terça-feira, julho 28, 2009

Polos à parte

Assim que nossos caminhos não mais se cruzarem,
Num entendimento elementar,
Destoando em cruzamentos,
Imagens reversas,
Retóricas dissonantes,
Haveremos de nos dirigir
Aos polos opostos:
Ártico,
Antártico,
Ao extremo Norte-Sul,
Divergindo entre estações,
Alternando entre dia e noite,
Do inverno austral
Ao Sol da meia-noite,
Da florada das ideias
Ao declínio das doutrinas.

Unidos por oposição,
Em partes compostas,
Do abrir ao fechar do sorriso,
Como cortinas de teatro
Que ocultam o vazio pano de fundo.

Assim, deste ou daquele modo,
Absolutos e transitórios,
Num passar,
Num ficar,
Num olá,
Num adeus,
Sem que possamos medir a distância
Entre nossos pensares e pesares.

Tudo se faz linhas,
Linhas imaginárias,
Desenhadas para apartar,
Que a tudo tendem a dividir
Em polos à parte,
Onde haveremos, cada qual em seu eixo,
De erguer observatórios em defesa de si mesmo,
De erguer fortalezas em nome do isolamento.

Haveremos de combater nada além de nós mesmos.
Haveremos de abrigar a verdade de nossas ilusões.
Haveremos de viver a quimera das oposições.

Haveremos, então, de nos armar, cortar laços,
Na iminência das tão sonhadas alianças,
A anos-luz de nossas essências.


terça-feira, julho 21, 2009

Sonhos

Daqueles que se vão
Sonhos perduram no tempo
Dentro daqueles que deles compartilhou
Os sonhos que não afloraram
Viajam para todo lugar
Em arranjos musicais
Tempestades guturais
Fenômenos naturais
Na eterna imensidão
No infinito deste céu
Num sopro vento sul
Em reluzente amor astral
Indo e vindo
Fluído como as ondas
Do início ao fim sem fim

quarta-feira, julho 15, 2009

Olhos

Os olhos tragam imagens desolados
Percorrem, assassinos, despedaçando, fragmentando
Malditos sejam estes olhos que parecem dizer
Muito além do que digo
Espelhos manchados
Par cruel a engolir o espaço
Esféricos imundos refletem o nada
Assustam com o nada
O nada...
O nada que deles propaga
Acesos em chamas, furiosos sedentos
Inflamados, febris
Caçadores impunes
Capturam destroços
Partes do nada
Malditos sejam...

terça-feira, julho 07, 2009

Mundo Sombrio

Ao som indefinido do mundo componho a harmonia perfeita do que se parecem apenas ideias e por trás desta cortina de fogo vejo escorrer por entre os dedos apenas restos do que um dia tanto reluziu.
Caminhando em passos desconexos, onde impera o reino fragmentado das várias ideias, projeto no chão uma imagem disforme, réplica do que sou.
Minha sombra multifacetal segue meus passos, ouve meus pensamentos dia e noite, me acalenta em seus gélidos braços, no leito onde a esperança me desespera.
Na atmosfera onde tudo se desfaz, não há espaço para a concretude, nem para o equilíbrio, exceto pelo tempo, roda que gira sem cessar, metálica, pesada e indigesta a que estamos condenados.
Mundo sombrio, em sua escuridão me detive, seja por ser inevitável, seja para de longe observar os pequenos feixes de luz que fazem das sombras ainda maiores e da alma uma dolosa nostalgia e esta sem precedentes segue vazia a vagar pelo espaço, terreno inóspito, onde o porvir parece não existir.

terça-feira, junho 30, 2009

Dor

Gosto de ferir-me os dedos
Rasgo lhes a pele
Sugo-lhes o sangue
Um gosto metálico, desagradável
Escorre ardido, dolorido
Mordo a chaga, estanco a fenda
Humor instável
Temperamento sanguíneo
Cravo as unhas na ferida
Provoco incessante
A dor cresce aos poucos
Assim, um pouco mais a cada investida
Sensação mais ou menos aguda
Picadas de vespa
Deixo adormecer a dor para acordá-la novamente
O caminho de volta é um caminho sem volta
A penetrar na pele uma dor que nasce na alma

sexta-feira, junho 26, 2009

Ioiô

Correndo de cá para lá
Matando o corpo em agonia
Bate cansaço, ó meu deus
Passou-se a semana a voar
Bate de cá para lá
Bate no peito agonia
Quando se vê já se foi
Quando se vê já foi dia
Ah que já fora-se o tempo
Ioiô vai e vem
Já se foi

sexta-feira, junho 19, 2009

Das verdades

Verdades vêm tarde
Verdades faladas machucam
Porque ferem os ouvidos, o ego
Porque nos lembram de que somos humanos
De tudo aquilo que já sabemos no fundo ser mesmo verdade
Do caráter que intimamente conhecemos
Das limitações, que nem sempre queremos
Perdidas em meio a exigências
Autossuperações
Mas quando nos falam
Em alto e bom som
Dos defeitos que sempre enumeram, qualidades que deveriam ser muitas
Ah então nos lembramos, de que somos mesmo humanos falíveis
Nos lembramos de que devemos ser muito além
Muito além do que somos
As verdades que dizem machucam
Mas não mais do que aquelas que calam
Verdades caladas não lembram jamais, de que somos humanos
Estão acima e além do que somos
E então as verdades machucam
Faladas e caladas
Porque não conhecem jamais, daquilo que é humano