segunda-feira, agosto 11, 2008

A Noite

Pesadelos
Suores
Repentes
Suspiros
Cama em chamas
Angustias rolam pelos lençóis arrancando-os do colchão
Maculam o sono sagrado, à espreita do amanhecer.
Corpo ondulante, inquieto,
Pesado, calado
Sussurra, se engasga.

Ríspido frio, arrepios na espinha.
Ondas de calor, jorros nos poros.

Sede
Boca
Seca

Olhos entreabertos
Luz fraca a brilhar distante na parede branca
Sombras na janela
É preciso ir...
Brilha cada vez mais e chama: Venha... Venha até aqui...
Sombras bruxuleantes dançam madrugada adentro
No coração o desejo de ceder ao gozo momentâneo

De pé lutando contra si ergue-se o corpo cansado,
Se aquece aos primeiros movimentos
Passos incertos permeiam o chão preto como piche, se esbarram.
Mãos que tateiam o espaço em branco, nada tocam.
O amarelo lúgubre cada vez mais próximo dos olhos faz crescer as pupilas.
As sombras se arrastam agarradas aos pés da carcaça dormente e invadem lhe por completo assim que se acende o interruptor.

O espelho reflete fumaça,
Restos,
Relevo cinzento,
Mas os olhos destacam,
Gatunos
Noturnos
Mortais...


sábado, agosto 09, 2008

Harmonia

Fico às vezes a observar quão belo podem ser os fios de alta tensão, tanto que diante deles fico tensa.
A magnífica grandeza das passarelas por sobre as avenidas, torna-me tão pequena que chego a me sentir segura.
Enche-me os olhos a maravilha das estações subterrâneas do metrô, cujo ruído sonoro do metal junto aos trilhos é verdadeiro deleite aos meus ouvidos.
A formosura das chaminés fabris deixa-me febril.
Que maravilha ver funcionar as engrenagens do elevador, repletas de rodas dentadas ligadas a um eixo rotativo, são quase que meu eixo central.
Há uma arte sincrônica nos sinaleiros das ruas, me incentivando a seguir sempre adiante.
Como me apraz tocar os botões dos caixas do banco e ter em minhas mãos o dinheiro da conta.
Que beleza ver brilhar os letreiros luminosos que refletem um universo de cores em meus olhos.
É incrível o conforto das escadas rolantes, que rolam, rolam e rolam incessantemente enrolando meu dia.
Que inveja tenho dos encanamentos de água, das tubulações de gás, das fiações elétricas, das estruturas de ferro, da argamassa das construções, no auge de sua concretude, todos “eles” repletos de um fim em si, diferentes de mim que não sei que fim tenho.
O homem pôs o maquinário a funcionar em perfeita harmonia. Harmonia na qual ele mesmo não é capaz de funcionar.
Mas enfim, harmonia coeva, duradoura ilusão.
Arsenal moderno, um milagre do homem!
Mas e o homem? Milagre de quem?
Nada além dele mesmo e de seu maquinário.


terça-feira, agosto 05, 2008

Sucesso

Tá aí uma coisa que todos esperam.
Fazem filas e por ele esperam a vida toda, em tudo que fazem, como se fosse um ponto final, um resultado feliz.

Em geral, sucesso se define por uma promoção, seja ela amorosa, financeira, profissional ou espiritual, resultante de uma grande batalha, esforço, dedicação, estudo, perseverança, trabalho árduo, dentre outras coisas do gênero.

Apesar dos sacrifícios que se fazem, dizem que vale a pena.

O sucesso foi alojado no topo da montanha mais íngreme da cordilheira, e poucos conseguem escalar até o fim.
O fim é mesmo a palavra mais adequada, pois o sucesso nada mais é que o desfecho de uma história.

Todos têm, mais ou menos — uns mais, outros menos —, ideia do sucesso que pretendem atingir.

Sucesso: ascensão, algo de que se possa orgulhar. Olhos alheios se voltam com admiração.

Imagine só: nós, ou melhor, você, no topo da montanha, petrificado de alegria e satisfação; ali, crava bandeiras vitoriosas e dá cabo a mais uma história, dentre tantas outras, no livro dos bons.

O negócio é o seguinte: arranje um objetivo X, apaixone-se por ele e que este seja fonte de desejos, vontades.
Sonhe com ele, lute por ele, viva por ele, empenhe-se por ele, sacrifique-se por ele, arrisque-se por ele.

Vá! Siga adiante, dê fim à angústia que o consome. Esta não se repete, não é a mesma, nem para você nem para mim, então não me venha dizer o segredo do sucesso, pois o seu não é como o meu!

Desejo mesmo, mais do que ter sucesso, querer tê-lo assim como o concebem.

O sucesso, aquele de que todos falam, deve ser mesmo glamoroso; do contrário, a fila não seria crescente para nele embarcarem.

