A arquitetura reta, linear e estática do mundo material me parece um tanto opressora. A solidez das coisas me escapa a cada piscar de olhos, quando a escuridão do movimento ocular se sobrepõe à tela anterior, redesenhando-a ao abrir das pálpebras.
Eu, que concentrada ocupo um
corpo denso, sinto-me deslocada e fora de contexto nesse plano tridimensional,
vasto e, ao mesmo tempo, estreito. Em meu interior, percebo que algo se passa
nos bastidores, oculto à minha consciência. Sua presença se faz notar por um
movimento rápido — como o de uma sombra passando pelo canto do olho —, uma
forma indefinível, além de um borrão escuro que me acompanha ao longo dos meus
movimentos. Um fantasma de mim mesma, uma inteligência fora dos meus domínios.