quinta-feira, março 26, 2009

Tentando buscar

Estou tentando continuar
Continuar buscando
Mas quando acordo
Quando me levanto
Quando me deparo comigo
Procuro encontrar qual busca seria a minha
Uma busca, um intuito, um caminho certeiro
Uma busca que não está aqui dentro de mim
Ela há de estar lá fora, precisa estar
Pois aqui dentro não pode estar
Aqui dentro a busca não se encaixa
Não se encaixa às buscas disponíveis do mundo lá fora
Lá fora não tem espaço para o que existe aqui dentro
Ou será que aqui dentro não há espaço para o que ofertam lá fora?
Para que eu possa me ajustar às opções oferecidas lá fora
Às propagandas que fazem, de que a vida acontece lá fora
Minha vida está acontecendo aqui dentro
Lá fora minimizo esta vida, sufoco esta vida
Para que a vida que lá fora me ofertam se encaixe aqui dentro
Lá fora posso trocar de vida, se não gostar desta ou daquela
Experimentar tantas vidas quanto quiser
Até encontrar aquela que me faça aceitar as coisas como elas são
As coisas como são é a vida que nos vendem
Os chicletes têm o que gosto que tem e se não lhe agrada
Busque os da concorrência
As ofertas nos parecem infinitas
Mas são um limite
Barreiras
Por trás das barreiras estamos todos à espera
Em busca do que nos oferecem
Mas e quanto às coisas que não podem nos oferecer?
Quanto àquelas que não têm como nos oferecer?
Estas vamos deixando de lado, vamos esquecendo
Deixando-as morrer pelo caminho que nos foi ofertado
Pela ordem que rege lá fora
É preciso se adaptar
Se moldar
Mas não é isso o que somos
Um pedaço de barro que se possa moldar
O que somos talvez não represente um modelo
O que somos são todas as coisas
Porque o que somos está vivo e em movimento
É fluido e não estático
O que somos simplesmente é
Independente das inúmeras identidades que possamos adotar
Trocar, buscar, representar
Não há respeito pelo que somos
Pois o que somos está além do respeito
As buscas que precisamos buscar
Já foram encontradas
Do contrário não estariam expostas em uma vitrine
Existem aqueles que não querem as buscas
Mas alimento
Alimento para que seus corpos possam sobreviver
Aqueles que não se ajustam às buscas
Que estão à margem dos sonhos
Das incríveis realizações
À beira da morte
Existem aqueles que são...
E aqueles que se vão...

sábado, março 21, 2009

Fel da vida

Lamentável é não enxergar para além dessas paredes
Acredite. O horizonte fica preso aqui na garganta
E a fome deixa de existir
Assim como o contentamento se estende em frustração
Pagando o espaço físico ocupado
Preso a uma terra de promessas
Num labirinto insensato
Numa redoma caótica
Em meio a toda essa retórica furiosa
Endurecida em palavras lapidadas
Derramando verbo absoluto
Ardendo como sal no lume
Revertendo antinomias
Tombando abaixo do consenso
Patenteando uma pobreza chapada
Gravada e enfeitada
Em propagandas prostitutas
Hipocrisia das mentalidades
Cristalizando o fel da vida

segunda-feira, março 16, 2009

O ladrão que roubava levitando

Quem poderia imaginar que você, um cara considerado atraente, inteligente e todas essas bobagens que costumam dizer numa mesa de bar qualquer ou num almoço em família naqueles típicos domingos quentes e enfadonhos, em que todos se reúnem famintos e logo que se satisfazem dão uma desculpa qualquer para voltar para casa o mais rápido possível, se tornasse o que se tornou.

Ah, você foi uma criança tão viva; prendia insetos em vidros e garrafas e se divertia com o desespero deles. Jogou bola, tomou chuva e caiu de cama sem nunca se arrepender. Irradiava liberdade, tão impulsivo, despreocupado. Era mesmo um prodígio, como todos os garotos de sua idade acreditavam ser.

E agora que já está crescido, como acha que será? Agora é aquele momento em que todos esperam por suas decisões, aspiram pelos grandes feitos, querem motivos pelos quais se orgulhar daquele garoto que hoje já não existe mais. Você sempre se pergunta o que querem de você, sem ao menos pensar no que você quer. Deixe que pensem isso ou aquilo. Veja só no que se tornou. Se ao menos pudesse voltar atrás, se disciplinar, se conformar, se empenhar naquilo em que qualquer um teria se empenhado. Mas não. Você simplesmente não aceita os fatos.

É por isso que sente sempre aquele enjoo chato. Não é nada que você tenha comido; são só alguns minutos indigestos e culpados. Você quer mudar, quer ser melhor. Mas melhor em quê? A pergunta permanece no ar até o enjoo passar.

