domingo, dezembro 14, 2025

Dramaturgia narcísica

Na dramaturgia narcísica da vida comum,
o ego projeta valor em objetos externos,
geralmente artificiais,
como se fossem capazes de preencher lacunas internas.

Dá-se mais à réplica do que ao original que a inspirou:
esta é a beleza morta das flores de papel,
a ausência de frescor das frutas de cristal,
a imitação dos sabores artificiais.

Deseja-se mais aquilo que não alimenta, mas enfeita,
do que aquilo que nutre e dá vida.

Projeta-se valor sobre imagens de desejo vazias,
forjadas para seduzir e dispersar.

Tornamo-nos caricatos, borrados,
sujeitos insípidos, encenados,
arrastados pelo coletivo em buscas infinitas,
presos a simulacros, performances rasas,
que nos conduzem a lugar nenhum.

sábado, dezembro 13, 2025

Alma marítima

Por vezes, pergunto-me se o inconsciente navega pelo tempo de forma não linear
e, diante disso, traz do futuro mensagens,
fragmentos de memórias ao passado,
tornando o eu antigo capaz de dizer algo impossível naquele tempo,
mas possível em um momento futuro.

Quem sabe se nomes atraem destinos ou destinos atraem nomes,
de modo que o nome das coisas conduza o andar da carruagem
ou que as próprias coisas determinem seus nomes, numa pré-existência.

Se o nome que me deram tatuou na alma meu fascínio pelo mar,
ou se esse encanto já era a paisagem do meu próprio ser, em essência,
e atraiu para mim o olhar desse título que me acolheu tal como sou.

Quem sabe Deus trouxe, na música soprada aos ouvidos dos meus ancestrais,
uma sina que me uniria de corpo e alma inteiros.

Por definição ou acaso, moro no espaço íntimo das embarcações
que vão e vêm mar afora, mar adentro,
pairando sobre a natureza das velas hasteadas,
guiadas pelos ventos de um oceano profundo e permanente,
de irrevogável destino,
essência marítima que me move
e me conduz adiante pelas águas salgadas, calmas e revoltas.

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Coboio fantasma

Pelas manhãs
quando o silêncio recua diante do canto dos pássaros que despertam
ouço ao longe o ruído indistinto de um comboio pesado
atravessando o tempo do alvorecer.

É um barulho fantasma
um não-existir das linhas férreas ausentes do chão da vida.
Ele carrega o revolver condensado da mediocridade cotidiana
e vem de um espaço liminar
entre o fim da noite
e a promessa do amanhecer.

Desaparece quase imperceptível no ar
assim que os pensamentos se firmam na terra
e os afazeres tomam conta do dia e das horas
e já nos encontramos todos tomados
pelo ordinário da matéria que nos cerca.

O misterioso som me acompanha
nos bastidores da vida
mas dele me esqueço
até reencontrá-lo no eterno retorno rotineiro dos dias.

Sempre me deixo levar ao longe
rumo ao seu sumiço costumeiro
e ficamos assim em valsa
indo e vindo
dançando entre inícios e fins.

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Primavera das vivências

O perfume nostálgico exalado pelos corredores do que fui
me convoca a um tom mais quente de compreensão
do tempo das coisas, após os tropeços do destino.
Embriões prematuros prometem, mas não cumprem.
É preciso acolher o processo da vida em etapas:
o descer das escadas,
o vagar pelos corredores,
o abrir das portas,
a primavera das vivências.

Migrando do ruído para o som,
é preciso atravessar o silêncio,
tomar fôlego e seguir paciente,
subir novamente, erguer a vista,
aceitar mais uma vez o simples viver,
regar a terra, dar sustento aos pés,
acender a seiva pela minha espinha
até o topo das árvores que me florescem.

Minha narrativa foi amarrada a um cercado para conter o gado,
e escrever foi a forma que encontrei para me transformar.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Sublimação

Sinto, por vezes, uma sensação que me invade, como o despertar de um vulcão adormecido, prestes a entrar em erupção. O calor aumenta de dentro para fora, em ondas, como um magma precipitando-se do centro da Terra. Sobe uma inquietação, uma aflição que me tira o sossego, situada entre a dor e o prazer ansiado de algo que deseja arrastar o que está fora para dentro, um ímã a puxar o movimento que quer nascer.

