quinta-feira, dezembro 04, 2025

Campo Sem Caça

A mulher segura uma cesta sem frutos.
Observa, não age,
forma sem conteúdo,
terra estéril.

A ela o nobre oferece um sacrifício,
mas não corre sangue.
Nada acontece.
Tudo permanece suspenso
em eterna iminência.
O encontro não tem vida,
não floresce.

Um cavalo robusto se aproxima.
Ele não é humano,
é do reino instintivo,
puro e verdadeiro,
amor em estado bruto, vigoroso.

Trota decidido em direção ao nobre,
que ergue o arco, desconfiado, ameaçado.
Mas o calor do animal o envolve
e o desarma.

Monta-o e segue a galope
rumo a um campo sem caça,
um homem que, por onde pisa,
não deixa pegadas,
não leva a lugar nenhum,
um ruído que ocupa espaço
com palavras vazias.

Cavalo e cavaleiro retornam,
o nobre de mãos vazias,
o cavalo com corpo e presença.
Ele é tudo o que o homem hesitante não é.

Os frutos estão na vida,
não na imaginação.
Uma união vazia,
uma cesta sem frutos.

Nenhum lugar é conveniente
para aqueles que, acordados,
ainda sonham.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

O cortejo do homem inferior à alma

De baixo para cima.
De dentro para fora.
Do ideal ao concreto.
Da morte à vida.
Segue o cortejo do homem inferior à alma:

O que é isso, entre mim e você?
Espaço.

E o que mais?
Distância.

O homem se aproxima.

E agora, o que existe?
Silêncio.

Fixa o olhar na direção do desconhecido à frente:
Tensão.
Confronto.

Desejo.
Você diante de mim sou eu diante de você.

Uma mente afiada poderia me ferir?
A superfície não toca a profundidade; estão em oposição.

Tocado, mas não ferido:
Nos seus olhos vejo refletidas as minhas máscaras.

Receptivo, porém inteiro:
Nos seus, vejo submersa a minha essência.

terça-feira, dezembro 02, 2025

A Árvore da Vida

A raiz do medo:
Meu eu, embriagado pela confusão mental e emocional, como alguém perdido de si que distorce formas e sentidos, movia-se oscilante, hesitante, num ir e vir instável.
Gerava ânsia, medo, o peso seco de um nó na garganta.
Ambiguidade.
Limites borrados.
Um mar revolto de emoções.

Meu olhar se esquivava do caos interior, onde sombras de antigos medos se chocavam como ventos desencontrados — um vendaval — até que, lentamente, comecei a notar que era preciso parar.
Olhar.
Encarar.
Deixar de fugir.
De me dispersar.

Eu me confundi,
mas agora serei eu mesma a guia que ilumina a escuridão.
Não vou te invadir, mas te apoiar.
Não vou te sufocar, mas te afagar.
Não vou te julgar, mas te proteger.

Vou te acompanhar e ensinar a crescer,
a firmar o passo,
a escolher o caminho que te chama.
Não vou te aprisionar,
nem me agarrar a você.
Não vou te dissolver na minha confusão emocional.

Quero clarificar, responder, conduzir,
abrir a clareira
para que você caminhe por si.

E então você virá à tona, aos poucos,
um rebento que rompe a terra úmida e recebe seu primeiro raio de luz e cresce:
suavemente,
silenciosamente,
como uma árvore que se ergue na encosta da montanha.

Primeiro, as raízes se aprofundam,
bebem da fértil escuridão,
a germinação emerge
da sombra para a claridade.

A luz puxa para cima,
chama,
eleva,
até que o que era frágil se torne árvore frondosa,
capaz de oferecer alívio e sombra
a quem chega cansado da travessia.

A árvore que me torno
é o meu eixo.
Minha espinha dorsal.

Estou criando profundidade.
Não destruo o que fui,
transcendo.

Mudanças profundas não aparecem —
crescem:
um milímetro por dia,
um insight por vez,
um limite recuperado,
um sonho transformado em compreensão,
uma emoção acolhida,
uma pergunta honesta feita a mim mesma.

Assim, minha árvore ganha
raízes emocionais mais robustas,
tronco mais espesso,
copa mais aberta.