Você quer dar uma volta, deixar os pensamentos livres, mas sabe que, se o fizer, não irá resistir e fará tudo de novo e de novo, até que um dia irão descobrir. Procura uma desculpa para ficar, cava um desânimo. Precisa tomar um banho e relaxar. Não adianta se preocupar.

Parece ridículo falar sozinho consigo mesmo, como se fosse uma terceira pessoa observando suas fraquezas de perto e alertando sobre os perigos. Mas é isso o que faço. Sinto-me melhor sendo analisado por alguém de fora, mesmo esse alguém sendo eu, afinal não há espaço para mais ninguém nesse papel.

Quero alimentar a ilusão de que um grande observatório conspira contra mim e está prestes a me desmascarar. Assim fica mais fácil lembrar dos cuidados que devo ter em relação aos meus atos. Sinto-me culpado às vezes, mas isso não me envergonha. Tenho prazer no que faço. Creio que tenho direito a determinadas satisfações, sem excessos, claro.

Sempre que posso, me aconselho a fazer a coisa certa, mas a coisa certa nem sempre é vista com bons olhos. Minha consciência finalmente me convenceu de que tudo depende do ponto de vista. Nada é universal. Não quero nem pensar nas consequências de meus pensamentos, muito menos nas dos meus atos.

Está decidido: preciso de um banho, é o melhor que posso fazer no momento. Banho frio me deixa alerta, então escolho esquentar o corpo e tentar relaxar. Assim que terminar, farei um café. Diabos, o café também me deixa alerta. Preciso mesmo é de um chá. Quem sabe um leite quente. Mas odeio leite. Então fico com o chá.

Você já se sente melhor, renovado, pelo menos está livre do suor. Pare de limpar o rosto. Não vê que já está limpo? Parece uma obsessão, um tique.

Olhe-se no espelho. Até que é bonito, não é mesmo? Não penteie os cabelos como se fosse sair. Passe as mãos na cabeça e os coloque para trás. Isso basta. Nem se dê ao trabalho de se vestir; fique assim como está. Faça o chá e vá se deitar. Não. Não e não. Acho que vou deixar de lado a ideia do chá. Preciso de um cigarro.

Não seja idiota, você não fuma. Hoje eu fumo. Fumo o dia que eu quiser e paro quando quiser.

Você não tem cigarros em casa e é por isso que quer fumar. Porque sabe que precisará sair para buscar um maço. Eu te conheço. Sei aonde quer chegar. Por que não diz logo que vai sair para fazer aquilo de novo? Por que não me deixa em paz? Você não quer paz. Quer que eu continue a te acusar, sei disso. Deve estar louco. Pense o que quiser. Não ligo a mínima. Você precisa mais de mim do que eu de você.

Não seja estúpido. Quem você acha que sou? Alguém de verdade tentando te convencer a fazer a coisa certa? Estou começando a me preocupar com sua sanidade. Não venha com essa conversa. Sei muito bem que você sou eu forjando alguém externo. Mas agora me deixe agir. Fique à vontade. Você nunca precisou do meu consentimento para nada mesmo. Quer discutir apenas para travar uma luta contra si mesmo.

Preciso achar um lugar calmo, numa rua morta. Não será nada demais. Vou esperar no telhado até que nenhum ruído mais se ouça e então levo as coisas que me interessam e tudo estará terminado. Você é mesmo um idiota. As coisas que te interessam não interessam a mais ninguém. Isso tudo não passa de um capricho estúpido, uma desculpa para que você possa se deleitar com seus poderes gravitacionais. Sei que posso fazer. Não há prazer maior do que sentir que sou especial, quase um herói, talvez invencível. Não seja tolo. Quer que o descubram? Esse é um segredo entre nós. Você prometeu que o manteria entre nós, lembra? Não posso arriscar pôr tudo a perder por você. Não me faça voltar atrás. Você é uma exceção. Não precisa me lembrar. Já sei. Só me deixe tentar de novo. Quero sentir mais uma vez como é levitar e controlar meus movimentos com exatidão. Não precisa disso. Pode tentar de outra maneira. Claro que preciso, do contrário não posso controlar meus movimentos. Preciso estar alerta, numa situação delicada.

Sempre me arrependo do que fiz. Você não merece essa dádiva. Devia ter mantido você longe de mim, longe de minhas capacidades. Agora é você que está sendo idiota, porque afinal você sou eu, não é mesmo? Infelizmente sou, aquela fatia que quase ninguém conhece em si mesmo, mas justo você, um egoísta, por sorte me descobriu. Fique quieto. Chegou a hora. Todos estão dormindo. Vou entrar e levar o que puder comigo.

