Quanto de mim sou eu mesma, senão as mil máscaras com as quais me apresento?
domingo, maio 25, 2025
Silêncio Intrauterino
Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.
Prestes a me soterrar, a umidade e
o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas
paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.
As vozes... de quem são as vozes
que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de
mim, ouço emanar.
sábado, maio 24, 2025
Ler e Ser Lida
Trigo d’alma
sexta-feira, maio 23, 2025
Tudo Só Ei de Ser Eu
Tudo só ei de
ser eu.
Band-Aid Afetivo
O desespero pelo outro carrega, em si, o desprezo por si mesmo — espíritos aleijados à procura de muletas.
Não se busca afeto verdadeiro, mas apenas fantasias projetivas da carência de si.
Temos, então, o Band-Aid afetivo: um mero curativo descartável para feridas que nunca cicatrizam.
quinta-feira, maio 22, 2025
Epopeia cotidiana
quarta-feira, maio 21, 2025
Fernando Pessoa
terça-feira, maio 20, 2025
Colapso da viga mestra
E esses
grilhões de elos duros? Falta-me o olhar que encontre ferramentas para
removê-los. Onde se esconde o impulso do ato? Persiste a inutilidade das coisas
que me açoitam a mente como vento em redemoinho, o cansaço do braço que se
estende além dos limites e quase alcança — mas quase... — e então deixa cair,
despedaçando aquilo que tanto se almeja.
Pudera eu
deixar cair e despedaçar-me em rendição, simplesmente entregar-me, deixar-me
levar, confiar, remover de uma vez a viga mestra — estaca cravada, firme na
terra — e deixá-la mover-se como um bambu que verga no vento.
Ai, se eu me
permitisse curvar ao chão para arrancar esta erva, extrair-lhe todo o corpo, do
caule à raiz, e mastigar mais uma vez o amargo das folhas que por anos
temperaram o chá.
O tempo
permeia o traçado do relógio, gira ininterrupto, constante, no agora — e essa é
a última hora antes do próximo badalar. Aproxima-se o último trem, que reduz
vagarosamente sua marcha, aproximando-me do embarque. Temo deixá-lo passar. Os
pés não se movem, nem os joelhos se dobram; estão fixos na estação, presos na
fronteira. O corpo se congela na iminência.
O pedido de
socorro não verbalizado, engolido na fraqueza da força, não irrompe feito
trovão. Quão espessas são as paredes dessa represa? O colapso da estrutura
imóvel é certo diante de uma força superior, que pousa sobre os ombros rijos
suas mãos — leves e pesadas — empurrando-os para adiante, puxando-os para si,
em um abraço de força desconhecida.
segunda-feira, maio 19, 2025
Escritor agiota
domingo, maio 18, 2025
Oração da transmutação
Permaneço para transmutar.
sexta-feira, maio 16, 2025
Navegação com o I Ching
quarta-feira, maio 14, 2025
Solo antigo
terça-feira, maio 13, 2025
Quem de mim sou eu mesma?
domingo, maio 11, 2025
Na Cauda do Tigre
Não há bússola, nem constelações visíveis. Nenhum mapa pode guiar por esse
espaço de dentro. Aqui, é preciso render-se a uma força invisível, ancestral e
implacável — uma presença silenciosa e insondável que me conduz.
Em prece muda, invoco um poder
psíquico do fundo do poço interior — e ele vem: uma sombra indivisa em mil
fragmentos. Era um campo minado, cuja travessia exigia cuidado e respeito, como
a marcha de um soldado em formação, num ritmo sincronizado e coeso.
Aqui, aconselha-se agir com
cautela, como quem pisa na cauda de um tigre. A prudência é a única armadura
possível diante dos titãs, para não ser engolida de uma vez pela própria fera
ou perder-se no oceano abissal do inconsciente.
O poder interior suplanta o exterior; o núcleo se sobrepõe à superfície; o inconsciente supera o consciente — um vilarejo não pode guerrear com um império.
