domingo, dezembro 28, 2008

Infinito


O melhor da vida são viagens mal sucedidas
Noites mal dormidas
Momentos sós e particulares
Dias angustiados, calados, aluados
Deles reflete o sol, o ápice da luz
Deles dias e noites são sentidos aguçados
Levo-os para longe, mas logo os trago de volta,
Deles preciso beber
Sorver o veneno, absorver a cura
Até que cessem os sete fogos
Assim, ao por do sol em brinde aos aspirantes
Exasperado anoitecer me leva numa valsa lenta
Rodopiando-me desesperadamente ao redor de sua órbita
Estrelas terríveis no céu se movem junto à dança
E fazem-se assombrosas constelações, chorando âmbar celeste
Ah se meus pés pudessem aferrar-se ao solo e se aquietar por um instante
Seriam eles escravos desta terra já de longe corrompida
A mente derrama do corpo, por certo assoberbados
Juntam-se a revelar a tormenta desta alma
Um manifesto
Um motim
Fatigados pela vigília
Cruzando sombras indubitáveis
Fazem-se luz! Mais pura luz!
Muito além da tristeza, da felicidade ou saciedade
Duradouro extenso sol
Reinado em manto negro
Infinitos pontos lúcidos, lúdicos, luminosos
Perene lúmen
Império transcendente
Sim sou eu
Que não sei equilibrar, sou eu...
Nem luz nem trevas, nem presença nem ausência.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Pingo

Ele anda em círculos, farejando o espaço.
Numa prisão escura, deita-se à espera de que venham resgatá-lo.
Carregam-no até lá fora, enquanto seus olhos se perdem no nada.

Pode sentir o sol aquecendo-lhe a pelagem, o vento soprando nas orelhas, o orvalho da grama refrescando-lhe o couro.
Vaga por um mundo desconhecido, sem cor, sem luz, sem sombras, sem imagens.
Há apenas odores, vapores, sensibilidades táteis e voláteis, tremores, sussurros, suspiros, zunidos, silvos, vozes agudas que lhe chicoteiam os ouvidos.

Estou ao seu lado, decodificando suas reações. Pode sentir?
Uma vaga lembrança o deixa alerta, tensionando-lhe os músculos,
para depois fazê-lo voar longe, deixando seus olhos perdidos em órbita,
preso à espera de que venham buscá-lo.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Frutas de cera

Hoje passei por aí, e foi ali que as vi.
Tão lindas, tão lisas...
Brilhavam, pequenas e indefesas, numa peça de cristal.
Perfeitamente redondas, desenhadas para seduzir.

Ofereciam-se por um preço qualquer – não importa.
Objeto de desejo, entregues à vontade alheia.
Frutas de cera, delicadamente pousadas sobre o móvel, imóveis à espera de qualquer um que lhes pague o preço.

Enchem-me os olhos vê-las assim, tão disponíveis, ao meu alcance...
Poder tocá-las, cheirá-las...
Não se trata de um desejo pelo original, e sim de uma vontade pela réplica.
O que me fascina é sua artificialidade óbvia, de valor superior ao do original.

No ápice, sua existência não importa mais do que a vontade de tê-las.
Não me dou ao luxo de justificá-las; não há dúvidas de que são o que preciso.
São o que preciso ter...
São o que quero ter...

Sobre um móvel, imóveis a me esperar.


segunda-feira, dezembro 01, 2008

Rumo


Eu estava andando rumo àquilo que me leva sempre ao mesmo lugar
Enquanto rumava, pensava no descanso que estava por vir
Mas também pensava no tempo que sempre me afasta
Eu me afastava cada vez mais indo de um lugar ao outro
Enquanto rumava, o vento cortava o tempo e o pensamento gerava espanto
Mas abaixava a cabeça e continuava rumando
No horizonte nada mais havia, além do rumo que tomavam as coisas
Alguns segundos, um momento apenas, para decidir o destino de uma vida
Contados, arrastados num relógio qualquer, foi por pouco que tudo se foi
Em uma rua qualquer de Copacabana, na chuva, na lama, em meio à sujeira, ao caos, uma vida rumava, parecia querer ficar, mas ela rumava em destino a seu destino final.
Como eu, ela se afastava de um lugar ao outro, mas no instante de alguns segundos, seu destino faria com que se afastasse demais, além do horizonte do rumo que tomavam as coisas.
Na rua, na chuva, na lama, uma vida, cronometrada, computada em 80 anos
80 anos, na rua, na chuva, na lama, os segundos, os minutos, os meses, os anos, as décadas se afastavam para longe do horizonte do caos.
Nada parecia estar decidido ainda. Mas estava. Ela terminou, aos poucos, rápida e devagar, assim como no dia em que começou.
Ela rumou para tão longe que a ninguém cabia mais alcançá-la e eu continuei a rumar sempre para o mesmo lugar.
O rumo que tomava coisas, pessoas, sentimentos.
Nenhum rumo mais, além deste ou daquele.
Numa fração de segundos uma vida de valor inestimável, valia menos que um segundo sequer.
E fora este, o rumo que tomava coisas, pessoas, sentimentos.

terça-feira, novembro 11, 2008

Indefinível


Existem batalhas que não se pode vencer nem perder, sinceramente, nem sei o que se pode fazer em relação a elas, também não sei dizer como deveríamos nos portar diante delas, nem ao menos definir como nos sentir.
Há coisas para as quais não achamos início, nem meio nem fim, só caminhos possíveis dentro do impossível, afinal, nem tudo acontece como gostaríamos que acontecesse.
Na maior parte do tempo em que caminhamos pensamos em como ele (o caminho) deveria ser, mas ele nunca é como achamos que deveria, não sei se é possível ser como gostaríamos, ou se é impossível querermos o caminho da forma como ele é sem o sonharmos inserido em projetos perfeitos.
Nem sempre encontramos o caminho do certo ou do errado. Por vezes, muitas vezes até, estamos diante de um caminho que nem sequer podemos definir.
Será quantas vezes desistimos do caminho que sabemos que jamais irá se definir, quantas vezes abandonamos o indefinível, quantas vezes o deixamos de lado, quantos vezes nos desinteressamos dele, quantas vezes o esquecemos?
Eu não saberia definir, afinal, na há definição para o indefinível, mas então o que há para ele?
Será que poderia haver alguma intenção? Alguma dedicação? Algum tempo? Quem sabe algum espaço, ou mesmo algum interesse?
E quando o indefinível está diante de nós? E sabemos que ele jamais irá se definir, mesmo buscando alguma explicação que possa nos convencer de sua importância, de seu sentido, de uma existência encaixada em um contexto racional qualquer, será que poderíamos dar-lhe alguma coisa? Uma coisa que não se precise definir, algo nosso, algo de valor.
Poderíamos oferecer um olhar? Poderíamos enfrentar uma batalha ao lado do que não se pode vencer nem perder, ao lado de algo em que possamos acreditar, sem que nada dele se possa esperar e ainda assim não desistir?
Poderíamos navegar em um imenso vazio repleto de todas as coisas para as quais não temos explicação, poderíamos suportar a presença do indefinível, compartilhar parte do caminho com personagens que não se podem definir vitoriosos, nem perdedores, personagens que apenas lutam ou se deixam levar sem ter garantia nenhuma?
Lutam diante de si mesmos, sem que se possam definir, existem sem que se possam entender, seguem adiante sem que se possa dizer um sim ou um não. E quem são afinal? Será mesmo esta a questão? Saber quem são, ou o que são? Seria mesmo importante saber? Ou melhor, poderíamos saber?
O que seria mais importante, aceitar o indefinível ou excluí-lo, fazê-lo exceção e assim isolá-lo de nós e de todo o resto?
Deixá-lo entrar, fazer parte, ou fazê-lo sair, se desligar?
Qualquer um poderia perguntar o que aqui defino como indefinível, e a resposta me parece óbvia, poderia ser qualquer coisa, qualquer um, e é.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Sintam-se a vontade para decidir