Quem vê assim até pensa que você é um ladrão de mão cheia, mas não passa de um sacana que leva apenas papéis com anotações alheias. Diários. Até cadernos de receitas você já roubou. Francamente, você é ridículo. Gosta mesmo de observar a mediocridade na vida das pessoas ou isso é apenas um hobby?

Acho que é tudo isso, somado à emoção de poder levitar e sentir que posso fazer qualquer coisa com esse poder e, diante disso, optar por simplesmente me apoderar da mediocridade na vida das pessoas. Sou mesmo demais. Nada é mais improvável do que minha conduta que soma superioridade e originalidade.

Por favor. Você já vive rotineiramente a mediocridade de sua própria vida. Por que roubar a dos outros? Não faz sentido. Roubo apenas aquilo de que necessito. Então quer dizer que você precisa da mediocridade dos outros, é isso? Ora, nada é mais sólido do que isso. Nenhum bem material é mais palpável que isso. Preciso disso mais do que nunca. Preciso da solidez, da estabilidade, da certeza, do provável que existe nas coisas que roubo. Preciso disso como de um remédio. Eu o tomo e espero que faça efeito na minha vida. Espero esperar tudo o que todos esperam.

Você é mesmo louco. Está remando contra a maré. Todos, no íntimo, desejam desvencilhar-se de uma existência ordinária, enquanto você quer justamente o contrário. O que todos desejam não é exatamente o que esperam, e também não é exatamente o que precisam. O que desejam é, ao fim das contas, ter uma vida medíocre, estável, confortável, previsível, óbvia, calculada para um futuro garantido. E é exatamente isso o que quero sentir.

Mas por que quer sentir isso? Porque já estou cansado de não sentir nada, de não ser nada, de não fazer nada do que para essas pessoas faça sentido. Quero estar entre elas. Quero me sentir parte. Você não entende, nem entenderia. Mas você já faz parte disso. Você está aqui, não está? É isso o que quer. Veja, não é preciso lutar. Basta deixar correr a corrente e se deixar levar. Você acha mesmo que é tão diferente assim das outras pessoas?

Como assim? Do que está falando? Ora. Será que não percebe? Eu poderia te dar qualquer coisa e você não faria nada além do que qualquer um faria. Você diz ser quase um herói, um gênio, por almejar apenas a mediocridade alheia com o poder que tem, mas na verdade você não é nada além de um escravo, como qualquer outro. Do que está falando, droga? Estou dizendo que o que você faz não é nada genial, não é original. O fato de não buscar poder ou fama não faz de você especial. Você acha que qualquer um faria o contrário, mas isso não é verdade. Muitos fariam o que você faz, e o que você quer, outros também querem. Acredite: você não é o único a não sentir nada, a refletir no íntimo que deveria ter feito algo mais, ter dado sentido à sua vida medíocre ou ao mundo, sabendo que, no fundo, o que quer é o que todos querem. Uma vida como todos querem e sonham ter: uma casa, dinheiro na conta para pagar dívidas, pagar sonhos, estudos, satisfações pessoais, pagar sua participação na sociedade. Estamos sempre em dívida, e dinheiro nenhum no mundo poderá pagar por seus anseios, pois estes não têm preço.

E agora, o que acha que irá fazer? Aposto que ainda não sabe. Talvez nunca saiba. Mas ainda assim irá fazer aquilo que todos nós sabemos fazer tão bem: comprar, vender e contar o tempo que temos. Negociar. Sabendo disso, você se revolta. Não quer deixar acontecer. Mas as coisas acontecem como numa corrente. E eu te pergunto: que ordem é essa que nos faz rodar todos os dias? Não entende que nada disso é preciso para se sentir parte? Já pensou realmente no que seria se sentir parte? Claro que sim, e é o que quero. Não é verdade. As pessoas, para se sentirem parte de um grupo, de um meio, de uma sociedade, precisam comprar seu lugar nela. Mas as coisas não precisam ser assim para nos sentirmos parte. O que fazemos é exatamente o contrário: não nos inserimos, não nos unimos. Estamos nos separando, nos jogando uns contra os outros, nos explorando, nos escravizando, nos limitando a uma realidade pobre, bruta, abusiva. Nossos potenciais são desconhecidos, estão limitados por essa realidade que nos sufoca e aprisiona. Poderíamos alçar voo para além dessa mediocridade. Poderíamos trabalhar a favor da vida, não apenas das nossas próprias vidas, mas de toda e qualquer vida. Em vez de nos escravizarmos em troca de dinheiro, um pedaço de papel que se alimenta do nosso suor e das nossas energias, que draga nossas percepções, nos cega, nos impõe limites, nos controla como títeres.

