segunda-feira, janeiro 12, 2026

Pés descalços no Chão

O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.

O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.

Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.

As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.

O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.

Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.

O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.

Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.

Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.

Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.

Volto para casa.
Ocupo meu lugar.

Não busco.
Me encontro.

Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.

Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.

Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.

O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.

domingo, janeiro 11, 2026

A Morada do símbolo

Todos nós, em algum ponto da vida, somos tocados por paixões e fascínios que nos chamam em silêncio. Eles nos atraem para certos conteúdos que, quando acolhidos, passam a nos conduzir discretamente pela existência, como um fio invisível que leva, sempre, ao mesmo destino: o encontro consigo. Comigo não foi diferente. Ainda jovem, algo sussurrou aos meus ouvidos e esse sussurro tinha a forma viva do Antigo Egito.

O Antigo Egito tornou-se para mim um território hospitaleiro, capaz de acolher o simbolismo ainda velado do meu inconsciente, então impedido de se expressar por uma consciência dormente e oprimida pela conjuntura. Ali, esse conteúdo sem forma encontrou um vaso sagrado onde pôde repousar, sustentar-se e suportar, emanado de uma fonte interna que buscava, por si mesma, caminhos de permanência.

O universo simbólico da palavra não dita, da expressão pré-verbal, assentou-se na imagem que lhe era mais próxima por afinidade. Meu instrumento psíquico entrou em ressonância com uma era no tempo cuja vibração atravessa séculos e continua a reverberar.

Assim, meu inconsciente não me conduziu a um mero objeto de admiração, mas a um espelho estrutural de mim mesma, para além do tempo e do espaço.

sábado, janeiro 10, 2026

Afinidade em notas silenciosas

Grandes esperanças se dobram à memória
à infância inteira,
às quedas que ninguém vê,
ao silêncio dos intervalos.

O humano mora aqui,
onde nada grita ou se explica
mas tudo alcança.

Como a música, como a vida,
e como a afinidade:
uma linha fina
que leva
de volta à própria essência.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Silêncio do intervalo

Em paisagens turísticas, cujas imagens instagramáveis se congelam em massa, vejo pessoas dispersas a sorrir para as câmeras, na expectativa de serem notadas através de momentos eternizados em narrativas lidas pelo olhar alheio. Vejo-me entre elas, compartilhando do mesmo fogo de palha que nos move de um destino a outro, sempre em busca.

Ainda assim, sopra em mim um desejo aspirado do fundo à superfície, que me conduz ao momento mais esperado da caminhada em meio ao burburinho: o intervalo silencioso entre um grupo e outro. Ele me envolve como um abraço suave da paisagem aberta, que se oferece naturalmente. Admiro a brisa refrescante da fresta por onde algo verdadeiro respira entre nós.

Sorvo-a em pequenos goles pelos olhos, a mirar sua imensidão; ouço, ao longe, as vozes excitadas das pessoas que se vão e que chegam novamente em levas, através do tempo.

Aquece-me o coração tê-las por perto como plano de fundo de um panorama maior. Mesmo só, junto-me a elas de certa forma e, acompanhando-as com o olhar, permaneço nesse misto de pertencer e descaber.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Luzes acesas

Trago comigo
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.

O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.

Abrigo
o que faz sentido preservar.

O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.

Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.

Apenas observo,
sem precisar agir sobre.

Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.

O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.

Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.

Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.

O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.

Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.

O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

A caminho de casa

Lembro-me de cada casa que guardei no olhar
pelas caminhadas noturnas que fiz a sós, em silêncio.
Eu as contemplava à distância, como quem reconhece algo
sem saber o nome.

Eu não as via.
Eu as sentia.

De mim não emanava curiosidade pelo que as habitava.
Eu tinha certeza de que ali havia vida,
como um organismo que respira calmamente.

Não me sentia só quando as observava de longe,
nem desejava entrar para conhecer.
Eu as reconhecia.

Era um alívio silencioso saber que a vida
podia ser calma em algum lugar,
simplesmente existindo.

Caminhei na escuridão guiada por luzes
que não ofuscavam nem chamavam.
Elas apenas luziam, permaneciam.
Eu as chamava de paz e sossego,
sem ainda sabê-las.

Isso me mantinha naquele instante
da eternidade finita da vida.