Lava quente, líquido incandescente, libido em estado bruto, desprovida de sentido, agita-se buscando escape, liberando a tensão do conteúdo denso.

O movimento ascendente da energia que se evoca e se espalha de baixo forma uma pressão que irrompe em um estampido no ouvido, sensação similar à pressurização sentida em grandes altitudes, seguido de um zumbido insistente que se dilui aos poucos à medida que libero o fluxo de pensamentos em palavras e ideias textuais.

Quando o conteúdo toma forma e sentido à medida que se solta, vejo sublimados e canalizados os impulsos crus, vindos do caos não integrado do meu poço fundo. Direciono e miro o alvo de uma energia disforme que poderia muito bem me destruir ou dispersar, com algum esforço apreendido ao longo do tempo.

terça-feira, dezembro 09, 2025

Arcano número zero

O desconforto e o descompasso entre mim e o mundo tornaram-me íntima da melancolia, esse território pessoal escolhido para deslizar sobre a superfície das coisas e evitar que o atrito interno me impedisse de avançar para longe. Um estado de espírito que me guarda em seu invólucro silencioso, uma membrana entre eu e o outro, entre o ser e o adaptar-se, entre o viver e o sobreviver — uma cortina entre mim, a plateia e os bastidores.

Por trás das estruturas arcaicas que me moldam, nem mesmo eu fui capaz de olhar e ver que fiz dela meu escudo, para me manter suspensa acima do abismo de tudo aquilo que considero separado de mim. Corda bamba de ilusões.

Agora, com o desanuviar do pensar, vem o mal-estar após a longa embriaguez da mente dissociada. Surge a hesitação inicial própria da sobriedade que se segue — um estado ainda desconhecido, perdido, sem direção. Sento-me perplexa diante de sensações inéditas; o chão, de repente, me escapa, e lá estou na iminência de, mais uma vez, recriá-lo aos meus pés, simplesmente respondendo àquilo que os olhos já não podem ignorar.

É preciso alquimia: transmutar o reino etéreo dos pensamentos em ouro líquido, para irrigar as cavidades esquecidas do coração e materializar o estado do ser na realidade objetiva do mundo, alinhando-me à minha verdade e trazendo-me de volta ao calor da vida.

Afinal, mudei-me de casa. Arcano número zero.

segunda-feira, dezembro 08, 2025

O som do Tao

O Tao não se define, mas, se tivesse som, nasceria como um tom liminal,
um acorde leve que não se impõe, apenas vibra no ar,
uma nota suspensa sem começo e sem desfecho.
Desliza entre frequências, audível e inaudível,
como um sopro que atravessa frestas
e redesenha a paisagem em um tempo indefinido.

É a música que surge quando ninguém toca,
o silêncio que compõe o infinito,
a respiração do todo que nos atravessa.

Cria uma ambiência, um pulso entre-lugares,
um campo de transição onde tudo paira.
É sensação pura, névoa sonora que conduz
ao limiar entre vigília e sonho, matéria e ideia, presença e eco.
É neblina que envolve e apaga contornos.

Timbre etéreo que não se ancora, apenas ressoa,
como ondulações na água que se expandem.
Batida sutil, chamado longínquo,
calma que afrouxa margens e dissolve limites.

O tempo dilata, respira, atravessa,
e o clima se abre em sinergia, ascensão e mergulho.
O som se espalha na multidão em dança harmônica,
mesclando o diverso e o íntimo em ritmos alternados.

É uma frequência que pulsa dentro e fora,
matriz sonora primordial, sutra vibratório do Tao.
Um som que não finaliza, apenas se dissipa no ar,
como a última nota de um instrumento que continua tocando por dentro.

domingo, dezembro 07, 2025

Batismo da Alma

Distante, vejo uma nuvem chorar,
parindo dores condensadas.
As cores densas se precipitam
sobre os clarões elétricos
que rasgam o firmamento.