Poderíamos ser muito além do que somos. Poderíamos ser todas as coisas. E, na verdade, somos todas as coisas, mas acreditamos que somos uma só, desconectada de todas as outras. Por isso nos escravizamos para nos sentirmos parte dessa sociedade escravista e elitista. Quanto de nós foi explorado em vão ao longo dos anos, explorado em troca de moeda corrente. Poderíamos não explorar, mas desvendar. Exaltar o nosso melhor. Dar valor a algo muito além de um papel. Devolver o real valor da vida, da vida como um todo e não como unidade. Prezar pelo amor e não pela raiva, pelo medo, pelo ódio, pela indiferença, pela competição, pelo ganho. Prezar pela vida em sua totalidade. Entende o que digo? Fazemos parte de algo muito maior do que esta sociedade. Fazemos parte do universo. Somos um todo. Se pudéssemos nos sentir assim e, com isso, nos empenhássemos pelo todo... O que estamos fazendo? Estamos nos matando, nos explorando, virando a cara para aqueles que não têm nem sequer o que comer. Poderíamos todos ter uma vida digna. Não somente eu, meu amigo, minha família. Mas todo ser humano na Terra.

Entende o que digo? Isso sim é fazer parte. O resto é mera segregação.

sábado, março 07, 2009

Aida

Aida acorde
Venha até aqui
estou aqui fora, no jardim
Estou à sua espera
Venha...
Ainda é cedo Aida
Sinta...
Sente a brisa marítima,
soprando ao pé do ouvido?
É para você
um sopro harmônico
do mar para você
De longe toca uma canção no rádio
daquelas que te faz vibrar
No íntimo você quer dançar
Dance comigo Aida
dance comigo...
Sua dança traz o mar para perto
ele avança manso e se arrasta a seus pés
Aida é pura música
Gira no ar como um anjo
Sorria
o sol nasceu para você
A sinfonia são seus passos
seu rosto iluminado
Você nasceu para brilhar
É tão fácil se encantar
por Aida
Aonde quer que você vá
a luz irá te buscar
As estrelas irão te procurar
o mar irá te abraçar
Com a força da maré
num campo gravitacional
Ideal para que erga-se com as ondas
Aida orbita no universo
acima das constelações
Para além de galáxias distantes
seu corpo é dança
sua alma é música
É a harmonia do cosmos
É mais do que posso dizer

segunda-feira, março 02, 2009

De pé

Você está desmoronando
Aguente firme
Parece não haver jeito
Aguente firme
Respire fundo
Não chore agora
De que adianta lamentar?
Peça, feche os olhos, faça um desejo
Não diga nada
Respire fundo
Não chore, prometa
Estenda a conversa para compensar o silêncio que se estenderá noite adentro
De pé
De pé
Engane a espera
Mas a espera se estende noite adentro
De pé
A espera não se deixa enganar
Se estende vida afora
Respire fundo
Não chore
Fique de pé
Prometa que nada irá prometer
Lembre-se de si
Que irá se estender para além do espaço e do tempo
Um sussurro e o vento arreganha as janelas, estilhaça os vidros
E isso é só o desenrolar da história de todos que um dia ficaram de pé.

sábado, fevereiro 28, 2009

Arranhando paredes

Arranha paredes
Debate-se no chão
Esqueceu a lição?
Sabe dizer se é noite ou se é dia?
Aonde você vai?
Não me faça ir até ai
Sabe onde está?
Lá fora o sol está queimando, penetrando a crosta danificada deste planeta
E tudo o que você consegue fazer é se debater e arranhar as paredes
Se pudesse sair, veria o sol ou quem sabe a lua, as estrelas e os planetas
Pura luz a inundar tudo ao redor sem se cegar
Ou enxergar na vasta escuridão do espaço sideral algo além de si mesma
Erguendo-se para além das paredes.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Remador

Certo dia me lembro ter visto um barco sozinho no rio de manhã bem cedo, o sol mal tinha nascido
Era um sujeito solitário, mais velho com chapéu na cabeça, desleixado
Havia remado ainda a pouco, ao redor do barco a água ondulava
Com um tipão cabisbaixo enrolou um fumo, acendeu o cigarro, tragou uma vez e seus olhos fitaram o horizonte, se perderam no nada, vazios
A fumaça do fumo se esvaiu
Se curvou para uma tosse rouca, aquele não era um pescador
Era um tipo calado que remava sem curiosidade, parecia conhecer todas as coisas, mas num instante pareceu ter se esquecido
Parecia não se importar com as coisas à sua volta, mas sei que não é bem assim, sei que não é
Aquele não era conhecido meu, do contrário eu poderia pensar que fosse meu pai chegando ou partindo
O homem do barco foi remando e passando devagar, não parecia ir a lugar algum, mas ele foi tão longe que ainda hoje me lembro
Não que isso interesse, mas hoje me parece um dia daqueles em que alguém rema perdido