Lendo algumas notícias consideradas polêmicas e lendo várias opiniões sobre essas notícias do momento, do ano passado ou do século passado, percebo uma coisa: Ficam um bando de gente chamando o “outro” ou os “outros” de tolo, idiota, irracional, vingativo, frouxo, conformista, sacana, cego, dentre vários outros adjetivos negativos, sobre suas posições diante dos fatos noticiados, muitas vezes com fervor, tanto por parte de quem é a favor da posição de quem noticia os fatos quanto por parte de quem se coloca contra suas posições (mesmo que no meio jornalístico se insista em dizer serem pretensamente neutras suas posições diante do fato noticiado).
Então parece mesmo que somos todos, sem exceção, IDIOTAS, cada qual no seu mundinho, com suas verdades. Mas cada indivíduo inserido em seu mundo particular forma uma grande massa dentro de um mundo maior e mais abrangente. Neste mundo maior que não é meu nem seu (afinal nós já somos donos de nosso próprio mundo particular) não existem verdades absolutas, se alguém acha que é dono da verdade está enganado, pois ninguém é dono da verdade! Portanto não vamos deixar que ninguém venha nos dizer o que devemos ou não fazer! Se em nosso universo de ideias achamos que devemos agir em pró de uma causa, pois então vamos agir sem esperar que os outros concordem, pois esses outros já têm suas verdades estabelecidas em seu universo de ideias.
Se alguns querem pensar no que fazer diante dos fatos de forma sóbria e sensata (se é que existe sobriedade na maioria de nossos atos) vamos então deixar que estes fiquem pensando no que fazer!
Se alguns querem agir agora diante dos fatos, impulsionados pelas ideias que os movem em direção a uma ação, pois então vão em frente!
Se alguns são contra aqueles que optaram por agir diante de um fato, porque acham que aqueles são um bando de alienados, tolos, irracionais, frustrados, ou um bando movido por besteiras que não conseguem nem sustentar seus próprios argumentos, então não participem do movimento, pois fiquem a vontade para propagar suas opiniões bem embasadas!
Todos de alguma forma crêem estarem certos sobre alguma coisa, todos acreditam em alguma coisa, nem sempre as opiniões irão convergir para o mesmo ponto e, na maioria das vezes, não vão mesmo, afinal cada um tem já sem mundinho particular, com suas opiniões já formadas, suas crenças, seu discernimento e tudo o mais já estabelecidos, pois então façam o que acham certo, lutem pelo que acreditam, ou fiquem no campo das divagações ou quem sabe não lutem por nada!
Mas saibam que ninguém é dono da verdade! Agimos dentro das normas pré- estabelecidas, da moral, da ética, dos direitos e deveres como cidadãos, e devemos sim, procurar sempre segui-las da melhor forma possível, pois se não fizéssemos isso não seria possível vivermos em sociedade. Porém, não há como fazer um manual de como interpretar e enxergar os fatos que ocorrem no mundo que valha para todas as pessoas, não há formas de fazer um manual que ensine todas as pessoas a pensarem da mesma forma.
As pessoas a principio decidem no que irão acreditar, claro que esta decisão é influenciada por uma série de outros fatores externos que nos são impostos no dia-a-dia, estamos todos sujeitos a manipulações, e devemos todos seguir uma linha padronizada de formas de agir em sociedade, mas dentro de toda esta massificação, dentro de toda esta padronização somos ainda indivíduos e por isso decidimos, não sem influencias externas, mas ainda assim decidimos. Podemos não ser totalmente livres para decidir sobre qualquer coisa, mas dentro de nossa liberdade restrita somos capazes de decidir a conduta que iremos tomar diante dos diversos fatos da vida. Portanto, sintam-se a vontade para decidir. Mas diante das possibilidades, vamos nos esforçar pelo menos um pouquinho para agirmos com maior tolerância diante das diferenças, para não cairmos nas sombras do preconceito, vamos procurar entender melhor o próximo, respeitá-lo, vamos experimentar saídas menos egoístas.
Lembrando que estas são apenas saídas apresentadas, claro que nem todos concordam, são reflexos da forma como interpreto e enxergo o mundo em que todos nós habitamos, é este o olhar do meu mundo para O mundo. Parece-me razoável que possamos contar com uma multiplicidade de olhares de mundos particulares para O mundo.


terça-feira, outubro 28, 2008

Colorindo

A cada abrir e fechar de olhos, algo novo surge, numa corrente elétrica perpassando o espaço sem se apoiar em condutor de espécie alguma
Os olhos pintam cores de beleza ímpar, decodificadas fantasiando a realidade

As cores se dispersam
Se concentram
Contorcendo-se
Misturando-se
Num foco desfocado, brincam e dançam
Lançam-se lentas, velozes

Deslizam lambendo toda a superfície em pinceladas deliciosas
Num turbilhão maquiam meu mundo, minha realidade
De perto são cada vez mais cores, mais flores, pintores

Azul profundo, tranquilo, num demorado suspiro
Faz-me sorrir, com os olhos, dois brilhantes pincéis
Ou quem sabe chorar, colorindo-me de emoções

As nuances me acolhem, me abraçam
Num território matizado de gradações multicores
Beijam-me os olhos nutridos por contrastes

As cores revelam-se
Desnudam-se
Confiam-se a mim em meu jogo tingido, pintado de cores

Os olhos funcionam assim como uma droga, que ilude, distrai
Almejam o belo com um sentimento agradável, aprazível
Envolvem-me numa projeção avassaladora, que me despedaça o tempo todo

Meus olhos junto dos mecanismos cerebrais, geram, criam cores nas coisas, em uma lógica inteligível
Mas as cores não estão lá, não estão lá...
Ah os olhos com sua retina, bastonetes e cones perfeitos são apenas glóbulos lúdicos
E as cores me parecem tão reais verdadeiras e autenticas que diria poder tocá-las, senti-las, cheirá-las, degustá-las

quarta-feira, outubro 22, 2008

Enxaqueca

Rastros de um mal encefálico
Dor aguda que saltita entre altos e baixos
No ápice espeta
Pressiona as têmporas, intermitente
Deixa os olhos sensíveis às gradações de luz
Os ouvidos sensíveis a sons dissonantes
Tensões tendenciosas, o melhor é o silêncio
Queda livre em dor perene, nada pode amortecê-la
Dor esquiva ao toque alheio, não quer nada nem ninguém
Projeta áureas reluzentes pairando no ar
O humor logo se altera mais insociável que o normal
Não se pode olhar para cima
Com um chumbo prensando o topo do crânio
Nem para frente se pode olhar
Com uma placa metálica chapada na fronte
Mão tola, impaciente que nada parece querer segurar
Visão nevoada, anuviada torna-se menos confiável
Vertigens e enjoos desequilibrados
Os passos são lentos e insensíveis
As cores se multiplicam
Os cheiros se atenuam
O ar se rarefaz
E é ela a chegar...
Batendo-me a porta
Da cabeça aos pés
Enxaqueca!

segunda-feira, outubro 20, 2008

Estamos quase lá...

Somos tão parecidos
Por vezes, quase iguais
Quase...
Nossas almas que parecem girar perdidas
Quase tão perdidas quanto eu e você
E somos assim tão semelhantes
Mesmo “material”
Com uma essência que quase nos escapa
Assim quase próximos
Sempre e quase os mesmos
Mas sempre nos separam
Nos distinguem
Nos classificam
Nos dão nome
Nos posicionam
Nos isolam
Mas sabemos que estamos unidos, seja como for, não é bem assim que nos veem, não é mesmo?
Na verdade permanece um abismo entre nós, mas nele decidimos que estaremos de mãos dadas
Quase não sabemos o quão especiais, nem o quão simples e ordinários somos
E somos mais do que isso, não quase, mas sempre
Estamos quase lá...
Estamos quase lá...
Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito” - Albert Einstein

quinta-feira, outubro 16, 2008

Caminhando só na noite

Passos distantes, quase abstratos
Deslizam no asfalto,
Negro, superficialmente brilhante.
Reflexos difusos, tais como pensamentos—
Espalhados, deixados no chão.

Afastados do ruído,
Dos estalos dos brindes,
Dos talheres pousados sobre a louça,
Das vozes sobrepostas,
Das risadas vibrantes,
Das mesas repletas,
Das orquestras sinfônicas das reuniões—
Por vezes suaves, agradáveis,
Por vezes secas, insuportáveis.

Seja como for, os passos se vão, cada vez mais longe,
Mergulham num prazer quase necessário—
A necessidade de estar só.

Rumo à brisa descompromissada,
Rumo ao inevitável frescor e torpor—
Tão precisos,
Tão queridos,
Íntimos e próprios.

E quem sabe o que irão encontrar logo à frente?

Se for a lua em céu estrelado,
Quem sabe refletida sobre negras águas...
Se forem as luzes artificiais sombreando-me os passos,
Se for o vento a levantar-me os cabelos, fazendo-me cócegas,
Se for o vento a erguer-me as vestes, causando-me arrepios...

Se for a noite, que a mim se entrega num leito de negro cetim,
Se for a noite, que aos meus pensamentos engole voluptuosamente,
Se forem meus passos e a noite em coito apaixonado—
Que sejamos um só,
Meus passos e a noite,
Em silenciosa cumplicidade.


sexta-feira, outubro 10, 2008

Nós e os "outros"

O que mais decepciona é perceber que, para fazer com que as pessoas cooperem em não destruir a natureza, o planeta, é preciso convencê-las de que isso será benéfico para elas, de que contribuirá para a propagação da espécie humana, de que será bom para as futuras gerações.

Mas será que, para fazer o bem a algo ou a alguém, precisamos fazê-lo apenas porque isso nos faz sentir bem diante de nossa ação nobre? Porque nos faz sentir melhores, acreditar que fazemos a diferença, entre outras razões?
Será que devemos nos engajar em uma causa apenas porque ela nos beneficiará no futuro? Porque nos trará vantagens, nos tornará pessoas melhores?
Será que as coisas não têm um valor em si mesmas?
Um valor independente de nós? Exterior a nós?

Vamos assumir que as coisas existem independentemente de nós e que não existem apenas para nos servir.
Vamos admitir que o mundo não gira ao nosso redor. Que este mundo que criamos como nosso, às custas da vida de inúmeros seres, pode não ser o melhor — ou, ao menos, que ele não é o único que existe; que é um artifício.
Vamos ajudar independentemente do que venha a nos acontecer.