O céu, que ardeu o dia todo, enfim se despede
em meio às luzes esparsas
que beijam a terra em estrondos
e me abalam por dentro.

A sensação que me esbarra na pele
sopra suave,
para depois revelar sua outra face:
o açoite dos ventos nas janelas.

O mundo cotidiano aperta o passo,
temeroso do choro celeste.

Enquanto eu, quero me encharcar,
sentir o arrepio na espinha,
a revoada dos cabelos.

Deixo-me ao relento
e recebo do alto
um afago.

A natureza do tempo me comove;
paro de correr com os outros
que buscam abrigo
na pressa que se esconde da chuva.

Eu, não.
Prefiro dançar sob ela
e batizar minha alma.

sábado, dezembro 06, 2025

Poética subterrânea

Nessa vida, bebi ávida das artes e das sinfonias que me embalaram,
encontrando nos livros companheiros ébrios de sarau
das minhas noites e matinês.
Mergulhei no universo dos símbolos e oráculos
numa escavação profunda do meu subterrâneo.
Desci com eles ao ventre da minha própria natureza,
oculta nas formas e fatos mundanos,
para encontrar o mistério do que sou.

Meus professores foram os erros e acertos da vida,
o que me permiti fazer e o que me autorizei sentir acima do intelecto,
a coragem do que deixei escapar pelos portões de casa para se revelar.

A verdade que tanto mereço é a minha própria.
Por que minha voz não alcança o tom do que sinto?
Um humor íngreme como o meu deixou-me girando na ciranda da vida,
sofrendo perseguições internas, até que meu corpo exausto se cansou de correr.

Com os olhos quase fechando, quase desistindo,
mirei a ameaça de frente: a ignorância.
Silenciosa, ergui um gesto rebelde de revolução pessoal.
O carrasco que vinha ao meu encalço se aquietou, calou-se.
Dei-lhe as costas e parti rumo a outra realidade.

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Pescador de almas

Ele fala por mim,
expressa o que sinto e não revelo,
como se o mistério se desvendasse em suas palavras.
É o espelho no qual me vejo: assusta-me e atrai-me,
água sagrada derramada em meu vaso vazio.

Um grito que me chama,
lente convexa que amplia minha visão sobre mim.
Ele é Sol no zênite, fogo que se consome,
e eu sou o éter que se dissolve, sentido sem forma,
propósito não vivido.

Ele se apropria de seus infinitos eus;
eu busco a mim e não encontro —
ou encontro e não reconheço.
Meus eus não conversam: ilhas que se desconhecem.

Ele me revela,
empresta-me voz, traduz-me na língua-mãe da minha alma.
Expõe minhas personas escondidas, silenciadas, dispersas.
Toca em mim o que nem eu toquei.

Arranca de mim o indefinível,
materializado num homem estrangeiro,
brilhante como estrela de inverno.
O impossível que não alcanço me alcança tão facilmente.

Como pode a morte me encontrar na esquina?
Vi-me nua diante dessa chama:
como pode alguém que não eu despir-me para meus próprios olhos?

Não é o homem — o homem morreu.
É o símbolo vivo, Sol no meu céu,
farol da minha busca interior,
do diálogo dos meus habitantes dispersos.

Ele é o que está fora e quer vir para dentro,
a palavra que meu silêncio esperava,
a flecha certeira que diz do que sinto mais do que penso.

Escreveu para mim e para tantos que, no futuro,
aguardávamos por suas palavras viajantes
que nos despertariam para nós mesmos.

É mar que me invade e me inunda, pescador de almas,
trazendo do fundo o alimento que nos nutre por inteiro.
Pessoa é o portal pelo qual atravesso.

 

quinta-feira, dezembro 04, 2025

Campo Sem Caça

A mulher segura uma cesta sem frutos.
Observa, não age,
forma sem conteúdo,
terra estéril.

A ela o nobre oferece um sacrifício,
mas não corre sangue.
Nada acontece.
Tudo permanece suspenso
em eterna iminência.
O encontro não tem vida,
não floresce.

