quinta-feira, novembro 24, 2011
Não conte comigo
quarta-feira, novembro 16, 2011
Limite
quinta-feira, outubro 20, 2011
Um dia
domingo, outubro 09, 2011
Revolução pessoal
Para promover a transformação, a
renovação, a revolução, é preciso partir de si mesmo e não apenas de autores,
manuais, ideais, opiniões alheias, filmes, professores, cursos, entre tantos
outros. A revolução começa internamente e, a partir daí, se expande para o
mundo externo como consequência da transformação que já explodiu e inundou todo
o seu ser, permitindo que você enxergasse com seus próprios olhos a ilusão
erguida diante de si como realidade.
Não se trata de concordar ou
discordar desta ou daquela posição; não estamos falando de um simples
posicionamento, mas daquilo que é. Quando a transformação torna-se parte do
próprio ser, a consciência se desloca em direção ao caminho da revolução, tornando
irresistível a mudança à sua frente.
Não se trata de fé cega ou de
crer sem ter experimentado por si mesmo a implantação de uma nova consciência.
Não se trata de seguir ou aceitar este ou aquele dogma, estas ou aquelas
colocações e posicionamentos. Não há fé nem religião, mas sim questionamentos,
pois, ao visualizarmos pessoalmente a realidade em que habitamos sob um
panorama mais amplo, somos levados a refletir e a enxergar além das imposições
externas.
Não adianta concordar com quem
quer que seja; é preciso ver e perceber, por si só, a ilusão em que vivemos.
Quando isso acontece, tudo se torna tão claro que essa realidade torna-se
inaceitável. É necessário partir do coração, despido de sentimentalismos, e da
razão, livre de condicionamentos, alcançando a lucidez suficiente para perceber
o cenário erguido e, por meio dessa percepção, abrir, pouco a pouco, as
cortinas dessa grande peça. Então, aquilo que tomávamos por tudo perde o
sentido, dando lugar a um mundo infinito de possibilidades, um desconhecido
pronto para ser explorado por nós mesmos, sem depender de opiniões alheias,
posicionamentos consagrados ou visões especializadas. A jornada passa a ser
trilhada conforme nosso verdadeiro ser, e não segundo aquilo que nos foi
imposto ou empurrado goela abaixo.
É um caminho no qual somos
senhores de nós mesmos, capazes de decidir de forma independente e confiante,
sem nos basearmos rigidamente nisso ou naquilo. É preciso conquistar a
confiança em nossas próprias capacidades, ainda não exploradas e muitas vezes desconhecidas,
e nos empenharmos no desenvolvimento livre e ilimitado do potencial humano, em
harmonia com o todo, em unicidade e não em fragmentação. Não há superioridade
de um grupo sobre outro; o que existem são seres que fazem parte de um mesmo
organismo, cujo desempenho só será eficaz se houver colaboração e trabalho
conjunto, em vez de submissão a divisões inúteis e ilusórias que apenas
destroem esse organismo e não levam a lugar algum, mergulhando todos em uma
panaceia sem sentido.
É necessário trilhar o caminho
para, então, aderir à causa. A vontade nasce no coração daquele que, por si
mesmo, descobriu sua verdadeira vocação para o conhecimento.
quarta-feira, setembro 28, 2011
Num mundo memória
Durmo e acordo tateando no escuro,
num mundo de memórias, apagado e chateado.
Brumas cinzentas dos vestígios do passado,
um suspiro que morre no peito.
Coração fraco, enterrado, soterrado de ilusões.
Perdoe-me a dureza e o peso dos meus sentimentos,
a escuridão de onde falo, a frieza desta vida.
Peço compreensão, ainda que não carregue o fardo
de sentimentos tão tolos e inúteis.
Como se fosse preciso pedir... Já sabes.
Espera-me. Sei que esperas.
Esperas com paciência infinita,
e um dia, hei de chegar e tocar tua mão.
Por vezes, vens e me abraças,
quando me estendo até os limites do possível,
e eis um abraço...
Um abraço daqueles que fazem calar tudo ao redor,
e então, deixo de ser apenas eu
e sou, enfim.
Num mundo despedaçado e miserável como este,
não nos resta nada além de memórias,
como verdades absolutas, vontades resolutas.