Deveríamos assumir as consequências de nossos atos porque foram nossos atos — e de mais ninguém.
Os desastres naturais não são apenas crimes contra os seres humanos vitimados, mas, principalmente, contra a própria natureza. Devemos nos condoer pelos que morreram, mas não apenas pelos de nossa espécie, pois os “outros”, que para a maioria são apenas “outros”, também são seres vivos.
Deveríamos considerar os atos que cometemos contra a natureza, pois, se ainda é consenso que a vida é algo sagrado, devemos pensar não apenas em nossas próprias vidas, mas em qualquer forma de vida.

Em nenhum momento a natureza se rebelou contra nós. Ela não é vingativa como nós, seres humanos. Não se pode atribuir a ela características humanas.
Os animais não estão invadindo as cidades, como costumamos dizer; somos nós que estamos invadindo seus espaços. Eles não são assassinos, como frequentemente afirmamos. Entre os animais, o único capaz de cometer assassinato somos nós. Não nos cabe projetar neles características que são exclusivamente nossas.

Somos o animal mais complexo da cadeia alimentar, mas também o mais egoísta, o mais destrutivo, o maior predador — movido por interesses que ultrapassam, e muito, as necessidades biológicas comuns a qualquer ser vivo.
Somos a humanidade, mas também somos natureza. Fazemos parte dela, ou pelo menos algum dia fizemos. Mas, a cada dia, nos afastamos mais dessa natureza — de nossa própria natureza. E talvez esse afastamento seja, paradoxalmente, uma característica essencial da nossa espécie. Talvez a tendência à artificialidade faça parte de nossa essência, e nossa complexidade nos leve cada vez mais longe na abstração — porque, no fim, talvez sejamos apenas o fruto de nossa própria criação.

Talvez, na verdade — se é que ela existe —, sejamos apenas o velho mamífero das cavernas, reinventando a si mesmo constantemente, numa duradoura ilusão.

terça-feira, outubro 07, 2008

Aproveite

Ahhh como adoro frases típicas de auto – ajuda que nos dizem coisas tais como:

A vida é uma só, aproveite-a bem!
Viva cada momento, cada segundo com intensidade com se este fosse o último, aproveite o tempo que tem para ser feliz!

Eu pergunto: Mas o que é isso? A vida é um produto, que deve ser consumido/ aproveitado antes que vença a data de validade? Será que é isso o que querem dizer?

E como será que devemos então aproveitar de maneira adequada cada segundo de nossas vidas? Sim, pois a vida esta sendo cronometrada detalhadamente na base dos segundos, devemos nos apressar o quanto antes para nos satisfazer, nos tornarmos felizes.
Deveriam mesmo é lançar um manual de como aproveitar bem o resto do tempo que ainda possuímos de vida.
Aproveitar o RESTO.
Não gastar atoa o tempo que ainda nos SOBRA.

Resto... Sobra...
A vida é o que? Resto de tempo? Sobra de tempo? A vida é o tempo? Ou o tempo é a vida?

Vamos aproveitar...
Vamos aproveitar essa coisa que nos move, porque com ela nada mais podemos fazer a não ser aproveitá-la, usá-la, consumi-la até o fim.

Conquiste seu espaço!
Eu diria: Ora, pois já o tenho! Tudo que ocupa lugar no espaço e tem massa é matéria – já nos dizia a Química. Sou matéria, portanto, ocupo o espaço seja ele conquistado ou não.

Conquiste seus ideais!
Eu diria: Ora já os conquistei na medida em que os tenho.

A felicidade, lamentavelmente, tornou-se mercadoria vendida como água. Ora pois, se para ser feliz, aproveitar a vida, viver momentos intensos e mágicos, para os quais já existem modelos pré – definidos, milhares de possibilidades ofertadas: boates, festas, bares, shoppings, parques de diversão, zoológicos... Faz com que a “felicidade” seja alcançada somente através destes modelos, pelo menos para alguns (alguns que são numerosos).
Milhares de festas que vendem suas entradas, seus ingressos para a “felicidade” e diversão, mesmo para a liberdade, noção muita das vezes reduzida a tais aspectos, criando pessoas entorpecidas pela “felicidade” extrema, contorcendo-se de tanto rir, sempre a procura de entretenimento, sedentas de tudo quase que por obrigação, perdidas num mundo onde tudo é possível, quando no fundo sabemos, que não o é.
Vendem-nos “felicidade” num pacote colorido e vistoso, de “felicidades” possíveis, organizadas e previsíveis dentro de nosso alegre e empolgado sistema capitalista.

Mas, por favor, aqueles que me lerem, não pensem ser eu uma militante socialista ou comunista, pois definitivamente não o sou. E nem que eu não me divirta e seja “feliz” inserida nestes padrões padronizantes (me perdoem a redundância), pois afinal, também faço parte do empolgado e frenético sistema, o que não me impede de criticá-lo e de aspirar por algo muito além do que ele me oferece já que as possibilidades por ele ofertadas são em minha opinião insuficientes.

Não se preocupem com isso, preocupem-se em se sentirem bem, encaixados na política do bem – estar, pois acima de tudo devemos ser “felizes”, assim mesmo, nestes termos. Porque está tudo bem, somos nós quem fazemos o mundo girar, muitas vezes ao nosso redor.
Nascemos para ser feliz! E o resto vem como que por encomenda pelo correio expresso. Só deveríamos ter cuidado porque no pacote pode se esconder uma bomba relógio, ah e aqui o tempo não tem parada, está disparado, não adianta correr nem tentar alcançá-lo.

E mais uma vez se impõe o tempo, aquele que nos resta e que não devemos perder, porque estamos sempre muito apressados, quase atrasados, para nos divertir, nos realizar, nos entreter, fazer acontecer, para sermos não se sabe o que.

Mas não há com que o que se preocupar afinal isso aqui é só um desabafo, uma chatice. Aproveitem a viajem, pessoal! Aproveitem a viajem...

segunda-feira, outubro 06, 2008

Tristeza

Se cada coisa soubesse falar,
e se a tristeza tivesse vida própria,
como se existisse além daqueles
que sabem reconhecê-la,
que sabem recebê-la,
quem sabe, detê-la,
que sabem dizê-la,
quem sabe, vivê-la...

E quando nos parece invisível,
ou mesmo uma luz,
uma estrela no céu,
mais distante que o próprio céu,
lá de cima a brilhar,
no escuro a chorar,
no escuro a calar,
no escuro, um alívio,
um ponto de fuga,
fixado no olhar.

Só...
Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão,
no silêncio,
no vazio,
sem nada mais conhecer.

Só...
Somente ela no topo,
aqui embaixo a nos dizer
que está só,
que veio para ficar.

Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Na corrente deste jogo

Desapareço assim do nada
Reapareço assim como quem nada quer
Saio de fininho e me esquivo na multidão que me esbarra
Observo tudo de longe
Como se pudesse repousar no movimento do universo
Em silêncio a dançar sob o burburinho
Distante a evitar olhares indiscretos
Como se me pudesse esconder por trás de uma cortina invisível
Privando-me de alheia presença
Sem fazer-me notar, nada noto além de mim mesma
Envolta a estranhos íntimos e semelhantes
Impessoais e acelerados, personagens de si mesmos
Eu ponto fixo num sossego desbotado
Calado e sufocado assentado na plateia
É a estreia do espetáculo a cada dia em que me jogo na corrente deste jogo.

terça-feira, setembro 23, 2008

O filme

Dos olhos, jorra um mar salgado,
debatendo-se em convulsões chorosas.
Anuviados pela dor alheia,
chovem cumplicidade.

Fixos no horizonte azulado da tela da TV,
embebidos em dramaturgia cinematográfica,
histórias atuadas, por vezes tão próximas
de nossa história vivida,
de nossa história de vida,
de nossa história sofrida,
de nossa história querida.

No final, para além dos créditos finais,
sobram-nos grossas listras coloridas,
acompanhadas de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

No final, para além de nossos créditos totais,
resta-nos um tênue fio de vida,
acompanhado de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

E, na extensão da imensidão,
pela última vez rolam os dados.
O filme acaba, mas seu fim é só o começo...


domingo, setembro 14, 2008

Tripartida

Foi-se meu espírito a assoviar, levezinho a pairar pelo ar.
E minh'alma, que pena! Penada, foi-me impossível segui-la às revoadas.

Ambos livres, saltam tensões, alusões.
Dos dois, não sei qual sou mais eu, menos eu.
Detentos do corpo, pesado e selado,
sorrisos e choros só ele estampava.

Já eu, trilogia, tripé, tripartida.
Se alma, se corpo, se espírito, não sei qual mais sou.
Assim me levam, me enlouquecem, me tiram a razão, o senso.
Os três, como balas, traçam o espaço, perpassam o tempo.

Em mim os guardo todos.
De mim, me guardam toda.
Pois, no fim de mim, enfim, vão-se remover os pensamentos,
os princípios, a moral, a crença e a descrença,
as questões, o prazer e a dor, a memória e o saber.

De mim se alimentarão, até nada mais sobrar.
A luz se apagará, os olhos se abrirão.
Uma porta irão ver, por trás da qual avistarão
uma fresta iluminada por uma senda anil no céu.

