segunda-feira, agosto 25, 2025

Clã dos Desajustados

Uma gota de água salgada escorre lentamente pelo sulco do rosto, traçado pelo giz da tristeza. Julguei-me condenada a um sonho não realizado, cárcere privado da narrativa de mim.

Olho para a escuridão da minha casa e sinto a influência irresistível que me arrasta para o caos coletivo. O desconforto é o impulso de caminhar sem encontrar chão firme, como andar sobre pedras soltas em um caminho que se desfaz a cada passo.

Que tristezas e medos são esses que invadem minha alma? Sinto-os como olhos de lobo, brilhando na penumbra do tempo, observando cada movimento, cada hesitação.

O lamento nasce da sensação de incompletude, do vazio de não me sentir “em casa” em lugar algum. O pesar surge diante do risco da travessia: não saber se vou chegar, temer errar o passo, me perder antes da conclusão, tropeçar nas próprias sombras.

Movo-me por dentro, guiada pelo que faz sentido ao coração. Mas como avançar, se muitas vezes nem a ele escuto? Cada batida parece falar uma língua que preciso reaprender a decifrar.

A alma é ousada: lança-nos no abismo em busca de partes dispersas. A ferida chama a flecha que a reabre, apenas para finalmente se fechar. Arrisca, uma vez mais, a repetição. A pior ausência é a ausência de si: o eco que não se encontra em nenhum lugar, a sombra que me assombra.

Eu pertenço ao clã dos desajustados e desencaixados. Sou mutável, mas não moldável. Minhas mãos não conseguem reter nem conter a essência que me escapa como éter. E ainda assim, continuo a caminhar, recolhendo fragmentos de mim, sigo me perdendo para me encontrar.

domingo, agosto 24, 2025

Dádiva oculta

Um ramalhete de flores artificiais repousa num vaso trincado.
Eis a chance de receber nutrição verdadeira e florescer.

O fluxo da vida se move em mutações,
entre linhas firmes e maleáveis,
na dança secreta entre céu, terra e humanos.

O recipiente está rachado, a chuva demora,
o alimento ainda não é consumido —
mas a sinceridade pode nutrir mesmo assim.

O peso das aparências impede que o alimento alcance a boca,
mas a fragilidade não nega sua função:
o vaso guarda, transforma, transmite.
Não é perfeito, mas contém.

O valor não está na forma, mas no que se oferece através dela.
É na imperfeição que se abre a possibilidade da transmutação.
Se for verdadeiro, o vaso suportará, mesmo trincado.

As flores que você coloca nutrem… ou apenas enfeitam?
Para que as raízes alcancem a dádiva dos céus,
o solo precisa receber a chuva
e oferecer à vida apenas o que é real.

sábado, agosto 23, 2025

O abismal

Emerge à superfície
o espírito da profundidade.
É o fluxo da vida.

Não falo aos que se afundaram,
mas aos que mergulharam.

As águas, que afogam ou que fluem,
são as mesmas:
o destino depende de quem nelas
se aventura ou se perde.

quinta-feira, agosto 21, 2025

Ao que você se alinha?

Muito cuidado com os vínculos que escolhe,
com as vozes que decide escutar.
Você já se perguntou, com sinceridade,
de que lado está?

Vivemos na superfície das coisas,
arrastados por narrativas que aceitamos
sem jamais questionar.
Chamamos de caos o que talvez seja apenas
um quebra-cabeças oculto,
um desenho maior
que nos atrai e nos domina.

Por que nos sentimos atraídos
justamente pelo que nos fere?
A ferida que ainda sangra
e que não sabemos curar
é também a que nos prende.

Nossa energia é alimento.
A quem você escolhe nutrir?
Ao que fortalece ou ao que enfraquece?
Toda vez que se rende à narrativa do medo,
entrega seu poder a algo fora de si.
Toda vez que toma as rédeas de sua história,
recupera a força que lhe pertence.

Todas as vezes que escolho acreditar e seguir
aquilo que me tira as forças,
viro as costas para mim mesma
e acabo nutrindo justamente o que acredito combater,
relegando-me ao papel de vítima das circunstâncias
que me aprisionam e me lançam à miséria.
Ao agir assim, minha fundação se desfaz
e a casa desaba em ruínas.

Mas as ruínas não devem provocar desespero:
são a abertura para que algo verdadeiro floresça.
A reconstrução sobre novas bases não acontece de imediato,
nem se impõe pela violência ou pela força,
mas pela suavidade e pela assimilação gradual.

