segunda-feira, outubro 20, 2008

Estamos quase lá...

Somos tão parecidos
Por vezes, quase iguais
Quase...
Nossas almas que parecem girar perdidas
Quase tão perdidas quanto eu e você
E somos assim tão semelhantes
Mesmo “material”
Com uma essência que quase nos escapa
Assim quase próximos
Sempre e quase os mesmos
Mas sempre nos separam
Nos distinguem
Nos classificam
Nos dão nome
Nos posicionam
Nos isolam
Mas sabemos que estamos unidos, seja como for, não é bem assim que nos veem, não é mesmo?
Na verdade permanece um abismo entre nós, mas nele decidimos que estaremos de mãos dadas
Quase não sabemos o quão especiais, nem o quão simples e ordinários somos
E somos mais do que isso, não quase, mas sempre
Estamos quase lá...
Estamos quase lá...
Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito” - Albert Einstein

quinta-feira, outubro 16, 2008

Caminhando só na noite

Passos distantes, quase abstratos
Deslizam no asfalto,
Negro, superficialmente brilhante.
Reflexos difusos, tais como pensamentos—
Espalhados, deixados no chão.

Afastados do ruído,
Dos estalos dos brindes,
Dos talheres pousados sobre a louça,
Das vozes sobrepostas,
Das risadas vibrantes,
Das mesas repletas,
Das orquestras sinfônicas das reuniões—
Por vezes suaves, agradáveis,
Por vezes secas, insuportáveis.

Seja como for, os passos se vão, cada vez mais longe,
Mergulham num prazer quase necessário—
A necessidade de estar só.

Rumo à brisa descompromissada,
Rumo ao inevitável frescor e torpor—
Tão precisos,
Tão queridos,
Íntimos e próprios.

E quem sabe o que irão encontrar logo à frente?

Se for a lua em céu estrelado,
Quem sabe refletida sobre negras águas...
Se forem as luzes artificiais sombreando-me os passos,
Se for o vento a levantar-me os cabelos, fazendo-me cócegas,
Se for o vento a erguer-me as vestes, causando-me arrepios...

Se for a noite, que a mim se entrega num leito de negro cetim,
Se for a noite, que aos meus pensamentos engole voluptuosamente,
Se forem meus passos e a noite em coito apaixonado—
Que sejamos um só,
Meus passos e a noite,
Em silenciosa cumplicidade.


sexta-feira, outubro 10, 2008

Nós e os "outros"

O que mais decepciona é perceber que, para fazer com que as pessoas cooperem em não destruir a natureza, o planeta, é preciso convencê-las de que isso será benéfico para elas, de que contribuirá para a propagação da espécie humana, de que será bom para as futuras gerações.

Mas será que, para fazer o bem a algo ou a alguém, precisamos fazê-lo apenas porque isso nos faz sentir bem diante de nossa ação nobre? Porque nos faz sentir melhores, acreditar que fazemos a diferença, entre outras razões?
Será que devemos nos engajar em uma causa apenas porque ela nos beneficiará no futuro? Porque nos trará vantagens, nos tornará pessoas melhores?
Será que as coisas não têm um valor em si mesmas?
Um valor independente de nós? Exterior a nós?

Vamos assumir que as coisas existem independentemente de nós e que não existem apenas para nos servir.
Vamos admitir que o mundo não gira ao nosso redor. Que este mundo que criamos como nosso, às custas da vida de inúmeros seres, pode não ser o melhor — ou, ao menos, que ele não é o único que existe; que é um artifício.
Vamos ajudar independentemente do que venha a nos acontecer.

Deveríamos assumir as consequências de nossos atos porque foram nossos atos — e de mais ninguém.
Os desastres naturais não são apenas crimes contra os seres humanos vitimados, mas, principalmente, contra a própria natureza. Devemos nos condoer pelos que morreram, mas não apenas pelos de nossa espécie, pois os “outros”, que para a maioria são apenas “outros”, também são seres vivos.
Deveríamos considerar os atos que cometemos contra a natureza, pois, se ainda é consenso que a vida é algo sagrado, devemos pensar não apenas em nossas próprias vidas, mas em qualquer forma de vida.