A porta, aos poucos, se fechará, e nas trevas travar-se-á o fim.
Eterna condenação!
Essa força que me reduz a pó...

Poderia acreditar que, em cadeias sintomáticas,
retornarei como alguém,
por trás de um nome, de um rosto e de uma condição,
sempre com sofreguidão.

Só não sei o que é pior:
se sumir na imensidão ou existir na pequenez.


quinta-feira, setembro 11, 2008

Quem de mim

Quem de mim carrega o som, o silêncio,
a solidão dos passos na calçada,
da fragata apagada, rebocada
na calada da velada madrugada?

Sou só eu e minha alma desbocada,
destampada na maré desalentada.
Um suspiro desse nada
nessa noite estrelada.

Um arrepio dessa pele
já gelada e desgastada.

terça-feira, setembro 09, 2008

Roça alma, alma torta

Lá na roça eu dormia mais profundo que a cutia
Lá de longe se ouvia melodia caipira

A chuva
A mata virgem
Me embalavam no sossego

Era longe
Era perto
Infinita escuridão

Vaga – lume
Vaga estrela
Brilha o olho da coruja

Pingo d’água
Pingo prata
Que goteja no cerrado

Na minh’alma corre um rio mais escuro que argila
Quanto mais nela mergulho mais profunda vou ficando

Dentro dela eu carrego a tristeza dos cavalos açoitados no trabalho
E o receio das galinhas assoladas no poleiro

Toda torta
Bicho torto
Do pé torto enlameado

Não tem jeito
É recalcada
E já se foi pro atoleiro

domingo, setembro 07, 2008

Demônios familiares

A fonte do mal, que fingimos ou mesmo nos condicionamos a acreditar ser exterior, provém de nós mesmos.
Não há o que combater em criaturas pertencentes a esferas abaixo da nossa, longe do que somos sempre à espreita.
Não há nada além de nós mesmos nas sombras do vale a negar nossa obscura natureza, que por tantas vezes tem se revelado monstruosa.
Com ela procuramos romper os vínculos, evitando cumplicidades, inventando demônios dotados do horror que não somos capazes de assumir como nossos próprios.
Com tanta paixão os combatemos como se representassem ameaça externa.
Ah se estivessem mesmo lá fora
No escuro do quarto
Nos becos das ruas
Prontos para nos tentar
Ah se fossem mesmo demônios
Se fossem mesmo eles a fonte do mal com o qual nos chocamos
Estaríamos prontos para seguir adiante
Estaríamos prontos para escolher entre tê-los junto a nós ou rechaçá-los
Estaríamos prontos para vencê-los definitivamente
Quanto já não se passou e cá estão a nos zombar, como sempre o fizeram
Afirmam-se, ou melhor, nós os afirmamos como sendo detentores de todo o mal
O mal, aquele de que já estamos tão acostumados a assistir, sob variadas formas
Aquele que nos chama atenção, ou aquele que nem percebemos
Mas eu pergunto que mal poderia ser maior do que o nosso?
Maior do que o que somos capazes de cometer, mas não somos capazes de admitir e por isso existem os tão indesejáveis demônios, por trás dos quais insistimos em nos esconder.
Basta olhar ao redor, o que vemos além de nós mesmos? Nos matando, nos violando, nos anulando, nos pisando, achatando nossos rostos contra a lama.
Os demônios brindam convencidos de sua bondade, guerreiam entre si e não ousam se olhar no espelho, com medo de revelarem-se por trás de uma face desumana.
Todos repletos de imaculada crença, límpida religião, acreditam serem bons fiéis, em oposição aos demônios diariamente crucificados.
Sim os demônios existem e os conhecemos muito bem, nos são íntimos, dentre eles o mais poderoso chama-se ser humano: criatura capaz de qualquer coisa por tudo, ou pior, por nada.
A vastidão do mal causado por tal ser, não se pode calcular, nem por estatística.
Colocamo-nos numa posição em que a condição humana, se mostra como a mais autentica das credenciais, capaz de nos absorver dos crimes cometidos.
Por vezes, no fundo do poço dragamos desculpas, para o que fizemos e fazemos, na figura de Deus, a final somos sua imagem e semelhança, assim se diz.
O que somos?
Humanos?
E não é isso o que nos garante profundidade, sensibilidade, possibilidades de amar, de se comover, de se empenhar em pró do próximo?
Mas não é também o que nos garante egoísmos, maldades, mentiras, indiferenças, falsidades?
Não somos uma balança entre o bem e o mal, não de deus nem do diabo, mas daquele que emana de nós mesmos?
Mas porque o lado da balança que mais nos negamos a aceitar como próprio de nós se mostrou sempre tão pesado?
Raça rolo compressor, comprimindo “irmãos”, seres humanos, homens, próximos. Dele escorre o sangue, o suor, as almas roubadas, os corpos sem dono, o homem, o bicho, o anjo, o demônio, o deus de seu mundo.
Vagando a consentir, a calar, a suportar dores, a fugir, fingir, disfarçando sua verdadeira desgraça.
Nós,
A mão que dispara o gatilho,
que acaricia um filho,
O punho cerrado que racha ao meio,
que se abre para o próximo,
O juiz implacável que decide o desfecho de sua espécie.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Dos dias aos dias

Dos dias incríveis que achei jamais fossem findar-se, à beleza da chuva que lhe lambia os ombros cobrindo-os de nódoas prateadas.
Aos dias terríveis em que o tempo parecia um infausto, à aflição de vê-lo partir, de conter-me parada, quando na verdade as pernas imploravam correr-lhe ao encontro.
Dos dias perfeitos em que o sol beijava-lhe a face e dos lábios entreabertos surgia um horizonte luminoso, enquanto permanecia sentado a se aquecer, se soubesse que em meu coração corre seu sangue e que meus sentimentos são tão seus quanto meus...
Aos dias intempestivos em que se ia correndo para alcançar o bonde que lhe parecia fugir, se soubesse que seus pés são meus pais e seus passos meus guias...
Dos dias maravilhosos em que nos sentávamos quietos e nossos olhos nem mesmo piscavam, se soubesse que somos ligados muito além da linhagem genética...
Aos dias malditos que de você me afastei, para uma localidade remota, se soubesse que de você herdei vida...
Dos dias repletos que com você dividi que com você me alegrei que com você gracejei.
Aos dias cinzentos que por você lamentei.
Dos dias jocosos que caminhei ao seu lado.
Aos dias sombrios que nem de longe te vi.
Dos dias aos dias que não sei definir, que não sei revelar, nem ao menos explicar se são seus ou se são meus.
Dos dias aos dias que de meus são só seus e de seus nada meus.



domingo, agosto 31, 2008

Estrelas

São 23h30min, estou em casa a me arrumar para a Festa. Roupas quaisquer, brincos quaisquer, sapatos quaisquer, mas maquiagem hoje não, o palhaço vai sem máscara.
Não pretendo impressionar, quero mesmo é me impressionar, com a festa, com os ritos e universos paralelos.
Quero mesmo é ouvir risada barulhenta, gargalhadas que ecoam e destoam do ambiente finesse. Todos olham, giram os olhos e cochicham aos ouvidos.
Quero mesmo é apreciar numa taça de aparências a balbúrdia do evento, beberico cada mundo do universo com a sede de um flâneur.
Giram luzes coloridas, giram luas fragmento, as estrelas pós- modernas circundando a multidão.
O som que nos envolve, nos embala na balada balizando as distinções.
O barulho, a batida, bane vazios entre sujeitos que se adjetivam aos sussurros ou aos berros aos ouvidos de quem quer...
Quero mesmo é mergulhar em realidades virtuais, em imagens prolongadas de raios refletidos, em sucessões de analogias que se impõe aos indivíduos.

terça-feira, agosto 26, 2008

Nós

Sentadas no chão, cúmplices ambivalentes, sussurramos segredos cruéis.
Tão pura e crua, livre de mim.
Sua voz é suave e me encanta.
Seu perfume é jasmim, sua presença, divina.

Ergue, em brinde, uma taça de vinho: quente, doce, suave, servil...
Meu rosto, nas sombras, se esconde do seu—manchado, borrado, pintado, culpado.
Devolvo-lhe o brinde num tubo de ensaio: gelado e amargo, abismo, absinto.

Amável, afaga-me os cabelos, deita-me no colo, compadece-se.
Meus gestos agrestes—implacável, me esquivo.
Seus olhos tão dóceis procuram suporte—molhados, sinceros.

Minha língua afiada te injeta veneno, te expulsa para longe, te quebra cristal.
Empurro-te, excluo-te—simplória, te amo.
Tão longe, estou perto—sou ferro, sou cal.
Tão perto, está longe—é favo, é terra.