Aqui, acessamos o amor
pequeno pedaço de amor
por meio da memória guardada,
prisão do passado.
Então, deixa-me transmitir um pouco,
quase nada, do que sei do amor.
Assim, através da lembrança,
haja o que houver,
fica com o melhor que houver em mim,
e então saberás um pouco mais
dessa coisa a que chamo amor.
Ao meu filho, deixo um manancial de lembranças
do dia em que fomos felizes.
Vai junto o amor —
a todos que já amam
e, principalmente, àqueles que há muito deixaram de amar —
para que se lembrem da sensação
de abraçar tudo o que há,
deixar-se arrastar pela energia pacífica
de um universo infinito e desconhecido,
a silenciar nossas mentes sombrias.
quarta-feira, setembro 14, 2011
Me perguntaram quem sou, eu disse ninguém
Perguntaram quem era, mas não havia ninguém.
terça-feira, setembro 06, 2011
Templo do infinito
quarta-feira, julho 06, 2011
Débito
quinta-feira, junho 16, 2011
O amanhã
terça-feira, maio 31, 2011
Acorde
terça-feira, maio 17, 2011
A revolta desarmada dos tolos
domingo, maio 01, 2011
Ai...
sexta-feira, abril 22, 2011
Verão
quarta-feira, abril 06, 2011
A seriedade que não sou
quarta-feira, março 30, 2011
Do que aprendi com os cães, do que não aprendi nos livros, na escola e na televisão.
quinta-feira, março 17, 2011
Cenário
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Um encontro
Me lembro ter imaginado uma ausência perene,
Sonhava uma dor suave, amainada pelo passar do tempo
Foi-se aos poucos se dissolvendo uma imagem embrutecida pelas novidades
Falta de juízo total, diamante secreto da exclusividade
As lágrimas, notas tortas de um piano desafinado, puro desajeito das mãos estúpidas de um velho escritor
Juramos eternidade sem nada dizer,
Tamanha sinceridade não exige memória,
Nada, um sentido guardado numa caixa de madeira
Tudo, um sentimento descolado do tempo, da fama e do nome
Renovado pedido, faz minh'alma te chamar mais para perto
Aquece meu lar, tens outro nome, outra face, outra alma
Mas se entre ambos um mundo, um abismo de diferenças, aqui entre particularidades, generalidades, vem pairando acima essa forma, esse sopro, vida a nos animar a todos,
Não há de ser meramente humano esse som, essa força que nos move
Há de ser tudo o que há
Para fora e para dentro. Um encontro.
quarta-feira, janeiro 19, 2011
Desculpe-me
Prometi ligar, mas não liguei
Prometi voltar, mas não voltei
Prometi escrever, mas não escrevi
Destinos, promessas, esperanças firmadas em aparências
Cumpro o silêncio que me deixa calar
A expressão do desejo se reflete na presença desnecessária das palavras
Desculpe-me não dizer.
O não manifesto das palavras se insurge contra a oratória que prova
Imputa ânimo naquele que escuta, vence ou convence.
O que preciso eu dizer ao ego que me ouve
Esclarecer, amanhecer sobre mim explicações imprecisas
Há fenômenos sobre os quais prefiro nada dizer
Há que se cumprir algo além de palavras
Seja sorte, sina a sair do ventre, nascer do ovo
A manar de si e inundar tudo o que há
sábado, outubro 23, 2010
Mil anos luz
Nada que me faça sentir que anos a fio irei viver
Décadas, séculos adiante...
