Do alto da estátua escorre uma gota d’água.
D’água da chuva, d’água da rua.
Uma lágrima, um choro, um lamento de Canis.
Tocou-lhe o dorso e correu para o chão.
Então a hora finalmente chegou.
Cão raivoso de presa afiada,
no regaço desta terra sulcada
pelas duras pegadas das presas brutais.
Rondando, circulando à espera,
deleita-se em caminho tortuoso.
Cava obcecado.
Ah, coiote…
Quem está caçando desta vez?
Suas vítimas nunca são as mesmas.
Seu prazer se projeta em desafio.
Coiote, você está vazio.
Não provoque.
Não adiante o que já está decidido.
Vivendo a sombra de si mesmo,
você está morto.
Posso senti-lo roçar
as pedras imóveis
da estátua de Canis.
O que quer?
O que pode querer?
Não se atreva.
Por acaso esqueceu-se da vida?
Não se atreva a ameaçar.
Não mire estes olhos para o sacrifício.
Cego na ilusão de Canis,
nada vejo além de uma sombra baixa
rastejando ao redor da efígie.
O que pensa estar guardando nessa imagem?
Não há cheiro de carne em seu hálito.
As presas permanecem seladas
na boca fechada.
Seu faro se perde no ar.
Seu tempo está se esgotando,
destinado ao eterno esquecimento
ao lado de Canis.
Deseja o coração
se extinguir
numa ordem natural,
resultado de um breve suspiro de vida?
Latrans, você não entende?
Você não é permanente.
Não se engane, coiote.
Chacal imortal, é isso o que quer?
Não lhe basta a beleza da transitoriedade?
Chacal.
Coiote.
Meu querido lobo das pradarias,
não seja tolo.
Entenda, para que possa caminhar ao lado daquele a quem tanto admira,
que as águas cálidas do pranto de Canis
o ergam à altura de Lupus, a constelação.