É preciso permitir que esse algo amadureça dentro de mim,
deixando que as camadas que já não servem
se desprendam naturalmente.
Para poder oferecer,
é necessário também aprender a receber.

Então eu lhe pergunto outra vez:
ao que você se alinha?
À escassez, ao pânico, à impotência e manipulação?
Ou à paz, à potência, ao poder que é só seu?

A escolha não é um partido,
nem uma bandeira.
A escolha é o que você perpetua.
Você é arauto do medo
ou mensageiro da força?

sábado, agosto 09, 2025

I Ching — Madeira sobre as Águas

O I Ching
é madeira sobre as águas.

Por onde navegam as embarcações.
Rumo ao firmamento.
Onde o sol nasce…
e se põe.

Travessia do inconsciente.
Sabedoria ancestral.
Que flutua sobre o rio da vida.

Transportando símbolos.
Mistérios.
Direções.

Atravessando o nevoeiro do silêncio.
Em busca de sentido.

A estrutura do hexagrama
é mais um florescer…
do que uma construção.

Seu movimento no agora,
através da mutação das linhas,
navega rumo
ao que ainda não se revelou.

O eu que fui…
e o eu que posso vir a ser…
fazem parte de um mesmo movimento.

Instrumento de comunicação entre mundos:
o visível e o invisível.
O presente e o eterno.

Que só a intuição reconhece.

Rasga distâncias.
E ilusões.

Toca ecos do que já foi.
E sussurros do que está por vir.

Ele não responde — escuta.
Não revela — espelha.
Não impõe — orienta.

Quando todas as vozes se calam…
e as intenções silenciam…
ele brota naturalmente.
No fluxo da vida.

A cada consulta:
vivemos conscientemente.
Integramos a sombra.
Dialogamos com os sonhos.
Acolhemos conteúdos simbólicos.

Essa é a influência verdadeira.
Que nos aproxima do que somos.
Nos integra.
E nos sincroniza ao Tao.

Só assim
vivemos de acordo com a lei natural.
E tocamos
o que é universal e cósmico.


Que cada fragmento desse poema possa ser lido como quem lança moedas ou varetas, em compasso com o silêncio da alma.

sábado, agosto 02, 2025

O Golpe de Cinzel

Vi uma criatura livre.
Aprisionada a um corpo de pedra, sólido, concreto, aparentemente imutável.
Mas eu sei: não há prisão para uma alma que decide se esculpir.

Minha vontade é o braço.
Minha consciência é a mão que segura o cinzel.
O cinzel é a extensão do meu olhar atento e preciso, que sabe onde o excesso de rocha oculta minha forma verdadeira.
O martelo é o impacto dos meus hábitos e das minhas decisões diárias.

Cada escolha feita, cada gesto repetido, é uma batida firme que imprime força no cinzel.
O hábito não é meu inimigo.
Quando inconsciente, ele pode me enterrar no mármore da inércia.
Mas quando desperto, ele se torna meu martelo, meu aliado na obra de mim mesma.

A cada manhã, ergo o cinzel.
A cada ação, dou um golpe que remove um fragmento do que não sou.
A cada decisão consciente, lasco um pedaço das máscaras, das programações, dos medos herdados.

Quando acordada, não tenho pressa, pois a pressa não lapida.
O escultor respeita o tempo da pedra.
E eu respeito o tempo da minha alma.

Eu sou a escultora e também a obra.
Meu Davi está emergindo.
E este será o trabalho da minha vida.

quarta-feira, julho 16, 2025

Movediça

Dentro de mim, vivem mil vidas
Entre múltiplas versões —
Qual delas sou eu?

Quando as luzes externas se apagam,
as máscaras caem
e me confundo com elas.

Meu interior viscoso e mutável,
feito areia movediça a me engolir,

Gesta a realidade
Como um sonho
Que ainda não acordou.

segunda-feira, julho 14, 2025

A Arte de Habitar a Si Mesmo

Não me fechei para o mundo. Decidi me abrir, primeiro, para a minha própria verdade. Existe uma diferença entre reagir inconscientemente e responder com consciência. Grande parte de nós, vive condicionado a padrões automáticos: agimos movidos por feridas, medos, traumas ou pela vontade de agradar. Mas chega um momento em que algo em nós desperta. E então, em vez de repetir, escolhemos avançar.

Nesse espaço interno, as ações deixam de buscar aprovação. Passam a ser guiadas por escolhas conscientes, alinhadas ao discernimento, à integridade e à sintonia com o que é verdadeiro dentro de nós.