Sou transitória, eterna
Não dói a idéia de que a morte segue
Dói-me a brevidade que me expõe à dureza das coisas
De uma cor que desbota
De um rosto que desvanece
De uma memória que se apaga
Uma verdade digna de morte
Um espaço entre coisas
Quem vai segue adiante
Uma nota que toca
Concisa e precisa
Digo: Fique e permaneça
Sussuro: Vá e desvaneça
Essa sílaba, divisa entre consoantes e vogais
Uma alma entre mil mundos
Um ruído do tempo, do agora
Afora há sempre um amanhã
Tantos que nem sei quantos
Não há tempo nem espaço que se nos possa limitar
Estou partindo
Por vezes fugindo
Mas estou chegando
Aos poucos
Num raio de mil anos luz
sábado, setembro 25, 2010
Eu ouço
Me aconselhando, me guiando, me alertando, me confortando
Me sinto por vezes perdida em meio a tantas palavras
Deus me perdoe ser ingrata em relação àqueles que ofertam ajuda
Não é isso o que acontece
Agradeço a cada segundo, pela sorte que tenho
Pela maravilha de trilhar um caminho rodeado pelas pessoas que me cercam
Poderiam acreditar em qualquer coisa, existem milhares de escolhas
E em meio a tantas escolhas, optaram por acreditar nesse eu a que me propus representar
E eu a medida que ouvia, acenava positivamente com a cabeça sem nada dizer
Todos me pareciam estar certos, mas aos poucos fui começando a perceber um pequeno buraco dentro de mim
A sensação de que alguma coisa faltava ali, faltava uma voz
Uma voz que quase não ouvia
É como uma fratura
As vezes temo que me perguntem minha opinião
O que você acha disso? O que você quer? O que você tem em mente? Quais são seus objetivos? Onde pretende chegar?
E eu então não saber responder
Ha que se ter uma resposta
Eu percebi que não tenho voz
Não me sinto presente
Estou na água, boiando, boiando...
As águas foram passando, foram me levando e eu fui deixando, deixando...
Todos parecem nadar em alguma direção
As vezes nado para um lado, as vezes para outro
Em alguns vejo algo maravilhoso, vejo uma luz intensa, vejo obstinação
Vejo um objetivo certeiro, um dom quase inato, uma saciedade
Paro para olhar, admirar e então eles se vão no horizonte a nadar
Eu só consigo escrever
Meras palavras
Não consigo falar
Minha voz não tem som
Eu queria saber falar
Por Deus! Não consigo externar
Não consigo ser, nem refletir
Eu só me afogo em meio a esse mar de coisas e mais coisas
Uma alma que se assusta diante de si mesma
Que não consegue se agarrar a nada, são apenas naufrágios
Vou absorvendo um pouco de cada um, um pouquinho daqui, um pouquinho dali
Vou engolindo a água que me dão para beber, para preencher o buraco plantado aqui dentro
Todos têm algo a dizer, a afirmar, então paro para ouvir e muito me admira não poder nada dizer
Estava eu certo dia a caminhar em meio às luzes dos postes, dos faróis dos carros, das vozes das pessoas na rua, dos passos dos apressados, dos atrasados, então olhei para o céu em busca de algo acima de nossas cabeças ocupadas, atarefadas
E vi que a lua estava cheia, brilhava um amarelo alaranjado e então meu coração acalmou e dentro dele surgiu um chamado, uma voz que a muito não se manifestava, soterrada em meio a tantas estruturas
Essa voz era a minha própria, por Deus! Ela dizia para seguir no horizonte rumo a lua que brilhava, eternamente rumo a luz tão distante no céu, incessantemente rumo a ela
Ela seguia dizendo: Não há cansaço que impeça você de um dia chegar, de um dia alcançar, de um dia encontrar essa luz que lhe parece tão distante, tão impossível...
A luz mais distante do céu me alcançou, e então quem sabe um dia possa você alcançá-la e ao seu lado caminhar na eternidade livre de tempo, livre de espaço, livre de mim
Possa caminhar no infinito desta luz, rumo ao desconhecido, rumo ao impossível, sem nada esperar, nem saber, nem conhecer, sem nada dizer, apenas se abrir, receber, se entregar, se expandir, apenas ser nada que se possa definir, apenas existir silenciosamente nesta imensidão.
domingo, setembro 19, 2010
Os donos da verdade
Aquele em que decidiram o que era certo e o que era errado.
Foi assim que começou
Cada um carrega dentro de si uma infinidade de valores que somados constituem uma “bagagem” pesada
Alguns se dispõem a arrastá-la consigo pela estrada da vida, acrescendo a ela cada vez mais verdades, teorias, assertivas universais
Aos poucos a alma se curva
Se curva diante das regras, das grades, das crenças, das imposições
Deixa de ser, torna-se dever
A verdade é ouro, mais absoluta certeza
Uma verdade se multiplica por dez e assim por diante, na medida em que vamos nos munindo dela para viver e conviver
As verdades se expandem para além das barreiras as quais nos impusemos e aos poucos começam por contornar as pessoas com as quais convivemos se espalham e invadem as vidas daqueles que ao nosso lado caminham e então se intensificam, se solidificam e falam por você, determinam para o outro como as coisas devem ser, se exteriorizam de modo que o mundo lá fora passa a ter de refletir o que você é ou tudo o que acredita ser.
