Aceite o dom de seus versos e, assim, os poetas os sentirão.
Deixe emergir à tona o seu mais profundo suspiro.
Você olha para sua sombra projetada lá fora, e ela ri da sua cara todas as vezes que você tenta controlar o que quer que seja, em uma ação desesperada para conter seu próprio caos interno. Diante desse riso metálico e diabólico, seu espírito se apequena cada vez mais, como um coelho assustado que projeta uma imagem pretensiosa e fraudulenta de si mesmo. É como um caçador que persegue uma presa em um looping eterno: meramente um cão correndo atrás do próprio rabo, um predador que consome a si mesmo em uma fuga e perseguição incessante de vários aspectos descontrolados de sua psique.
Ele representa uma fraude,
vencendo batalhas inglórias em sua mente fraca e adoecida — um verdadeiro
impostor. Nas camadas mais profundas do seu inconsciente, corre um rio poluído
e estancado pela resistência imposta por crenças há muito tempo inúteis. Todos
aqueles que repetem as mesmas histórias que as suas o incomodam porque refletem
aquilo que o habita e que você não aceita. Um dedo apontado para fora é um dedo
apontado para o espelho; um golpe desferido na vítima é um golpe sobre si
mesmo.
Que espírito miserável é esse que
vaga nas sombras de suas tormentas internas? Falta-lhe o silêncio aterrador em
meio aos gritos e gemidos de dor que ele insiste em imputar aos outros. Essa
punição e tortura nada mais são do que o reflexo de seu mundo interior: frágil
e vulnerável.
Não existe uma ideia completamente sua, pois as ideias têm vida própria em um lugar onde se concentram todos os arquivos possíveis, além do espaço-tempo. Elas habitam um espaço aberto e acessível a qualquer um que seja capaz de alcançá-las. A partir desse ponto, tocadas pela mente, viajam através do mundo interno da psique que as acolhe e revelam apenas aquilo que o consciente em questão pode absorver, expressando-se e tomando forma no mundo material dentro dos limites das crenças e valores do intelecto que lhes dá vida.
Assim ocorre o nascimento de uma nova ideia: ela provém do encontro entre o inconsciente e o consciente, que dá origem a uma substância etérea capaz de nos impulsionar pelos trilhos da história humana e universal. Para cada ser que a concebe, a ideia traz consigo uma essência única e original, derivada da união entre luz e sombras.
A alma tem uma forma diferente e sutil de se comunicar com o corpo. Em um movimento quase involuntário, voltei-me para dentro de mim mesma e comecei a destrinchar quais seriam os grandes propósitos que me guiam pela vida e como eles se manifestam por meio da minha postura diante das coisas. Como um explorador de si mesmo, busquei entender o que me moldou a ser quem sou e o que me move a agir como ajo no mundo exterior.
Mergulhei, tal qual uma forasteira em terras estrangeiras, abrindo cômodos escuros e esquecidos do meu inconsciente. Parecia uma terra de ninguém. Grande parte do trajeto permanecia tomado pelas trevas, pelo silêncio e por sobressaltos diante do desconhecido.
Fui me aproximando, cada vez mais, de um espelho embaçado, de um ambiente úmido e ocre, de águas turvas. Essa postura austera, arredia, de pelos eriçados diante das ameaças externas — que me parecia tão dura e por vezes desnecessária — revelou-me sua verdadeira natureza, sua origem e seus porquês. Era uma alma muito antiga que havia passado por inúmeras experiências, vergado sob incontáveis ilusões, acreditado e defendido tantas causas perdidas que não eram as suas próprias.
Essa alma estava cansada de girar em círculos e de se deixar levar para longe de si mesma. Decidiu, então, se aproximar do corpo, de modo a poder se comunicar com ele sempre que sentisse necessidade de seguir adiante, sem mais se deixar levar pelas utopias e quimeras da vida. Foi assim que ela ergueu um sistema de defesa: um “muro emocional” carregado pelas energias de experiências remotas. Esse muro tornou o corpo intuitivo, alerta e cauteloso diante de ameaças que poderiam mais uma vez distraí-la no caminho de volta para casa.
Esse muro impediu que o rumo se perdesse diante de cada vitrine colorida que surgisse. Afinal, os olhos já estavam calejados por tantas luzes usadas para desfocar a visão de longo alcance.
A alma enxerga tão longe que a
consciência mal consegue acompanhar. Ela mira com tamanha precisão que a razão
não saberia explicar. Sua paciência parece infinita diante de tantas fantasias.
Resiliente, ela espera. Mas ela também urge e move involuntariamente o corpo,
que, aos poucos, se deixa levar de volta para casa.
O ser humano é uma máquina em
operação cuja governança principal parte de seu cérebro. O programa que roda
nessa máquina é a consciência; esse software realiza ações mecânicas baseadas
nas necessidades orgânicas do corpo humano. De forma primária, ações e reações
são esboçadas na relação do organismo com o meio em que está inserido. O
conjunto dessas experiências presentes vai se acumulando na forma de memória
(sensações e lembranças), erguendo uma estrutura que dará origem à identidade
daquela pessoa específica, tornando-a única. Essa estrutura é regida pela
consciência que habita esse ser orgânico, englobando o consciente e o
inconsciente, e trabalha em sinergia com a mecânica cerebral, de modo que o
organismo vivo lhe permite experienciar o meio material, conferindo-lhe maior
robustez.
À medida que essa consciência
toma ciência de si mesma, em um ato similar ao de uma pessoa que se olha no
espelho e vê refletido o seu "eu", identificando-se como uma persona,
ela se torna mais complexa, e seus pensamentos, mais abstratos.
Quanto mais abstrato o
pensamento, mais poderosa se torna a consciência em termos de análise e
reflexão sobre si mesma, ampliando seu campo de visão quanto à sua função e
propósito em relação à vida humana em geral. Atingimos, então, uma expansão da
consciência. Acredito que ela pode se expandir ao infinito, uma vez livre do
organismo que habita.
Existem saberes que são como um martelo que te quebra de dentro para fora. Uma mente estilhaçada pelo inevitável é como uma espada nas mãos de um guerreiro cego.