Não estou mais tentando ficar forte de uma vez.
Estou me tornando forte,
e aprendendo a me amar como quem gera
frutos.

E quando o vento sopra vigoroso,
não temo que ele me quebre.
Porque agora sei:
minha força não é rigidez,
mas firmeza.

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Minha vida sem plateia

De mim,
retiro a cruz.
Do outro,
removo o poder.
A nós,
um brinde ao nó que se desata.
A mim,
ofereço a escolha.
Ao outro,
o lugar que lhe cabe.
A nós,
resta o caminho que cada qual decidiu seguir.
Despeço-me
sem me despedaçar.
Ao passado, deixo meu adeus.
Minha presença está onde estou.
No futuro, estão os frutos das minhas escolhas.
Minha vida sem plateia.

sábado, novembro 29, 2025

Verdadeiro Norte

Quero ser sujeito, não objeto.
Quero ocupar meu próprio espaço,
encher-me de mim,
tomar de volta a energia que espalhei pelo mundo,
nutrir-me dela
e devolvê-la ao meu centro.

Quero escolher, e não ser escolhida.
Escolher a mim mesma.
Pertencer a mim.
Conquistar meu espaço interno
e ser soberana do meu território sutil.

Quero recobrar minha força,
meu significado,
guiar meus passos
rumo a mim,
assumindo meu poder e meu propósito.

Quero tomar posse do meu reino interior
e oferecer presença —
essa presença que nasce no eixo e irradia.

E então,
quando tudo estiver em mim,
quando corpo e alma se unirem na mesma vertente,
quero montar meu cavalo
e subir com ele:
conduzindo o movimento,
em vez de ser conduzida.

terça-feira, novembro 25, 2025

Marina

Minha embarcação, outrora atracada no porto,
carregou-se de ideias, ilusões, fantasias
e de tudo o que a vida exige e oferece.
Ficou ali aportada pelo tempo necessário,
até que chegasse a hora de descarregar a carga pesada
que ocupava o convés e afogava os porões.

Quando finalmente abri espaço,
ergui a âncora que dormia no fundo escuro do mar.
Meu navio zarpou em silêncio,
deslizando sobre a superfície turva e espessa das águas paradas.
Foi-se afastando, leve, conduzido pelo vento marítimo
que prometia mudança.

E quando já desaparecia no horizonte
dos olhos daqueles que ficaram,
soou seu chamado profundo —
uma voz metálica que parecia vir
das entranhas antigas do casco.
Seu toque longo, grave, vibrante, quase gutural,
reverberou no ar:

um som que levantou o olhar dos homens em terra
e o voo das aves marinhas.

Todos nós, cada qual a seu modo,
sempre em busca de alimento para a alma.

Meu navio se chama Marina,
e meu caminho — desde o início —
são as águas profundas.



domingo, novembro 23, 2025

Sol do Meio-dia

Os símbolos estão aí;
existem por si.

Seu significado nasce no inconsciente coletivo,
corre como um rio
e deságua no inconsciente do indivíduo,
que pode acolhê-los tal como chegam
ou trabalhá-los
até que revelem outro contorno.

Então pergunto:
o que faço do que fizeram comigo?

Quando elevo meu olhar
acima das circunstâncias nas quais estou mergulhada —
acima das dispersões mundanas que me arrastam
e às quais me deixo levar —
percebo, pelo canto do olho,
as mentiras que comprei
como verdades imutáveis.
E isso me assusta.

É um olhar que me despedaça,
que me retira dos papéis que aceitei sem perceber.
Arranca à força as máscaras que me confortam
e me limitam,
desmancha o falso controle,
expõe-me à minha própria verdade
e me fere
com uma luz que eu nunca me dispus a encarar.

A claridade cresce
até tornar-se o sol do meio-dia
e, nesse avançar das margens,
cega-me.

O mundo externo permanece iluminado,
mas meus olhos, ofuscados,
só percebem escuridão.

Meus sentidos, habituados
ao ruído das vozes,
às tendências gerais,
às demandas do tempo,
agora hesitam.