Quando isso acontece, começamos a nos libertar dos jogos emocionais e da necessidade de projetar no outro aquilo que antes não conseguíamos reconhecer em nós mesmos. A autonomia se fortalece. As palavras ganham intenção, a presença ganha valor e a paz torna-se um bem inegociável.

Não preciso mais convencer ninguém sobre o meu valor. Estou aprendendo a reconhecê-lo com honestidade e gentileza. E, com isso, passo a priorizar vínculos recíprocos.

Meu centro de força já não depende da validação externa para existir. Isso não me isola. Pelo contrário, torna minha relação com o mundo mais lúcida. E é a partir desse lugar que me permito, enfim, ser real.

Inconsciente

Ele me diz:

Você pode me testar inúmeras vezes e, nas inúmeras vezes em que me testar, irá falhar miseravelmente.

sábado, julho 12, 2025

A globalização encolheu o mundo: virtualmente mais conectados, emocionalmente desconexos. O contraste entre a proximidade tecnológica e o distanciamento afetivo.

O mundo se estreitou. Tudo parece ter se reduzido a uma polarização crua e exaustiva: o certo contra o errado, o meu sistema de crenças contra o resto do mundo. A dualidade foi levada ao extremo.

A globalização ampliou os horizontes do espaço físico, mas, por outro lado, encolheu nosso pensamento. Ficamos presos a uma lógica irracional: “é isso ou aquilo”, “quero tudo e não quero nada”. E assim, nosso mundinho, que corre freneticamente por rotinas caóticas e sem tempo, tornou-se estagnado e pequeno.

Vivemos afogados em novidades. A cada segundo, algo novo nos é empurrado. Mas, no fundo, nada realmente novo acontece. Apenas o velho de sempre, reciclado em formatos cada vez mais rasos, despejado com violência dentro de nós, como se fôssemos tubos vazios.

Resta-nos o despropósito. Uma busca incessante por encaixe em um cenário arruinado, que já não faz mais sentido.

E diante disso tudo, o mundo acabou?

Para alguns, talvez sim.

Mas eu ainda estou aqui. E enquanto estiver, ele não acabará. O sentimento esfriou, é verdade, mas ainda posso sentir. E se ainda há em mim essa emoção, é porque devem existir outros como eu. Sobreviventes do sentir em um tempo que anestesia.

quinta-feira, julho 10, 2025

O mundo e sua crescente polarização

Vivemos tempos em que mulheres desprezam os homens e homens desprezam as mulheres. A combatividade tomou o lugar da escuta, e a agressividade passou a mirar o outro como inimigo. Indivíduos se veem como adversários a serem eliminados, e esse modo de pensar criou uma sociedade sufocada dentro de uma armadura rígida e artificial, feita para nos isolar uns dos outros.

O espírito de cooperação foi rejeitado. A nova palavra de ordem é: eu não preciso de você. A partir dessa crença, instala-se o conflito. Passamos a combater irracionalmente, mesmo quando encobrimos esse combate com discursos que soam lógicos. Justificamos nossa raiva reprimida projetando-a nas falhas e imperfeições dos outros. Incapazes de olhar para os próprios erros, preferimos manter os olhos voltados para fora, como forma de escapar das sombras que habitam em nós.

Nos enfrentamos até o esgotamento, e ao fim, restamos em pedaços.
As energias que nos compõem, opostas e igualmente naturais, não precisam viver em confronto. Elas podem coexistir em harmonia. Cada ser humano carrega dentro de si uma multiplicidade de aspectos, entre eles os femininos e os masculinos. Essas forças não precisam competir pelo domínio da narrativa pessoal. Integrá-las é reconhecer-se inteiro.

A visão fragmentada de mundo que insiste em dividir, em vez de unir, não nos fortalece. Enfraquece-nos. Realizar a integração entre partes distintas nos engrandece e nos aproxima de uma existência mais plena. No entanto, o discurso dominante parece ter invertido o propósito: dividir para conquistar. O que muitas vezes esquecemos é que, ao final desse processo, os verdadeiramente conquistados somos nós.

quarta-feira, julho 09, 2025

Deserto do real

Por vezes, me invade um sentimento de opressão no peito, que rasga em pedaços o meu tão sonhado ideal de bem-estar. Sou lançada a uma zona de total desconforto. Minha mente, viciada em consertar falhas e encaixar peças, me escaneia em busca de erros. Procura classificar e ordenar qualquer vestígio de caos, elemento inaceitável na lógica cartesiana à qual minha razão se molda constantemente.