Te espero no eterno.
Num instante, me espere.
Para sempre quadradas, redondamente enganadas.

domingo, agosto 24, 2008

Éder

Correu como um louco até o jardim, o canteiro de flores de cores mui vivas e odores mui fortes, contrastavam com o que se passava por dentro. Seria preciso intervir, sim, pois, ele precisava estender para fora a solidez que se pesava no interior.
O ímpeto lhe imputava gestos dramáticos afogados no caos. Arrancou todas elas, nas mãos suas cores amassadas, misturadas e os cheiros achatados, vexados.
Suplício! Não suportou a beleza, não naquele momento.
Suava e o cheiro era forte, chorava e o gosto era amargo.
A terra, foi só o que sobrou, nela deitou-se o cadáver, nela roçou a matéria e forrou-lhe de inércia.
Os dedos das mãos esticados, tais como dentes de arado, cravaram o solo e ali ficaram tal qual ferramenta desamparada de braço ceifeiro.
Os vermes roíam-lhe as unhas, expelindo excrementos da terra.
Despia-se de calor e conforto e os olhos mais nuvens que brilho, jorravam meias – verdades.
Da boca, fenda aberta, cavidade errática, escorria saliva espumosa.
Ahhhh Éder quão ébrio tu és, já intolerante diante do espelho, vai-se de encontro ao martelo opressor.
Ahhhh chegara ao cume, estava imune à paz patológica.
As moscas em ti voam leves no ouvido zumbindo asco e desprezo.
Estendido na terra, tormento de dor!
A moral decomposta exalava odor nauseabundo.
Sensações espasmódicas refreavam as emanações cerebrais.
Sua memória era como um fleche desagradável que lhe fazia fechar os olhos involuntariamente, desaparecia, se desvanecia.
Levantou-se enojado, fartado de si.


quinta-feira, agosto 21, 2008

O Rio de Sangue

Corre um rio no jardim das profecias,
Um rio de águas turvas, nervosas, revoltas.
Um rio retesado, no limite, temperamental.
Veio extenuado. Minguado.
Veia rasgada,
Lama escarpada,
Artéria exaurida.

Penetra as verdes pradarias,
Goteja, perene, teu sangue à revelia.
Fio marginal.
Curso retrátil — ainda caudaloso.
Líquido viscoso, venenoso.
Nocivo, repulsivo.

Um rio assombrado pelas almas,
Assoreado pelos corpos,
Assolado, desolado pela dor.

O rio se reflete, se sorve,
Regurgita desespero e ânsia.
Revolve o pesar, a tristeza, o tormento.
Ressente-se de tuas águas. De teu plasma. De teu sumo.


quarta-feira, agosto 20, 2008

Paciência

Rei no topo.
Base do baralho.
Dama no rei.
Valete na dama.
Figuras em jogo.
Cartadas futuras.
Sorte em apostas.

O jogo, com o tempo, deslancha — ou se estagna.

Vitória prevista: impulso para uma nova rodada.
Perda prostrada: ânimo para recomeçar.

O jogo é pra valer, um desafio entre naipes.

Espadas se cruzam, paus em posição, copas prestes a agir, ouros no desfecho.

Cartas na mesa.
Reserva no canto à direita.
Tablado disposto.

Solto as cartas, me entrego ao jogo.

Nesta corrente, me embaralho, me desmantelo, me despedaço.

O coringa não entra. Não neste jogo.

O bobo da corte está nulo.

Paciência, paciência — distraio-me do medo, da angústia e da dor.

Porque o jogo nunca acaba — não sou eu quem o joga, mas ele quem me joga.

Me move da esquerda para a direita, da direita para a esquerda,
de cima para baixo, de baixo para cima, num vai e vem, num zigue-zague.

Me substitui, me posiciona, me aproveita, me descarta.

Vitórias atrás de vitórias, derrotas atrás de derrotas, e estou desgastada, como uma carta velha, apagada.

Mas isso o jogo não entende.

Não entende.

Segue o jogo, até que escolho me posicionar e me torno carta fora do baralho.

terça-feira, agosto 19, 2008

Sentidos

A sensação de caminhar dissimuladamente calma e lenta até você, fingindo-me madura e segura de mim, é como uma dor delgada que termina em ponta aguda.

Num esforço excessivo, ofereço um jeito assim, meio displicente, ao desejar-lhe bom dia.
Aparentemente equilibrada e, de certa forma, desdenhosa.

Ah… mas se pudesse me ver por dentro…

Uma voz suave lhe fala aos ouvidos seus desejos mais secretos, assim como uma melodia sussurrada no saxofone, soprando sensualidade em um tom apaixonado, sem limites morais.

O sangue me sobe à cabeça, deslizando pelas veias, avançando acelerado, aquecendo todo o meu corpo.
O coração galopa em disparada à medida que vencemos a distância entre nós.

Aflitiva, a respiração falta-me; mal sei se chegarei até você.
Inadmissível, seu olhar me despe da gélida couraça, quebrando-me em pedaços.

Fogo… faz-me arder dos pés à cabeça, exceto pelo estômago, que gela.

Quanto de ti me perpassa o pensamento na fração de segundos em que nossos olhares se cruzam e os corpos quase se tocam…
Sigo empurrada por força magnética; você, por condução elétrica.

Exalando-se em esfera estimulante, correm-me pulsões atômicas.
Seguem-se explosões nervosas,
Sentidos latentes,
Sintomas pungentes,
Viagens lancinantes,
Mescladas de prazer,
Acompanhadas de volúpia.

Mergulho impiedoso,
Deixa o corpo à revelia,
Às transparências levianas,
Às delícias da libido,
Aos desejos da lascívia.

Abandonado ao teu comando,
Quimera ilícita de domínio e rendição.

segunda-feira, agosto 18, 2008

A dama do sono

Amado menino, ente querido,
Deite-se logo, venha dormir,
Feche os olhos e venha comigo.
Durma bem, durma em paz,
Que a nuvem do sono o traga para mim.

Venha, me siga,
Aproxime-se mais.
O portão está aberto! O que estás a esperar?
A noite o aguarda,
O bosque tão calmo o convida a entrar.

Seus passos vacilam? Não temas, meu anjo!
Entre e desvende,
Embrenhe-se nos matos,
Beba da fonte que, fresca, o presenteia,
Alimente-se dos frutos que, doces, se oferecem.

Deixe que as árvores o acolham,
Toque suas raízes e permita que o envolvam,
Abrace seus troncos e deixe que o enlacem,
Agarre seus galhos e permita que o elevem,
Aspire o perfume de suas flores e deixe-se envolver.
Entregue-se, perca-se, não procure voltar.

Puro e inocente, me encanta o seu olhar.
Acompanhe incessante o assovio que o chama.
Ouça, menino,
A natureza dos prados,
Harmoniosa música.

Toca...
Pio de coruja,
Coaxo de sapo,
Canto da cigarra e do grilo,
Em orquestra florestal.

Lua cheia, luz difusa.
Dançam, prateados, cintilantes reflexos.
O melódico vento move as ramagens.

Menino, apresse-se!
Chamam-no à frente.
Vacilantes, os passos deslizavam sobre a lama.

— Que queres? — pergunta o pobre menino.
Tremem as vestes do impaciente garoto.

— Corra, esconda-se! — dizia o soldado.

Ávido, o menino se esgueira por entre os arbustos.
Corre, mas logo cessa.
À sua frente, revela-se um rio.
Cercado, não há saída.

Senta-se à margem, o soldado, à espreita, hesita.

— Ó, que fazes aqui, tão belo garoto? — inquiriu o soldado.
— Estou à procura da Dama do Sono. — responde o menino.
— Ó, não! Deixe disso! Volte para casa. A Dama do Sono há muito se foi.
— Não posso, pois no sonho viajei e não sei como voltar.
— Deves te esconder o quanto antes. Tu corres perigo!
— Que perigo?
— Tolo garoto, não sabes onde estás?
— No reino do sono. Por Deus, estás a me assustar! Afinal, quem és tu?
— Sou alma errante, em eterna condenação!
— Como vieste para cá?
— Fui soldado em combate, na guerra. Muitos matei, decepei, lacerei. Meu corpo doía, minha alma rasgava. Rendi-me ao cansaço e deitei-me na relva. Fechei os olhos e nunca mais os abri. Afoguei-me na culpa e, cá estou, a pagar sentença.
— Pobre soldado! Como sofre teu coração! Diga-me a saída, preciso voltar!
— Garoto, tu deves tentar acordar. Preciso ir, meu tempo se esvai!
— Aonde vais?
— Afogar-me novamente em minha sentença. Nas águas do rio devo me afundar.
— Não vá! Tenho medo. Fica comigo!
— Se eu fico, o rio transborda e engole a nós dois. Menino, de tão bela alma, não mereces tal fim.

Foi-se o soldado. Ficou o garoto.

— Ó, meu anjo, não ouça atormentada alma. Os condenados nada sabem, estão presos a revoltas, vergonhas e tumultos. Vejo que encontraste algo muito precioso e, ao mesmo tempo, perigoso. Este rio à tua frente é a chave do meu reino.

O garoto, em confusão, deitou-se à margem, olhando para o sentido em que corriam as águas, tingidas de vermelho.
Estendeu a mão para beber... Mas que susto tomou ao perceber que o rio era de sangue!

Rio que se esconde no jardim das profecias...
Quando a lua está cheia, as almas se lhe escapam.
Águas sangrentas e pulsantes transbordam em lamúrias,
Arrastando de volta almas em penúria.

