quinta-feira, março 11, 2010

Sonho doce

Como os sonhos são doces.
Escapam às barreias da vida e morte
Realizam o encontro impossível entre o ir e vir
Entre quem ficou e quem se foi
Sopram longe os agouros lúgubres
Num frescor primaveril de um eterno reviver
O acordar, só me deixa vestígios, fragmentos
Uma memória presente, consciente de seu meio tom desgastado,
Passado que se reconstrói continuamente em meu coração
Ciente de que vem a morte, mas de que nela não reside o fim


quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Tantas

Tantas são as coisas
Tantas as escolhas
Imagino que de tantas e tantas coisas
Tantas e tantas escolhas
Quantas não são as mesmas
Então me pergunto
De tantas e tantas perguntas
De tantas e tantas pessoas
Quantas não se perguntam a mesma coisa
Nesse mundo de tantas e mesmas coisas.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Gosto amargo da vida

No breu do porto pousa uma rapariga
Feito mariposa a baixo da luz do píer
Atenta ao sibilo dos sinos
Zunido que jaz no cais

Na orquestra de animais noturnos
Dança o brilho distante dos vaga-lumes
Faróis remotos, supostas estrelas

Uma ventania fria
Sacia o vazio
Acompanha a fuga de uma alma aflita

Lume frouxo, desfalecido
Guia aos navegantes
Nau sem dono à deriva

Vêm de encontro ondas oceânicas
A lamber o píer numa solapada salgada
Fervelhe a boca feito sal de fruta

Recua engolindo limo
Consciência imunda
Gosto amargo da vida

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Concentra-te

Concentra-te apenas no ato de beber um copo de água: seu frescor, seu sabor, deslizando garganta abaixo até o estômago. A calma de um só movimento e, por um instante, o mundo parece parar, até que se sorva a última gota d’água, saciando a sede, que se mescla a um tempo pacífico e segue esmorecendo a angústia do desejo.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Chove

Chove! Chove sem parar acima da terra a se escorrer
Não vejo chover, ouço apenas rumores de sua constância
Sons pausados, alardeados na boca dos outros

Sob a montanha repousa um amigo
Sobre ela brota um cravo, ainda um talo
Sob a chuva que insiste engolir lhe a vida

Sopra uma nuvem embebida em carvão
Esmorece o pranto celeste
Num levante da estrela em chamas

Da terra escorre o labor
O suor dessa dor
Um pudor

Descansa o ardor
O fervor, o calor
Floresce o frescor ao sabor dos sonhos de um amor

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Não há nada

Não há estrofes nestas poesias
Não há métrica nesta minha vida
Não há conto neste meu dilema
Não há drama nesta minha paixão
Não há gênero, nem estilo
Não há lira, nem lirismo
Neste mar de sabe nada
Não há truque nem retoque
Não há nada neste fado
É um ruído, uma voz
Um tom e um som
No embalo desse timbre.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Recharger

Deita-se o mormaço sobre o asfalto da cidade.
Um som abafado de guitarra permeia a noite,
emitido de um pub barato que cheira a pinga de esquina.
Um solo ecoa pelo silêncio dramático da escuridão,
invocando a solidão dos becos, dos desamparos.

Baforejam gases venenosos dos bueiros,
expelindo insetos, injúrias,
ateando fogo nos corpos à mercê do cenário de horrores.
Partículas ardentes libertam-se, matérias em combustão.

Morada dos justos, estilo hodierno,
corpos revestidos de crômio,
corações de uretano à prova de quedas, riscos e solavancos.
À prova de vida. Condições desumanas.

Suas almas, rechargers perecíveis,
suscetíveis à esteira do tempo, condenadas, obsoletas.
Delas sopra uma trilha — sonora emoção,
lenda, paixão humana a resistir em meio a artifícios,
fogos forjados, desejos moldados,
num rio metálico, pesado, vergado, compadre nocivo.

Um suspiro afoga a todos nós.
Um chamado, uma cura, um destino implacável.
Sê forte, sê duro.
Pois haveremos de ser, padecer e perecer.