Nada deve escapar sem uma explicação plausível e imediata. Faço malabarismos internos para conter e organizar sentimentos, ações e decisões. Já aos ímpetos e instintos, ofereço silêncio, controle e repressão. Crio uma fachada limpa, simétrica, com uma proporcionalidade invejável. Tudo isso para me conceber como alguém aceitável em mim mesma e diante da sociedade.

Sigo adiante nessa fantasia bem-sucedida de modelo exemplar. Uma peça devidamente encaixada e funcional nas vidas secas de terras áridas. Eis o nosso deserto do real.

sábado, julho 05, 2025

Ruído que precede o despertar

Quando um raio luminoso surge no céu e irrompe sobre a terra num estrondo assombroso e repentino, pode se dispersar em uma faísca que queima uma árvore e se alastra pela floresta, ou pode se estancar, anulado pelo solo.

A carga massiva descarregada no contato entre céu e terra busca equilíbrio após o fenômeno que corta nossa paisagem como uma flecha mensageira do firmamento. O desconforto que provoca atinge-nos em cheio, faz sacudir o chão que pisamos e, por vezes, incendeia tudo ao redor, reduzindo a pó a vasta extensão de nossas certezas.

O som que nos desperta do sono profundo é incômodo como um grito no meio do silêncio. Logo após, instala-se um vazio opressor que nos obriga a encarar o que antes ignorávamos. Nossas mentes, viciadas em soluções imediatas e respostas rápidas, perdem-se no território desconhecido da transmutação. E ali, na fronteira entre o susto e o silêncio, a alquimia trazida à luz da consciência nos paralisa diante da escuridão de nós mesmos.

Meu núcleo carrega uma fúria de substâncias instáveis, prestes a se explodir em erupção. Temo a violência dessa força natural que poderia dizimar tudo o que construí. O autocontrole tornou-se a única defesa contra aquilo que mais temo em mim: a minha força.

sexta-feira, julho 04, 2025

União nos escombros

Dentro da minha devastação interna, recebo você, humilde viajante, sombra que se revela através do vento suave na face.
Seus cabelos soprados tornam nítidos os olhos agora brilhantes.
Personagem misterioso que lança sua cartada final sobre meu tabuleiro de jogos arruinado, ofereço-lhe um espaço verdadeiro, ainda que imperfeito, em meio aos escombros.

Acolho-o sem exigir que esteja limpo ou claro.
Em união por afinidade sincera, no improviso de um lar que desabou, comprometemo-nos a cumprir sua reconstrução por meio da nossa reconciliação e cumplicidade.

quinta-feira, julho 03, 2025

Mortos em vida

Em vida, temos muitas possibilidades do que poderíamos ser, uma abundância vazia, um transbordar de grandes nadas, mergulhados em mentes dispersas.
Nossa sociedade pode ser vista como um campo florido, povoado por borboletas que voam sonhando com flores em vitrines, mas nunca pousam nem polinizam o terreno já árido pela inação.
O que vemos são mariposas cegas, perdidas, trombando em luzes artificiais, cansadas da falsa esperança.

É preciso quebrar o encanto do que poderia ser e fincar os pés na lama fria e pesada do que é. Só assim a vida deixa de ser um catálogo de promessas vazias e começa a ser vivida de verdade.

Morto em vida é quem sente, mas não se arrisca, ama à distância, deseja, mas não se entrega. Seres estagnados, presos pelo medo de afundar e mergulhar.

Vidas mornas, tépidas, cascas sem brilho, amostras grátis de conteúdos vazios.
Vemos resultados por todos os lados, mas o processo é negado e anulado.
A colaboração, a construção conjunta e o trabalho paciente deram lugar a manuais de autoajuda que oferecem fórmulas prontas.

Arriscar-se não é sair correndo, é parar de fugir.
É se entregar ao vazio, ao silêncio, ao desconforto de não ter respostas e permitir que algo mude por dentro.

Você pode se arriscar na pausa que revela o essencial.
Pode se arriscar olhando para o que tem evitado sentir.
Pode se arriscar ao abrir mão de uma identidade que não te sustenta.
Pode se arriscar ao se render a um processo interno sem controle, mas verdadeiro.

Quer saber onde se arriscar? Pendure-se por dentro.
Deixe cair as máscaras, os papéis, a pressa.
E veja o que permanece.
É ali que mora o real.