A mim cabe a reverência ao fogo sagrado da criação, onde qualquer faísca pode
ser o gatilho que inflama a chama e se alastra pela plantação.
sexta-feira, maio 09, 2025
Penumbra
Sob memória
Os que escolheram o esquecimento,
que se reconheceram na trama geral,
abraçaram seu papel além do campo de guerra,
além do céu e da terra.
Permanecem firmes no posto inalcançável à memória,
livres do peso das lembranças corrompidas.
quarta-feira, maio 07, 2025
Inteligência
Não se deve confundir raciocínio
lógico com inteligência. O primeiro está na superfície, enquanto o segundo
demanda profundidade. Inteligência vai muito além de conhecimento acumulado,
aplicação de fórmulas, leitura de mapas e manuais. Ela provém de um saber
interno que absorve, questiona e reflete, em um movimento fluido, daqueles que
se permitem não apenas racionalizar, mas verdadeiramente sentir, aplicar e
interiorizar o aprendizado por meio da experiência viva.
terça-feira, maio 06, 2025
O fantasma das massas
Nosso zeitgeist (espírito do tempo) tornou-se o fantasma das massas, movendo as cordas do ventríloquo que cada um se sujeitou a ser. Ao se submeter ao papel designado pela coletividade, o indivíduo abre mão do espírito da profundidade: vira as costas para o cerne de seu ser e fica à mercê da oscilação do pêndulo que sobe e desce conforme os ditames da sociedade.
Roteiros e ruínas
segunda-feira, maio 05, 2025
O silêncio da origem
domingo, maio 04, 2025
O cântico das oposições
quinta-feira, maio 01, 2025
Diálogo entre oceanos
Cá estamos nós dois, permitindo-nos navegar em devaneios no mar um do outro. Nossos pensamentos emergem, emanados do mais profundo oceano abissal das emoções. Nossas vozes se traduzem em palavras na superfície das águas, e as deixamos vagar livres, leves e soltas, até que encontrem, em nossas margens, um porto seguro onde possam atracar os nossos sentimentos.
Soberania interna
quarta-feira, abril 30, 2025
Livra-me
Esquecidos
nesse mar de vozes que clamam por aprovação,
vamos nos apagando de nós mesmos.
Habitamos a superfície,
onde todos se veem, mas ninguém se enxerga,
com medo de mergulhar
e nos perder nas profundezas do esquecimento.
Quem sou eu,
se não há quem saiba,
ou chame
pelo meu nome?
terça-feira, abril 29, 2025
Entre a Imagem e a Verdade
Em tempos de validação externa, erguem-se fachadas imponentes como castelos — harmoniosos por fora, mas caóticos por dentro. À primeira vista, parecem conter força e significado, mas basta adentrar suas muralhas ilusórias para encontrar um vazio profundo: um salão desabitado de autenticidade. Ali, ecos de vozes alheias moldam imagens de padrões repetidos, cuja pressão do coletivo ofusca a centelha do ser.
Nesse labirinto de espelhos, buscamos incessantemente o reflexo do outro para
nos reconhecermos, enquanto nos esquecemos de habitar nossa própria imagem.
Um simples peão, à margem do tabuleiro, pode, um dia, tornar-se rei — não pela
aclamação das massas, mas pelo despertar do soberano interior. Sua coroação não
acontece sob aplausos, mas no silêncio sagrado da alma que, enfim, aprende a
reinar sobre si mesma, assumindo para si o próprio poder.
domingo, abril 27, 2025
Solidão coletiva
Em nossa sociedade narcísica,
erguemos muros invisíveis ao redor de nós mesmos, transformando-nos em
fortalezas de segurança máxima contra tudo e todos. Lá dentro, sonhamos com uma
liberdade que nos negamos a viver. Divididos entre juízes e vítimas — por
aparência, posição social ou qualquer outro critério ilusório — seguimos rumo a
solidão coletiva.
Falsos faróis
Somos guiados pelos faróis do medo,
que não emanam nada além de luz artificial.
