domingo, maio 02, 2010

Insetos

Ao fim da tarde, quando o céu em brasas cede espaço ao azul-marinho que se apaga sob as luzes estelares — vagalumes distantes no infinito —, vou até a janela. O ar queima, vapores sulfurosos, CO₂, tragos e urros de ônibus e carros.

Os bueiros, bocas imundas, arrotam insetos, hálito moderno da sujeira ordinária que, aos poucos, engole a cidade. Fecho a vidraça e, de dentro, vejo os insetos — pequenas cruzes do sacrifício humano — negros, brancos, amarelos, mistos, suspensos no ar, batendo compulsivamente suas cabeças contra o vidro, em busca de luz, em busca de sangue.

Um exército faminto de timbres, zunindo numa só frequência — do instinto, da sede, da fome. Milhares deles intentam invadir minha torre, meu observatório terrestre. Rufam os tambores à espreita da minha fraqueza, da minha vontade de seguir para além do olhar inocente, deliberado a agir, a envenenar-se de toda a peçonha que bate à minha porta.

 

quinta-feira, abril 15, 2010

Compromisso

Eu tinha um compromisso marcado,
com hora e data indicadas.
Era uma obrigação a realizar,
um dever a cumprir.

A força invisível que me impingia a necessidade de ir esfriou-me.
A motivação se esvaiu no ter de ir,
no compromisso sem graça.

Meu rosto, ao se preparar para mais um “eu estou aqui”,
desbotou-se no espelho.
O sorriso afrouxou, os ombros penderam,
curvaram-se de modo que as roupas já não lhe caíam bem.
Os joelhos, tortos, ficaram bobos como os de um tolo.
Os braços se deixaram cair da cintura rumo às pernas,
pilastras imóveis.

A força, a paixão, fugiram num riso mofado.
Na hora, a vontade escapou, apesar do combinado.
Então, decidi que não ia.
E aqueles que lá não me vissem,
que se contentassem em criticar meus maus modos.

sexta-feira, abril 09, 2010

Monólogos

Pois que gosto de dizer,
palestrar, monologar.

Ao espelho, quase nada relato,
pois sei que naquele rosto,
repleto de tantas expressões
— não aquelas do dia a dia,
do tratamento alheio e bem dizer —
reflete um sorriso secreto,
careta malcriada,
um espanto,
um concorde,
uma tristeza distante,
uma angústia vibrante.

Quantas surpresas há na haste dessas sobrancelhas,
conquistas e perdas no canto desses olhos,
fundos, negros pântanos.

Quanto tempo! Finas linhas a sulcar,
fendas por onde correm lágrimas
de dor e júbilo,
tão caras e raras.

Tantas são as caras,
as máscaras,
as almas.

Disto, daquilo...
Enxergar um só reflexo
seria-me um sacrifício
nessa minha sina
de rostos em catarata.


segunda-feira, abril 05, 2010

Hoje

Hoje estou pacífica
Hoje eu aceito
Hoje eu entrego

Não resisto, nem me oponho
Pelo fluxo de indução que atravessa
O céu de hoje que despenca sobre minha cabeça

Hoje brilha uma lanterna silente, paciente
Um abraço de paz
Rara harmonia do dia e do tempo

segunda-feira, março 29, 2010

Sonhar

Um sono absoluto vem, de quando em vez,
Me chamar, me pedir
Para soltar,
Deixar cair,

Na claridade do amanhecer,
Dos cabelos que, soprados,
Se arrastam pelo meu rosto,
Me impedem as mãos de buscar amparo.

Meus olhos perdidos, eternamente, brevemente,
Os pensamentos... Que paraíso sonhar!
Deixar ser a vida, aquela que circula nos pulsos,
No coração, sangue que comprime, exprime.

Dos olhos, lágrimas — sem dor, sem mais.
Sutil e sensível, a mais bela parte do dia,
Daqueles, desses dias, despidos de artifícios,
Em que o corpo consente em existir,
Assim como qualquer outro ser.

sexta-feira, março 19, 2010

Pedras

Preciso de alguma leveza
Tudo são pedras,
Cálculos e concreções

As falas forjadas
Cobranças
Estanques

As paredes são grades
As grades espíritos
Figuras pintadas

O silêncio...
O silêncio das horas que passam
Do desejo que esmorece

Cresce, evolui a luta
A vontade se adianta e
Recua o impulso iônico do mar

quarta-feira, março 17, 2010

Cicatriz

Cicatriz,
Corta um veio nas costas
Sulcadas de dor

Marcas,
De um Paraíso opressor
Tirania selvagem

Seu,
Meu,
Deus,

Demônio pagão
Deserto de sal
Ferve e serve

Sílabas,
escassas, secas
Fonte servil

Meu corpo guarda um silêncio infinito de não ditos
Uma ânsia de querer falar e se calar

Um trago, um rasgo
Afago de paixões vilãs