Solte o controle do plano perfeito, da ilusão de que só se pode agir quando tudo estiver claro e calculado.
O sucesso não se garante antes do passo. Está preso a mentes que projetam, mas não sentem.

Fragmentos temerosos de suas versões incompletas.
Uma multidão de vozes fala e não diz nada. Seguimos repetindo fórmulas para um desajuste íntimo e coletivo.
No fim, tudo não passa de opiniões, suposições e previsões do que só pode ser vivido.

De nada adianta preservar uma vida que não movimenta nada, a não ser que essa vida esteja pronta para se reconhecer como fonte.

A vida é uma travessia.
Se quiser atravessar, terá que enfrentar o fogo.
Mas esse fogo não vai te queimar, vai te forjar.

quarta-feira, julho 02, 2025

Marcha dos desejos

Qual o rumo de nossos desejos?
O desejo de reinar, de imperar, de ser soberano não é, por si só, ruim, nem denota soberba. Quando voltado para si mesmo, deixa de ser uma arma apontada para o outro e torna-se espelho da alma.
Chega como a chuva fina que amacia a terra. Não força, mas penetra fundo.
Sussurra que é hora de dizer "sim" com o coração inteiro, e "não" sem culpa.
É tempo de olhar para dentro, reunir as forças dispersas, reconhecer seus próprios recursos e colocá-los em movimento, com direção, sem pressa e sem fuga.
Quem já desertou de si pode agora retornar. Com coragem, não mais com medo.
Não vire as costas. Avance em seu próprio ritmo. Mantenha-se em marcha, mesmo que o passo seja pequeno.
Vá. Siga munido de si.
Mas não grite sua verdade a quem está surdo.
Não se apresse em se abrir a quem não demonstra maturidade ou escuta genuína.
Você pode estar emocionalmente pronto, mas o outro precisa ter estrutura para acolher o que vem de você. Escolha sabiamente suas parcerias e as batalhas que realmente valem o esforço.
Ofereça amor não porque te falte algo, mas porque há algo demais aí dentro, algo bonito, ardente, pulsante, que ao encontrar no outro um espaço, apenas pousa.

segunda-feira, junho 30, 2025

Juízes do Apocalipse: o tribunal invisível do cotidiano

Imersos em um mundo guiado pela lógica cartesiana e pelo peso morto de martelos que julgam processos em escala, nos colocamos no topo de supostas verdades absolutas. Ali, envoltos pelo manto opaco da razão, somos inundados por discursos de ódio, frustração e desprezo. Tudo se resume ao preto ou branco, ao oito ou oitenta. Não há espaço para nuances, para os tons que a vida concreta apresenta, tão distante das teorias de certo e errado.

Essa visão limitada, incapaz de ultrapassar o próprio reino de ideias rígidas, nos transforma em juízes do apocalipse. O dedo em riste aponta para fora, enquanto o espelho permanece encoberto, refletindo apenas projeções sombrias de nós mesmos. Esse movimento automático de escanear o outro em busca de falhas revela menos sobre o mundo e mais sobre quem acusa.

Por trás desse julgamento, esconde-se uma frustração profunda. Um desencantamento com a vida e consigo mesmo. Atiramo-nos, sem perceber, contra o paredão duro da ignorância, do medo, do egoísmo. Reagimos com raiva e desprezo diante do outro, e, por extensão, diante de nós mesmos.

Caras cobertas por carapuças venenosas, olhos obscurecidos por lentes espessas de crenças tóxicas. Seguem assim, apáticas, repetindo discursos amargos para tentar expelir a sujeira interna que nunca conseguiram limpar. Transbordam suas toxinas num gesto desesperado por algum tipo de purificação mental e emocional.

É preciso coragem para olhar de frente para as próprias falhas. Não para se vitimizar ou punir, mas para crescer. Crescer dói. Como uma semente que rompe sua casca para germinar. Requer maturidade entender que a vida não cabe em fórmulas. Há motivos invisíveis, nuances, mistérios que movem os gestos humanos, e isso exige menos pressa para julgar, mais humildade para escutar.

A existência é complexa. Ínfima. Exige abertura. Para aprender. Para acolher. Para respirar. E talvez, mais do que tudo, para viver com menos certezas e mais presença diante da vida que compartilhamos.