Recolhem-se,
tateando dentro de mim.
Os pés avançam sobre um terreno incerto,
desprovido das antigas certezas
que antes pareciam inquestionáveis.

Então percebo
que minha liberdade
se limita à dualidade de duas escolhas:

segurar-me na margem desse rio
em busca de controle,
de explicações
e de ilusões;

ou soltar as mãos,
render-me ao fluxo
e deixar que as águas me conduzam
ao desconhecido.

E assim retorno à pergunta primal,
que agora ressoa mais fundo:
o que faço do que fiz de mim?

Os fatos permanecem.
Mas a narrativa — essa, sim — é obra minha.

Visto-me com o que tenho à mão,
como quero.
Costuro, símbolo por símbolo,
a história que escolho viver
a partir disto.

sexta-feira, novembro 21, 2025

Aproximação

Quanto mais nítida se torna minha visão de mim mesma, mais claramente consigo enxergar o outro sobre o qual projetei partes minhas. Antes, eu olhava para fora com olhos feridos e, por isso, só encontrava formas de sobreviver. Agora compreendo melhor: ao desbloquear minha própria percepção, começo a ver a realidade com menos distorção.

A vida externa é um palco onde o inconsciente se expressa. O significado e a importância de algo ou alguém em nossa vida somos nós que atribuímos, pois o poder de influência sempre esteve conosco. Tudo, no fim, é uma questão de decisão interna, ainda que pareça vir de fora.

Os que estão perdidos diante de alguém que começou a se encontrar não agem a partir de si mesmos; apenas reagem ao campo energético daquele que mudou. Suas atitudes não são movimentos espontâneos, mas respostas às emanações de quem cresceu, se moveu e se transformou.

Quem avança não se afasta do outro, mas se aproxima de si, de sua própria grandeza e potencialidade. Nunca se perde ao crescer; o que se perde é apenas o que já não acompanha o novo movimento.

A alma não está aqui para controlar a realidade, mas para interagir com o mundo e se transformar por meio dele. É no diálogo entre o interno e o externo que a consciência se expande.

segunda-feira, novembro 17, 2025

AI – Autenticidade Inerente

É justamente diante daquilo que nos soa mais artificial que se reacende, em nós, o desejo de ser real. Talvez, no fim das contas, precisemos das máquinas e dos artifícios para nos lembrar do que é ser humano.
Todo ser que se projeta para fora, cedo ou tarde, precisará recolher-se para dentro de si para reencontrar a coerência que o integra como um todo.
O mundo artificial nos empurra para fora. A alma, pede retorno para dentro.

domingo, novembro 16, 2025

A arte de se conduzir

É preciso muita disciplina para tornar-se quem se é.
Ninguém pode impedir minha expansão.
A única força que realmente me barra sou eu mesma.

Dentro de mim, o poder que refreia é intenso,
e o que permanece represado também é vasto.
Quando a energia que deveria fluir fica aprisionada,
ela se volta contra mim,
e, paradoxalmente, o que está contido é maior
do que aquilo que tenta contê-lo.
Assim nasce uma pressão silenciosa,
uma concentração de forças que se confrontam.

Por isso, a liberação precisa acontecer aos poucos,
com disciplina e cuidado,
para que não transborde de forma instintiva, caótica, sem direção.
Aos poucos, essa energia encontra seu curso
e se transforma no impulso necessário
para um crescimento mais amplo, firme e consciente,
rumo à liberdade e à independência.

Mas para crescer, é preciso direcionamento.
Os inúmeros elementos que habitam em mim, para tornarem-se úteis,
precisam ser reconhecidos, organizados e conduzidos
como um exército que aguarda comando.

Assumir a própria vida exige reunir o que está disperso,
disciplinar o que divaga
e orientar a energia interior para um propósito claro.

E nenhum comandante existe sem seus soldados.
A liderança se fortalece quando o líder compreende
a natureza da própria tropa interior,
formada por instintos, medos, impulsos, talentos, sombras e potências.
Um precisa do outro para existir.