A mente fica a tagarelar, a determinar, a reger o que não lhe cabe reger. As liberdades se estreitam cada vez mais, os horizontes diminuem e aos poucos beira o insuportável. Eis que nos surgem os desagradáveis donos da verdade.
Aqueles que se julgam aptos a definir o que é certo fazer e a partir disto, determinar para outrem as verdades que para si são supremas
Aqueles que insistem em nos dizer o que devemos fazer em meio a uma inutilidade de idéias pré-formuladas, baseadas em infalíveis verdades
Aqueles que pretendem impor o que são para aqueles que já sabem o que são
Seres fixos, estáticos que se aprisionam em suas próprias verdades e procuram aprisionar todos ao redor, formando uma longa cadeia de prisioneiros iguais, meros reflexos, sombras, apagados num caminho certeiro, verdadeiro, inevitável de repetições obsessivas.
Caminho viciado, circular, amarrado, dos arautos das verdades a seguir, das correções, da palavra ordeira, do conselho certeiro, do que deve ser.
A alma que se eleva ao pedestal infinito das verdades compreende o mais luminoso conhecimento das coisas. Torna-se o juiz que sentencia todos aqueles que se encontram desprotegidos das grades do saber que lhe pertence.
Seu mundo é o verbo da sentença, uma estrada bifurcada entre erros e acertos, uma verdade imposta, suposta realidade, tola ilusão.
Hão de conhecer a liberdade de escolha, a imprevisibilidade das coisas, as diferentes nuances das almas, a diversidade, a transitoriedade das coisas, as metamorfoses que se dão a cada segundo de nossas vidas. Tudo difere. A beleza não é perfeição é o aprendizado, que modifica as coisas, é algo que não molda, mas que pulsa e vive em uma eterna transformação.
quinta-feira, agosto 19, 2010
Procura
Nas fotos em grupo
Nem em perfis perfeitos de poses estáticas.
Não estarei lá a te olhar
Aquele gelo pedrado no olhar
Que sorri para você ai do outro lado
Estes olhos que nos olham perscrutando
A procura de nada
No rosto um fio parado no papel brilhante da foto, um sorriso
Um atestado, um aval
De que a felicidade passou por você
Beijou-te, fez-te sorrir
Um abraço, um afago querido
Um lembrar, um querer
Destes que só as fotos têm
Uma assinatura, um selo meu de que estive aqui
As fotos provam e comprovam a existência
Não me procure nas fotos
Pedaços de papel
Telas de computador
Não estou lá, nunca estive
Pudera eu viver dentro de uma fotografia
Ou em um arquivo de computador
Assim, numa eterna ilusão, parada no tempo, isolada no espaço
Mas não nessa passageira utopia, acelerada no tempo, perdida no espaço
Distraída no compasso desacertado da vida.
quinta-feira, agosto 12, 2010
O eterno amanhã
No futuro eu serei...
No amanhã existe a promessa que hoje não se concretiza
O Amanhã é incerto, mas pelo amanhã eu espero
E de hoje eu esqueço, eu passo por ele como quem toma um remédio
Eu sou um ‘eterno vir-a-ser’
Pois hoje nada sou, além do que deveria ser amanhã
Não há um segundo sequer do hoje que não tenha um que da angústia de amanhã
A sede de hoje se projeta no amanhã
Quando me deito para descansar procuro imaginar que o amanhã não virá
Que o amanhã não irá acontecer, o dia não irá amanhecer, o tempo não irá prosseguir
Imagino que hoje é o último dia, a última noite, minha última vez, meu último sono
Então o mundo silencia, o tempo para e só assim posso descansar no que é
Posso ser no momento em que sou
Adormeço agora sem pedir pelo amanhã
O absoluto envolve a última noite do que é no presente
Eu me apago na escuridão do quarto como se jamais tivesse existido
E assim reina a paz que jamais reinou.