Talvez a salvação esteja na leveza de não saber e, ainda assim, acolher.

domingo, junho 29, 2025

Arquitetura da ilusão

A imaginação é um castelo de cartas
por entre as pirâmides de sua estrutura
equilibram-se as ilusões

Cartas dispostas em formato de A
pontas voltadas para o céu
simetria arquitetada por projeções assimétricas da mente
prontas para atirar

A estabilidade depende sempre
da disposição
e da inclinação

Mira incerta, tendenciosa
à mercê do que escapa
como o vento a derrubar
os cálices da ilusão

O entendimento me chega como um raio
que irrompe no céu noturno
extraindo a verdade num estalo
estampido que faz o coração
palpitar em sobressalto

O clarão cega e confunde
temporariamente
os olhos ajustados às sombras
retraindo as pupilas
como se pudessem escapar
do desconforto da luz

Por um segundo
mergulho no branco alvo do brilho repentino
e vejo, em assombro
meu verdadeiro tamanho

Permaneci tempo demais
nas demoradas formalidades
as que precedem o casamento das partes
que me constituem num todo de mim

Assim tomo consciência do transitório
à luz da eternidade do fim

sexta-feira, junho 27, 2025

Vestidos de amor

Ainda há quem se disponha a despir-se das máscaras,
entregar-se por inteiro,
acolher o amor nos braços.

Deixar à mostra apenas a pele e a alma.
Tocar a carne.
Render-se ao coração.

Desfazer-se dos artifícios,
saciar-se em pura emoção.

Sem encenar o gesto,
mas apenas em cumplicidade,
em que nada se queira ser além do que se é:

nus do desejo de possuir ou provar,
vestidos apenas do ímpeto de ser —
essa coisa a que chamamos amor.

quarta-feira, junho 25, 2025

O artifício que nos revela: A inteligência artificial como espelho da condição humana

Dizem que o mundo se tornou artificial com a chegada das inteligências artificiais. Que ninguém mais fala por si, apenas por meio das máquinas, das quais nos tornamos dependentes. Mas será mesmo que foram as IAs que nos tornaram artificiais ou será que já éramos assim, e a tecnologia apenas refletiu o que havia em nós?

Talvez a artificialidade não tenha nascido das máquinas, mas da nossa própria desconexão com aquilo que é essencialmente humano. Já éramos dependentes de estímulos externos, performáticos, programáveis, superficiais. Agíamos no automático muito antes dos algoritmos. As máquinas apenas espelham esse vazio. Talvez seja hora de rever nossa conduta no mundo.

Desde que as inteligências artificiais passaram a ocupar o espaço da criação e da produção simbólica, comecei a refletir se a condição humana poderia ser replicada em modelos prontos, moldados à imagem da demanda de cada indivíduo. Pessoas que se conectam por dores semelhantes unem-se em torno de narrativas criadas para oferecer conforto e reconhecimento. Já os que buscam admiração por conquistas pessoais formam tribos que celebram vitórias e aplausos.

Assim, em escala industrial, passamos a produzir modelos humanos "ideais", simulacros da humanidade prontos para o consumo. A condição humana tornou-se produto, vitrificado e vendável, utilizado para suprimir artificialmente carências reais. E não é isso mesmo que temos feito?

No entanto, mesmo em meio à robotização do ser, não temo que roubem minha identidade. Reconheço em mim traços que nenhuma máquina é capaz de replicar: a consciência do sentir, a contradição, o desejo, o silêncio que fala.

É esse reconhecimento que me impede de ver as IAs como inimigas. Em vez de combatê-las, acredito que podemos direcioná-las, assim como precisamos aprender a direcionar a nós mesmos. A tecnologia, como qualquer força criadora, exige consciência para não se tornar destrutiva.

Guiar a inteligência artificial é, portanto, um exercício de humanidade. E talvez também uma oportunidade de reencontro com nossa essência perdida. Porque, às vezes, é justamente diante daquilo que soa mais artificial que se reacende, em nós, a vontade de ser real.

Talvez, no fim das contas, precisemos das máquinas para lembrar o que é ser humano.

Cultivo de si

Não sou apenas minha cabeça. Sou meu corpo inteiro.
Não sou só coração. Sou razão e alma inteira.
Sou algo como uma erva daninha que insiste em crescer entre as pedras.
Inspiro-me na humanidade. Sinto-me dentro e fora dela. Vivo como o vento, que empurra e puxa.

Todas as minhas falas partem de dentro, pois meus olhos só enxergam o lugar de onde falo. O que não veem, para eles, não existe.
Se expresso uma dor, é porque a sinto na carne. Crio a partir da minha própria experiência, e a mais profunda delas é a experiência de mim mesma.