Tememos cair nas sombras do esquecimento
e, paradoxalmente,
é justamente para onde mais tememos que caminhamos.
Sê tu mesmo o farol de teus barcos,
que, um a um,
deslizam leves como folhas de papel
sobre a superfície revolta de tuas águas,
envoltas em partículas de luz
que lapidam a alma do buscador.
quinta-feira, abril 24, 2025
Poema a ferro e fogo
Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.
Feridas de sangue,
vertido em silêncio.
De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.
Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.
Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.
Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.
Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.
Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.
Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?
Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.
Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.
Entrego minha vida
ao fogo da criação.
Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.
Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.
Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.
Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.
Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.
E dela fazer criação.
O que antes era peso
será agora fundação.
Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.
Não aguardo o sinal.
Sou eu o sinal.
quarta-feira, abril 23, 2025
Entre Linhas
domingo, abril 20, 2025
sábado, abril 19, 2025
Humana
sexta-feira, abril 18, 2025
Realidade virtual
Casas vazias
Estrutura secreta da colmeia
quarta-feira, abril 16, 2025
Linhas sem Margem
Almas silentes
como quem se esconde do sol
domingo, abril 13, 2025
Cartografia da Alma
sábado, abril 12, 2025
Marcha dos Postes
Estendo a mão e, de longe, dedilho os fios de alta tensão como cordas de um violão, acompanhando o som que toca no rádio e me leva distante em pensamentos.
Toco a vida como quem toca um novo instrumento: desafino, acerto as notas, deslizo, encontro o tom — e então vibra o coração.
sexta-feira, abril 11, 2025
Latência
segunda-feira, abril 07, 2025
Trincheiras do eu
Crepúsculo psíquico
sexta-feira, abril 04, 2025
Subsistência 1 X Existência 0
A busca pela sobrevivência e pela
subsistência despende uma grande quantidade de energia, drenando parte da força
que poderia nos impulsionar rumo às camadas mais profundas de nossa psique. O
tecido social forma uma teia que nos envolve coletivamente na materialidade
última, turvando nossa visão para as inúmeras nuances sutis de nossa
existência. Segue o jogo da vida, com um placar imune às justiças, opiniões e
crenças incontáveis.
quarta-feira, abril 02, 2025
Incompleta
domingo, março 30, 2025
O peso da guia cega
quinta-feira, março 27, 2025
Verbo e Alma
Vira-lata Caramelo
quarta-feira, março 26, 2025
Palavras
Dicas de como se proteger de ataques gratuitos na internet:
Ao utilizar figuras de linguagem, como a ironia, faça seu comentário e, logo em seguida, adicione, entre parênteses ou colchetes, uma explicação de que se trata de uma ironia, esclarecendo sua real intenção ao empregá-la. Se possível, peça desculpas pelo incômodo de causar desgaste mental ao levar as pessoas a refletirem sobre o tema proposto.
Espero ter ajudado. Sigam-me para
mais dicas de sobrevivência no ambiente virtual (isso foi uma ironia, pois me
refiro a dar dicas sobre a falta de senso alheio na interpretação de texto; por
isso, peço perdão).
Brincadeiras à parte, quero
apenas trazer à baila uma reflexão sobre os tempos de tensão em que estamos
vivendo. As pessoas estão tão reativas que não param mais para refletir sobre o
real sentido do que se quer dizer. Elas não estão mais compreendendo sátiras e
ironias, tomando tudo ao pé da letra. Isso reflete nosso imediatismo diante das
coisas.
Estamos banindo as figuras de
linguagem de nossa comunicação em nome desse afobamento em reagir de pronto,
julgar de imediato, sem parar para refletir, interpretar e compreender o
sentido das coisas. Falta clareza em meio a esse caos. Estamos constantemente
armados, prontos para alvejar aqueles que ousam levantar questões.
O excesso de informação e o
aceleramento do tempo têm nos acarretado crises de ansiedade, falta de senso e
entendimento.
Pare, respire, inspire-se.