domingo, junho 22, 2025

Sopro invisível

O ar que respiro
não se vê,
não se toca.

Ele passa e sequer o notamos,
sem alarde —
presença que sustenta
tudo o que vive.

Instantes sem ele
e o corpo se curva,
em agonia de morte,
privado do sopro.

É cômico
e trágico
que o essencial
seja invisível aos olhos.

Mas ele não reclama.
Não exige gratidão,
nem plateia.

Paira.
Flui.
Entrega-se inteiro
a cada peito que o acolhe.

Está em tudo,
e em todo lugar.
Não conhece muros.
Não pertence a ninguém.

Sopro antigo,
sopro primeiro.
Por ele viaja o som
da melodia que nos compõe.

Sopro divino,
espírito do mundo.

sábado, junho 21, 2025

Fogo da inspiração

Meus pensamentos e sonhos foram tomados e povoados por figuras ilustres que transcenderam seu próprio tempo e pátria. Com elas, dancei a melodia do entendimento; chorei o pranto do desconhecido. Com eles, estendi a mão à procura do numinoso.

A todas as almas humanas que atravessaram a ponte para o meu universo psíquico, onírico — espaço regido pelo inconsciente, que me mergulha e mistura às águas de um coletivo maior— acendo uma chama à luz da consciência, que se alastra pelos campos do que sou.

Fogo criativo, cujas estacas — linhas fortes da madeira de minhas raízes — alimentam e mantêm a trepidar, bravo e brando. Chamas a valsar no compasso do meu caminhar. Por vezes, queima e me consome. Por vezes, aquece e me acolhe. Paixão que toca o terreno sagrado da alma.

Nos olhos que miram, enfeitiçados, se acendem estrelas nas quais orbitam as sombras de si — e tudo o mais que nos torna inteiros. Comunhão entre corpo e espírito nos faz aspirar o céu, o éter, o eterno.

Não procure as estrelas no céu se você não consegue honrar o solo em que pisa.

sexta-feira, junho 20, 2025

Refrigério d’alma

Para muitos, a escrita é refúgio, refrigério d’alma.
Não se escreve para o mundo,
escreve-se para escutar o que em si silencia.
Cada palavra é um sussurro
que escapa da multidão de vozes externas
e encontra abrigo no papel.

Essa escrita não grita —
ela recolhe e acolhe.
Deita-se
como corpo cansado
no leito da linguagem.

É território sagrado da alma que se expressa
sem máscaras,
sem metas.

Ali, somos livres para ser:
espírito suspenso,
pairando no espaço
entre memórias, orações, amores, sabores,
e feridas que ainda não cicatrizaram.

Escreve-se para sarar
e para lembrar:
a pausa também é verbo,
a pausa também é verso.

Descanso.
Cura de feridas emocionais e existenciais.
Escuta.
Repouso psíquico.

quinta-feira, junho 19, 2025

Fênix do mar

Afasto-me cada vez mais de mim em todas as travessias que me recuso a fazer e por trás de todas as máscaras em que insisto em me esconder.

À margem, permanece um eu fincado feito estaca, a medir o nível do mar, observando as marés, dando um adeus em tom de lamento e apatia ao herói ferido que parte mar adentro, em um navio vermelho e vibrante, que choca os olhos insossos.

Ele se vai, rasgando águas pesadas em dispersão; delas, deixa um rastro de espuma branca e pura, que se dissolve lentamente em meio ao azul-marinho do silêncio.

De longe, sopra o sinal sonoro do navio, sumindo no horizonte, deixando à deriva as pequenas embarcações de si — órfãs, quebradas, sem rumo, sem remo.

A mão, num adeus, permanece em riste, até perder de vista o titã do oceano que se vai, deixando os olhos marejados e salgados do pranto.

Aos poucos, esmorece a força do braço erguido, pendendo lentamente até pousar paralelo ao corpo cansado e imóvel. A cabeça lhe pesa sobre os ombros e inclina-se em direção ao chão — duro, seco e frio.

Nos ouvidos, sopra o vento marítimo do passar do tempo das coisas.

Cresce no peito um suspiro profundo, que se esvai vagarosamente pelas vias nasais, num ar quente e pesado, até tocar o frio do mundo — acolhido em observação calada.