Eu não queria alcançar, tocar ou ter.
Eu queria retornar para casa,
para minha casa,
aquela sem localização específica.

A casa que me aquietava
sempre esteve em construção aqui dentro,
com os materiais que eu tinha em mãos:
estrutura óssea, tinta sanguínea, argamassa cinzenta,
gerando forma, contendo espaços, margens, limites, cobertura.

O corpo sangrava quando não havia paredes.
A luz do mundo invadia o interior
vazio de janelas.

Escrevi erguendo contornos
para conteúdos ainda sem forma.

Eu caminhava à noite admirando as luzes
que escapavam das janelas no silêncio das ruas.
Eu estava a caminho de casa.

Agora me encontro a morar
onde sempre contemplei.
Onde o fogo não se apaga,
a mesa é posta sem pressa,
o silêncio não é vazio
e a vida não precisa se justificar.

A sensação de continuidade tranquila
e permanência que me tocava
numa casa vizinha, numa rua escura,
num país estrangeiro, numa janela iluminada,
era presença.

Há vida que não sangra para existir
e presença que não invade.

Em minha casa a luz está acesa,
não para chamar, nem para ser vista,
mas para existir.

Aqui sopra de leve uma brisa suave
que levanta a saia das cortinas
num movimento tranquilo,
como o vento que pincela as encostas
e desenha relevos.

Hoje, quando escrevo, acendo a luz de casa.
E quem sabe alguém, em outra noite, passe
e sinta a mesma paz que um dia senti.

Ou talvez seja eu mesma a passar,
reconhecendo o que sempre me buscou.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Afinidade

O que em mim reconhece
o poeta anônimo,
o homem ajoelhado em silêncio,
o Cristo que cai,
a criança que ri,
o marujo que se despede,
os sonhos calados,
os corpos a sós que dançam,
a música interior,
o valor invisível,
a criação sem plateia,
a existência silente.

Afinidade.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

A Criação de Deus

Quando criança, vi um homem idoso
ajoelhado na igreja.

Orava em silêncio,
sustentando-se apenas
pelo gesto de juntar as mãos.

Vertia fé
e sofrimento.

Quem sabe pedisse um milagre.

Ele emanava
entrega,
tristeza,
vulnerabilidade.

Aquilo me tocou.

Comecei a chorar
sem saber por quê.

Chorei o meu choro
e o choro dele.

Minha mãe não entendeu.

Eu também não soube explicar.

Apenas senti.

Levantei
e saí da igreja
para esconder a dor
que sentia
por ele.

Sempre fui tomada
pela condição humana.

Pelo estado de espírito
que não se delega.

Deus me alcança
pela criação.

Venho Dele
e dela sou parte.

Realizo-me
na existência,
na experiência
de ser
aquilo que sou.

Humana.

domingo, janeiro 04, 2026

O poder que emana do amor e não da dor

Não é o Cristo divino
que me atravessa.

É o homem
que cai
sob o olhar da mãe.

Ela acompanha.
Ama.
Mesmo na dor.

O homem que tropeça,
assistido pelo amor.

Vulnerável,
acolhido
pela dignidade
que permanece de pé.

O Cristo que me abraça
e me acolhe
não está crucificado.

Está humano,
livre do sacrifício.

Vive no gesto comum:
no carpinteiro,
no menino que ri,
na verdade dita em voz alta,
no choro,
na festa,
no olhar que reconhece
a injustiça.

Ele mora
no humano.

E o ama.

Jesus sofreu
porque viveu.
Amou.
Esteve entre nós.

O calvário
foi apenas o recorte
de um homem
que atravessou
uma existência inteira.

Desço sua dor do pedestal.
Guardo no coração o amor.

sábado, janeiro 03, 2026

Tríade Silenciosa

Certo dia assisti a uma declamação
e fui tocada por uma sensibilidade rara.
Há algo de quase mágico
quando a voz encontra o poema,
ou seria o poema encontrando a voz?

A distância entre quem escreve
e quem diz
desaparece.

A palavra, atravessada por compreensão e entrega,
ganha pausas, inflexões e silêncios.

A voz não explica.
Explicita.

Fundem-se os limites entre
quem declama
e quem escuta.

Forma-se uma tríade silenciosa:
aquele que escreveu,
aquele que diz,
aquele que ouve.

Três estrelas orbitando o mesmo eixo.