— Ó rio, virulento e turbulento! Dominaste-me em tuas águas! Maculaste-me com teu sangue!
Serpente líquida, lambes-me o corpo,
Cujo veneno sucumbe em minhas veias.

Ó menino, meu anjo sagrado,
Não deves provar de sua peçonha,
Nem ao menos cair em tal perversão.

Acorde, garoto! É hora de brincar.
A Dama se foi, sua inocência deixou.
O sonho... acabou.



quinta-feira, agosto 14, 2008

Campo entre ambos

Naquela época éramos todos muito tolos e nem sequer refletíamos sobre aquilo que hoje chega a nos intoxicar pelo excesso.
Quando passava por aquele lugar, sentia-me sempre estranho, acometido por uma espécie de nostalgia. As conversas desencontradas e a falta de assunto pairavam sem ameaçar nossa amizade.

Surgíamos repentinamente, quase sempre juntos, sem necessidade de combinar. Alienados de tudo e de todos, não fazíamos questão de companhia alheia, mas isso não significava envolvimento um com o outro; era apenas a sintonia de nossos canais. Entre nós não havia vínculos, compromissos ou formalidades inúteis. Falávamos quando desejávamos; se nada nos ocorresse, ficávamos calados, observando as pessoas e o tempo passarem.

Era comum nos sentarmos para desenhar. Vínhamos de lugares diferentes e escolhíamos, sozinhos e sem nos consultar, um canto onde passávamos boas horas do dia. Cada um com sua caixa de lápis de cor, apontadores, folhas A4 e uma prancheta no colo. Nem eu nem ela sabíamos desenhar com primor ou destreza; desenhávamos sem nos preocupar com linhas tortas, curvas desniveladas, formas disformes. A intenção não era superação nem competição; o importante era estar ali, desenhando nossas realidades irregulares.

Folhas e folhas rabiscadas, coloridas, rasgadas. Não escrevíamos nada nelas, apenas quando achávamos necessário datar. Assim que finalizava um desenho, ela o estendia diante dos olhos e o mirava sob diversos aspectos, até se cansar e partir para outro.

Vi-a sorrir em silêncio várias vezes, mas nunca perguntei o motivo. Preferia imaginar eu mesmo do que ela estaria rindo, e isso me fazia, na maioria das vezes, rir sozinho. Quando ela pousava o papel sobre a grama e seguia adiante, eu os observava sem nada dizer. Não sei bem o que pensava, mas sei que não os julgava nem bonitos nem feios. Eram peculiares.

Quanto aos meus desenhos, Catarina os via pelo canto do olho enquanto eu os deixava no chão, até decidir pegá-los nas mãos. Olhava-os por alguns instantes, curiosa, até que o interesse se dissipava e ela os deixava onde estavam. Pediu-me alguns dos meus desenhos; pretendia guardá-los. Lembro-me de ter pego também alguns dos seus. Eu os guardava e os olhava de vez em quando. Eram mais ricos que qualquer conversa jogada fora.

Catarina era diferente das pessoas com quem eu convivia no colégio. Tínhamos a mesma idade, dezessete anos. Não falávamos de festas, shows, noitadas; falávamos de música. Não falávamos das pessoas do nosso convívio, mas daquelas que nem conhecíamos, daquelas que imaginávamos existir mundo afora. Lembro-me de uma tarde em que, sentados no gramado do campo, conversávamos sobre a vida de um pescador qualquer na Itália. Divertia-nos imaginar pescarias no Mediterrâneo. Dizíamos alguns disparates sobre as ilhas da Sardenha e da Sicília, ríamos de nossas bobagens, vivíamos no mundo da lua.

Nossas palavras, risos, silêncios e desenhos estavam livres de senso e responsabilidade. Éramos muito além do conhecimento dos livros; éramos imaginação atemporal.

Apesar de levar uma vida normal como qualquer outro garoto da minha idade, sentia-me sempre estranho diante das coisas, das pessoas, dos acontecimentos, das obrigações e até das diversões comuns ao mundo jovem. Naquele tempo eu ainda fazia parte de tudo que me dizia respeito, mas a vontade de estar rodeado por aquilo me escapava cada vez mais. Embora estivesse sempre acompanhado de amigos quando saía, ou nos encontros em casa, no colégio ou onde fosse, não sentia necessidade de estar ali.

Tinha, na maior parte do tempo, vontade de estar sozinho ou talvez no campo com Catarina. Mas não tinha coragem suficiente para me afastar e permanecer apenas em minha própria companhia. O que iriam pensar? Essa pergunta tola sempre me perseguia e, por causa dela, persistia em viver rodeado de pessoas que me pareciam conhecidas. Afinal, eram meus amigos, mas eu não os conhecia em nada, assim como eles não me conheciam.

Esse incômodo me persegue até hoje, e tenho certeza de que o mesmo acontece com Catarina. Não a vejo há anos; não sei onde está morando nem o que faz. Ainda assim, sinto-me ligado a ela mais do que a qualquer outro amigo com quem mantenho contato.

Com ela, as coisas aconteciam naturalmente, de forma fluida. Estávamos ligados por algo especial, não por sentimentos de paixão ou atração, mas por compreensão. Nunca saímos juntos, nunca nos ligávamos. As vezes em que nos encontrávamos eram sempre no campo. Não era um encontro porque não combinávamos horário nem dia; não nos prometíamos nada. Quando nos dava vontade, lá estávamos juntos.

Sei que Catarina ainda hoje é como eu, perseguida pelo mesmo incômodo permanente. Nem ela nem eu fazemos questão de estar acompanhados, mas sim de estar onde estamos e como estamos, sem nos preocupar se é isso mesmo que deveríamos fazer. Creio termos nos definido neste bosquejo: uma condição sem condições.

segunda-feira, agosto 11, 2008

A Noite

Pesadelos
Suores
Repentes
Suspiros
Cama em chamas
Angustias rolam pelos lençóis arrancando-os do colchão
Maculam o sono sagrado, à espreita do amanhecer.
Corpo ondulante, inquieto,
Pesado, calado
Sussurra, se engasga.

Ríspido frio, arrepios na espinha.
Ondas de calor, jorros nos poros.

Sede
Boca
Seca

Olhos entreabertos
Luz fraca a brilhar distante na parede branca
Sombras na janela
É preciso ir...
Brilha cada vez mais e chama: Venha... Venha até aqui...
Sombras bruxuleantes dançam madrugada adentro
No coração o desejo de ceder ao gozo momentâneo

De pé lutando contra si ergue-se o corpo cansado,
Se aquece aos primeiros movimentos
Passos incertos permeiam o chão preto como piche, se esbarram.
Mãos que tateiam o espaço em branco, nada tocam.
O amarelo lúgubre cada vez mais próximo dos olhos faz crescer as pupilas.
As sombras se arrastam agarradas aos pés da carcaça dormente e invadem lhe por completo assim que se acende o interruptor.

O espelho reflete fumaça,
Restos,
Relevo cinzento,
Mas os olhos destacam,
Gatunos
Noturnos
Mortais...


sábado, agosto 09, 2008

Harmonia

Fico às vezes a observar quão belo podem ser os fios de alta tensão, tanto que diante deles fico tensa.
A magnífica grandeza das passarelas por sobre as avenidas, torna-me tão pequena que chego a me sentir segura.
Enche-me os olhos a maravilha das estações subterrâneas do metrô, cujo ruído sonoro do metal junto aos trilhos é verdadeiro deleite aos meus ouvidos.
A formosura das chaminés fabris deixa-me febril.
Que maravilha ver funcionar as engrenagens do elevador, repletas de rodas dentadas ligadas a um eixo rotativo, são quase que meu eixo central.
Há uma arte sincrônica nos sinaleiros das ruas, me incentivando a seguir sempre adiante.
Como me apraz tocar os botões dos caixas do banco e ter em minhas mãos o dinheiro da conta.
Que beleza ver brilhar os letreiros luminosos que refletem um universo de cores em meus olhos.
É incrível o conforto das escadas rolantes, que rolam, rolam e rolam incessantemente enrolando meu dia.
Que inveja tenho dos encanamentos de água, das tubulações de gás, das fiações elétricas, das estruturas de ferro, da argamassa das construções, no auge de sua concretude, todos “eles” repletos de um fim em si, diferentes de mim que não sei que fim tenho.
O homem pôs o maquinário a funcionar em perfeita harmonia. Harmonia na qual ele mesmo não é capaz de funcionar.
Mas enfim, harmonia coeva, duradoura ilusão.
Arsenal moderno, um milagre do homem!
Mas e o homem? Milagre de quem?
Nada além dele mesmo e de seu maquinário.


terça-feira, agosto 05, 2008

Sucesso

Tá aí uma coisa que todos esperam.
Fazem filas e por ele esperam a vida toda, em tudo que fazem, como se fosse um ponto final, um resultado feliz.

Em geral, sucesso se define por uma promoção, seja ela amorosa, financeira, profissional ou espiritual, resultante de uma grande batalha, esforço, dedicação, estudo, perseverança, trabalho árduo, dentre outras coisas do gênero.

Apesar dos sacrifícios que se fazem, dizem que vale a pena.

O sucesso foi alojado no topo da montanha mais íngreme da cordilheira, e poucos conseguem escalar até o fim.
O fim é mesmo a palavra mais adequada, pois o sucesso nada mais é que o desfecho de uma história.