Em meio ao meu zarpar e ficar, o que nasce da morte sou eu mesma.

quarta-feira, junho 18, 2025

Peça solta

Quando minha presença me parece inadequada e as vestes da alma não caem bem no corpo que habito, visto-me com a capa da invisibilidade, ocultando-me para me proteger, num gesto antigo de sobrevivência.
Isso me pesa. Gera uma sensação perene de não pertencimento.
Todo ser está fadado ao desejo de pertencer, a um grupo, um lar, uma espécie, como se disso dependesse sua identidade.
Eu me pergunto, em silêncio: será que posso passar? Tenho permissão?
Peço permissão para cruzar os limites, mas os limites de quem?
Vejo que o pedido era interno, era meu. Nesse pedido moravam motivos que me escapavam à consciência.
Agarrada ao desejo inconsciente de fazer parte de um todo, fiz-me em pedaços, fragmentos.
Quero sair da caixa dos quebra-cabeças, essas peças soltas à procura de encaixe, cansadas de se moldar ao espaço que lhes cabe.
Desejo me desvincular do eterno não encaixe, respirar fundo e ocupar o meu próprio espaço.
Ter em mim meu pertencimento. Carregar em mim a minha própria casa e vagar mundo afora, com raízes nas palavras que me expressam.
Mas como me desconectar para, enfim, me conectar?
Um dos maiores medos do ser humano não é somente a morte, mas a rejeição, pois ela lhe parece uma ferida que mata em vida.
Tamanha é sua força que leva as pessoas a cruzarem seus próprios limites inúmeras vezes em busca da aprovação alheia.
Esse movimento mata lentamente, como um veneno de efeito prolongado, corroendo o ser até o completo desaparecimento de sua essência, tornando-o uma massa disforme e moldável pela coletividade.
Nessa dor, encontra um pertencimento, um falso abrigo no vazio de todos.
O medo visceral do olhar alheio, do julgamento e do pensar do outro carrega em si o desejo de controlar a imagem que o indivíduo criou de si mesmo para o mundo, controlar a forma como é visto, a fim de ser aceito e aplaudido.

terça-feira, junho 17, 2025

O olhar que atravessa

Todos os papéis que projetamos sobre os outros provêm de personagens que existem em nós mesmos. Trazemos em nós todos os vilões que desmascaramos, todas as vítimas das quais nos diferenciamos, todos os omissos que julgamos, todos os heróis que admiramos e todos os mistérios que não desvendamos.

O palco da vida se constrói sobre nossa própria estrutura elevada, projetada para as apresentações dos personagens que criamos a partir da ideia que fazemos dos outros. Roteirista e audiência são um só ser, guiado pela luz da consciência que projeta sombras em seu entorno, materializadas no outro.

O observador é também o observado. O olho que tudo vê é o mesmo olho que vê a si mesmo. Todo conteúdo expresso em nossas falas é autoexpressão de nossas personas ocultas, reflexo do olhar romantizado que temos de nossa autoimagem, na qual vislumbramos uma perfeição idealizada.

Atuamos como personagens controlados, cumprindo papéis e roteiros impostos por uma mão oculta, superior à nossa própria vontade. Peças que somos neste jogo da vida, somos também os senhores de nossos passos dentro do tabuleiro forjado.

Que força misteriosa é essa que projeta sobre nós um sinal, transmitido e recebido, conectando-nos a esta imensa rede de dados coletivos da humanidade, que nos molda?

Resta-nos o árduo caminho da pergunta, da interrogação e da recusa à mera mansidão. Somos frutos de nossas próprias emanações mentais, espelhos, antenas transmissoras e receptoras de sinais que ressoam na frequência em que vibramos.

A manifestação não se dá pelo que é justo, mas pelo que é necessário. Em pura expressão de um sadismo existencial, materializamos o sofrimento e perpetuamos pesadelos.

O propósito se projeta em sinais longínquos, numa travessia calada, de baixa visibilidade, envolta por um nevoeiro impossível de se desenhar em matéria. Está distante do toque, tal qual um navio que não tomamos a tempo e que se afasta no horizonte de nossas vidas. É aquele que nunca alcançamos, fantasia de promessas que não se cumprem.

Não é um olhar que projeta, mas que atravessa.

segunda-feira, junho 16, 2025

Anatomia do pranto

Na ânsia de entender o choro,
procurei o formato exato das lágrimas:
sua origem fisiológica,
desencadeada por razões que a razão não alcança,
classificadas em funções, divididas em moldes.

Mas o pranto
pertence ao terreno da não-fisicalidade,
à invisibilidade que deságua em materialidade.

