domingo, agosto 31, 2008
Estrelas
terça-feira, agosto 26, 2008
Nós
Sentadas no chão, cúmplices ambivalentes, sussurramos segredos cruéis.
Tão pura e crua, livre de mim.
Sua voz é suave e me encanta.
Seu perfume é jasmim, sua presença, divina.
Ergue, em brinde, uma taça de vinho: quente, doce, suave, servil...
Meu rosto, nas sombras, se esconde do seu—manchado, borrado, pintado, culpado.
Devolvo-lhe o brinde num tubo de ensaio: gelado e amargo, abismo, absinto.
Amável, afaga-me os cabelos, deita-me no colo, compadece-se.
Meus gestos agrestes—implacável, me esquivo.
Seus olhos tão dóceis procuram suporte—molhados, sinceros.
Minha língua afiada te injeta veneno, te expulsa para longe, te quebra cristal.
Empurro-te, excluo-te—simplória, te amo.
Tão longe, estou perto—sou ferro, sou cal.
Tão perto, está longe—é favo, é terra.
Te espero no eterno.
Num instante, me espere.
Para sempre quadradas, redondamente enganadas.
domingo, agosto 24, 2008
Éder
O ímpeto lhe imputava gestos dramáticos afogados no caos. Arrancou todas elas, nas mãos suas cores amassadas, misturadas e os cheiros achatados, vexados.
Suplício! Não suportou a beleza, não naquele momento.
Suava e o cheiro era forte, chorava e o gosto era amargo.
A terra, foi só o que sobrou, nela deitou-se o cadáver, nela roçou a matéria e forrou-lhe de inércia.
Os dedos das mãos esticados, tais como dentes de arado, cravaram o solo e ali ficaram tal qual ferramenta desamparada de braço ceifeiro.
Os vermes roíam-lhe as unhas, expelindo excrementos da terra.
Despia-se de calor e conforto e os olhos mais nuvens que brilho, jorravam meias – verdades.
Da boca, fenda aberta, cavidade errática, escorria saliva espumosa.
Ahhhh Éder quão ébrio tu és, já intolerante diante do espelho, vai-se de encontro ao martelo opressor.
Ahhhh chegara ao cume, estava imune à paz patológica.
As moscas em ti voam leves no ouvido zumbindo asco e desprezo.
Estendido na terra, tormento de dor!
A moral decomposta exalava odor nauseabundo.
Sensações espasmódicas refreavam as emanações cerebrais.
Sua memória era como um fleche desagradável que lhe fazia fechar os olhos involuntariamente, desaparecia, se desvanecia.
Levantou-se enojado, fartado de si.
quinta-feira, agosto 21, 2008
O Rio de Sangue
quarta-feira, agosto 20, 2008
Paciência
terça-feira, agosto 19, 2008
Sentidos
A sensação de caminhar dissimuladamente calma e lenta até você, fingindo-me madura e segura de mim, é como uma dor delgada que termina em ponta aguda.
Num esforço excessivo, ofereço um jeito assim, meio displicente, ao desejar-lhe bom dia.
Aparentemente equilibrada e, de certa forma, desdenhosa.
Ah… mas se pudesse me ver por dentro…
Uma voz suave lhe fala aos ouvidos seus desejos mais secretos, assim como uma melodia sussurrada no saxofone, soprando sensualidade em um tom apaixonado, sem limites morais.
O sangue me sobe à cabeça, deslizando pelas veias, avançando acelerado, aquecendo todo o meu corpo.
O coração galopa em disparada à medida que vencemos a distância entre nós.
Aflitiva, a respiração falta-me; mal sei se chegarei até você.
Inadmissível, seu olhar me despe da gélida couraça, quebrando-me em pedaços.
Fogo… faz-me arder dos pés à cabeça, exceto pelo estômago, que gela.
Quanto de ti me perpassa o pensamento na fração de segundos em que nossos olhares se cruzam e os corpos quase se tocam…
Sigo empurrada por força magnética; você, por condução elétrica.
Exalando-se em esfera estimulante, correm-me pulsões atômicas.
Seguem-se explosões nervosas,
Sentidos latentes,
Sintomas pungentes,
Viagens lancinantes,
Mescladas de prazer,
Acompanhadas de volúpia.
Mergulho impiedoso,
Deixa o corpo à revelia,
Às transparências levianas,
Às delícias da libido,
Aos desejos da lascívia.