Um cavalo robusto se aproxima.
Ele não é humano,
é do reino instintivo,
puro e verdadeiro,
amor em estado bruto, vigoroso.

Trota decidido em direção ao nobre,
que ergue o arco, desconfiado, ameaçado.
Mas o calor do animal o envolve
e o desarma.

Monta-o e segue a galope
rumo a um campo sem caça,
um homem que, por onde pisa,
não deixa pegadas,
não leva a lugar nenhum,
um ruído que ocupa espaço
com palavras vazias.

Cavalo e cavaleiro retornam,
o nobre de mãos vazias,
o cavalo com corpo e presença.
Ele é tudo o que o homem hesitante não é.

Os frutos estão na vida,
não na imaginação.
Uma união vazia,
uma cesta sem frutos.

Nenhum lugar é conveniente
para aqueles que, acordados,
ainda sonham.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

O cortejo do homem inferior à alma

De baixo para cima.
De dentro para fora.
Do ideal ao concreto.
Da morte à vida.
Segue o cortejo do homem inferior à alma:

O que é isso, entre mim e você?
Espaço.

E o que mais?
Distância.

O homem se aproxima.

E agora, o que existe?
Silêncio.

Fixa o olhar na direção do desconhecido à frente:
Tensão.
Confronto.

Desejo.
Você diante de mim sou eu diante de você.

Uma mente afiada poderia me ferir?
A superfície não toca a profundidade; estão em oposição.

Tocado, mas não ferido:
Nos seus olhos vejo refletidas as minhas máscaras.

Receptivo, porém inteiro:
Nos seus, vejo submersa a minha essência.

terça-feira, dezembro 02, 2025

A Árvore da Vida

A raiz do medo:
Meu eu, embriagado pela confusão mental e emocional, como alguém perdido de si que distorce formas e sentidos, movia-se oscilante, hesitante, num ir e vir instável.
Gerava ânsia, medo, o peso seco de um nó na garganta.
Ambiguidade.
Limites borrados.
Um mar revolto de emoções.

Meu olhar se esquivava do caos interior, onde sombras de antigos medos se chocavam como ventos desencontrados — um vendaval — até que, lentamente, comecei a notar que era preciso parar.
Olhar.
Encarar.
Deixar de fugir.
De me dispersar.

Eu me confundi,
mas agora serei eu mesma a guia que ilumina a escuridão.
Não vou te invadir, mas te apoiar.
Não vou te sufocar, mas te afagar.
Não vou te julgar, mas te proteger.

Vou te acompanhar e ensinar a crescer,
a firmar o passo,
a escolher o caminho que te chama.
Não vou te aprisionar,
nem me agarrar a você.
Não vou te dissolver na minha confusão emocional.

Quero clarificar, responder, conduzir,
abrir a clareira
para que você caminhe por si.

E então você virá à tona, aos poucos,
um rebento que rompe a terra úmida e recebe seu primeiro raio de luz e cresce:
suavemente,
silenciosamente,
como uma árvore que se ergue na encosta da montanha.

Primeiro, as raízes se aprofundam,
bebem da fértil escuridão,
a germinação emerge
da sombra para a claridade.

A luz puxa para cima,
chama,
eleva,
até que o que era frágil se torne árvore frondosa,
capaz de oferecer alívio e sombra
a quem chega cansado da travessia.

A árvore que me torno
é o meu eixo.
Minha espinha dorsal.

Estou criando profundidade.
Não destruo o que fui,
transcendo.

Mudanças profundas não aparecem —
crescem:
um milímetro por dia,
um insight por vez,
um limite recuperado,
um sonho transformado em compreensão,
uma emoção acolhida,
uma pergunta honesta feita a mim mesma.

Assim, minha árvore ganha
raízes emocionais mais robustas,
tronco mais espesso,
copa mais aberta.

Não estou mais tentando ficar forte de uma vez.
Estou me tornando forte,
e aprendendo a me amar como quem gera
frutos.

E quando o vento sopra vigoroso,
não temo que ele me quebre.
Porque agora sei:
minha força não é rigidez,
mas firmeza.