Para tudo, há de se ter um porquê —
uma tentativa de encaixar o éter das emoções
nas caixas do intelecto,
mensurar o indizível, torná-lo tangível.

Tentando entender,
perdi o tino para sentir.

domingo, junho 15, 2025

À Porta

Permaneço sempre à porta,
na soleira.
Pés fincados no chão —
estacas cravadas,
firmes, imóveis.

Dos olhos,
expectativa,
carregados de futuros que não chegam,
jorrando angústias
infinitas.

Na garganta,
a voz engasga,
choro engolido,
sufocado.

No peito,
o peso do laço —
novelo embolado,
com pontas soltas
e perdidas.

Na boca do estômago,
dor funda que perfura,
ferida aberta,
ácida,
corrosiva.

Na mente,
pensamento insistente,
permanente.

Mato-me silenciosamente,
pesando sobre mim o castigo
que evito sofrer
pela mão alheia.

Controlo eu mesma
minha dor e julgamento.

Finalizo a ilusão que comecei,
esticando-a ao infinito,
em meu papel
de vítima...
e algoz
de minha própria vida.

sábado, junho 14, 2025

Olhares que se encontram

Acostumados a olhar em volta, ao redor, com o olhar fragmentado em quantidade: de pessoas, coisas ou de pessoas coisificadas. Um olhar distante, perdido, esvaziado na multidão. Oculto por trás das telas, sem o desconforto de ser olhado, por medo de que se perceba o desejo de ser notado. Ambiguidade que nos fragmenta na ânsia de atrair o olhar do qual tanto nos esquivamos. Jogo de gato e rato.

Mas há o olhar que mira nos olhos de uma só pessoa, mergulha fundo e parece invadir os limites que erguemos contra o outro. Esse olhar incomoda, porque não apenas olha, ele enxerga. Vê o que tentamos esconder e maquiar. Ele desarma e atinge a alma.

Olhos que devoram um ser por inteiro e se mantêm no nível dos olhos que os sustentam, num ato misto de coragem e entrega. Estou olhando para a sua verdade, e é ela que o torna ainda mais bonito.

O meu sentir olha para o seu, e, ao ser compartilhado, atrai-nos mutuamente como ímãs que se arrastam para perto. Este é o movimento de aproximação de dois universos que se orbitam.

sexta-feira, junho 13, 2025

Você que em mim habita

A parceria mais honesta que podemos firmar é com nós mesmos. Não é a única, mas é a principal e nela reside a base da expansão da consciência.

Esse movimento não é uma fuga para fora, mas um retorno para dentro. Ao abrir espaços internos antes ignorados, deixamos de ser cegos de nós para, então, enxergar o outro sem projetar nossas carências.

Partimos de nós em direção ao mundo, moldados pela teia coletiva. Mas à medida que vivemos e refletimos, iniciamos o caminho de volta — árduo, mas inevitável para quem desperta como autor e ator no palco da vida.

Na busca, que é já o encontro, misturamos olhares, nos reconhecemos no outro e permitimos que ele habite os espaços que abrimos em nós. Atravessamos juntos as camadas que nos formam.

O outro entra como um eco da nossa consciência, trazendo à tona o que estava submerso. Meu olhar encontra o seu no espelho da humanidade e juntos, seguimos, lado a lado.

Podemos habitar, por instantes, as histórias uns dos outros, sem nos perder nelas, apenas fluindo no rio da vida, em comunhão entre consciências. Compreendemos, então, que toda realidade nasce do olhar que a observa e que nenhuma visão é definitiva.

A percepção se expande como eco interior, revelando o invisível. São lentes, espelhos, amplificadores da consciência.

Eu sou você que em mim habita. E me reconheço quando experimento você. Caminhamos juntos: você, ao se revelar; eu, ao responder.
Você é você, mesmo sendo eu.

quarta-feira, junho 11, 2025

Onde moro

Vestir-se de si é a indumentária certeira,
mas tornou-se a mais desconfortável,
pois nosso olhar se volta apenas para fora,
sempre além do que sou,
e se perde no querer ser.
Talvez o que eu verdadeiramente queira
seja ter-me como morada — e não o exílio de mim.

terça-feira, junho 10, 2025

Pilar invisível

Escrever é meu trabalho interno, silencioso e invisível ao mundo exterior.
O trabalho externo tem fala alta e parâmetro no outro,
sempre em busca do olhar alheio para autenticação.
A ele estamos habituados.