segunda-feira, agosto 02, 2010
Simples assim
Assim como se fosse um dia daqueles
Em que tudo cheira a comemoração
Deixo as janelas abertas, o vento entrar a rolar
No banho choro horrores, lavo a alma
Os olhos embaçados que vagueiam
As mãos que tateiam
Passam superficiais pelas coisas
Deito-me no chão da cozinha
Buscando suporte na pureza dos animais
Meu cão me olha e nada sabe, nem saberá o que é
O que é ser humano
Olho de volta e nada sei, nem saberei o que é
O que é ser cão
Ele fareja o peso dos pensamentos soltos no ar
Eu o amo e ele ama de volta, simples assim
A vida é simples assim e eu não sei
terça-feira, junho 29, 2010
Complexas relações humanas
Convém, para tanto, nos aprofundarmos nesse ponto, pois responder satisfatoriamente exige a capacidade de discernir as expectativas do outro em relação a nós. Tendo analisado e ponderado sobre tais expedientes, devemos então elaborar uma resposta adequada para cada interrogante em questão.
Para que a resposta seja aceita positivamente, é necessário um trabalho de formulação de oratórias que correspondam ao que o outro quer ouvir — e não ao que você realmente pensa, ou sequer considera. Pois, nesse sentido, em geral, as pessoas não estão preparadas para quem somos, pela falta de objetividade racional que, por vezes, possamos apresentar — ou, quem sabe, para uma transformação considerável, que fuja aos requisitos padrão.
O caminho da ascensão se trilha sozinho, pois não pode estar lá fora, nem no outro, aquilo que se encontra aqui dentro.
terça-feira, junho 22, 2010
Plúmeo
Hoje pacifico o espírito que há muito esteve enfermo
Hoje me disponho a ajudar, nem que seja a me calar ao lado de quem um pouco de paz precisar
Hoje ouço, ouço e me calo, porque tudo aqui dentro silencia
Hoje a palavra está guardada em meu coração
Hoje as ponderações e opiniões cessaram de dizer
Meu corpo hoje se compadece num estado de desatenção
Aéreo, mas não etéreo. Hoje ele paira suavemente sem se chocar na dureza das coisas
Âncora solta no mar pacífico, no silêncio que há em baixo d’água
Livre no movimento lindo do dia para a noite
Soprado ao sabor do vento como uma pluma sem rumo
Querendo entregar seu destino nas mãos do desconhecido
Pairando de cá para lá, subindo e descendo, sem maiores ambições.
segunda-feira, junho 21, 2010
Roda
As paredes são sólidas
Duras e até quando amplas são estreitas à medida em que se estreita o olhar para lê-las
As cores estão impressas só nas superfícies, não sei se em algum outro lugar posso encontrar cores tão cerradas
Um mundo de espelhos, tudo reflete, qualquer movimento reflete, até o pensamento reflete no espelho de tão carregado de tudo
Aqui você bate, aqui você leva, aqui você faz, aqui você paga, na frente de todos existe um imenso paredão concreto. Não há como passar através dele, somos concretos.
Você se joga contra ele, bate a carne dos braços, os ossos das pernas e volta moído. Ação e reação. Você grita, o som ressoa, bate e volta para você. Tudo o que vai volta. Ação e reação.
Na luz tudo o que é sólido, corpos, objetos, projetam atrás de si uma sombra, na proporção de um para um. Você desvia, ela desvia, você reage, ela reage, ação e reação.
Tudo gira numa roda, início, meio, fim e então mais uma vez início, meio e fim. A cada volta completa da roda ela se torna mais pesada, devido ao contínuo acumulo de início, meio, fim. Continua. Você continua e vai continuando mais uma vez, e de novo, e de novo. A roda vai girando cada vez mais densa, mais pesada, e vai prensando, comprimindo, esmagando, extraindo todo o suco que se acumula no fardo que foi se formando e vai ela se arrastando, estalando, girando, girando, girando, girando.
Bateu-levou, ação-reação, aqui se faz-aqui se paga, na roda se faz na roda se paga, e assim por diante, na roda do bateu-levou, ação-reação, a roda cresce e pesa ainda mais, mais sólida fica. Reação em cadeia.