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Minha vida sem plateia

De mim,
retiro a cruz.
Do outro,
removo o poder.
A nós,
um brinde ao nó que se desata.
A mim,
ofereço a escolha.
Ao outro,
o lugar que lhe cabe.
A nós,
resta o caminho que cada qual decidiu seguir.
Despeço-me
sem me despedaçar.
Ao passado, deixo meu adeus.
Minha presença está onde estou.
No futuro, estão os frutos das minhas escolhas.
Minha vida sem plateia.

sábado, novembro 29, 2025

Verdadeiro Norte

Quero ser sujeito, não objeto.
Quero ocupar meu próprio espaço,
encher-me de mim,
tomar de volta a energia que espalhei pelo mundo,
nutrir-me dela
e devolvê-la ao meu centro.

Quero escolher, e não ser escolhida.
Escolher a mim mesma.
Pertencer a mim.
Conquistar meu espaço interno
e ser soberana do meu território sutil.

Quero recobrar minha força,
meu significado,
guiar meus passos
rumo a mim,
assumindo meu poder e meu propósito.

Quero tomar posse do meu reino interior
e oferecer presença —
essa presença que nasce no eixo e irradia.

E então,
quando tudo estiver em mim,
quando corpo e alma se unirem na mesma vertente,
quero montar meu cavalo
e subir com ele:
conduzindo o movimento,
em vez de ser conduzida.

terça-feira, novembro 25, 2025

Marina

Minha embarcação, outrora atracada no porto,
carregou-se de ideias, ilusões, fantasias
e de tudo o que a vida exige e oferece.
Ficou ali aportada pelo tempo necessário,
até que chegasse a hora de descarregar a carga pesada
que ocupava o convés e afogava os porões.

Quando finalmente abri espaço,
ergui a âncora que dormia no fundo escuro do mar.
Meu navio zarpou em silêncio,
deslizando sobre a superfície turva e espessa das águas paradas.
Foi-se afastando, leve, conduzido pelo vento marítimo
que prometia mudança.

E quando já desaparecia no horizonte
dos olhos daqueles que ficaram,
soou seu chamado profundo —
uma voz metálica que parecia vir
das entranhas antigas do casco.
Seu toque longo, grave, vibrante, quase gutural,
reverberou no ar:

um som que levantou o olhar dos homens em terra
e o voo das aves marinhas.

Todos nós, cada qual a seu modo,
sempre em busca de alimento para a alma.

Meu navio se chama Marina,
e meu caminho — desde o início —
são as águas profundas.



domingo, novembro 23, 2025

Sol do Meio-dia

Os símbolos estão aí;
existem por si.

Seu significado nasce no inconsciente coletivo,
corre como um rio
e deságua no inconsciente do indivíduo,
que pode acolhê-los tal como chegam
ou trabalhá-los
até que revelem outro contorno.

Então pergunto:
o que faço do que fizeram comigo?

Quando elevo meu olhar
acima das circunstâncias nas quais estou mergulhada —
acima das dispersões mundanas que me arrastam
e às quais me deixo levar —
percebo, pelo canto do olho,
as mentiras que comprei
como verdades imutáveis.
E isso me assusta.

É um olhar que me despedaça,
que me retira dos papéis que aceitei sem perceber.
Arranca à força as máscaras que me confortam
e me limitam,
desmancha o falso controle,
expõe-me à minha própria verdade
e me fere
com uma luz que eu nunca me dispus a encarar.

A claridade cresce
até tornar-se o sol do meio-dia
e, nesse avançar das margens,
cega-me.

O mundo externo permanece iluminado,
mas meus olhos, ofuscados,
só percebem escuridão.

Meus sentidos, habituados
ao ruído das vozes,
às tendências gerais,
às demandas do tempo,
agora hesitam.

Recolhem-se,
tateando dentro de mim.
Os pés avançam sobre um terreno incerto,
desprovido das antigas certezas
que antes pareciam inquestionáveis.

Então percebo
que minha liberdade
se limita à dualidade de duas escolhas:

segurar-me na margem desse rio
em busca de controle,
de explicações
e de ilusões;

ou soltar as mãos,
render-me ao fluxo
e deixar que as águas me conduzam
ao desconhecido.