O labor interno tem natureza árdua,
porque nos acostumamos a buscar algo material,
além de nós mesmos,
para preencher um vazio que, de vazio, nada tem.
Nesse lugar de si mesmo, há escuridão, evitações e desprezos
presos ao padrão de repetição,
até que sejam vistos e alterados.

Ajustar o olhar para dentro é tarefa difícil,
demanda força — não bruta —
mas resistência e determinação.
Resistir ao desejo de fugir,
evitar e permanecer no giro até o cerne,
sem deixar escapar o movimento que puxa para fora,
que se verga à pressão externa
e cede vida a fora.

Procuro o silêncio,
e nele questiono insistentemente:
o que você quer?
A resposta procura respaldo no coletivo,
na narrativa imposta, no papel vendido e absorvido, aceitável.
Novamente, ela quer escapar pela tangente.
Então, mais uma vez, é preciso manter-se firme ao centro.

Quanto do que digo me pertence, me reflete, me diz respeito?
O que falo para outrem está imune ao desejo de pertencer e querer parecer?
Querer dizer, se afirmar, defender,
pedir para dar a cara a tapa,
serve como forma de demonstrar coragem de se expor,
ou meramente ter uma cara para bater ou oferecer?
Para toda cara calçada, uma alma desnuda.

É mais fácil derrubar e ferir algo de carne e osso
do que a uma ideia que não se pode tocar,
imune à materialidade de que sou feita,
me deixando vulnerável a ela.

Meu eu, mensurado pelas métricas estrangeiras a mim,
me imputa ânimo para agir diante do quê, afinal?
Esse olhar, enviesado,
partido em dois pelos limites da dualidade,
define o cenário que posso enxergar.

Me permito adentrar a porta estreita do desconhecido de si mesmo,
universo do desconforto,
solitário,
desprovido de garantias,
fluido ao nível do insuportável,
sem mapas e manuais de orientação.
Me pergunto: como confiar?

Aqui estamos completamente perdidos,
sem esteio que nos apoie.
Afinal, o pilar interno é invisível.

segunda-feira, junho 09, 2025

Espírito da língua

Toda e qualquer fala que eu traga em meu peito,
gestada no calor da minha alma,
virá à superfície carregada de minha própria história,
permeada pela herança linguística
que comungo através da língua portuguesa.

Minha língua é um rio fecundo,
que verte palavras e expressões
repletas de narrativas ancestrais,
navegando pelo tempo,
desenhando o contorno da minha realidade
e do meu olhar.

Minhas palavras brotam no solo fértil da língua portuguesa,
rica em nuances que se mesclam de um continente a outro,
traduzindo em som e ritmo
as dores e as alegrias de povos
que partilham de uma mesma melodia
e musicalidade ao se expressar.

São ondas sonoras
que unem almas distintas
e, ao mesmo tempo, similares,
cúmplices do inefável espírito que comunica.

Como o pescador que lança sua rede ao mar
na captura de peixes para nutrição e sustento,
envolve-nos a todos uma mesma música:
o português.

E, caso minha canção chegue aos teus ouvidos,
saiba que nela está o meu sentir,
condensado em palavras
pela língua que carrego como mãe.

Minha língua é a carruagem que transporta o espírito,
em estado de suspensão,
à ação traduzida em símbolo de identidade.

domingo, junho 08, 2025

Irrompe o inesperado

Acima, o céu: o éter.
Abaixo, o movimento: o trovão que irrompe em lampejo.
Quem segue o fluxo natural torna-se autêntico, sincero.
A sinceridade mora no agir, não apenas na ideia.

Ele surge — súbito —, vestido do inesperado,
carregando a inocência que nos devolve ao estado original.
A batida primordial do coração anuncia: boa fortuna.

O movimento criativo tem valor em si,
não no olhar que calcula resultados.
A realidade imposta, viciada em métricas,
corre contrária ao fluxo natural.

O plantio, a rega, o cuidado paciente
são soterrados pelo ímpeto e pelos artifícios apressados.
Tudo se mede em relação ao que está fora:
pura ilusão de controle.

A via se estreita, perdendo-se em becos de possibilidades vazias,
falsas promessas.

Dos bueiros sobem gases tóxicos;
vê-se gente zonza, inebriada — recipientes vazios.

As sementes tornaram-se estéreis.
O trabalho, infértil.
O peso dos corpos rachou ao meio
o espírito que anima.

sábado, junho 07, 2025

Jazz da alma

A noite é o cenário onde vagam meus olhos.

Meus passos sós ecoam pensamentos compassados.