A roda se repete, redunda, a roda é tudo até onde vai o paredão, ali bateu-levou, ação-reação, pergunta - resposta, verdade - mentira, certo - errado, preto - branco, tudo - nada, quente - frio, seco - molhado, vivo – morto, bem – mal, velho – novo, cheio – vazio, grande – pequeno, sujo – limpo, luz – escuro, tudo entre dois pólos opostos, positivo-negativo, que se misturam, que se repelem, teia complexa, teia que envolve e maçaroca, até não ter como escapar.
A gente se equilibra na corda, na corda bamba da vida e eis que as tentativas, movimentos sutis ou bruscos, irão todos repercutir nas extremidades, e então a corda irá vibrar, até ceder e recomeçar.
quarta-feira, maio 26, 2010
Uma luz
Tanto que te causo arrepios
Meu tormento é um mal estar em teu coração
Tento sempre falar-te sutilmente o que sinto
De um jeito que não te assuste nem te afaste
No escuro da noite, venho insistentemente te encontrar
Quando todos dormem, inclusive você, que parece descansar na paz do silêncio que jaz em teu quarto
Tento demonstra-te minha presença, chamo-te a atenção e acabo por tirar-te o sono
Então, você me diz que está tudo bem e relembra coisas agradáveis de seu passado para me confortar com o amor dele exalado
Me diz que estamos a bordo de uma espaço-nave dourada, que sai por ai a iluminar corações abertos a uma energia sutil
Cortesia benévola aliada a delicadeza de figura cósmica e então, um abraço, um sorriso, me espera no infinito desta vida.
segunda-feira, maio 17, 2010
Luzes de natal
E então fecho os olhos
E sinto que o ar que respiro é minha casa
Sinto as luzes se acenderem
As luzes que tanto esperei
Luzes de natal
Piscam no escuro
Se eu abrir os olhos
Não poderei evitar
O coração se desfazer
E perceber que sou toda emoção
Mais emoção que razão
Só assim posso viver
Porque tudo aqui é para se emocionar
Então não evito,
Acompanhar a dança das luzes
Não há lógica no que sinto
Nem ciência no que digo
Não há verdade no que vejo
Se eu quiser, a música irá tocar
E então será natal
terça-feira, maio 11, 2010
Última hora
Sou das coisas mal planejadas,
Dos feitos de ir embora, de última hora.
Do coração batendo à frente do tempo,
Pressa infantil.
Dos que não esperam,
Saem batendo às portas do tempo,
Abrigados num relógio,
Um coração tic-tac.
Hoje é o prazo final,
Hoje é o dia em que começa
E o dia em que termina.
É próximo o último grão de areia,
Que brinca, se cai ou se não cai,
Sobe e desce, numa gangorra de angústia.
Pende e toca o final, num chamado do tempo,
Medida arbitrária da duração das coisas.
Afinal, tudo acontece ao nascer e morrer do dia.
domingo, maio 02, 2010
Insetos
Ao fim da tarde, quando o céu em
brasas cede espaço ao azul-marinho que se apaga sob as luzes estelares —
vagalumes distantes no infinito —, vou até a janela. O ar queima, vapores
sulfurosos, CO₂, tragos e urros de ônibus e carros.
Os bueiros, bocas imundas,
arrotam insetos, hálito moderno da sujeira ordinária que, aos poucos, engole a
cidade. Fecho a vidraça e, de dentro, vejo os insetos — pequenas cruzes do
sacrifício humano — negros, brancos, amarelos, mistos, suspensos no ar, batendo
compulsivamente suas cabeças contra o vidro, em busca de luz, em busca de
sangue.
Um exército faminto de timbres,
zunindo numa só frequência — do instinto, da sede, da fome. Milhares deles
intentam invadir minha torre, meu observatório terrestre. Rufam os tambores à
espreita da minha fraqueza, da minha vontade de seguir para além do olhar
inocente, deliberado a agir, a envenenar-se de toda a peçonha que bate à minha
porta.
quinta-feira, abril 15, 2010
Compromisso
sexta-feira, abril 09, 2010
Monólogos
segunda-feira, abril 05, 2010
Hoje
Hoje eu aceito
Hoje eu entrego
Não resisto, nem me oponho
Pelo fluxo de indução que atravessa
O céu de hoje que despenca sobre minha cabeça
Hoje brilha uma lanterna silente, paciente
Um abraço de paz
Rara harmonia do dia e do tempo
segunda-feira, março 29, 2010
Sonhar
Um sono absoluto vem, de quando em vez,
Me chamar, me pedir
Para soltar,
Deixar cair,
Na claridade do amanhecer,
Dos cabelos que, soprados,
Se arrastam pelo meu rosto,
Me impedem as mãos de buscar amparo.