No rosto, cada significado é vivido.
O sabor de cada verso é sorvido,
não recitado.

A emoção salta entre estrofes
e nos conduz para dentro da mensagem.

Não assistimos.
Participamos.

Por um instante,
o poema pertence a nós todos.

Ele acontece.
E, ao acontecer,
nos toma.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Fermentação

Eu, que bebi dos destilados fortes,
analgésicos do fundo de um fosso,
à sombra estreita,
escorri pela borda da taça,
copos e garrafas,
em vazamento contínuo
que me abria fendas
e me vestia de vendas.

Sempre mareada,
embotada,
isso era estar embarcada
em delírio coletivo,
encarnada em devaneios.

O febril disparate
conduziu-me às margens espumantes
do vinho da vida em fermentação,
energia que sobe, viva e criativa,
onde revelações borbulham
do fundo à superfície.





quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aforismo Ósseo

Quando me expresso sem ressalvas,
em consonância com meu estado bruto em refino,
podem ver-me até o osso.

Quem vê até o osso
não vê forma nem ornamento.
Vê estrutura viva.

O osso sustenta,
delimita,
dá contorno.

Me permite ficar em pé.

O esqueleto representa
a estrutura essencial
que sustenta o corpo em eixo.

É duro,
mas não maciço.

É poroso,
atravessado por espaços,
canais,
medula.

É justamente essa porosidade
que o torna vivo.

Um osso totalmente rígido,
compacto,
morto,
quebra com facilidade.

Um osso vivo absorve o impacto.
O abalo passa por ele,
mas não o destrói.

Isso não significa
que seja infalível.

A porosidade é a alma do osso.
É corpo instintivo.
É verdade que circula.

É o que permite troca,
respiração,
regeneração.

É ali que o sangue se forma.
É ali que a vida nasce.

A forma externa
e a função vital
não estão separadas.

A forma também guarda,
organiza,
sustenta
o que está oculto.

Osso vivo.

Firme o bastante
para sustentar.

Poroso o suficiente
para não morrer.

A estrutura não endurece
nem fecha o contato.

Ela circula.

Assim o corpo confia.
O mundo não assusta.
E o abalo ensina
que a casa
pode ser habitada.

Quando me mostro até o osso,
não me exponho.

Me sustento.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Usuários

Bem-vindos ao mundo dos usuários.
Nele, vamos nos divertir e nos utilizar.
O foco está no uso, não na identidade.
Não nos interessa quem você é;
interessa-nos sua função de utilizar.

Sua existência mora na função.
Então, vamos fazer funcionar.

Usuários nervosos, ávidos de consumo e novidades.
A atenção pertence às superfícies brilhantes dos smartphones.
Nelas, vamos deslizar.

Sinto a angústia dos olhos correndo de cá para lá,
perdidos na tela desse mar azul
em hipnose coletiva.

Dedos inquietos a rolar
um novelo sem fim.

Vida em cena.
Projeções em telas
que nos enquadram em proporções matemáticas,
em cenas que se querem mostrar.

Tenho um perfil, logo existo.
Mas como fica o que não consigo editar?

Dessa terra de ninguém
ou dessa terra de ninguéns?

terça-feira, dezembro 30, 2025

Barqueiro

A vida trouxe à margem um barqueiro ambivalente, que oscila sobre a superfície do mistério das águas. Ele atravessa, em seu pequeno barco de madeira, um conteúdo oculto gestado no fundo de águas profundas.

Não saberia dizer quantas vezes sua embarcação naufragou, pela má distribuição de pesos que não eram seus sobre o assoalho já desgastado, cansado de acompanhar outros barcos tão perdidos quanto ele.

Por anos à deriva, preso a um vai e vem infinito de fantasias, delírios coletivos de remar sem direção, sua força esvaiu-se a serviço de passageiros desorientados.

Seus olhos tornaram-se opacos, cobertos por uma fina membrana leitosa que lhe velava a visão e distorcia as paisagens. O cenário permanecia sempre enevoado e, enjoado, ele cessou de remar e parou no cruzamento:

Olhos que se fecham para não ver
e olhos que se fecham para ampliar os sentidos.

À distância, o cheiro de lenha no fogo, o som cadenciado do trepidar, os estalos suaves da madeira que se expande no calor, enegrecida, incandescente, chamaram-lhe a atenção.
O fogo que ilumina não consome.