Todos têm, mais ou menos — uns mais, outros menos —, ideia do sucesso que pretendem atingir.

Sucesso: ascensão, algo de que se possa orgulhar. Olhos alheios se voltam com admiração.

Imagine só: nós, ou melhor, você, no topo da montanha, petrificado de alegria e satisfação; ali, crava bandeiras vitoriosas e dá cabo a mais uma história, dentre tantas outras, no livro dos bons.

O negócio é o seguinte: arranje um objetivo X, apaixone-se por ele e que este seja fonte de desejos, vontades.
Sonhe com ele, lute por ele, viva por ele, empenhe-se por ele, sacrifique-se por ele, arrisque-se por ele.

Vá! Siga adiante, dê fim à angústia que o consome. Esta não se repete, não é a mesma, nem para você nem para mim, então não me venha dizer o segredo do sucesso, pois o seu não é como o meu!

Desejo mesmo, mais do que ter sucesso, querer tê-lo assim como o concebem.

O sucesso, aquele de que todos falam, deve ser mesmo glamoroso; do contrário, a fila não seria crescente para nele embarcarem.

Quando o vivo em meus sonhos, sou tudo que sempre quis ser. Mas e agora? O que sou além de sonhos em querer ser?

E você, sabe o que quer ser?
Como pode saber o que quer ser se nem ao menos sabe o que é agora?
E então, sabe mesmo o que quer ser?

Será que o que é agora não conta?
Querer ser, querer fazer, querer se tornar...

E se não quisesse nada além do que é agora?
Sem a carreira brilhante com a qual sonha, você não é nada?
Sem o salário incrível que irá receber, não será nada?
E ser o que é agora, neste exato momento, não é incrível?
Ou será que é muito pouco, para o muito que sonha ser?

Lute agora, para ser no futuro.
É só isso?

Só não se esqueça de que o agora contém tudo o que importa ou que deveria importar: você.
Por trás de todo sucesso, de suas conquistas e de seu teatro mundo afora, existe você, nós...

Você não é o sucesso que quer conquistar. Ou é?
As conquistas estão sempre lá fora, e é por isso que não detemos o que está aqui dentro.
E quando sentimos que não há nada lá fora que já não esteja aqui dentro... nós?
Por que buscar lá fora o que já está aqui?

A forma como enxergamos se dá através do prisma de nossa visão ou ponto de vista, que nos reflete no mundo nem sempre da forma como imaginávamos.

Poderíamos abrir as portas para tudo o que quisermos, aqui mesmo.
Não que tenhamos que nos estagnar, mas sim nos voltar para algo maior — quem sabe para nós mesmos, que nos envolvemos e circundamos o mundo exterior.

Só não é tão fácil quanto procurar lá fora, porque aqui dentro, por vezes, pode estar uma bagunça que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser ajeitada ou simplesmente deixada de lado.

O que faço não é o que sou, porque o que sou não pode ser feito.

Sucesso: siga o modelo, suba as escadas e seja feliz!

quinta-feira, julho 17, 2008

Semente

Que tola pretensão a minha, achar que poderia ajudar aqueles que não querem ajuda...

Mundo tirano! Não, o mundo não é tirano. O problema são as pessoas, que podem fazer um mal danado a si mesmas, aos outros e ao próprio mundo.

Acreditei, como uma imbecil, que, envergada de palavras e ideias, poderia mudar o mundo. Minha ambição nem chegou a tanto. Bastava-me uma única pessoa, que não se trata de qualquer um, mas daquela que, para mim, é única.

Em determinados momentos, no calor da palavra, interrompida pelo soluço do choro, quase implorei para que minhas palavras fizessem efeito.
Pedia, mesmo sabendo, no fundo, que não seria suficiente, que não apenas me ouvisse, mas ao menos pensasse a respeito.
Pedia, por favor, que entendesse o que eu estava dizendo e, mais uma vez, por favor, que refletisse sobre isso. Sei que, às vezes, pensa, mas o que sempre parece prevalecer é a vontade de permanecer imóvel—afinal, assim é mais cômodo.

Num primeiro momento, veio o êxtase e a satisfação de poder ajudar, pois acreditei ter plantado uma semente. Achei que seria apenas questão de tempo para que germinasse, para que brotasse e fixasse raízes na terra, transformando-se, no futuro, em uma verdadeira árvore.
Várias vezes sonhei com o dia em que me deitaria à sombra dessa árvore. Mas a semente não cresceu. Por mais que eu regasse, não brotou. Então, um dia, percebi que nunca me coube a tarefa de fazê-la florescer.

Trata-se de uma vida, e não posso decidir por outra que não seja a minha.
Mas nada me impede de plantar a semente. A partir daí, não sou eu quem deve alimentá-la—ela precisa alimentar-se de si mesma. Esse é o momento mais doloroso, porque nunca deixei de acreditar.

A palavra final não é minha, nem mesmo a decisão. A força motriz não sou eu, e sim você—mas isso não significa que esteja só.
Dê as cartas, faça sua aposta... Só não jogue com os meus sentimentos.

No fim, a sensação de impotência é tão grande que me faz pequena diante das coisas. Não tenho nada, nem mesmo o chão.

Pudera eu não ter plantado. Mas plantei, arei o solo e reguei a pequena semente—só não imaginei que fosse tão frágil a ponto de não revelar sequer um traço de verde.
Talvez frágil seja você. Ou, quem sabe, eu. Somos menores que um núcleo de átomo.

O som das minhas palavras se propagou num imenso vazio e não refletiu em lugar algum.

Dentro de mim, sentia carregar uma galáxia de microrganismos, células e milhares de partículas banhadas por alguma utilidade maior.
Mas hoje, justamente hoje, sinto carregar nas costas uma galáxia de estrelas sem qualquer serventia.
Nem sei se é mesmo preciso ser útil. Parece até uma obrigação, um pré-requisito para existir.

Alguns creem sacudir o mundo proclamando suas ideias. Outros creem que não movem sequer um grão de areia. No fim, tudo depende daquilo em que você acredita—ou deixa de acreditar.
Seria mais fácil mudar o mundo do que a si mesmo? Ou será que só se pode mudar o mundo mudando a si mesmo, como uma corrente que contagia todos ao redor?

Não tenho certeza. Mas quem tem?
Creio que muitos. Talvez esse seja o problema.
Ou talvez não...

quarta-feira, julho 16, 2008

Deixe-me

Deixe-me voar,
Flutuar,
Gravitar,
Girar,
Levitar,
Propalar,
Desaparecer no ar,
Rodopiar até me desequilibrar,
Pisar estrelas,
Adentrar as nuvens do céu,
Ser céu, sol, caracol,
Ser alvorada, crepúsculo, sinfonia,
Içar velas para seguir viagem,
Peregrinar em terras encantadas,
Penetrar o paraíso em bem aventurança,
Torna-me luz,
Mas não esqueças de me vir apagar de forma que se faça valer o brilho de um só instante que seja.
Hei de dançar, em passos ligeiros, lentos, calmos, afoitos, equilibrados, desajeitados, ornados, torpes, ousados, receosos, alegres, pesarosos, culposos, sossegados, a acompanhar ardente sinfonia.
Seguem-se aplausos,
Seguem-se vaias,
Segue-se a banda a tocar até o espetáculo acabar,

Hei-me a dançar...
Hei-me a vibrar...
Hei-me a viver...
Hei-me a fenecer...





quarta-feira, julho 02, 2008

Revele

Revele-me seu inferno,
Revele-me seus crimes,
Revele-me seus pensamentos mais vis,
Revele-me suas trevas,
Revele-me seus desejos mais obscuros,
Revele-me a sujeira varrida para baixo do tapete, mas não deixe que esta se espalhe e macule o que realmente és.
Não me venhas mostrar supostas anormalidades de sua personalidade por meio de prantos culposos.
Venha e se exponha seguro de si para além de sua sujeira conhecedor de sua verdadeira natureza.
Que os fantasmas do passado jamais governem lhe o presente e lhe destrua o futuro.
Que seus demônios sejam neutralizados e trabalhem a seu favor.
Que estejas cá presente independente das desgraças que lhe ameaçam o equilíbrio.
Que seus dramas de demasiadas origens verguem-se ante sua liberdade de escolha em levá-los ao topo ou ao cabo.
Ereto, em movimento, soberano de si mesmo.
A realizar a mais difícil das tarefas, você, livre para ser.


quinta-feira, junho 26, 2008

Maria em fuga

Em casa, todos dormem…
Sua mente insone se angustia cada vez mais sob a opressão do silêncio.
Levanta-se da cama, procurando o controle da TV.
Madrugada. Droga de filme B!
Desiste da TV.

Alarmes acionados: empecilho para os vadios da noite.
Do outro quarto, sonoros roncos ecoam.
Pé por pé, desativa o alarme. Os roncos continuam. O caminho está livre.

Veste uma roupa qualquer.
A fuga tem início.
Desce vagarosamente as escadas. Os roncos permanecem regulares.

Onde estão as chaves do carro? Por que nunca as deixam no gancho?
Vai até a cozinha e lá estão elas, sobre a mesa.

