Naquela época éramos todos muito tolos e nem sequer refletíamos sobre aquilo que hoje chega a nos intoxicar pelo excesso.
Quando passava por aquele lugar, sentia-me sempre estranho, acometido por uma espécie de nostalgia. As conversas desencontradas e a falta de assunto pairavam sem ameaçar nossa amizade.
Surgíamos repentinamente, quase sempre juntos, sem necessidade de combinar. Alienados de tudo e de todos, não fazíamos questão de companhia alheia, mas isso não significava envolvimento um com o outro; era apenas a sintonia de nossos canais. Entre nós não havia vínculos, compromissos ou formalidades inúteis. Falávamos quando desejávamos; se nada nos ocorresse, ficávamos calados, observando as pessoas e o tempo passarem.
Era comum nos sentarmos para desenhar. Vínhamos de lugares diferentes e escolhíamos, sozinhos e sem nos consultar, um canto onde passávamos boas horas do dia. Cada um com sua caixa de lápis de cor, apontadores, folhas A4 e uma prancheta no colo. Nem eu nem ela sabíamos desenhar com primor ou destreza; desenhávamos sem nos preocupar com linhas tortas, curvas desniveladas, formas disformes. A intenção não era superação nem competição; o importante era estar ali, desenhando nossas realidades irregulares.
Folhas e folhas rabiscadas, coloridas, rasgadas. Não escrevíamos nada nelas, apenas quando achávamos necessário datar. Assim que finalizava um desenho, ela o estendia diante dos olhos e o mirava sob diversos aspectos, até se cansar e partir para outro.
Vi-a sorrir em silêncio várias vezes, mas nunca perguntei o motivo. Preferia imaginar eu mesmo do que ela estaria rindo, e isso me fazia, na maioria das vezes, rir sozinho. Quando ela pousava o papel sobre a grama e seguia adiante, eu os observava sem nada dizer. Não sei bem o que pensava, mas sei que não os julgava nem bonitos nem feios. Eram peculiares.
Quanto aos meus desenhos, Catarina os via pelo canto do olho enquanto eu os deixava no chão, até decidir pegá-los nas mãos. Olhava-os por alguns instantes, curiosa, até que o interesse se dissipava e ela os deixava onde estavam. Pediu-me alguns dos meus desenhos; pretendia guardá-los. Lembro-me de ter pego também alguns dos seus. Eu os guardava e os olhava de vez em quando. Eram mais ricos que qualquer conversa jogada fora.
Catarina era diferente das pessoas com quem eu convivia no colégio. Tínhamos a mesma idade, dezessete anos. Não falávamos de festas, shows, noitadas; falávamos de música. Não falávamos das pessoas do nosso convívio, mas daquelas que nem conhecíamos, daquelas que imaginávamos existir mundo afora. Lembro-me de uma tarde em que, sentados no gramado do campo, conversávamos sobre a vida de um pescador qualquer na Itália. Divertia-nos imaginar pescarias no Mediterrâneo. Dizíamos alguns disparates sobre as ilhas da Sardenha e da Sicília, ríamos de nossas bobagens, vivíamos no mundo da lua.
Nossas palavras, risos, silêncios e desenhos estavam livres de senso e responsabilidade. Éramos muito além do conhecimento dos livros; éramos imaginação atemporal.
Apesar de levar uma vida normal como qualquer outro garoto da minha idade, sentia-me sempre estranho diante das coisas, das pessoas, dos acontecimentos, das obrigações e até das diversões comuns ao mundo jovem. Naquele tempo eu ainda fazia parte de tudo que me dizia respeito, mas a vontade de estar rodeado por aquilo me escapava cada vez mais. Embora estivesse sempre acompanhado de amigos quando saía, ou nos encontros em casa, no colégio ou onde fosse, não sentia necessidade de estar ali.
Tinha, na maior parte do tempo, vontade de estar sozinho ou talvez no campo com Catarina. Mas não tinha coragem suficiente para me afastar e permanecer apenas em minha própria companhia. O que iriam pensar? Essa pergunta tola sempre me perseguia e, por causa dela, persistia em viver rodeado de pessoas que me pareciam conhecidas. Afinal, eram meus amigos, mas eu não os conhecia em nada, assim como eles não me conheciam.
Esse incômodo me persegue até hoje, e tenho certeza de que o mesmo acontece com Catarina. Não a vejo há anos; não sei onde está morando nem o que faz. Ainda assim, sinto-me ligado a ela mais do que a qualquer outro amigo com quem mantenho contato.
Com ela, as coisas aconteciam naturalmente, de forma fluida. Estávamos ligados por algo especial, não por sentimentos de paixão ou atração, mas por compreensão. Nunca saímos juntos, nunca nos ligávamos. As vezes em que nos encontrávamos eram sempre no campo. Não era um encontro porque não combinávamos horário nem dia; não nos prometíamos nada. Quando nos dava vontade, lá estávamos juntos.
Sei que Catarina ainda hoje é como eu, perseguida pelo mesmo incômodo permanente. Nem ela nem eu fazemos questão de estar acompanhados, mas sim de estar onde estamos e como estamos, sem nos preocupar se é isso mesmo que deveríamos fazer. Creio termos nos definido neste bosquejo: uma condição sem condições.