Caminho sob o ritmo da batida seca do sapato sobre o asfalto, de onde emana o brilho artificial das luzes dos postes e faróis dos carros, contraste com o negro noturno: cor sobre a pálida solidão.

De longe, sopra uma brisa suave em meu rosto, trazendo consigo uma melodia distante, introdução à partitura, do trompete chorando no vazio da noite.

O toque intimista me chama a encontrá-lo na próxima esquina.

O homem e seu instrumento — um só ser.

Do objeto içado ao toque dos lábios brota a harmonia do fôlego humano: sopro criativo, improviso sobre essa realidade forjada que sufoca.

Sigo o som harmônico e rítmico da liberdade inventiva, desligando-me dos grilhões coletivos, conectando-me à melodia íntima da improvisação: espontânea, única e irrepetível — própria de um homem humano.

Deixo ir e tocar o jazz da alma que performa na noite, na solitude.

Conduzo e me deixo conduzir pelo fluxo musical deste ato da vida.

sexta-feira, junho 06, 2025

Revolução Silenciosa

O movimento mais revolucionário que uma pessoa pode empreender é a transformação do seu cenário interno. Mais do que levantar bandeiras e defender grandes causas externas, é o ato de olhar-se no espelho à procura de sua própria verdade, mover-se rumo a si mesmo, em busca de solo fértil, de seu espelho d'água, isento da contaminação externa que borbulha em caminhos equivocados e herdados, ávidos por nada.
Esse avanço desbravador pelas próprias terras demanda a coragem de confrontar narrativas impostas, sempre firmadas sobre os mesmos papéis: oprimido e opressor, vítima e algoz, num eterno dualismo em que forças opostas se anulam mutuamente. Esse olhar, que se projeta para fora, mergulha na ilusão de uma solução que está sempre além, distante, afastada da realidade última: nós mesmos.

O Vício da Possibilidade

O inconsciente não desperta fantasmas inúteis. As figuras que aparecem em sonhos e devaneios trazem mensagens do nosso interior, que precisa ser explorado repetidamente.
Padrões repetitivos não devem ser subestimados: são as paredes do labirinto, onde está codificada a chave que ativa nosso Self, libertando-nos das amarras da mente. A individuação acontece quando paramos de lutar contra os fantasmas e começamos a dialogar com os símbolos que eles representam.
No centro do labirinto está o Self — o núcleo da totalidade psíquica — e o caminho, embora pareça nos fazer perder, na verdade nos ensina a nos encontrar.
O labirinto não é só um espaço, mas um processo. Cada volta aparentemente inútil é um avanço na espiral da individuação. A chave está na parede, que é interna. A mente, com suas crenças, medos e narrativas fixas, se transforma ao ser decifrada.
Aqui, o observador é também o observado. Ao perceber seus próprios ciclos, a realidade muda. A estagnação dá lugar à observação ativa de si, alterando a consciência.
Esse movimento gera desconforto pelo tempo “perdido” na estagnação, provocando culpa, medo e autopunição. Mas o atraso só existe na realidade que criamos, onde corremos atrás de possibilidades que nos paralisam, com medo de falhar.
O medo de escolher errado nos mantém suspensos, viciados no desejo idealizado que nunca se realiza, pois, ao concretizá-lo, o ideal se desfaz.
Nos sonhos, a presença de outras pessoas serve apenas para materializar a mensagem do inconsciente. Nossa mente, ancorada na materialidade, precisa de imagens e arquétipos para acessar conteúdos inconscientes. Sem imagem, não há ponte entre inconsciente e consciência.
O nó que bloqueia o movimento está entre o desejo de integrar e o medo de falhar. O impasse paralisa.
O medo quer me manter esperando, buscando a ação “correta”, e evita que eu me arrisque, como se a possibilidade fosse mais valiosa que a realidade. Dentro da ação, o resultado é irreversível; se for um erro, não haverá mais chance de acerto. O medo protege da falta de garantia.
É preciso romper com o vício da possibilidade e aceitar que não existe ação perfeita ou garantida — apenas aquela que se escolhe conscientemente, assumindo o risco inerente à vida.
O que eu quero não é a perfeição do possível, mas a imperfeição do real.
Tudo que se repete — erro, medo, demora, autossabotagem — é um código simbólico que, ao ser decifrado, aponta a saída. O padrão é prisão e mapa ao mesmo tempo. Não se trata de evitá-lo, mas de compreendê-lo: cada repetição é um chamado para expandir a consciência e sair do automático.

quinta-feira, junho 05, 2025

Pessoa

Fernando Pessoa: suas palavras desnudam-lhe a alma diante de nossos olhos e nos encantam e deslumbram com a beleza de sua forma, ao mesmo tempo profunda e intangível, mas acessível ao nosso coração. Não me canso de admirá-lo.