Conduzir a si mesmo demanda firmeza, equilíbrio e rigor.
A verdadeira liderança começa voltando o olhar para dentro
e submetendo-se, antes de tudo,
à devoção sincera do próprio propósito.

sábado, novembro 15, 2025

A Caminho de Casa

Sinta aquilo que é realmente seu.
Não as projeções, ilusões, idealizações, frustrações, decepções.
Respire apenas o que lhe pertence, o que lhe cabe, o que é.

Ser quem sou parece distante quando mergulho no coletivo das ideias.
Por anos, inúmeros personagens dançaram em um baile de máscaras.
E, por trás delas, havia um ser desejoso de ser visto e reconhecido.

Buscou incessantemente a aprovação alheia.
Subiu montes para ser lembrado.
Foi notado, mas ao custo do esquecimento de si mesmo.
Agora se pergunta pelo sentido.

A própria palavra sentido fala da permissão de sentir.
Mas, ao tocá-la, encontrou um vazio silencioso.

E então, os olhos que tanto procuraram outros olhos
voltam-se para dentro.
Lançam suas flechas contra os próprios portões fechados,
tentando enxergar, através do espelho do outro,
a si mesmo como nunca antes ousou ver.

Deixo de viver no exílio de mim, como estrangeira em território alheio,
e volto para casa.

terça-feira, novembro 11, 2025

A Porta Azul

Certo dia, estava eu a vagar pela estação subterrânea de metrô em meu sonho, um lugar escuro, opaco. O ruído metálico do atrito dos freios dos vagões com os trilhos zumbia uma canção pós-moderna do cotidiano.

À frente, vi uma porta de cor azul profundo. Em busca de ar, de um sopro de leveza, abri-a de uma só vez: um mundo se revelou luminoso do outro lado, uma paisagem ao entardecer, com folhas de outono em tons avermelhados.

Diante de mim havia uma pequena árvore, com o tronco caído ao chão, voltada para um lago cristalino. Nele estava sentado um rapaz branco, de cabelos e barba ruivos, usando um chapéu de palha.

Toda a cena era uma pintura a óleo, com leves movimentos do soprar do vento, como pinceladas vivas. Ele era Van Gogh, e eu o admirava de longe, aquele homem cujos olhos se perdiam no horizonte da tela de sua própria pintura.

Um arquétipo sublime do inconsciente coletivo adentrou meu espaço psíquico pessoal para me lembrar da beleza do mundo.

Quando você pinta um ser humano, como o faz?
Desenha os contornos que o limitam à forma e lhe acrescenta uma expressão única?
Entre as margens que materialmente delimitam o corpo no espaço e a infinitude do espírito que deseja lançar-se além das fronteiras, habita a natureza humana, eternizada em uma obra-prima.

Deixei meus estágios psíquicos moverem-se naturalmente, feito placas tectônicas que se ajustam ao movimento da Terra, e mergulhei para despertar de um sono profundo, como um artista que contempla a própria criação e nela se revela.

sábado, novembro 08, 2025

Eterna brevidade

Por mais que me queiram escravizar em definições,
encarcerar-me na materialidade das coisas,
todo esse intervalo a que chamo vida
é só meu.
Só eu o detenho,
porque sou eu, em mim, quem o vive.
Somente eu, como o eu que sou, experiencio
esse breve intervalo, a vida,
que contém, na brevidade, a eternidade
de meus inúmeros eus,
só meus.

quinta-feira, novembro 06, 2025

O exílio de si

A sombra é um arquétipo antigo e inevitável. Habita cada ser humano como uma presença silenciosa que acompanha os passos da consciência. É o espelho obscuro daquilo que rejeitamos em nós, o depósito das emoções reprimidas, dos impulsos negados e dos desejos não reconhecidos. Ainda assim, é parte essencial do que somos.

Por muito tempo, virei o rosto para não vê-la. Acreditava que ignorar minha sombra me afastaria do que havia de mais incômodo em mim e me aproximaria da imagem ideal que eu criara de mim mesma. Mas quanto mais a evitava, mais ela se fazia presente nas bordas das minhas atitudes, nas reações desmedidas, nas relações que terminavam em ruína. A sombra não desaparece com o olhar desviado; apenas muda de forma, camufla-se nos outros e retorna a mim através da projeção.