E assim retorno à pergunta primal,
que agora ressoa mais fundo:
o que faço do que fiz de mim?

Os fatos permanecem.
Mas a narrativa — essa, sim — é obra minha.

Visto-me com o que tenho à mão,
como quero.
Costuro, símbolo por símbolo,
a história que escolho viver
a partir disto.

sexta-feira, novembro 21, 2025

Aproximação

Quanto mais nítida se torna minha visão de mim mesma, mais claramente consigo enxergar o outro sobre o qual projetei partes minhas. Antes, eu olhava para fora com olhos feridos e, por isso, só encontrava formas de sobreviver. Agora compreendo melhor: ao desbloquear minha própria percepção, começo a ver a realidade com menos distorção.

A vida externa é um palco onde o inconsciente se expressa. O significado e a importância de algo ou alguém em nossa vida somos nós que atribuímos, pois o poder de influência sempre esteve conosco. Tudo, no fim, é uma questão de decisão interna, ainda que pareça vir de fora.

Os que estão perdidos diante de alguém que começou a se encontrar não agem a partir de si mesmos; apenas reagem ao campo energético daquele que mudou. Suas atitudes não são movimentos espontâneos, mas respostas às emanações de quem cresceu, se moveu e se transformou.

Quem avança não se afasta do outro, mas se aproxima de si, de sua própria grandeza e potencialidade. Nunca se perde ao crescer; o que se perde é apenas o que já não acompanha o novo movimento.

A alma não está aqui para controlar a realidade, mas para interagir com o mundo e se transformar por meio dele. É no diálogo entre o interno e o externo que a consciência se expande.

segunda-feira, novembro 17, 2025

AI – Autenticidade Inerente

É justamente diante daquilo que nos soa mais artificial que se reacende, em nós, o desejo de ser real. Talvez, no fim das contas, precisemos das máquinas e dos artifícios para nos lembrar do que é ser humano.
Todo ser que se projeta para fora, cedo ou tarde, precisará recolher-se para dentro de si para reencontrar a coerência que o integra como um todo.
O mundo artificial nos empurra para fora. A alma, pede retorno para dentro.

domingo, novembro 16, 2025

A arte de se conduzir

É preciso muita disciplina para tornar-se quem se é.
Ninguém pode impedir minha expansão.
A única força que realmente me barra sou eu mesma.

Dentro de mim, o poder que refreia é intenso,
e o que permanece represado também é vasto.
Quando a energia que deveria fluir fica aprisionada,
ela se volta contra mim,
e, paradoxalmente, o que está contido é maior
do que aquilo que tenta contê-lo.
Assim nasce uma pressão silenciosa,
uma concentração de forças que se confrontam.

Por isso, a liberação precisa acontecer aos poucos,
com disciplina e cuidado,
para que não transborde de forma instintiva, caótica, sem direção.
Aos poucos, essa energia encontra seu curso
e se transforma no impulso necessário
para um crescimento mais amplo, firme e consciente,
rumo à liberdade e à independência.

Mas para crescer, é preciso direcionamento.
Os inúmeros elementos que habitam em mim, para tornarem-se úteis,
precisam ser reconhecidos, organizados e conduzidos
como um exército que aguarda comando.

Assumir a própria vida exige reunir o que está disperso,
disciplinar o que divaga
e orientar a energia interior para um propósito claro.

E nenhum comandante existe sem seus soldados.
A liderança se fortalece quando o líder compreende
a natureza da própria tropa interior,
formada por instintos, medos, impulsos, talentos, sombras e potências.
Um precisa do outro para existir.

Conduzir a si mesmo demanda firmeza, equilíbrio e rigor.
A verdadeira liderança começa voltando o olhar para dentro
e submetendo-se, antes de tudo,
à devoção sincera do próprio propósito.

sábado, novembro 15, 2025

A Caminho de Casa

Sinta aquilo que é realmente seu.
Não as projeções, ilusões, idealizações, frustrações, decepções.
Respire apenas o que lhe pertence, o que lhe cabe, o que é.