Red Flags: O Perigo que nos habita

Vivemos tempos em que a atenção aos sinais de perigo se tornou quase uma exigência cotidiana. "Red flags" se tornaram parte do nosso vocabulário emocional, como se a vigilância constante fosse a única maneira de evitar a dor. Mas será que, ao focarmos tanto no que pode nos ferir, não esquecemos de olhar para aquilo que, silenciosamente, também nos habita?

Atualmente, fala-se tanto na importância de estar atento às ameaças externas, aos perigos que o outro representa em relação a nós mesmos, buscando nos proteger. Mas, afinal, de que queremos proteção?
De abuso, invasão do espaço íntimo, decepção, desilusão?

Aprendemos a erguer barreiras, mas será que também aprendemos a nos aproximar? Me parece que não...

É preciso prestar atenção às “red flags” de si mesmo. Nosso olhar está sempre voltado para os sinais que enxergamos no outro, mas raramente olhamos para os nossos próprios sinais de alerta. O problema está sempre lá fora, mas será que ele também não habita dentro de nós, justamente porque vivemos focados nele?

Realizamos a tarefa de conservar nossa essência e verdade interior a todo custo — mas… a que custo?

Essa reflexão parte de uma série de fracassos que vivi ao me impor meias verdades. Tentativas de me proteger ou de me adequar, que, no fim, apenas me afastaram de mim mesma e das relações que poderiam ter sido mais autênticas.

Talvez o maior risco não esteja apenas no outro, mas na nossa dificuldade de reconhecer os sinais que emanam de nós mesmos. O perigo que nos habita é, muitas vezes, aquele que mais negligenciamos e, é ele quem mais nos afasta da possibilidade de encontros genuínos.

quarta-feira, junho 04, 2025

Eterna Estrangeira

Os trechos da vida que me tocam
são os que mais falam de mim —
uma beleza desconhecida,
oculta nos bastidores do que posso ver.

O desejo revela
mais sobre mim
do que sobre o objeto,
alvo longínquo.

Um amor que só se permite à distância,
não se deixa aproximar ou tocar,
por medo de macular o que é puro,
como se, para salvá-lo,
eu precisasse conservá-lo
sem uso —
amor platônico, inútil.

Essa minha parte desencaixada,
imune às exigências do mundo,
é meu cerne, meu núcleo.
E eu a odiei —
desprezei minha própria essência
para me moldar onde nunca coube.

No esforço de seguir
sem engolir de todo a narrativa
imposta pelo coletivo,
fracassei duplamente:
entre me moldar
e me aceitar.

Estou presa nesse cabo de guerra,
nessa disputa sem fim
entre opostos
que não concordam.

Sigo estrangeira —
em meu próprio mundo,
em que minha alma não se molda
e meu corpo não se encaixa.

Nessa eterna não-pertença
mora a semente
que, sem rega, jamais brota:
o singular que sou,
que clama por viver segundo minha própria medida.

O que me desconcerta e me tira o fôlego
pertence ao espaço não integrado de mim —
a identidade que escapa,
beleza estrangeira
que sinto não me pertencer.

Não mora lá fora,
pulsa dentro,
no aguardo de conexão.

É minha, mas parece outra —
de outro lugar,
outra vida —
em um estranhamento de si,
idioma incompreensível,
imbuída de símbolos e mistérios
indecifráveis.

Cá estou,
presa entre dois mundos.

terça-feira, junho 03, 2025

Transfiguração

Visto-me daquilo que me assombra,
acreditando que, assim, estarei a salvo do predador que afirmo ser.


Estou acuado,
à procura de salvação,


sem em nada encontrar amparo
além de mim, tão fraco.


Visto-me de algoz,
me apresento invencível.


Torno-me o veneno que me dão de beber,
para evitar a morte,


para evitar a queda.
Afirmo ser tudo aquilo que me ameaça,


me torno as sombras que me seguem
e me asseguram.


Sou eu mesmo:
meu objeto de medo e repulsa.


Estou como um cão que persegue o próprio rabo,
sem nunca alcançá-lo.


Na ilusão de controle,
abandono, por completo, quem sou —


e me entrego, rendido,
ao que fiz de mim.