Ela é a porção exilada da alma, o estrangeiro interno que se sente deslocado e busca incessantemente um lugar de pertencimento. É o arquétipo do que foi banido e clama por reintegração. Em sua face humana, manifesta-se como insegurança, orgulho, raiva ou medo. Na tentativa de não ser ferido, o indivíduo dominado por sua sombra destrói o vínculo antes que o outro o faça. Crê estar se defendendo, mas apenas perpetua o exílio.

Esse movimento é universal. Todos nós, em algum grau, repetimos o gesto ancestral de afastar o que não queremos reconhecer. O arquétipo da sombra surge, então, como o guardião das partes esquecidas, aquele que preserva, em silêncio, o que a consciência não suportou acolher. Ele contém a energia vital que a repressão desviou. Integrá-lo não é ceder à escuridão, mas recuperar a totalidade perdida.

Quando projetada, a sombra se reflete nos outros. Enxergamos neles os aspectos de nós mesmos que tememos admitir. Por isso o mundo parece povoado de espelhos. O inimigo, o rival, o estranho — todos podem carregar, invisivelmente, fragmentos da nossa própria psique. Reconhecer isso exige coragem, pois implica abandonar a ilusão da pureza e aceitar que luz e sombra coexistem em toda alma humana.

Ao voltar-me para dentro, compreendo que julgar-me desconexa é condenar-me ao exílio de mim mesma. Acolher a sombra é recolher o que foi disperso. Quando essa força é reconhecida, deixa de incendiar os lugares e passa a iluminar caminhos. Sua energia, antes destrutiva, torna-se criadora. O arquétipo, reconciliado, converte-se em fonte de poder interior e sabedoria.

A viagem mais difícil é sempre a que fazemos para dentro. É nela que atravessamos o território simbólico onde o inconsciente fala por imagens e onde cada ser humano reencontra os próprios opostos. Ao fim dessa travessia, compreendemos que a sombra não é inimiga, mas guardiã do que fomos obrigados a abandonar. Integrá-la é o início do retorno ao lar interior, o lugar onde a alma deixa de errar no escuro e enfim se reconhece inteira.

Não te identifiques nem te defendas da imagem projetada no espelho.
Permanece no centro de ti mesmo.

quarta-feira, novembro 05, 2025

O abraço das palavras

Minha voz ecoa
e reflete
em toda e qualquer pessoa
que eu já tenha sido capaz de enxergar.

E toda e qualquer pessoa
que se tenha feito ver
encontrou em meus olhos
o reflexo daquilo
que outrora me habitava
e quer se deixar ver através do outro,
para que eu possa mirar,
quem sabe tocar
e experienciar a materialidade
daquilo que me escapa.

Minhas palavras,
aquelas que deixei escapar do fundo,
do chão,
do assoalho d’alma,
me resgataram do poço,
do lodo,
do sangue.

Foram elas,
as mesmas que inúmeras vezes
sufoquei, calei e desprezei,
a minha tábua de salvação,
o milagre pelo qual esperei.

E se meu chamado,
meu pedido de socorro,
foi atendido, ouvido e respondido
por alguém que eu não esperava
e até então não conhecia,
esse alguém era eu.

Se minha dor,
transmutada e materializada em palavras,
viajar pelo tempo
e tocar um ferido que seja,
para abrandar o sofrimento,
recebo com gratidão
o abraço dessas palavras.

sábado, outubro 18, 2025

O mistério da própria alma

Você está disposto a ser a versão de si mesmo que é, sem se ajustar ao outro ou aos ideais impostos?

O eu que quer nascer pode ser amado ou odiado. Se você o rejeita por medo antes mesmo de conhecê-lo, nunca saberá.

Pode amar uma criatura em gestação dentro de si, desconhecida, que precisa do seu afeto sem garantias, para que dela nasça um novo ser, parte de você?

Pode oferecer amor incondicional ou só amará sob condições?

O desejo de ser aceita, reconhecida, não vem da necessidade de se aceitar, se escolher e se reconhecer como valiosa?

Sou responsável por me aceitar. Não aceite menos do que merece e dê o máximo que puder.

