento
e, paradoxalmente,
é justamente para onde mais tememos que caminhamos.
Sê tu mesmo o farol de teus barcos,
que, um a um,
deslizam leves como folhas de papel
sobre a superfície revolta de tuas águas,
envoltas em partículas de luz
que lapidam a alma do buscador.
quinta-feira, abril 24, 2025
Poema a ferro e fogo
Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.
Feridas de sangue,
vertido em silêncio.
De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.
Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.
Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.
Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.
Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.
Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.
Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?
Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.
Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.
Entrego minha vida
ao fogo da criação.
Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.
Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.
Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.
Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.
Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.
E dela fazer criação.
O que antes era peso
será agora fundação.
Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.
Não aguardo o sinal.
Sou eu o sinal.