quinta-feira, abril 30, 2009
Cruzamento não paralelo
Seguir-te os passos até o inferno
Caçar-te na multidão
Ávida de teu sangue
Prestes a derrubar-te
Queimar em ódio ácido
Na eminência de destruir-te
Fazer de um estúpido desejo
O sentido de nossa existência
Superar-te diante de teus olhos
Dominar-te os pensamentos
Causar-te insônias incuráveis
Úlceras gástricas
Secar-te a boca
Gelar-te da cabeça aos pés
Imputar-te os mais sujos desejos
Envolver-te o pescoço
Privando-te lentamente do ar
Tirarem-te das órbitas os olhos
Rasgar-te a pele em pedaços
Engolir-te completamente
Insuflar-te tremores e choques
Remover-lhe a consciência
Lançar-te longe contra o espelho
Ouvir-te cair despedaçando tua imagem
Fazer-te gritar, urrar, sussurrar
Privar-te dos sentidos
Prensar-te contra a parede
Rir ante teu rosto perplexo
Levar-te a falar, detonar
Sorver-lhe o fôlego
Puni-la e perdoá-la
Venha! Levante-se!
Golpeie-me para longe!
Lute! Lute comigo
Quero lutar com você
Apenas com você
Ver-te atacar
Revidar minhas investidas
Sentir-lhe a fúria
Porque adoro nossa luta
Porque, então, fico no céu
Na mais imunda lama
Existiríamos, nos extinguiríamos
Apenas nós duas
Em meio a nossos insultos
Pobres diabas
Consumindo-nos no calor do embate
Você é minha
Tão minha que preciso lutar
Sugar-te as forças
Para que fique
Eternamente
Comigo
Não há dúvidas de que te odeio
De que te amo
De que preciso
Estar em combate contra você
E sentir o calor de tuas ofensas
A frieza de teu desprezo
Você e eu uma só
Eu e você nada a ver
Você sou eu
E eu você
Do avesso
Reverso do verso
Você fora
Eu dentro
De um maldito reflexo
Meus olhos anseiam trazer-te para perto
Até que possam engoli-te inteira para dentro de si mesma
Desejando tê-la em meus braços
E neles vê-la padecer
Confesso, queria poder acreditar em você
E assim lutar sempre com você
Com você e não contra você
Mas estamos em um cruzamento não paralelo entre ambas
sexta-feira, abril 24, 2009
Sublime Nebulosa III
Reflete a luz de toda e qualquer estrela
Elevada à última potencia
Propaga a natureza das coisas
Derrama a verdadeira essência do ser
Alimenta todas as terras, todos os céus, todos os mares, todos os fogos
Ergue-se pleno de tudo o que é
Indefinível
Éter, sangue, seiva
Alma, cosmo,
Sol, estrelas
Galáxia, corpo celeste
Partícula, gota d’água
Molécula, átomo
Fagulha, célula, núcleo
Elevado à liberdade desconhecida
Além do olhar angular
Da saliva sedenta
Do desejo cruento
Das vontades linfáticas
Do orgulho corrompido
Da dor e prazer
Do medo perverso
Do tempo e do espaço
Da verdade e da mentira
Do bem e do mal
Da vida e da morte
Do céu e do inferno
De deus e do diabo
Ser sublimado em absoluta unidade
Desmembrado em infinita multiplicidade
Seus pés que outrora caminhavam
Mansos, tranquilos
Agora correm, deslizam
Não há limites
Não há barreiras
Irradiam transcendente grandeza
Voam além deles mesmos
E vão para todo lugar
Estão onde o pensamento estiver
Eterno e transitório
Absoluto de todas as coisas
Ser de suprema sabedoria
Ouça o que ele diz
Pois o que ele diz as palavras não traduzirão
Deixemos que seja
Pois tudo está repleto
De sublime nebulosa
quinta-feira, abril 23, 2009
Dédalo purgatório II
Invólucros vazios
Desprovidos das mais ávidas paixões,
Dos ímpetos de empenho,
Do interesse natural
Pela sedução das maravilhas.
Existe sede,
Existe fome
Em mergulhar profundamente,
Procurando desviar,
Ponderando se entregar
Ao sofrimento prolongado,
Que se estende pelo corpo,
Colérico e cansado.
Uma vontade corrompida,
Deveras falseada,
Forjada em satisfação,
Pagamento, haja vista,
Mentiras creditadas,
Falhas parciais,
Modelos imprecisos.
Consubstancia
Fatos e impressões,
Nada além
Do que está além
Do dizível e visível,
Apenas crível e viável,
Em eterna insatisfação.
Terra ávida e incessante,
Donde as buscas não têm fim,
Numa esteira sempre constante.