Quando o vivo em meus sonhos, sou tudo que sempre quis ser. Mas e agora? O que sou além de sonhos em querer ser?

E você, sabe o que quer ser?
Como pode saber o que quer ser se nem ao menos sabe o que é agora?
E então, sabe mesmo o que quer ser?

Será que o que é agora não conta?
Querer ser, querer fazer, querer se tornar...

E se não quisesse nada além do que é agora?
Sem a carreira brilhante com a qual sonha, você não é nada?
Sem o salário incrível que irá receber, não será nada?
E ser o que é agora, neste exato momento, não é incrível?
Ou será que é muito pouco, para o muito que sonha ser?

Lute agora, para ser no futuro.
É só isso?

Só não se esqueça de que o agora contém tudo o que importa ou que deveria importar: você.
Por trás de todo sucesso, de suas conquistas e de seu teatro mundo afora, existe você, nós...

Você não é o sucesso que quer conquistar. Ou é?
As conquistas estão sempre lá fora, e é por isso que não detemos o que está aqui dentro.
E quando sentimos que não há nada lá fora que já não esteja aqui dentro... nós?
Por que buscar lá fora o que já está aqui?

A forma como enxergamos se dá através do prisma de nossa visão ou ponto de vista, que nos reflete no mundo nem sempre da forma como imaginávamos.

Poderíamos abrir as portas para tudo o que quisermos, aqui mesmo.
Não que tenhamos que nos estagnar, mas sim nos voltar para algo maior — quem sabe para nós mesmos, que nos envolvemos e circundamos o mundo exterior.

Só não é tão fácil quanto procurar lá fora, porque aqui dentro, por vezes, pode estar uma bagunça que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser ajeitada ou simplesmente deixada de lado.

O que faço não é o que sou, porque o que sou não pode ser feito.

Sucesso: siga o modelo, suba as escadas e seja feliz!

quinta-feira, julho 17, 2008

Semente

Que tola pretensão a minha, achar que poderia ajudar aqueles que não querem ajuda...

Mundo tirano! Não, o mundo não é tirano. O problema são as pessoas, que podem fazer um mal danado a si mesmas, aos outros e ao próprio mundo.

Acreditei, como uma imbecil, que, envergada de palavras e ideias, poderia mudar o mundo. Minha ambição nem chegou a tanto. Bastava-me uma única pessoa, que não se trata de qualquer um, mas daquela que, para mim, é única.

Em determinados momentos, no calor da palavra, interrompida pelo soluço do choro, quase implorei para que minhas palavras fizessem efeito.
Pedia, mesmo sabendo, no fundo, que não seria suficiente, que não apenas me ouvisse, mas ao menos pensasse a respeito.
Pedia, por favor, que entendesse o que eu estava dizendo e, mais uma vez, por favor, que refletisse sobre isso. Sei que, às vezes, pensa, mas o que sempre parece prevalecer é a vontade de permanecer imóvel—afinal, assim é mais cômodo.

Num primeiro momento, veio o êxtase e a satisfação de poder ajudar, pois acreditei ter plantado uma semente. Achei que seria apenas questão de tempo para que germinasse, para que brotasse e fixasse raízes na terra, transformando-se, no futuro, em uma verdadeira árvore.
Várias vezes sonhei com o dia em que me deitaria à sombra dessa árvore. Mas a semente não cresceu. Por mais que eu regasse, não brotou. Então, um dia, percebi que nunca me coube a tarefa de fazê-la florescer.

Trata-se de uma vida, e não posso decidir por outra que não seja a minha.
Mas nada me impede de plantar a semente. A partir daí, não sou eu quem deve alimentá-la—ela precisa alimentar-se de si mesma. Esse é o momento mais doloroso, porque nunca deixei de acreditar.

A palavra final não é minha, nem mesmo a decisão. A força motriz não sou eu, e sim você—mas isso não significa que esteja só.
Dê as cartas, faça sua aposta... Só não jogue com os meus sentimentos.

No fim, a sensação de impotência é tão grande que me faz pequena diante das coisas. Não tenho nada, nem mesmo o chão.

Pudera eu não ter plantado. Mas plantei, arei o solo e reguei a pequena semente—só não imaginei que fosse tão frágil a ponto de não revelar sequer um traço de verde.
Talvez frágil seja você. Ou, quem sabe, eu. Somos menores que um núcleo de átomo.

O som das minhas palavras se propagou num imenso vazio e não refletiu em lugar algum.

Dentro de mim, sentia carregar uma galáxia de microrganismos, células e milhares de partículas banhadas por alguma utilidade maior.
Mas hoje, justamente hoje, sinto carregar nas costas uma galáxia de estrelas sem qualquer serventia.
Nem sei se é mesmo preciso ser útil. Parece até uma obrigação, um pré-requisito para existir.