Em nenhum momento a natureza se rebelou contra nós. Ela não é vingativa como nós, seres humanos. Não se pode atribuir a ela características humanas.
Os animais não estão invadindo as cidades, como costumamos dizer; somos nós que estamos invadindo seus espaços. Eles não são assassinos, como frequentemente afirmamos. Entre os animais, o único capaz de cometer assassinato somos nós. Não nos cabe projetar neles características que são exclusivamente nossas.

Somos o animal mais complexo da cadeia alimentar, mas também o mais egoísta, o mais destrutivo, o maior predador — movido por interesses que ultrapassam, e muito, as necessidades biológicas comuns a qualquer ser vivo.
Somos a humanidade, mas também somos natureza. Fazemos parte dela, ou pelo menos algum dia fizemos. Mas, a cada dia, nos afastamos mais dessa natureza — de nossa própria natureza. E talvez esse afastamento seja, paradoxalmente, uma característica essencial da nossa espécie. Talvez a tendência à artificialidade faça parte de nossa essência, e nossa complexidade nos leve cada vez mais longe na abstração — porque, no fim, talvez sejamos apenas o fruto de nossa própria criação.

Talvez, na verdade — se é que ela existe —, sejamos apenas o velho mamífero das cavernas, reinventando a si mesmo constantemente, numa duradoura ilusão.

terça-feira, outubro 07, 2008

Aproveite

Ahhh como adoro frases típicas de auto – ajuda que nos dizem coisas tais como:

A vida é uma só, aproveite-a bem!
Viva cada momento, cada segundo com intensidade com se este fosse o último, aproveite o tempo que tem para ser feliz!

Eu pergunto: Mas o que é isso? A vida é um produto, que deve ser consumido/ aproveitado antes que vença a data de validade? Será que é isso o que querem dizer?

E como será que devemos então aproveitar de maneira adequada cada segundo de nossas vidas? Sim, pois a vida esta sendo cronometrada detalhadamente na base dos segundos, devemos nos apressar o quanto antes para nos satisfazer, nos tornarmos felizes.
Deveriam mesmo é lançar um manual de como aproveitar bem o resto do tempo que ainda possuímos de vida.
Aproveitar o RESTO.
Não gastar atoa o tempo que ainda nos SOBRA.

Resto... Sobra...
A vida é o que? Resto de tempo? Sobra de tempo? A vida é o tempo? Ou o tempo é a vida?

Vamos aproveitar...
Vamos aproveitar essa coisa que nos move, porque com ela nada mais podemos fazer a não ser aproveitá-la, usá-la, consumi-la até o fim.

Conquiste seu espaço!
Eu diria: Ora, pois já o tenho! Tudo que ocupa lugar no espaço e tem massa é matéria – já nos dizia a Química. Sou matéria, portanto, ocupo o espaço seja ele conquistado ou não.

Conquiste seus ideais!
Eu diria: Ora já os conquistei na medida em que os tenho.

A felicidade, lamentavelmente, tornou-se mercadoria vendida como água. Ora pois, se para ser feliz, aproveitar a vida, viver momentos intensos e mágicos, para os quais já existem modelos pré – definidos, milhares de possibilidades ofertadas: boates, festas, bares, shoppings, parques de diversão, zoológicos... Faz com que a “felicidade” seja alcançada somente através destes modelos, pelo menos para alguns (alguns que são numerosos).
Milhares de festas que vendem suas entradas, seus ingressos para a “felicidade” e diversão, mesmo para a liberdade, noção muita das vezes reduzida a tais aspectos, criando pessoas entorpecidas pela “felicidade” extrema, contorcendo-se de tanto rir, sempre a procura de entretenimento, sedentas de tudo quase que por obrigação, perdidas num mundo onde tudo é possível, quando no fundo sabemos, que não o é.
Vendem-nos “felicidade” num pacote colorido e vistoso, de “felicidades” possíveis, organizadas e previsíveis dentro de nosso alegre e empolgado sistema capitalista.