Vivemos todos em busca de nos relacionarmos com o outro: no amor, na amizade, na família, na sociedade.
Mas e conosco?
Quem se relaciona consigo?
Quem busca se conhecer, se questionar, entender o que corre no âmago de si?

Quem se dá ao trabalho de lapidar-se, espelhar-se, cultivar suas sementes, nutrir-se de suas próprias águas, colher o fruto maduro de si?

De mim emana a realidade que me cerca. Que outro caminho poderia eu trilhar senão aquele que conduz de volta a mim?

Não há como escapar de mim. A cada fuga, afasto-me ainda mais da minha essência, quando a nego, quando me escondo no vazio da não existência, disfarçada em um ser que não sou.

As mil vozes que lá fora falam são apenas aquelas que me permito ouvir.

terça-feira, junho 24, 2025

Caíram-me os óculos rosa

Certa vez, eu caminhava pelos arredores de um vale rico, ensolarado e verdejante. Todos sorriam e viviam em pura harmonia. Por um instante, estanquei a caminhada despretensiosa que me levava a lugar nenhum — mas que se encaixava no roteiro da vida. Uma rajada de vento leste me atingiu por inteiro. Acendeu os pensamentos. Eriçou os pelos. Um arrepio frio subiu pela espinha. Dos olhos, caíram os óculos de lentes cor-de-rosa.

Naquele instante, a paisagem interna se alterou — e, com isso, a externa também. O que antes brilhava, perdeu o viço. Os olhos tornaram-se cegos para imagens que já não sustentavam sentido: como quadros que o tempo desbota. Tudo desapareceu do meu campo de visão.

A realidade passou a se moldar a partir de quem eu era — ou do que havia me tornado. Seria isso um presente? Ou seria o próprio presente? Figurada em novo papel, comecei a perceber figuras, sons e paisagens que antes me escapavam. Estavam ali, sempre estiveram, mas minha ignorância não me permitia vê-los.

A frequência mudou. Algo invisível me puxava. Não havia retorno possível à página virada, agora percebida como uma leitura mal feita, descompassada com meu tempo interior. Aperceber-se disso é como tropeçar, de repente, numa raiz invisível no meio do caminho — um choque contra a dureza que desperta.

Foi assim que, por acaso, deparei-me com uma paisagem árida e silenciosa. Um deserto. Impunha-se ali o ímpeto de seguir adiante, apesar da secura, apesar do vazio. A ausência de estímulos excessivos, no início, pareceu perigosa. Depois, tediosa. Por fim, assombrosa. Mas foi nesse cenário despido que a verdade começou a se insinuar, tênue, como uma estrela tímida surgindo no céu de um mundo novo.

Caíram-me os antigos óculos, calçaram-me novos sapatos.

Travessia

O questionamento tornou-se meu estado de espírito quando optei por ver e rever os conteúdos das minhas crenças e ideias, padrões e comportamentos. Coloquei-me na posição de observadora de mim mesma, com os olhos voltados para dentro, buscando, em meu próprio espaço e arquivo, os meus sentidos.

Revisitei inúmeras vezes o mesmo cenário. Olhei por todos os ângulos possíveis, até mover algo que se encontrava imóvel dentro de mim — revelando a transformação que expande o horizonte, dentro daquilo que antes me parecia um labirinto, um fim em si.

Passei pelos mesmos caminhos de sempre, acomodada ao olhar habitual. E foi desses caminhos que extraí a novidade do meu próprio olhar. Nada mais me pareceu familiar. Tudo oscilava entre o estranho e o conhecido. Foi então que me vi atravessando para o outro lado da margem.

Não me parece existir um “finalmente chegar”, “definitivamente alcançar”, “eternamente ser” — mas, sim, um fluir. Como as águas de um rio, seguimos num rumar natural pelos lugares por onde passamos, somos tocados e tocamos.

segunda-feira, junho 23, 2025

Ar da graça

À medida que o tempo passa
e experiencio nele a vida,
draga-me a força do coletivo,
que me imputa a ânsia pelo outro,
o desejo de pertencimento.
Me deixo conduzir pelo tecido social,
misturo-me às águas alheias, estrangeiras,
torno-me ela, e ela se torna em mim.
Somos um só, vozes em uníssono,
moldados e desencaixados,
calados e expressos no vazio.
Me perco em meio ao todo.
A mesma força que me empurra para fora
me puxa, agora, de volta para dentro:
de volta para casa, de volta para mim.
Como o movimento de inspiração e expiração da respiração,
do ar da vida, ar da graça, ar da dança...

