segunda-feira, maio 26, 2008

Dementes

Reles dementes,
Morrem suas mentes,
Passos cadentes,
Vontades pendentes,
Dores dormentes,
Sorrisos sofridos,
No peito se estampa a culpa,
Culpa da qual não tem culpa,
Caminha a sombra de impressões de que algo está errado,
Áspero anseio! O que será?
Poderia ser a chuva na janela,
As árvores na calçada,
A beleza morta nas flores do floricultor,
As luzes de natal,
O carro apressado que avança o sinal,
O silêncio da noite,
O nó na garganta,
Os ponteiros do relógio,
Os jornais que voam na ventania,
As notícias de ontem que se apagam em uma poça qualquer de hoje,
As palavras cruzadas,
A previsão do tempo,
A previsão dos signos,
O alinhamento dos astros,
Tolas crendices astrais, donas de um destino previsto, por elas lhe é devorado o futuro.
Deixe-os crer, mas não decidir no que acreditar.
O destino destina-se destemido e revela-se à luz do tempo!

quinta-feira, maio 15, 2008

Ígneo dragão

Assim que emergi, cuspindo todo o meu ser para fora, marcou-me o voo do dragão celeste.
Foi-se em meu primeiro suspiro de vida, desintegrando-me em átomos.

Dragão da alma, alma de dragão — a cada bater de asas, expelia fagulhas que se juntavam e incendiavam toda a minha vida.

Reza o tempo entre as contas do rosário — uma a uma — até que reste apenas a oração que recomeça.

Das trevas abissais arrasta-se a serpente.

Seu bote é infalível.

O veneno corre — e o combate se instaura.

Fecha-se o ciclo de Ouroboros.

No horizonte do combate, queimo o combustível da minha vida em incessantes golpes do destino; e, quanto mais ela se esvai, mais forte é o perfume da origem do ser.

Criadora na origem quando me manifesto, uno-me ao meu próprio corpo — celeste e físico — fazendo jorrar o sêmen fundador.

Sou o sol no ápice, no instante em que me preparo para governar o que criei.

Em meu corpo, ornado de escamas indestrutíveis, as criações se afirmam sem julgamento, até que sejam colocadas em xeque, conduzidas ao labirinto das escolhas.

Bem e mal, em linha tênue, desprendem combinações ambivalentes, cadenciadas em versos que canto ao panteão quimérico de deuses e demônios que em mim se manifestam — e me elevam ao ígneo dragão.


segunda-feira, maio 05, 2008

Realidade

Realidade, ó anarquia decrépita.
Expele verdades tal qual pus da ferida.
Descarada mentira estapeia-me a cara.
No correr do dia e ao cair da noite, se diz cumprir o segredo do sucesso!
Nada melhor que um jargão porcalhão!
A vida é uma festa, então pague o ingresso!
Todos a postos, meneia a multidão,
Contundida argamassa.
Certeza dos fatos, aprazível remédio.
Tecnologia em ascendência,
Miríade virtual.
Bem-vindos senhores e senhoras escancaram-se as portas,
Façam de vos nutritivo alimento,
Sinto cheiro de carne... Fareja o caçador.
Os ardis maquinários,
Ornam o espaço e a todos envolve em sutil perversão.
Tenazes sujeitos sujeitam-se ao fim,
O tempo urge em aguda distorção.
Homens formiga, débeis corpos cansados.
Desejos dragados,
Amálgama universal.
Colossal compressor,
Humanidade anônima.
Ardida chicotada.
Poderosa imagética, em esboço amador.

quarta-feira, abril 30, 2008

Abandono

Peço-te que me abandones, deixe-me viver e morrer na dor de não pertencer a ti.
Imploro-te para que estejas próximo, pretendo não perder-te de vista, porém não almejo ver-te nitidamente.
Contento-me apenas com tua sombra sorrateira, mas temo em breve isto não ser sustentável.
Coloco-me na transição entre os extremos.
A dúvida consome meu ato de decisão, estes minutos são finais e os próximos serão meu fim.
Deixe-me até que meus caminhos não mais cruzem os teus, até que a dor lacere meu peito e meus sentidos não mais sejam confiáveis.
Espera-me em planos secretos, onde minha existência consagrada de vida se deixa tomar por teus apelos.
Assim sendo irei para quem sabe um dia retornar novamente.