A alma gesta um novo modo de ser, mais inteiro, mais conectado ao próprio instinto. O embrião psíquico se nutre no silêncio e na discrição, para que não seja abortado pela crítica, pelo medo ou pela razão excessiva de padrões impostos.

Você é capaz de amar um ser que ainda não conhece?

 

terça-feira, outubro 14, 2025

O incognoscível

Será que ele,
o incognoscível,
passa ignorando a pequenez
de um barco à deriva
na superfície de suas águas,

algo tão insípido
que mal provoca ondulações
perdidas na imensidão?

Desalento e abandono
sente a minúscula embarcação,
célula triste
desse organismo desconhecido.

Eu o acompanho com o olhar.
O eu quer falar e compreender,
ele quer silêncio e entrega.

Quem sabe,
se eu me deixasse levar pela maré,
não sentisse tanta falta.

segunda-feira, outubro 13, 2025

Não retorne à cidade fantasma

As paisagens congeladas dos álbuns de fotografia, momentos e memórias estáticos do passado, quando revisitadas pela consciência atualizada, que se move entre fragmentos estagnados, podem ganhar nova vida e roupagem.

As memórias nos chamam de volta, mas são apenas ecos.

Não retorne à cidade fantasma.
Não habite o inabitável.

O quadro se desgastou; os personagens atuaram, desempenharam seus papéis, cumpriram o propósito. A partir deste ponto, reconstrua a cena: envolva-a com uma nova visão, olhe-a sob outra perspectiva. Sua visão se alterou. E, com isso, a paisagem mudou. O passado já não é o mesmo visto deste ponto onde estou.

Os atores desta história, dos mais amados aos mais odiados, faces opostas de uma mesma moeda, guiaram-no até o lugar de onde agora seus olhos se voltam e observam, experimentando-se como fruto do próprio experimento. No instante em que a consciência desperta, tudo se desfaz e se refaz.

Ecos de vozes e falas, ouvidos por novos ouvidos, tornam-se outros; atos ganham novos sentidos, e o que era se reintegra ao que é sob meu novo olhar.

A pergunta que fica é:
E eu, o que farei do que fizeram comigo e do que fiz aos outros?
Usarei esses tijolos para erguer muros que me isolem, ou para construir uma casa que me acolha?

O que preciso mudar não é o mundo nem as pessoas, mas o meu olhar.
Alterar meus arquivos mentais corrompidos é o meu trabalho.
A cidade fantasma se desfaz ao toque do meu novo olhar, e com ele desengato a carroça de cadáveres que por tanto tempo arrastei.



sábado, outubro 11, 2025

O experimento

Eu não sou um brinquedo que possa ser consertado, mas ajo como se fosse.
Essa constante análise e observação de mim mesma, como uma substância in vitro dentro de um laboratório vivo que se observa em busca de falhas a serem corrigidas, talvez seja uma fuga da condição humana da qual faço parte.
O experimento que quer se experimentar.
Querer me consertar é um erro, prova de mais uma tentativa de negar aquilo que sou.
Nessa fantasia de ser um deus que identifica, classifica e corrige seus próprios erros, esqueço-me de que permaneço ainda humana.
E, assim, nego a mim mesma e à própria energia da qual provenho.

sexta-feira, outubro 10, 2025

Exílio

Certo dia, resolvi me calar.
E, no silêncio, algo subiu do peito: um incômodo, uma angústia, um medo do desconhecido.
Tudo em mim era sombra e escuridão.
Nenhuma forma, nenhuma sensação, apenas o vazio de não conhecer.

Não me pergunte quem sou. Nada sei sobre mim.
Se diante de um gênio da lâmpada eu tivesse três desejos, talvez ficasse muda,
sem saber o que pedir.
Seria fortuna?
Reconhecimento?
Amor?
Ou seriam esses os desejos da coletividade, sussurrando tentações em meus ouvidos?

Mas seria isso mesmo o que quero?
Se fosse, quem sabe já os teria vivido,
e eles, por sua vez, me teriam possuído até os ossos.
O que me mata é não saber se o são.

Habitar um destino sem rota,
estrangeiro,
cuja língua não falo,
é como viver uma condenação silenciosa,
um exílio interior,
uma segregação do que sou
a se propagar em cada célula deste corpo
que move, sem saber por quê,
esse grande desconhecido.