Uns se erguendo,
Outros caindo.
Em rios caudalosos,
Muitos corpos se entregam
Às correntes traiçoeiras.
Haverão de pagar,
Todos, pelo desejo, pelo ensejo,
Controlando seus humores,
Refazendo seus caminhos,
Desfazendo seus enganos,
Expiando suas culpas.
Neste Dédalo Purgatório,
Aos poucos se achegando,
Sem que haja dúvidas.
Tudo a seu tempo,
Um tempo que seja seu,
Desconhecido do relógio
Ao qual pobres diabos se apegam.
Venha...
Se achegue,
Num tempo somente seu.
Se entregue,
Mas que seja primeiro a si mesmo,
Amante a unir-se num só.
Hás de compreender
Que estás além da fome que te atormenta,
Da sede que te mortifica.
Hás de compreender
Que não há tempo algum
Em que se possa contar nem conter
O que somos.
E então, hás de chegar
Antes que te possas notar.
quarta-feira, abril 22, 2009
Magma infernal I
Poderíamos cozinhar
De uma só vez derreter
Agonizando em meio a lavas
Mentiras e ilusões borbulhantes
Mas vamos perecer em fogo brando
Morrer em banho Maria
Espinheiras dançam no vendaval
Roçam-nos os corpos
Tiram-nos o sangue
Que percorre em linhas tortas até o chão
Terras tórridas
Amaldiçoadas
De rosáceas venenosas
E vapores sulfurosos
Carnicões fazem caminho
Via reino virulento
De serpentes peçonhentas
E insetos agressivos
Túrgidos pulmões
Aspiram asfixiados
Vamos todos arrastando
Como vermes na carniça
Sucumbindo neste inferno
De nada adianta se esquivar
Vêm chegando
Vêm chegando
Os demônios do relógio
Apressados como nunca
Mais perversos que suas vítimas
terça-feira, abril 14, 2009
Na chuva
Em que andam a escorrer pelas calças água da rua
Sapatos sovados de lama
Pisam e murmuram coaxos de sapo
Em penúria embriagados de chuva
Ó meu deus, porque tanta carreira?
Já não sabe tragar céu aberto?
Para que tanta espera
Pendurado à marquise estreita?
Vai a solavancos se esgueirando entre as esquinas
Pobre diabo! Só chão para te aquecer
Terra chã para se esquecer
Só vai ele, depauperado
A levar chuva no lombo
Escoando a miséria humana
Ó e no passado
Num tempo em que não havia a estreiteza do olhar
O selvagem na chuva valsava
Civilizou-se no medo e bom senso
Precipitando-se acima das poças
Resvalando em sofrimento
Um tempo que não vira nada
Um tempo que só influi
Deságua abaixo do céu
quinta-feira, abril 09, 2009
Nevasca
Flocos de neve debatem-se
Uivam lá fora
Ah, por Deus, não posso parar
A paisagem irá me engolir
De um branco angustiante
Maldita ilusão em cartões postais
Lembro-me dos enfeites de natal
De como são reconfortantes
Do calor que transmitem
Em datas especiais
Salpicados em branco plástico
Mantenho a perspectiva
Desde o começo procurei um suporte
Ancorando-me em memórias
Mas este porto é tão remoto
Como pesa o ar aqui dentro
Um carro dança no gelo
As correntes tilintam
A cada avanço na estrada
Um recuo do sol
Crepúsculo perverso
Vem a galope
Arauto funesto
Gelando-me o sangue
Exaurindo-me as força
Um suspiro escorrega
Da garganta profunda
quinta-feira, abril 02, 2009
Mundo
Toque
Toque para mim sua canção
Mostre
Mostre para mim a sua luz
Diga-me
Diga-me tudo o que você tem a dizer
Não se esconda de mim
Dance
Dance sua música para mim
Leve-me
Leve-me embora para todo lugar
Abrace-me
Abrace-me forte
Fale comigo em sua língua
Em todas as línguas que você aprendeu
Em todas as línguas que você ensinou
Em todas as línguas que você experimentou
Mostre-se para mim
Mostre-me seu verdadeiro potencial
Mundo, você é meu mestre
Você é meu pai
Minha mãe
Meu irmão
Meu amante
Mundo mostre-me tudo o que você é
Não se esconda
Seja tudo o que você realmente é
Então, depois escolha o que é melhor
Ser o que você é
Ou ser outra coisa
O que é melhor?
Viver morrendo
Ou simplesmente viver
Mundo
Diga-me
O que há de errado com você?
O que há de errado conosco?
Com você e comigo
Com você e todos nós
O que há de errado?
Como você se sente a respeito de tudo?
Mundo mostre-nos o mundo como ele realmente é