O que vejo é o que sou

O que vejo
é o que sou.

Não existe um lugar a se alcançar
além daquele onde já estou.

Não tem como ser de outra forma:
não posso partir de um ponto
de onde eu já não esteja.

Não há resposta
fora da experiência presente.

Tudo o que posso ver
reflete o que sou,
do contrário, me seria invisível
aquilo a que não me toca a consciência.

Não posso falar
fora do que sou.

Meu mundo e realidade sou eu,
porque é a partir de mim
que posso caminhar
e enxergar
o que digo estar fora de mim.

Mas a forma como vejo o que está fora
reflete o que está em mim.

Tudo aquilo que está além de mim
me escapa,
e, para mim,
não existe.

A resposta está
no próprio olhar que pergunta.

O olhar que busca
é já o encontro.

segunda-feira, junho 02, 2025

O colapso que revela

Pelas rachaduras dos muros que ergui contra mim, vejo entrar uma luz. Permito-me aproximar um pouco mais do colapso da estrutura e olhar por entre as frestas, à procura do desconhecido que se oculta à minha consciência.

Mãe

Mãe é a janela aberta por onde entra o sol que aquece todos os cantos da casa. E essa casa é o meu coração.

Sob o Sol

Estrela que embala os animais em cálido adormecer,
Guia luminoso dos pássaros, em busca de sustento,
Fonte ardente onde os répteis se rendem, em banhos imóveis,
Corpo celeste que nos traça a órbita e nos dá direção.

Cá estamos, no caos, sob sua luz,
Irradiando-se sobre fracos e fortes, sem distinção.
Sempre dançamos entre o desejo de expor-nos
E a urgência de proteger-nos dessa força vital.

Sementes trazidas de terras longínquas e misteriosas
Eclodem sob suas bênçãos silenciosas.

domingo, junho 01, 2025

O Que Me Habita

O questionamento sempre foi uma constante na minha vida. Minha imagem, ou identidade, parece ter se formado a partir de perguntas, transformando-me numa grande interrogação.
Sinto que a certeza das coisas sempre me escapa, como uma mão que tenta segurar o ar entre os dedos, sem considerar que tal elemento se destina ao inspirar e expirar da respiração que nos mantém vivos — de natureza livre e fluida —, e não ao agarrar e reter.
Os olhos estão sempre à procura de respostas, mas a busca devolve ainda mais perguntas, numa equação que nunca se resolve.
Posso até me esconder do olhar alheio e acreditar que estou livre, mas... e do meu olhar que me vê através do olhar do outro? E do meu olhar que se dirige ao outro, como uma flecha apontada? E do meu olhar que se volta a mim, como uma arma carregada? Até que ponto estou, de fato, livre?
Se sou eu quem me quer, sou eu quem não me tenho. Estando em mim, mas não me possuindo, sigo tateando os móveis da casa no escuro: guio-me pelo posicionamento, mas a certeza de cada coisa em seu lugar me escapa, e me faz tropeçar. Saio de casa e volto hesitante, como quem esquece as chaves.
O tempo todo me esqueço e me lembro de quem sou. O que vale a pena, em mim, é somente aquilo que me habita. 
O mistério das coisas — e de mim mesma — me atravessa de uma ponta a outra. As certezas, tão distantes de me habitarem, parecem antes me desconstruir como ser. Sigo me afirmando na não-afirmação, buscando moldar o que não tem forma, entender o incompreensível, sondar o insondável. Coloco-me numa posição de eterna viajante, em busca de...

sábado, maio 31, 2025

Banquete das Forças Ocultas

Minha alma é como as águas de um rio subterrâneo, que passa sem que alguém possa ver.
O de baixo nutre o de cima. O interior sustenta a superfície.
Aqui, as sombras também podem falar; elas têm seu lugar à mesa.
De uma ponta a outra, todos se sentam reunidos: uns tão alheios, outros compenetrados; alguns são etéreos, outros, densos, feito matéria.
Eletricidade e magnetismo compartilham uma só refeição.