Deus vive através de mim
a experiência de não se conhecer.
Até que um dia se farte dessa incerteza.

terça-feira, outubro 07, 2025

Mesmo lugar

E nós, humanos,
mergulhados na euforia das ilusões,
das opções,
das repetições,

cá ficamos a dormir eternamente,
presos a um conforto desconfortável,
indo e vindo
pelos mesmos caminhos.

Apertados, atados,
parecemos avançar,
quando, na verdade,
retornamos
sempre
ao mesmo lugar.

segunda-feira, outubro 06, 2025

Um Leão por dia

Matar um leão por dia é o lema do rol dos vencedores.
Só esquecem que o leão que se mata hoje renasce amanhã, ainda mais forte.
O animal mais selvagem a enfrentar é a nossa própria resistência, que nos empurra para o abismo da repetição.

sexta-feira, outubro 03, 2025

Proteja seu cavalo e suba com ele

Tenho no mundo várias versões de mim, espalhadas pelo tempo e pelo espaço. São versões da minha própria vida e também da minha passagem pela vida dos outros, que projetam sobre mim inúmeros eus: memórias, criações, impressões. Fragmentos vazios daquilo que afirmam ser eu diante do mundo. Posso acreditar nesse filme ou não, mas, seja qual for a escolha, nenhum deles sou eu de fato. São apenas imagens ocas, quadros em movimento criados por mentes que sonham, acreditam e projetam, em busca de apoio e distração para longe do próprio vazio.

Reconhecer que todas essas versões são apenas reflexos é o primeiro passo. O segundo é mais exigente: caminhar e distanciar-se desses eus, aqueles que tanto conhecemos, ou que nos foram impostos, apresentados e representados. Deixá-los para trás, ainda que estejam sempre em nosso encalço, à espreita para nos puxar de volta, exige atravessar terras inóspitas e desconhecidas, tendo como única arma a intimidade consigo mesmo.

O desafio nasceu da invasão da narrativa do outro, mas me colocou diante do meu próprio eu desnudo, aquele que tantas vezes virei o rosto para não ver.

Proteja seu cavalo e suba com ele, passo a passo. Não importa o lamaçal: o broto sempre encontra caminho para a luz.

A saída não é derrotar a sombra, mas crescer a partir dela, como a planta que, justamente porque há terra pesada sobre si, encontra a força para romper e alcançar o sol.

quinta-feira, outubro 02, 2025

Projeção

O mal que habita em mim, mas teme encarar-se, esconde-se nas sombras do meu inconsciente inexplorado e me espreita. Ele pode ser, e de fato é, projetado no outro, no externo, a fim de aliviar a tensão gerada pela oposição interna. A projeção torna-se, então, um guia cego que me conduz a juízos de valor equivocados e a visões enganosas da realidade objetiva.

Infinito

Além da espessa camada de matéria sólida e pesada que me separa do céu, ergue-se ele: o mistério insondável, diante do qual minha consciência se lança, revira e se aferra.
Mas, a cada tentativa de aproximação, mais ele me escapa. Está além, sempre além.
Perdoa-me por querer compreender o que não se compreende, conceber o inconcebível, conter em moldes estreitos aquilo que não se deixa conter.
O infinito a nada se encaixa. E eu, nele, me encaixo.

segunda-feira, setembro 29, 2025

Oscilação

As camadas sedimentadas do inconsciente coletivo alimentam nossas ações, muito além do que conseguimos conceber conscientemente.
Negue, afaste-se, rejeite, julgue como ignorância ou crendice ultrapassada; diga o que quiser sobre o saber daqueles que nos antecederam. Quanto maior o desprezo, mais profunda a influência que age nos bastidores de nossos atos.
Palavras vazias de emancipação escondem heranças impressas no sangue e na carne de nossos corpos modernos. Tão nossos, individuados, espíritos do agora, carregando o amanhã que já se passou.