Ser quem sou parece distante quando mergulho no coletivo das ideias.
Por anos, inúmeros personagens dançaram em um baile de máscaras.
E, por trás delas, havia um ser desejoso de ser visto e reconhecido.

Buscou incessantemente a aprovação alheia.
Subiu montes para ser lembrado.
Foi notado, mas ao custo do esquecimento de si mesmo.
Agora se pergunta pelo sentido.

A própria palavra sentido fala da permissão de sentir.
Mas, ao tocá-la, encontrou um vazio silencioso.

E então, os olhos que tanto procuraram outros olhos
voltam-se para dentro.
Lançam suas flechas contra os próprios portões fechados,
tentando enxergar, através do espelho do outro,
a si mesmo como nunca antes ousou ver.

Deixo de viver no exílio de mim, como estrangeira em território alheio,
e volto para casa.

terça-feira, novembro 11, 2025

A Porta Azul

Certo dia, estava eu a vagar pela estação subterrânea de metrô em meu sonho, um lugar escuro, opaco. O ruído metálico do atrito dos freios dos vagões com os trilhos zumbia uma canção pós-moderna do cotidiano.

À frente, vi uma porta de cor azul profundo. Em busca de ar, de um sopro de leveza, abri-a de uma só vez: um mundo se revelou luminoso do outro lado, uma paisagem ao entardecer, com folhas de outono em tons avermelhados.

Diante de mim havia uma pequena árvore, com o tronco caído ao chão, voltada para um lago cristalino. Nele estava sentado um rapaz branco, de cabelos e barba ruivos, usando um chapéu de palha.

Toda a cena era uma pintura a óleo, com leves movimentos do soprar do vento, como pinceladas vivas. Ele era Van Gogh, e eu o admirava de longe, aquele homem cujos olhos se perdiam no horizonte da tela de sua própria pintura.

Um arquétipo sublime do inconsciente coletivo adentrou meu espaço psíquico pessoal para me lembrar da beleza do mundo.

Quando você pinta um ser humano, como o faz?
Desenha os contornos que o limitam à forma e lhe acrescenta uma expressão única?
Entre as margens que materialmente delimitam o corpo no espaço e a infinitude do espírito que deseja lançar-se além das fronteiras, habita a natureza humana, eternizada em uma obra-prima.

Deixei meus estágios psíquicos moverem-se naturalmente, feito placas tectônicas que se ajustam ao movimento da Terra, e mergulhei para despertar de um sono profundo, como um artista que contempla a própria criação e nela se revela.

sábado, novembro 08, 2025

Eterna brevidade

Por mais que me queiram escravizar em definições,
encarcerar-me na materialidade das coisas,
todo esse intervalo a que chamo vida
é só meu.
Só eu o detenho,
porque sou eu, em mim, quem o vive.
Somente eu, como o eu que sou, experiencio
esse breve intervalo, a vida,
que contém, na brevidade, a eternidade
de meus inúmeros eus,
só meus.

quinta-feira, novembro 06, 2025

O exílio de si

A sombra é um arquétipo antigo e inevitável. Habita cada ser humano como uma presença silenciosa que acompanha os passos da consciência. É o espelho obscuro daquilo que rejeitamos em nós, o depósito das emoções reprimidas, dos impulsos negados e dos desejos não reconhecidos. Ainda assim, é parte essencial do que somos.

Por muito tempo, virei o rosto para não vê-la. Acreditava que ignorar minha sombra me afastaria do que havia de mais incômodo em mim e me aproximaria da imagem ideal que eu criara de mim mesma. Mas quanto mais a evitava, mais ela se fazia presente nas bordas das minhas atitudes, nas reações desmedidas, nas relações que terminavam em ruína. A sombra não desaparece com o olhar desviado; apenas muda de forma, camufla-se nos outros e retorna a mim através da projeção.

Ela é a porção exilada da alma, o estrangeiro interno que se sente deslocado e busca incessantemente um lugar de pertencimento. É o arquétipo do que foi banido e clama por reintegração. Em sua face humana, manifesta-se como insegurança, orgulho, raiva ou medo. Na tentativa de não ser ferido, o indivíduo dominado por sua sombra destrói o vínculo antes que o outro o faça. Crê estar se defendendo, mas apenas perpetua o exílio.