Abandonado ao teu comando,
Quimera ilícita de domínio e rendição.
segunda-feira, agosto 18, 2008
A dama do sono
Amado menino, ente querido,
Deite-se logo, venha dormir,
Feche os olhos e venha comigo.
Durma bem, durma em paz,
Que a nuvem do sono o traga para mim.
Venha, me siga,
Aproxime-se mais.
O portão está aberto! O que estás a esperar?
A noite o aguarda,
O bosque tão calmo o convida a entrar.
Seus passos vacilam? Não temas, meu anjo!
Entre e desvende,
Embrenhe-se nos matos,
Beba da fonte que, fresca, o presenteia,
Alimente-se dos frutos que, doces, se oferecem.
Deixe que as árvores o acolham,
Toque suas raízes e permita que o envolvam,
Abrace seus troncos e deixe que o enlacem,
Agarre seus galhos e permita que o elevem,
Aspire o perfume de suas flores e deixe-se envolver.
Entregue-se, perca-se, não procure voltar.
Puro e inocente, me encanta o seu olhar.
Acompanhe incessante o assovio que o chama.
Ouça, menino,
A natureza dos prados,
Harmoniosa música.
Toca...
Pio de coruja,
Coaxo de sapo,
Canto da cigarra e do grilo,
Em orquestra florestal.
Lua cheia, luz difusa.
Dançam, prateados, cintilantes reflexos.
O melódico vento move as ramagens.
Menino, apresse-se!
Chamam-no à frente.
Vacilantes, os passos deslizavam sobre a lama.
— Que queres? — pergunta o pobre menino.
Tremem as vestes do impaciente garoto.
— Corra, esconda-se! — dizia o soldado.
Ávido, o menino se esgueira por entre os arbustos.
Corre, mas logo cessa.
À sua frente, revela-se um rio.
Cercado, não há saída.
Senta-se à margem, o soldado, à espreita, hesita.
— Ó, que fazes aqui, tão belo garoto? — inquiriu o soldado.
— Estou à procura da Dama do Sono. — responde o menino.
— Ó, não! Deixe disso! Volte para casa. A Dama do Sono há muito se foi.
— Não posso, pois no sonho viajei e não sei como voltar.
— Deves te esconder o quanto antes. Tu corres perigo!
— Que perigo?
— Tolo garoto, não sabes onde estás?
— No reino do sono. Por Deus, estás a me assustar! Afinal, quem és tu?
— Sou alma errante, em eterna condenação!
— Como vieste para cá?
— Fui soldado em combate, na guerra. Muitos matei, decepei, lacerei. Meu corpo
doía, minha alma rasgava. Rendi-me ao cansaço e deitei-me na relva. Fechei os
olhos e nunca mais os abri. Afoguei-me na culpa e, cá estou, a pagar sentença.
— Pobre soldado! Como sofre teu coração! Diga-me a saída, preciso voltar!
— Garoto, tu deves tentar acordar. Preciso ir, meu tempo se esvai!
— Aonde vais?
— Afogar-me novamente em minha sentença. Nas águas do rio devo me afundar.
— Não vá! Tenho medo. Fica comigo!
— Se eu fico, o rio transborda e engole a nós dois. Menino, de tão bela alma,
não mereces tal fim.
Foi-se o soldado. Ficou o garoto.
— Ó, meu anjo, não ouça atormentada alma. Os condenados nada
sabem, estão presos a revoltas, vergonhas e tumultos. Vejo que encontraste algo
muito precioso e, ao mesmo tempo, perigoso. Este rio à tua frente é a chave do
meu reino.
O garoto, em confusão, deitou-se à margem, olhando para o
sentido em que corriam as águas, tingidas de vermelho.
Estendeu a mão para beber... Mas que susto tomou ao perceber que o rio era de
sangue!
Rio que se esconde no jardim das profecias...
Quando a lua está cheia, as almas se lhe escapam.
Águas sangrentas e pulsantes transbordam em lamúrias,
Arrastando de volta almas em penúria.
— Ó rio, virulento e turbulento! Dominaste-me em tuas águas!
Maculaste-me com teu sangue!
Serpente líquida, lambes-me o corpo,
Cujo veneno sucumbe em minhas veias.
Ó menino, meu anjo sagrado,
Não deves provar de sua peçonha,
Nem ao menos cair em tal perversão.
Acorde, garoto! É hora de brincar.
A Dama se foi, sua inocência deixou.
O sonho... acabou.