Nossa animalidade move passos disfarçados de propósitos infinitos. Almas confinadas ao curral da mente buscam algo além de sua essência primitiva.
Uma geração que avança apenas no tempo cronológico, sem perceber suas origens, segue loucamente rumo ao abismo que nos distancia uns dos outros e de nós mesmos. Cavamos a terra longe das raízes, até o solo rochoso e infértil da dualidade crua.

Dentro de cada indivíduo, existem duas forças: uma que deseja se entregar e outra que reprime e repete. São igualmente poderosas, mas quando se combatem, nos fazem oscilar. Movemo-nos como carros com o freio de mão puxado.

O movimento oscilatório é como o lançar de uma moeda: duas faces inseparáveis se alternam a cada giro no ar. À primeira vista, estamos entregues ao acaso, sem saber qual lado tocará o chão. Mas, quando a consciência se eleva, o resultado imediato perde importância. A moeda deixa de ser apenas “cara ou coroa” e revela-se como unidade. Quem se coloca acima do jogo invisível da aleatoriedade percebe que os opostos não precisam se anular, mas se complementar e cooperar, concedendo-nos liberdade ao integrar ambos em um mesmo centro, impulsionando um movimento constante.

Volto-me profundamente para dentro de mim, explorando e iluminando a escuridão. Nessa incursão surge o retorno, a ânsia de me unir aos outros, me envolver, me espalhar e misturar-me à humanidade. Oscilo como estrela pulsante, expandindo e contraindo ritmicamente, até buscar estabilizar-me em meu núcleo.

quinta-feira, setembro 25, 2025

Rumo a Deus Sabe o Quê

Deixarei aqui minhas palavras
não ditas,
não lidas,
para assegurar que estive aqui:
neste mundo,
neste tempo,
neste espaço.

Como pegadas,
uma marca de que eu,
assim como qualquer um,
quem quer que seja,
fiz parte desta civilização,
desta humanidade.

Envolvi-me no coletivo das ideias,
dos fatos;
em meio aos acontecimentos,
eu também vivi
nesta incógnita que fui
e presenciei.

Devo dizer que busquei
incessantemente algo
que preenchesse o vazio
que engole todas as coisas ao redor.

Nele, me enredei
da superfície até o fundo;
na escuridão, forcei a vista
em busca de uma luz
que desesperadamente aspirei,
que me esclarecesse,
quem sabe me guiasse
rumo a Deus sabe o quê.

terça-feira, setembro 23, 2025

Para além de Sísifo

Nessa vida movida por clamores e expectativas, aquieto-me em busca de uma guia interna em quem possa confiar intimamente. Peço que me seja concedido discernimento diante das circunstâncias externas, para que eu possa optar pelo caminho além do cume de Sísifo — deixar rolar o peso da pedra, libertar-me da sobrecarga.

O ser humano tem trabalhado inutilmente em busca de controle sobre o fluxo natural da vida. Empenha grande esforço nisso, quando, na verdade, esse fluxo é incontrolável e está além de sua capacidade. Por simplesmente não aceitar seu destino, o homem busca redefini-lo de acordo com suas próprias vontades e permanece eternamente em um esforço vão, o qual não pode evitar, por não conseguir abrir mão de seus desejos, que o mantêm preso à ilusão de controle. Se o homem fosse capaz de deixar ir suas vontades, poderia crescer exponencialmente, impulsionado pelo fluxo natural.

Por mais vulnerável que esteja, um caolho ainda pode ver e um manco ainda pode andar. Mesmo feridos e quebrados, podemos seguir nosso caminho.

O mesmo vale quando nos sentimos fortes e poderosos; ainda assim, nossa capacidade depende de fatores externos, dos quais dependemos para expandir-nos e nos sustentar.

segunda-feira, setembro 22, 2025

Cata-vento

O assovio harmônico do vento pincela a paisagem.
Nela, ele dança e se infiltra,
percorre as brechas que encontra pelo caminho,
carrega o cheiro do vazio de todas as coisas,
sutil e invisível,
indo e vindo...

Arranca do peito um suspiro,
traz de longe uma flor,
leva um pedaço de papel,
faz girar o cata-vento que tenho na mão,
pousa no meu coração uma paz.

Fecho os olhos,
e ele me conduz
ao fluir natural da vida.