Dançam as chamas que se aderem à madeira, a mesma matéria que sustenta o assoalho de seu barco e as árvores que dão vida às margens fluviais. Dos olhos, uma nascente. Deles, o brilho amarelo do fogo: verdade que se revela.

A mente sopra ao coração:
Não posso mais te proteger daquilo que você já sabe.

Ao despertar deste sonho, seu corpo precisará se acostumar à materialidade das coisas.
Ele não abandona o barco, mas redistribui o peso, equilibrado a partir do centro.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Nuvens passageiras

Sento-me ao lado da tristeza, do medo e da mágoa e faço um minuto de silêncio pelo que jaz eterno na existência. Tudo isso são apenas nuvens que passam no meu céu; eu as vejo, há muito as interpretei e agora só as deixo passar pelo meu campo de visão. Caso um dia precise chorar, deixo-as chorar.

Estou aqui, mas isso não me define.

domingo, dezembro 28, 2025

Chão da Vida

Quando criança, eu gostava de me deitar no chão para olhar para o céu e ver as nuvens passarem. No começo, elas simplesmente passavam e nada se passava em minha cabeça. Eu e as nuvens éramos como éramos. Nada havia entre nós: nenhuma questão, reflexão, busca ou significado.

Tudo se resumia ao meu corpo e aos sentidos que o localizavam no tempo e no espaço do meu mundo. Ele era meus olhos, minhas mãos, meu nariz, meus ouvidos e minha língua, envolvidos em pura presença.

Certo dia, eu e meu primo decidimos dar nome às formas que víamos refletidas nas nuvens. Apontávamos cavalos, elefantes, macacos, martelos, rostos, carros, dando sentido e resposta ao que não pedia resposta. Mais tarde, passamos a nos questionar sobre as nuvens no céu: como se formavam, como se precipitavam em chuva, o porquê de suas cores variadas.

Nossas mentes voaram longe com as nuvens que almejávamos decifrar. Os pensamentos eram pipas dançando no vento, pedindo linha e mais linha, subindo cada vez mais alto.

Alcei voos tão altos que quase não conseguia mais descer das alturas de onde falam os símbolos e as buscas. Meu corpo permanecia deitado no chão, enquanto minha mente subia ao céu em direção ao espaço sideral.

Estrelas, astros e corpos celestes me convocaram acima do solo onde jaziam meus semelhantes, tripulantes desta nave Terra. Minha nave orbitou espaços distantes, mundos estrangeiros, mistérios insondáveis, enquanto meu corpo permanecia em terra, esperando o pouso.

Esperei até que se esgotassem os limites do explorável. Deixei minha mente voar até encontrar os sentidos que a fizessem retornar para casa. Quando voltei, senti-me deslocada, como alguém que, após longa ausência, experimenta o desnorteio do pouso: os pés inseguros, como se tivessem esquecido a sensação do corpo no chão.

Assim se desenhou a trajetória de uma nave, de um navio que navegou o coletivo de todas as coisas alienígenas e nativas que nos situam na humanidade e para além dela. Voltar ao estado de origem revelou-se também uma jornada distante para dentro de mim.

A mente escapou, mas agora quer voltar. E o corpo, tudo o que ele pede é presença. Depois de ver o céu, a vida pede chão.

O mundo está para mim assim como eu estou para o mundo.

sábado, dezembro 27, 2025

Gato Limiar

Toca baixinho o som do amanhecer,
calando os ruídos que pedem resposta.
A aura do que me chama
estanca o movimento frenético da mente.

Essa presença,
ancorada no tempo de agora,
está sentada diante do portão.

Não entra.
Não parte.

Um grande gato preto,
cuja postura recolhe em si
toda a minha atenção.

Eu o olho, surpresa — reconheço.
Ele olha.

Mantém calmos
os olhos que atravessam meu horizonte.
Permanece.

Aguarda na borda do que sou:
inteira, silenciosa, atenta.
Faro encarnado.

É-me familiar
seu olhar noturno, instintivo.
Há algo em mim
que sabe olhar

sem se perder. 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Compasso interior

Carrego em mim tudo aquilo que prezo:
o equilíbrio da caneta nas mãos
que compõem o canto
e o arranjo de suave vibração
expresso em palavras e orações.