Mas, por favor, aqueles que me lerem, não pensem ser eu uma militante socialista ou comunista, pois definitivamente não o sou. E nem que eu não me divirta e seja “feliz” inserida nestes padrões padronizantes (me perdoem a redundância), pois afinal, também faço parte do empolgado e frenético sistema, o que não me impede de criticá-lo e de aspirar por algo muito além do que ele me oferece já que as possibilidades por ele ofertadas são em minha opinião insuficientes.

Não se preocupem com isso, preocupem-se em se sentirem bem, encaixados na política do bem – estar, pois acima de tudo devemos ser “felizes”, assim mesmo, nestes termos. Porque está tudo bem, somos nós quem fazemos o mundo girar, muitas vezes ao nosso redor.
Nascemos para ser feliz! E o resto vem como que por encomenda pelo correio expresso. Só deveríamos ter cuidado porque no pacote pode se esconder uma bomba relógio, ah e aqui o tempo não tem parada, está disparado, não adianta correr nem tentar alcançá-lo.

E mais uma vez se impõe o tempo, aquele que nos resta e que não devemos perder, porque estamos sempre muito apressados, quase atrasados, para nos divertir, nos realizar, nos entreter, fazer acontecer, para sermos não se sabe o que.

Mas não há com que o que se preocupar afinal isso aqui é só um desabafo, uma chatice. Aproveitem a viajem, pessoal! Aproveitem a viajem...

segunda-feira, outubro 06, 2008

Tristeza

Se cada coisa soubesse falar,
e se a tristeza tivesse vida própria,
como se existisse além daqueles
que sabem reconhecê-la,
que sabem recebê-la,
quem sabe, detê-la,
que sabem dizê-la,
quem sabe, vivê-la...

E quando nos parece invisível,
ou mesmo uma luz,
uma estrela no céu,
mais distante que o próprio céu,
lá de cima a brilhar,
no escuro a chorar,
no escuro a calar,
no escuro, um alívio,
um ponto de fuga,
fixado no olhar.

Só...
Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão,
no silêncio,
no vazio,
sem nada mais conhecer.

Só...
Somente ela no topo,
aqui embaixo a nos dizer
que está só,
que veio para ficar.

Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Na corrente deste jogo

Desapareço assim do nada
Reapareço assim como quem nada quer
Saio de fininho e me esquivo na multidão que me esbarra
Observo tudo de longe
Como se pudesse repousar no movimento do universo
Em silêncio a dançar sob o burburinho
Distante a evitar olhares indiscretos
Como se me pudesse esconder por trás de uma cortina invisível
Privando-me de alheia presença
Sem fazer-me notar, nada noto além de mim mesma
Envolta a estranhos íntimos e semelhantes
Impessoais e acelerados, personagens de si mesmos
Eu ponto fixo num sossego desbotado
Calado e sufocado assentado na plateia
É a estreia do espetáculo a cada dia em que me jogo na corrente deste jogo.

terça-feira, setembro 23, 2008

O filme

Dos olhos, jorra um mar salgado,
debatendo-se em convulsões chorosas.
Anuviados pela dor alheia,
chovem cumplicidade.

Fixos no horizonte azulado da tela da TV,
embebidos em dramaturgia cinematográfica,
histórias atuadas, por vezes tão próximas
de nossa história vivida,
de nossa história de vida,
de nossa história sofrida,
de nossa história querida.

No final, para além dos créditos finais,
sobram-nos grossas listras coloridas,
acompanhadas de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

No final, para além de nossos créditos totais,
resta-nos um tênue fio de vida,
acompanhado de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

E, na extensão da imensidão,
pela última vez rolam os dados.
O filme acaba, mas seu fim é só o começo...