Abre a porta, evitando ruídos. Os roncos… ainda os ouve. Sinal livre.
Agora, a parte mais difícil: ligar o carro. A arma do crime. Sem provocar um escarcéu.

Gira a chave na ignição. Olhos fechados. Implora para que o som da mecânica falhe desta vez.
Maldição! Funcionou — e muito bem.
Motor ligado. Não há mais como voltar atrás.

Assim que se afasta de casa, sente-se cada vez melhor. Liga o som e perde o rumo.
Duas da manhã. Cidade fantasma.
Maria Fumaça. Maria Gasolina. Maria em fuga.

Acelera o carro e, junto, vai seu coração.
Nada mais importa. Está partindo. Toma a estrada.
Estremece, mas não se arrepende. Está decidida. O momento chegou.

Ultrapassa os limites de velocidade e quer ainda mais.
Não há como voltar atrás. Nem quer.

Pelo espelho, olha para o banco traseiro.
Lá está ela. Sentada. À espera.
Olhos vidrados. Está em serviço.

Por vezes, atende a chamados de emergência. Se ela vem, não há retorno.
No volante, sente um frio na espinha. Enjoa.
Os olhos continuam a observá-la.

Está obstinada. Chamou, e ela veio atender-lhe o pedido.
Pela última vez em sua vida, olhou pelo espelho e piscou para ela.
Girou o volante, e o fim se deu num piscar de olhos.

A fuga. Ato consumado.

 


sábado, junho 21, 2008

Dado

Dado na mão, mesa vazia, apenas migalhas de pão [rastros ordinários].
Dúvidas [tédio], chove.
Mão cerrada, fria, comprime o dado [sopro quente].
Quais as chances? [suspira]
Rola o dado sobre a mesa, desliza na superfície lisa, cai. [Pic! Pic! Pic! Pic! Piiiic!]
Quica no chão, para.
Quais as chances?
Seis! [sorri]
O tempo se vai a jogar dados. [Silêncio]
Chove, e o dado é deixado onde está. [boceja — sintomas do início do dia]
E as chances?
Já disse! São seis, que se multiplicam por dez, e por mais dez, e mais dez, e mais dez...
[Arrepia. Imagina 6 × 10 × 10 × 10 × 10 infinitamente.]
A chaleira apita no fogo — é hora de tomar o café e se tornar novamente ordinário.

segunda-feira, junho 16, 2008

Senhor...

Senhor?
Haveria o senhor de se despedir quando julgasse não mais suportar a realidade em que nos limitamos a viver.
Há tempos não o encontro, nem mesmo na solidão a que se propôs.
O senhor existe... Não é mesmo?
Ambos sabemos... Não é mais segredo.
Vossa mente perambula num extenso vazio, na esperança de se compreender.
Os pensamentos que lhe percorrem a cabeça, tão leve e pesarosa, são como fogo líquido.
Uma pena... Não toquei solo aberto por tremores febris de vossa imaginação.
O senhor pensa ser dentre todos os seres, aquele a quem se esqueceu e não mais pôde achar-se em vida.
Pode me ouvir?
Devo então perguntar: E se em ti pousassem as esperanças de quem quer que seja?
Vossas idéias percorrem o tempo – espaço e se aquecem se chocam se expandem...
Qual fora mesmo vossa lição?
Força propulsora fora plantada em terreno inóspito.
A chama se fez por combustão de ínfima pequenez, firme e dispersa intensa e moribunda, fenômeno inconstante num giro imprevisível.
Amigo, mestre acompanhe-me sempre, mesmo quando ausente.
Sois filósofo que se assemelha as estrelas que brilham constantes no céu.
O combustível se extingue, chega a morte, mas não o fim.
Vosso caráter estelar se converte num buraco negro que tudo consome ao redor, nele nos perdemos ou nos achamos.
Vossa luz se dispersa no vácuo, mas há de se refletir e brilhar centenas de vezes mais.
Mariposas rondam vosso brilho, girando encantadas, perdidas trombando, insistem até morrerem em meio às ideias.
Meras divagações sobre vós.
Confesso ter acreditado que estivesses aqui ao meu lado.
Meu coração lamentou...
Pensei em orar, mas a muito perdi a fé.
Não me lembro exatamente quando deixei de acreditar, mas sei que foi este o momento em que o perdi.


sexta-feira, junho 13, 2008

Queria estar com vocês

Queria ir, mas tive de ficar…
Só queria passear.
Queria ficar, mas tive de ir...
Só queria me deitar.
Queria lá estar em um jardim a nos sentar.
Queria ali ficar a observar o pôr-do-sol ao lado de vocês.
Queria adiante caminhar e conversar com vocês bem cedo assim que o sol nascer, em um lugar cheio de encantos simples, apenas meus e seus.
Queria voltar e me aconchegar ao lado de vocês em uma noite qualquer a ver estrelas e cantar.
Queria na sexta-feira junto de vocês colher frutos no quintal.
Queria no domingo canoar com vocês, todos calados a sonhar.
Queria com vocês acalentar o coração e sorrir não no futuro, mas num exato momento.
Queria com vocês apenas o presente do presente.
Queria estar...
Estar apenas com vocês...
Vocês sabem quem são...
E sabem que era mesmo isso o que eu queria.


segunda-feira, junho 09, 2008

O livro

O livro
Matéria concreta
Ideia abstrata
As páginas dançam e se tocam ao som do papel
Mil línguas ondulam ruminam palavras engolem ideias
Olhos famintos lhe invadem o texto
O corpo do livro, preto no branco, palavras impressas
A alma do livro, misto de cores, palavras expressas
Os livros no cárcere da prateleira, conversam, sussurram,
Discordam, concordam,
Brigam, se amam
Os livros sorriem ou choram atenção
Todos eles carentes de olhos que os leiam e apoderem-se de sua intimidade.


quinta-feira, junho 05, 2008

Caminhos e Rios

Os veios dos rios cortam caminhos,
e os caminhos atravessam o fluxo dos rios.

Caminhos e rios se cruzam,
se unem,
se aliam,
se abraçam,
se beijam.

Caminhos e rios se nutrem.

Brotam caminhos onde nascem os rios.
Caminhos seguem,
rios deságuam — e caminhos florescem.

Caminhos e rios se ornam de cores:
verde em vida,
vermelho em versos,
azul em afeto,
amarelo em arte.

Delicados em profunda devoção,
dádivas dos deuses.

Pudera eu trilhar caminhos…
Pudera eu beber dos rios…
sem lhes tirar a vida que naturalmente me oferecem.

terça-feira, junho 03, 2008

Monólogo da Árvore

Ah… Nós caímos...
Derrubaram-nos…
Não só a nós, mas tudo ao redor...
Ao longo de quilômetros, milhas de distância, ouço todas as outras caírem.
Deitam-nos ao chão, nos violentam e assim dão-nos utilidade.
Fazem de nós o que não somos.
Éramos seres vivos e nos converteram em matéria bruta.
Nosso reino fora subjugado ao reino destes.
No topo da cadeia alimentar, estão nossos algozes!
São eles, os detentores de poder do reino animal.
O homem, dito mais completo e perfeito organismo de seu reino, nos pisa como gigantes a caminhar sobre gravetos.
A grandeza de teus atos limita-se a si mesmos, mas os propósitos de suas ações ultrapassam quaisquer fronteiras.
No cume de sua genialidade destroem-se entre si.
Ministros da guerra.
Ceifadores funestos.
Semeadores estéreis.
Eu cá estou, não sendo eu e sim aquilo, em singelo monólogo farfalhando palavras ao léu.

quinta-feira, maio 29, 2008

É preciso experimentar

Experimentemos a mudança, pois só assim poderemos tocar outros corações.
Experimentemos nossas próprias invejas antes de alimentá-las.
Experimentemos nossas próprias ofensas antes de proferi-las.
Experimentemos nossos próprios julgamentos antes de julgar alguém.
Experimentemos nossas próprias ciladas antes de pensarmos naquelas que planejamos criar.
Experimentemos nossas próprias brutalidades antes de cometê-las sempre que nos convier.
Experimentemos nossas próprias falsidades para refletirmos se realmente queremos praticá-las.
Experimentemos nosso próprio veneno e decidamos se devemos expeli-lo ou não.

É preciso experimentar para saber se realmente iremos gostar e se, de fato, teremos prazer.
É preciso sofrer o que faremos os outros sofrerem.
É preciso sentir aquilo que faremos com que os outros sintam.
É preciso conhecer o mal que pretendemos perpetuar.

Mas também é preciso refletir sobre o bem que poderíamos propagar.
É preciso experimentar a gentileza que podemos oferecer.
É preciso experimentar a sinceridade que podemos demonstrar.
É preciso experimentar o carinho com o qual podemos presentear.
É preciso experimentar a doçura com a qual podemos cativar.

Que a vida esteja repleta de experiências, em oposição às teorias nas quais insistimos em acreditar.
Que esta vida se sobressaia à vida com a qual nos contentamos.
Que esta vida não seja um ensaio, mas um improviso.
Que esta vida não seja um plano, mas um repente.
Que esta vida seja vivida — e não apenas um ponto de partida.