Minhas orações não são mantras entoados,
mas sutra na pele.

Não rezo para algo que mora lá fora;
rezo sendo tocada por Ele.

Me ofereço como instrumento no qual vibram
as notas de um acorde maior,
sou corpo afinado
para que o som aconteça.

Desafino, saio do tom,
escorrego nas notas;
respiro nas pausas,
realizo intervalos.

Confio na música que toca por dentro.

Mas há momentos em que o mundo
está desafinado demais
para entrar no compasso.

Respeite o tom.

Quando a luz mergulha na terra,
a música não para.
Ela pede lugar.

Sigo a tocar
sou melodia.

Minhas sensações
são canções de diversos estilos.
Minha vida é partitura
de um fluxo sonoro
que reverbera.

quinta-feira, dezembro 25, 2025

O Cristo que me habita

Cristo foi equivocadamente tomado como o arquétipo do cordeiro sacrificado pela salvação da humanidade, mas ele não nos ensinou a nos sacrificar. Ele nos desperta para o nosso poder, para a responsabilidade sobre nós mesmos, sobre o amor que brota do nosso centro e, através dele, pode irradiar e contagiar o mundo. Cristo nos ensinou a autonomia e essa foi sua maior prova de amor.

Se for preciso que eu carregue o peso de uma cruz, que seja o peso das minhas escolhas, o peso que me forma e me define, não o de sacrifícios impostos.

Meus pés estão feridos, cravados em espinhos e pregos de um caminho em que me apressei, saltando adiante sem perceber o que realmente importa. Ainda assim, eles me sustentam, me ancoram, me lembram que posso caminhar.

Minhas mãos guardam as cicatrizes das reações impulsivas, mas ainda conservam a força da criação, daquilo que constrói e transforma.

Esse é o Cristo que me habita, não aquele que salva, mas aquele que ilumina o caminho, mostrando a trilha que conduz à verdadeira salvação, aquela que nasce de dentro, da escolha consciente e do amor que cultivamos.

quarta-feira, dezembro 24, 2025

Palitos Gina

Palitos são o que há de mais essencial em celebrações.

Num único eixo,
tomates, queijos, azeitonas, presuntos
se encontram.

Diferenças atravessadas
por um gesto simples.

O que era disperso se alinha.
O excesso se organiza.
O caos ganha forma
e se oferece ao paladar.

Pequenos, quase invisíveis,
sustentam encontros.
Unem sabores que jamais se tocariam
sem esse fio mínimo.

Vieram do banal.
Da higiene bucal.
Do gesto rápido,
da correção do incômodo.

E sem alarde,
se transformaram.

Hoje habitam mesas,
marcam presenças,
ocupam o tempo da descontração
em que ninguém tem pressa.

Nada permanece fixo.
Tudo se desloca.
Do uso ao símbolo,
do descartável ao essencial.

terça-feira, dezembro 23, 2025

Manifesto íntimo do olhar

Antes, o gesto acontecia
dissociado do sentido.

Agora, ele se sabe
como um olho que desperta e se vê.

O involuntário se compreende
e se reconhece, sem precisar se explicar.

Embarco novamente em minha nave,
máquina do tempo.
Viajo para o passado,
não para reparar,
consertar
ou salvar,
mas para não mentir sobre o que existiu.

Todas as coisas têm história.

Gosto de ver o que silencia,
vislumbrar o que jazia oculto.
O comum me é peculiar
pelas nuances que não notamos.

Quando a invisibilidade se revela,
sinto a mágica diante dos meus olhos:
ver aquilo que quase ninguém viu,
transmutar o ordinário,
o desprezado,
em algo único e especial
soa-me como um poder alquímico que poucos têm —
revelar a beleza do invisível.

É de delicadeza rara
o encanto por tais coisas a me embalar,
a me deixar abraçar pelo anonimato
que exala presença
genuína e rara de se encontrar.

A sutileza autêntica me detém.
Quem não disputa o olhar
é quem me convoca.

Me atrai o despercebido.

Gosto de olhar para aquilo
que não espera ser visto,
imaginando-me uma descobridora
de terras inexploradas,
garimpeira de tesouros
sob o chão que todos pisam.

Vestir-me do olhar absoluto,
registrar a realidade das coisas,
me empolga:
atravessar o imperceptível,
erguer o véu
do que sempre esteve lá.