Esse movimento é universal. Todos nós, em algum grau, repetimos o gesto ancestral de afastar o que não queremos reconhecer. O arquétipo da sombra surge, então, como o guardião das partes esquecidas, aquele que preserva, em silêncio, o que a consciência não suportou acolher. Ele contém a energia vital que a repressão desviou. Integrá-lo não é ceder à escuridão, mas recuperar a totalidade perdida.

Quando projetada, a sombra se reflete nos outros. Enxergamos neles os aspectos de nós mesmos que tememos admitir. Por isso o mundo parece povoado de espelhos. O inimigo, o rival, o estranho — todos podem carregar, invisivelmente, fragmentos da nossa própria psique. Reconhecer isso exige coragem, pois implica abandonar a ilusão da pureza e aceitar que luz e sombra coexistem em toda alma humana.

Ao voltar-me para dentro, compreendo que julgar-me desconexa é condenar-me ao exílio de mim mesma. Acolher a sombra é recolher o que foi disperso. Quando essa força é reconhecida, deixa de incendiar os lugares e passa a iluminar caminhos. Sua energia, antes destrutiva, torna-se criadora. O arquétipo, reconciliado, converte-se em fonte de poder interior e sabedoria.

A viagem mais difícil é sempre a que fazemos para dentro. É nela que atravessamos o território simbólico onde o inconsciente fala por imagens e onde cada ser humano reencontra os próprios opostos. Ao fim dessa travessia, compreendemos que a sombra não é inimiga, mas guardiã do que fomos obrigados a abandonar. Integrá-la é o início do retorno ao lar interior, o lugar onde a alma deixa de errar no escuro e enfim se reconhece inteira.

Não te identifiques nem te defendas da imagem projetada no espelho.
Permanece no centro de ti mesmo.

quarta-feira, novembro 05, 2025

O abraço das palavras

Minha voz ecoa
e reflete
em toda e qualquer pessoa
que eu já tenha sido capaz de enxergar.

E toda e qualquer pessoa
que se tenha feito ver
encontrou em meus olhos
o reflexo daquilo
que outrora me habitava
e quer se deixar ver através do outro,
para que eu possa mirar,
quem sabe tocar
e experienciar a materialidade
daquilo que me escapa.

Minhas palavras,
aquelas que deixei escapar do fundo,
do chão,
do assoalho d’alma,
me resgataram do poço,
do lodo,
do sangue.

Foram elas,
as mesmas que inúmeras vezes
sufoquei, calei e desprezei,
a minha tábua de salvação,
o milagre pelo qual esperei.

E se meu chamado,
meu pedido de socorro,
foi atendido, ouvido e respondido
por alguém que eu não esperava
e até então não conhecia,
esse alguém era eu.

Se minha dor,
transmutada e materializada em palavras,
viajar pelo tempo
e tocar um ferido que seja,
para abrandar o sofrimento,
recebo com gratidão
o abraço dessas palavras.

sábado, outubro 18, 2025

O mistério da própria alma

Você está disposto a ser a versão de si mesmo que é, sem se ajustar ao outro ou aos ideais impostos?

O eu que quer nascer pode ser amado ou odiado. Se você o rejeita por medo antes mesmo de conhecê-lo, nunca saberá.

Pode amar uma criatura em gestação dentro de si, desconhecida, que precisa do seu afeto sem garantias, para que dela nasça um novo ser, parte de você?

Pode oferecer amor incondicional ou só amará sob condições?

O desejo de ser aceita, reconhecida, não vem da necessidade de se aceitar, se escolher e se reconhecer como valiosa?

Sou responsável por me aceitar. Não aceite menos do que merece e dê o máximo que puder.

A alma gesta um novo modo de ser, mais inteiro, mais conectado ao próprio instinto. O embrião psíquico se nutre no silêncio e na discrição, para que não seja abortado pela crítica, pelo medo ou pela razão excessiva de padrões impostos.

Você é capaz de amar um ser que ainda não conhece?