Meus olhos perdidos, eternamente, brevemente,
Os pensamentos... Que paraíso sonhar!
Deixar ser a vida, aquela que circula nos pulsos,
No coração, sangue que comprime, exprime.
Dos olhos, lágrimas — sem dor, sem mais.
Sutil e sensível, a mais bela parte do dia,
Daqueles, desses dias, despidos de artifícios,
Em que o corpo consente em existir,
Assim como qualquer outro ser.
sexta-feira, março 19, 2010
Pedras
Tudo são pedras,
Cálculos e concreções
As falas forjadas
Cobranças
Estanques
As paredes são grades
As grades espíritos
Figuras pintadas
O silêncio...
O silêncio das horas que passam
Do desejo que esmorece
Cresce, evolui a luta
A vontade se adianta e
Recua o impulso iônico do mar
quarta-feira, março 17, 2010
Cicatriz
Corta um veio nas costas
Sulcadas de dor
Marcas,
De um Paraíso opressor
Tirania selvagem
Seu,
Meu,
Deus,
Demônio pagão
Deserto de sal
Ferve e serve
Sílabas,
escassas, secas
Fonte servil
Meu corpo guarda um silêncio infinito de não ditos
Uma ânsia de querer falar e se calar
Um trago, um rasgo
Afago de paixões vilãs
quinta-feira, março 11, 2010
Sonho doce
Escapam às barreias da vida e morte
Realizam o encontro impossível entre o ir e vir
Entre quem ficou e quem se foi
Sopram longe os agouros lúgubres
Num frescor primaveril de um eterno reviver
O acordar, só me deixa vestígios, fragmentos
Uma memória presente, consciente de seu meio tom desgastado,
Passado que se reconstrói continuamente em meu coração
Ciente de que vem a morte, mas de que nela não reside o fim
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Tantas
Tantas as escolhas
Imagino que de tantas e tantas coisas
Tantas e tantas escolhas
Quantas não são as mesmas
Então me pergunto
De tantas e tantas perguntas
De tantas e tantas pessoas
Quantas não se perguntam a mesma coisa
Nesse mundo de tantas e mesmas coisas.
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Gosto amargo da vida
Feito mariposa a baixo da luz do píer
Atenta ao sibilo dos sinos
Zunido que jaz no cais
Na orquestra de animais noturnos
Dança o brilho distante dos vaga-lumes
Faróis remotos, supostas estrelas
Uma ventania fria
Sacia o vazio
Acompanha a fuga de uma alma aflita
Lume frouxo, desfalecido
Guia aos navegantes
Nau sem dono à deriva
Vêm de encontro ondas oceânicas
A lamber o píer numa solapada salgada
Fervelhe a boca feito sal de fruta
Recua engolindo limo
Consciência imunda
Gosto amargo da vida
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
Concentra-te
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
Chove
Não vejo chover, ouço apenas rumores de sua constância
Sons pausados, alardeados na boca dos outros
Sob a montanha repousa um amigo
Sobre ela brota um cravo, ainda um talo
Sob a chuva que insiste engolir lhe a vida
Sopra uma nuvem embebida em carvão
Esmorece o pranto celeste
Num levante da estrela em chamas
Da terra escorre o labor
O suor dessa dor
Um pudor
Descansa o ardor
O fervor, o calor
Floresce o frescor ao sabor dos sonhos de um amor
sexta-feira, janeiro 29, 2010
Não há nada
Não há métrica nesta minha vida
Não há conto neste meu dilema
Não há drama nesta minha paixão
Não há gênero, nem estilo
Não há lira, nem lirismo
Neste mar de sabe nada
Não há truque nem retoque
Não há nada neste fado
É um ruído, uma voz
Um tom e um som
No embalo desse timbre.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Recharger
Deita-se o mormaço sobre o asfalto da cidade.
Um som abafado de guitarra permeia a noite,
emitido de um pub barato que cheira a pinga de esquina.