Notar a gradação discreta do entorno,
surpreender-me com o de sempre:
o perfume suave
que se insinua no ar,
constante e fugidio.

Tudo isso me banha em calma e sossego,
num suspiro de alívio
frente ao peso das urgências e imposições.

Agrada-me a fala mansa
do que tem presença:
essa cor transparente
que se deixa atravessar.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Inanimado

Faz-me rir, gargalhar
e mesmo estranhar
essa minha mania
de animar o inanimado.

Dar vida ao que não tem vida,
como sujeito a dar voz ao objeto.

Afinal,
aquilo que é
também existe.

O caráter impessoal me é pessoal,
porque ofereço destino
à matéria das coisas.

Coisas à margem do olhar,
objetos multiplicados
que desaparecem no excesso.

Não é curioso
tropeçar na invisibilidade
que está à vista,
mas fora do pensamento?

Costuro partes
numa paisagem das coisas
só para dizê-las vivas
no esquecimento.

domingo, dezembro 21, 2025

Cronos

Vejo um bando torpe em movimento constante
que não sai do lugar,
girando feito peões sobre si,
eternamente, sem cessar.

Meus olhos se cansam de olhar
e ver como agonizam em órbita errada;
eu, que os vejo, me vejo
como num espelho a me assustar,
presa ao mesmo campo gravitacional.

O efeito implacável do tempo,
a repetir-se,
nos enfraquece e nos desgasta
feito metal corroído,
a ranger, estalar,
no tom cinza da vida.

Cronos, entidade incorpórea:
sem que percebesse, deixei-o
me abraçar pelas costas;
hoje sou eu quem vai a ele de encontro
e o abraça de frente.

Seu zunido, correndo pelos trilhos,
num grito agudo estampido nos ouvidos,
parecia querer me esmagar.
Deixo-o se achegar.

Dentro do cenário,
ver não é o bastante:
é preciso deixá-lo atravessar-me,
feito espada a me cravar no peito
sua lâmina afiada.

Isso é se expressar.

Corra — pode correr —
o sangue da vida,
até que se esgote o último fio,
restando o eco
que reverbera a imensidão
da finitude deitada sobre mim.

Irei testemunhar tudo isso
sem nada esperar ou pedir.
Ofereço apenas minha voz,
encarnada nestas duras palavras
que constatam
e registram
seu existir.

sábado, dezembro 20, 2025

Caminhe até Ele

A maior conexão com Deus, ou com a ideia do transcendente, não se dá confiando em uma ajuda externa superior, mas contando consigo mesmo. Sustentar-se é aproximar-se. Quando se espera, se distancia.

Para isso é preciso crescer, deixar a infância, soltar o papel da criança que aguarda pelo pai, chorando por salvação. Não espere que Ele venha; caminhe até Ele.

O transcendente não é alcançado pela dependência, mas pela autonomia. Isso não nos enfraquece; nos fortalece.

Experimente não implorar que Ele realize seus desejos, mas adquirir força para atingir o que for possível e desenvolver discernimento para enxergar o melhor caminho. O maior presente não é aquele que se ganha, mas a presença que se mantém no presente. 

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Suspensão

Ao fim da tarde, uma sensação de cansaço repentino pousou sobre mim. Não era desânimo, tristeza ou desesperança, nada que pudesse ser nomeado ou diagnosticado.

O rosto miúdo, pousado sobre as mãos em concha em busca de sossego, reflete uma exaustão interna de tudo o que se foi e agora retorna lentamente para dentro.

O efeito anestésico cessou. Restou um reconhecimento ainda confuso entre vislumbre e desorientação, como um braço que acorda formigando, incapaz de se mover. Fico à soleira, pés ainda descalços, reconhecendo o chão antes de atravessar.

Nem tudo o que vejo precisa ser dito; às vezes, só preciso repousar. Sustentar a percepção num corpo sem chão, avançando sobre um novo espaço.

Suspensão: após espalhar fragmentos meus porta afora, como um espirro do espírito a expulsar algo que irrita as vias do respiro, partes minhas que considerei ameaça agora batem à porta, querendo retornar à casa.