Alguns creem sacudir o mundo proclamando suas ideias. Outros creem que não movem sequer um grão de areia. No fim, tudo depende daquilo em que você acredita—ou deixa de acreditar.
Seria mais fácil mudar o mundo do que a si mesmo? Ou será que só se pode mudar o mundo mudando a si mesmo, como uma corrente que contagia todos ao redor?

Não tenho certeza. Mas quem tem?
Creio que muitos. Talvez esse seja o problema.
Ou talvez não...

quarta-feira, julho 16, 2008

Deixe-me

Deixe-me voar,
Flutuar,
Gravitar,
Girar,
Levitar,
Propalar,
Desaparecer no ar,
Rodopiar até me desequilibrar,
Pisar estrelas,
Adentrar as nuvens do céu,
Ser céu, sol, caracol,
Ser alvorada, crepúsculo, sinfonia,
Içar velas para seguir viagem,
Peregrinar em terras encantadas,
Penetrar o paraíso em bem aventurança,
Torna-me luz,
Mas não esqueças de me vir apagar de forma que se faça valer o brilho de um só instante que seja.
Hei de dançar, em passos ligeiros, lentos, calmos, afoitos, equilibrados, desajeitados, ornados, torpes, ousados, receosos, alegres, pesarosos, culposos, sossegados, a acompanhar ardente sinfonia.
Seguem-se aplausos,
Seguem-se vaias,
Segue-se a banda a tocar até o espetáculo acabar,

Hei-me a dançar...
Hei-me a vibrar...
Hei-me a viver...
Hei-me a fenecer...





quarta-feira, julho 02, 2008

Revele

Revele-me seu inferno,
Revele-me seus crimes,
Revele-me seus pensamentos mais vis,
Revele-me suas trevas,
Revele-me seus desejos mais obscuros,
Revele-me a sujeira varrida para baixo do tapete, mas não deixe que esta se espalhe e macule o que realmente és.
Não me venhas mostrar supostas anormalidades de sua personalidade por meio de prantos culposos.
Venha e se exponha seguro de si para além de sua sujeira conhecedor de sua verdadeira natureza.
Que os fantasmas do passado jamais governem lhe o presente e lhe destrua o futuro.
Que seus demônios sejam neutralizados e trabalhem a seu favor.
Que estejas cá presente independente das desgraças que lhe ameaçam o equilíbrio.
Que seus dramas de demasiadas origens verguem-se ante sua liberdade de escolha em levá-los ao topo ou ao cabo.
Ereto, em movimento, soberano de si mesmo.
A realizar a mais difícil das tarefas, você, livre para ser.


quinta-feira, junho 26, 2008

Maria em fuga

Em casa, todos dormem…
Sua mente insone se angustia cada vez mais sob a opressão do silêncio.
Levanta-se da cama, procurando o controle da TV.
Madrugada. Droga de filme B!
Desiste da TV.

Alarmes acionados: empecilho para os vadios da noite.
Do outro quarto, sonoros roncos ecoam.
Pé por pé, desativa o alarme. Os roncos continuam. O caminho está livre.

Veste uma roupa qualquer.
A fuga tem início.
Desce vagarosamente as escadas. Os roncos permanecem regulares.

Onde estão as chaves do carro? Por que nunca as deixam no gancho?
Vai até a cozinha e lá estão elas, sobre a mesa.

Abre a porta, evitando ruídos. Os roncos… ainda os ouve. Sinal livre.
Agora, a parte mais difícil: ligar o carro. A arma do crime. Sem provocar um escarcéu.

Gira a chave na ignição. Olhos fechados. Implora para que o som da mecânica falhe desta vez.
Maldição! Funcionou — e muito bem.
Motor ligado. Não há mais como voltar atrás.

Assim que se afasta de casa, sente-se cada vez melhor. Liga o som e perde o rumo.
Duas da manhã. Cidade fantasma.
Maria Fumaça. Maria Gasolina. Maria em fuga.

Acelera o carro e, junto, vai seu coração.
Nada mais importa. Está partindo. Toma a estrada.
Estremece, mas não se arrepende. Está decidida. O momento chegou.

Ultrapassa os limites de velocidade e quer ainda mais.
Não há como voltar atrás. Nem quer.

Pelo espelho, olha para o banco traseiro.
Lá está ela. Sentada. À espera.
Olhos vidrados. Está em serviço.

Por vezes, atende a chamados de emergência. Se ela vem, não há retorno.
No volante, sente um frio na espinha. Enjoa.
Os olhos continuam a observá-la.

Está obstinada. Chamou, e ela veio atender-lhe o pedido.
Pela última vez em sua vida, olhou pelo espelho e piscou para ela.
Girou o volante, e o fim se deu num piscar de olhos.

A fuga. Ato consumado.