Um solo ecoa pelo silêncio dramático da escuridão,
invocando a solidão dos becos, dos desamparos.
Baforejam gases venenosos dos bueiros,
expelindo insetos, injúrias,
ateando fogo nos corpos à mercê do cenário de horrores.
Partículas ardentes libertam-se, matérias em combustão.
Morada dos justos, estilo hodierno,
corpos revestidos de crômio,
corações de uretano à prova de quedas, riscos e solavancos.
À prova de vida. Condições desumanas.
Suas almas, rechargers perecíveis,
suscetíveis à esteira do tempo, condenadas, obsoletas.
Delas sopra uma trilha — sonora emoção,
lenda, paixão humana a resistir em meio a artifícios,
fogos forjados, desejos moldados,
num rio metálico, pesado, vergado, compadre nocivo.
Um suspiro afoga a todos nós.
Um chamado, uma cura, um destino implacável.
Sê forte, sê duro.
Pois haveremos de ser, padecer e perecer.
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Passando
Não se apresse assim
Não se desespere assim
Assim tudo passa tão depressa
Assim tudo é passado
Vá com calma
Um passo de cada vez
Os passos vão passando
Passeando e se tornando passado
Eu digo e o que digo se passou
Tudo vai passando e passado virando
O passado vai crescendo e passando
As saudades vão crescendo e ficando
Tente não se preocupar, nos veremos adiante
Leve apenas o que precisar e nos veremos um dia
Deixe passar, para seguir em frente e passar adiante
Lembre-se, pois isso irá passar e então seremos lembranças
Seremos lembrados, seremos passado, seremos saudades
Seremos eternos, seremos o perfume da noite, o arrepio febril, a nudez das árvores, a brisa do mar, o calor do verão
As gerações que se passaram e deram lugar àquelas que irão passar
Estaremos em todo lugar, assim como o passado que carregamos e que nos vai levando do presente para o futuro, numa locomotiva a viajar, num balão a voar
Um olá vem trazer e um adeus vem deixar, para mais uma história continuar.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Sonho
Estava tudo tão quieto, apenas o barulho do vento que trazia a chuva e na escuridão as luzes da calçada dançavam sozinhas isoladas cada qual num círculo apartado.
Lembrei-me de que no passado as copas das árvores cegavam as luzes dos postes. No sonho, passado e imaginação se mesclavam e criavam um cenário perfeito como sempre sonhei que seria minha casa, meu lar, meu lugar, mas é apenas um sonho, o meu lugar é apenas um sonho.
Nele as coisas flutuam leves no ar e num salto vou de um pavimento ao outro, nele o tempo inexiste e é noite ou dia, basta querer. Subi até o topo da imaginação e chamei: Pingooooooooo
Do outro lado, quem era aquele que olhava assustado?
De cá, quem era a moça que chamava no escuro?
No sonho posso ver quem quer que seja, nem que seja para dizer adeus.
Chamavam-me ao telefone, mas não havia ninguém do outro lado da linha, era apenas uma expectativa de que algo estava prestes a acontecer, quem sabe um convite para viajar, um olá, um adeus, um matar de saudades, daquelas que só um abraço pode resolver.
Se chamarem por mim estarei lá, basta querer, é um sonho, é tudo um sonho e estou lá.
quarta-feira, janeiro 06, 2010
É noite
Não há nada além do silêncio
Do frio que sopra devagar
Me despertando de um sono eterno
O céu desenha um tempo passado
Tudo ao redor existe
Meu coração cavalga a galope
Tudo é
O universo me toca e me toma
Me consome de uma só vez
De mim irradia calor, é infinitamente humano
Uma paixão negligente, insensível a dor,
Deseja se confundir
Numa só chama se dissipar
Num descuido, em descompasso
Meu corpo plena luz a queimar, consumindo a escuridão
Quero dançar absoluta nos limites do tempo, estou apaixonada, determinada
É tão grande que não posso conceber, peço perdão, quero de tudo me desvencilhar
Os laços rijos do tempo me arrastam de volta, violento, sonoro de volta ao vazio
À ausência, à escassez, à sede infinita, insaciável cortejo do tempo
A ordem do tempo se cumpre, mais um ciclo se encerra
E lá se foi o tempo na noite a voar...