Muitos deles calei, tapei-lhes a boca num impulso de medo do que poderiam dizer. Outros feri ao fingir que não existiam. Quebrei-os, caminhei sobre seus cacos, feri os pés. Juntos sangramos, como se a indiferença não deixasse cicatrizes.

Eu, que também existo, desejo ouvir, dialogar, receber, reconhecê-los como parentes distantes que retornam após longa ausência, trazendo histórias e aventuras remotas, incendiando-me o coração com curiosidades diversas.

quinta-feira, dezembro 18, 2025

Mapa Invisível

Minha mão infante moldava o barro
das formas desconhecidas e de seres estrangeiros,
num desconhecer e reconhecer
que se juntam em uma só coisa.

Pôs-me em contato com o inominável,
o numinoso.

Desenrolou-se lentamente,
sem que eu pudesse notar,
um novelo imbricado de destinos cruzados.

As peças soltas
de um imenso quebra-cabeça
se organizaram e acordaram,
desenhando o mapa
de uma paisagem maior,
em movimento irresistível,
como se eu escrevesse
para trás e para frente no tempo,
revelando uma natureza atemporal.

Uma sensação entre escrever e descrever
o crescer das árvores ainda dormentes em sementes,
cujas frutas amadurecem de repente
após longo período de gestação invisível.



quarta-feira, dezembro 17, 2025

Sol nascente

Cavo do peito um suspiro pedindo 
sossego para a fúria de arremessar-me contra o cercado das ideias.
Os passos inquietos do espírito
que se remexe no túmulo,
em desalento,
rezam baixinho sua íntima oração:

Quando a paz reinar em meu reino
meu impulso por sangue irá se esvair.
Soltarei o arco dos braços defensivos
diante das coisas
e os pousarei, relaxados,
ao longo das pernas,
em alinhamento.

A cadência dos passos será evidente,
coração e mente, coerentes,
a caminho do sol nascente.

terça-feira, dezembro 16, 2025

Orbe interior

Eu, que me considerei forasteira,
vejo agora que sou o próprio cerne,
a personagem principal
da minha própria história.

Eu, que com a venda nos olhos
orbitava um planeta estrangeiro,
vi-me enfim
em meu mundo nativo.

Sou sol
e mundo —
e eu.

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Lei da conservação da vida

Nada se perde. Nada se cria. Tudo se transforma.

Lavoisier formulou como lei da matéria aquilo que, ao longo da minha jornada, reconheci como lei da vida. Aprendi isso no corpo da minha história.

Nem toda escolha é eterna. Muitas são parte do caminho — e, como caminho, não permanecem. Cada qual tem seu tempo. Quando cumprem sua função, podem ser deixadas ir.

Das cidades e das pessoas que amei escrevi-as em mim, não porque fossem destino, mas porque foram capítulo.

Territórios de partida. Pontes. Mas não a morada final.

Ali vivi lealdades invisíveis, acordos silenciosos, histórias que se gastaram até caírem por si. Decidi partir para não me abandonar.

Houve amores sinceros, transformados em gratidão e costume, adaptação e validação. Restando a obrigação. Despedi-me dela. Sem barulho.

Partir foi virar a página com dignidade. Sem perder. Sem ganhar. Cumprir.

Aprendi que não são as coisas, nem os lugares, nem as pessoas em si — mas os significados que lhes dou.

O que não cabe mais, libero. O excesso, doação. O essencial, necessaire.

Carrego pouco. Mas carrego o vivo.

Nem toda escolha é raiz. Muitas são travessia. E pontes não se habitam: atravessam-se.

Decisões têm tempo. Vínculos têm função. Lugares são capítulos.

Não preciso transformar o passado em prisão, nem o futuro em dívida.

Posso ir sem me perder, ficar sem me aprisionar, amar sem me abandonar, partir sem me rasgar.

O mundo deixa de ser ameaça ou promessa. Torna-se passagem.

Nada do que foi vivido se perde. Tudo muda de forma. Quando aceito essa lei, o apego cede lugar à confiança.

Já não preciso segurar lugares, histórias, pessoas, identidades.

O essencial não se perde na transformação.

E como na química, o processo é irreversível: depois de visto, não se desvê.

O que permanece em mim não é o passado, mas a capacidade de atravessar sem me deixar para trás.

O espaço ao qual sempre retorno sou eu mesma. O único ao qual pertenço. E do qual não me ausento por nada nem ninguém.