sexta-feira, abril 18, 2008

Guerra

Cá onde estou, rebenta uma guerra de matéria neural,
Propagada além da ossatura e fluxo venal,
Decorre em espasmos mentais.
Guerra psíquica,
Campo minado do inconsciente,
Sopro volátil de entidade incorpórea,
Agente infeccioso de contagio moral.
Revoltas sensações cavam trincheiras no terreno da razão.
Na linha de frente marcham kamikazes,
Entregando-se à dor incurável.
Sádicos lamentos fraturam-me a alma.
Invadem-me apetites coléricos e,
Irrompem-se calorosas batalhas.
Verborreicos açoites castigam-me o espírito,
Fulminantes delírios laceram-me o peito.
Lufada vital traga-me sementes de ouro,
Crave-as em meu corpo astral,
Remova do meu coração as flechas que o perfuram,
Dos meus pés grilhões que se arrastam,
Dos meus olhos pesares que os pesam.
Só não dê novamente uma trégua, pois dela se ergue uma onda que a todos os sentidos engole.

terça-feira, abril 15, 2008

Eu

Eu tenho um nome, mas ainda não sei quem sou.
Eu tenho vários sonhos, mas ainda não sei quem sou.
Eu tenho várias perguntas a fazer, mas ainda não sei quem sou.
Eu tenho várias respostas a dar, mas ainda não sei quem sou.
O tempo está passando e eu ainda não sei quem sou.
O tempo continuará a passar e eu continuarei a não saber quem sou.
Não sei o que irá ocorrer quando eu souber quem realmente sou, se é que um dia irei saber.
Por enquanto me contento em dizer que sou um ser humano que tem suas vontades, que sonha, que tem suas opiniões, que tem suas crenças, que vê o mundo de certa maneira, que tem suas necessidades básicas, que apresenta controvérsias, que tem seus defeitos, que tem suas virtudes, que se questiona e que tem esperanças.
Eu não sei o que me espera no futuro, mas sei o que eu espero dele.
Eu percebo as coisas que vejo e toco e penso sobre as que não posso ver nem tocar, por enquanto isto é tudo, mas não é o suficiente.
Eu estou escrevendo, porque acho que assim irei exteriorizar o que sou ou o que acho que sou.
O que eu acho que sou é o que sou, mesmo isto não sendo verdade, porque também não sei até que ponto tudo isso é verdade. Digamos que seja verdade agora, mas talvez no futuro deixe de ser, pois no futuro certamente eu não serei mais esta pessoa que está escrevendo sobre si mesma, eu serei outra pessoa.
Assim, fica difícil saber quem realmente sou, porque todo tempo eu deixo de ser o que sou agora para ser o que sou depois.
Acho que quando descobrir quem realmente sou, serei tudo o que sou, o que fui e o que serei ao mesmo tempo.
É possível que eu seja não apenas um, mas vários ao mesmo tempo.
E se possível for, saberei que sou vários e não um, ou que sou um englobando vários?
Existiriam respostas para estas questões? E se existissem, seriam elas verdade?
E se algo hoje for verdade e amanhã já não for mais?
Isto significa que as verdade são mutáveis, portanto não são totalmente confiáveis e se não podemos confiar nem nas verdades, então no que podemos confiar?
Podemos confiar em nossas afirmações?
Se essas afirmações são propensas a transformações, hoje se firmam, mas um dia cairão por terra.
Um dia as respostas foram perguntas, mas hoje são o que são e o que são é o contrário do que foram.
Afinal, nada podemos controlar a não ser aquilo que achamos que podemos e isto me leva a perguntar o que seria então palpável.
Existe uma realidade, ou ela não passa de um mero conceito que criamos?
Se fomos nós quem criamos este conceito, como poderíamos garantir ser ele real?
O que sei agora é que na vida de nada tenho certeza, pois tudo nela esta em movimento.
Os momentos em sua individualidade são eternos, por existirem da forma como sempre foram no espaço e tempo em que se passaram, mas são um e não o todo.
Acredito que no todo de tudo, deva existir o todo de cada um, nisto creio já faz algum tempo e se continuar a acreditar, acharei que é verdade. Ainda assim não é garantido, mas faz parte do que fui e do que sou no momento, sendo assim, parte do caminho já fora trilhado.

quarta-feira, abril 09, 2008

Na linha de um trem sem fim

Assobia o apito do trem, sonoro convite à infinita viagem.
Sobem a bordo os anseios de quem os tem.
Por trilhos outrora trilhados, conduz passageiros que passam — e no passado se fincam.
Vagos vagões trepidam, aflitos.
Ferrugem e fuligem forram os leitos.
O trem engrena planos possíveis,
enveredado por desejos tirânicos.
Imprimindo velocidade assassina,
verga-se ao peso de férrea volúpia.
Caminho de ferro, que intuito terás?
Carregas o fogo da eterna vontade.
Em qual estação deve o intento saltar?
Na linha de um trem sem fim, esperamos o que nos espera.
Embarcamos no trem que busca tudo aquilo que se deseja — e, por nunca deixarmos de desejar, o trem se chama Sem Fim.