sexta-feira, maio 30, 2025

Vídeo game da vida

No videogame da vida, nada se move porque você não se move.
Temendo mover-se e errar, erra-se na estagnação.
Se olhar para o outro como parceiro de jogo, e não como mero adversário, por meio das narrativas impostas aos players, começamos a nos mover adiante — e não em círculos.
Seguindo fielmente o script do jogo, tornamo-nos NPCs: jogadores não jogáveis, sem protagonismo sobre a própria vida.
Sim, fomos programados, somos programáveis, bonecos coadjuvantes; mas, diante disso, não pare de jogar.
Jogue, permaneça no jogo, mas aprimore-se e mova-se em direção a novas fases.
O simulacro é inevitável, mas crie, neste jogo criado, suas próprias experiências e aprendizados.
O que puder ser de si, seja. Solte, o quanto puder, o espelho coletivo de ações e reações.
Não é se isolar do todo, mas se unir a ele a partir de si mesmo.
O coletivo que se dispõe à união genuína — e não à mera massa de manobra — é poderoso, e quem detém o poder está ciente disso, programando o sistema a fim de manter o jogo sob controle.
A identidade é um muro invisível de controle sobre aquilo que não tem forma nem se pode moldar.
Tire os dedos dos botões que te definem e conduza a si mesmo neste jogo.

quinta-feira, maio 29, 2025

Diante do inevitável

Não há meios de expor minha essência.
Se o fizer, o que será desse corpo que me reveste?
A imagem forjada para proteger e sustentar os ossos e vísceras sob minha pele irá desaparecer.
Para me mover em meio às dissonâncias, minhas e alheias, foi preciso um exército de carne e osso.
A essência foi revestida pela matéria bruta e isso, sem dúvida, a endureceu; os muros erguidos oprimem.
Toda e qualquer falha e disparidade entre o que há fora e o que há dentro se converte em trincas, rachaduras, buracos, feridas por onde escapa o sangue vital.
O rei de um reinado falido gestou um exército corrompido.
Do alto da torre, nada se enxerga além de grande confusão; aos poucos, o caos se instaurou.
A mão que move as peças sobre o tabuleiro de xadrez congelou em xeque-mate.
O rei, em seu desprezo pelas coisas mundanas, é ele mesmo o objeto de seu desprezo.
A torre de onde busca visão ampliada, numa posição privilegiada, está ruindo,
lentamente se dissolvendo em partículas inquietas que dançam no ar; seus olhos marejados observam como quem nada pode fazer diante do inevitável. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Saberes à Prova de Fogo

Livros banidos pelo fogo lamentam sob o trepidar das chamas da ignorância.
Saberes servidos à mesa errada podem desandar.
Paladares imaturos não apreciam sabores exóticos.

Resistências que nos impuseram bloqueios
minaram o acesso a fontes autênticas
e nos deixaram à míngua,
conduzindo-nos à fome.

Aos pequenos que queimaram obras grandes: pobres almas, jogadas à miséria.
Volta e meia, cessa a combustão de um homem que se verga ao chão das ilusões.

Atear fogo sobre palavras impressas não apaga o sopro criador.

As ideias sobem do solo ao céu,
em uma fumaça espessa que se dissipa no tempo, através das eras,
com odor carregado de matéria orgânica, bruta, vital.

Cedo ou tarde, o saber renasce das cinzas.

terça-feira, maio 27, 2025

A mordida do transcendente

O transcendente me habita como quem morde,
quebrando com firmeza o que me paralisa.
Rasga véus, desfaz nós,
rompe bloqueios
que, silenciosos, me impedem de seguir.
 
Sussurra:
— Cuidado com o excesso,
não te firas ao tentar ferir o que te prende.
A mordida precisa ser precisa, justa, necessária.
 
E então, após o estalo do que se quebra,
vem o alívio, e a fome revelada.
 
— Do que te alimentas agora?
— O que te nutre, após romper as cascas e os elos?
 
Aprendo que a força não é apenas a de romper,
mas, sobretudo, a de ensinar a escolher o alimento certo,
a nutrir minha essência com aquilo que me sustenta e me faz crescer.
 
O transcendente me move:
da ruptura ao cuidado,
da dureza à suavidade,
da fome à sabedoria.
 
Me sacio na oferta de luz à consciência.
 

segunda-feira, maio 26, 2025

Dom da quietude

Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.

Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.

Mas não te enganes com minha calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.

Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.

Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.

Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.

O poço

A poesia me atravessa como quem volta para casa.
Entendo: a mágica das palavras não é me levar para longe,
mas me devolver ao centro, ao calor do pertencimento,
ao lugar onde todos os sonhos se assentam; neles, e deles, faço parte.
E, ao emergir do poço, com o balde cheio,
volto à rua, ao dia,
sabendo que a poesia me ensinou a não negar o vazio,
mas a habitá-lo, com ternura e espanto.