Ode à Van Gogh

O Invisível que Transcende
Em vida, foi um fantasma,
ninguém o via.
Na morte, tornou-se gênio,
todos o viram,
o reconheceram.

Sua dor
desenhou-se em cores vibrantes.

E agora,
Van Gogh brilha
na noite escura
de sua própria alma,
pintada nas telas,
em uma beleza
que não se consome,
mas se contempla.

domingo, junho 22, 2025

Sopro invisível

O ar que respiro
não se vê,
não se toca.

Ele passa e sequer o notamos,
sem alarde —
presença que sustenta
tudo o que vive.

Instantes sem ele
e o corpo se curva,
em agonia de morte,
privado do sopro.

É cômico
e trágico
que o essencial
seja invisível aos olhos.

Mas ele não reclama.
Não exige gratidão,
nem plateia.

Paira.
Flui.
Entrega-se inteiro
a cada peito que o acolhe.

Está em tudo,
e em todo lugar.
Não conhece muros.
Não pertence a ninguém.

Sopro antigo,
sopro primeiro.
Por ele viaja o som
da melodia que nos compõe.

Sopro divino,
espírito do mundo.

sábado, junho 21, 2025

Fogo da inspiração

Meus pensamentos e sonhos foram tomados e povoados por figuras ilustres que transcenderam seu próprio tempo e pátria. Com elas, dancei a melodia do entendimento; chorei o pranto do desconhecido. Com eles, estendi a mão à procura do numinoso.

A todas as almas humanas que atravessaram a ponte para o meu universo psíquico, onírico — espaço regido pelo inconsciente, que me mergulha e mistura às águas de um coletivo maior— acendo uma chama à luz da consciência, que se alastra pelos campos do que sou.

Fogo criativo, cujas estacas — linhas fortes da madeira de minhas raízes — alimentam e mantêm a trepidar, bravo e brando. Chamas a valsar no compasso do meu caminhar. Por vezes, queima e me consome. Por vezes, aquece e me acolhe. Paixão que toca o terreno sagrado da alma.

Nos olhos que miram, enfeitiçados, se acendem estrelas nas quais orbitam as sombras de si — e tudo o mais que nos torna inteiros. Comunhão entre corpo e espírito nos faz aspirar o céu, o éter, o eterno.

Não procure as estrelas no céu se você não consegue honrar o solo em que pisa.

sexta-feira, junho 20, 2025

Refrigério d’alma

Para muitos, a escrita é refúgio, refrigério d’alma.
Não se escreve para o mundo,
escreve-se para escutar o que em si silencia.
Cada palavra é um sussurro
que escapa da multidão de vozes externas
e encontra abrigo no papel.

Essa escrita não grita —
ela recolhe e acolhe.
Deita-se
como corpo cansado
no leito da linguagem.

É território sagrado da alma que se expressa
sem máscaras,
sem metas.

Ali, somos livres para ser:
espírito suspenso,
pairando no espaço
entre memórias, orações, amores, sabores,
e feridas que ainda não cicatrizaram.

Escreve-se para sarar
e para lembrar:
a pausa também é verbo,
a pausa também é verso.

Descanso.
Cura de feridas emocionais e existenciais.
Escuta.
Repouso psíquico.

quinta-feira, junho 19, 2025

Fênix do mar

Afasto-me cada vez mais de mim em todas as travessias que me recuso a fazer e por trás de todas as máscaras em que insisto em me esconder.

À margem, permanece um eu fincado feito estaca, a medir o nível do mar, observando as marés, dando um adeus em tom de lamento e apatia ao herói ferido que parte mar adentro, em um navio vermelho e vibrante, que choca os olhos insossos.

Ele se vai, rasgando águas pesadas em dispersão; delas, deixa um rastro de espuma branca e pura, que se dissolve lentamente em meio ao azul-marinho do silêncio.

De longe, sopra o sinal sonoro do navio, sumindo no horizonte, deixando à deriva as pequenas embarcações de si — órfãs, quebradas, sem rumo, sem remo.

A mão, num adeus, permanece em riste, até perder de vista o titã do oceano que se vai, deixando os olhos marejados e salgados do pranto.

Aos poucos, esmorece a força do braço erguido, pendendo lentamente até pousar paralelo ao corpo cansado e imóvel. A cabeça lhe pesa sobre os ombros e inclina-se em direção ao chão — duro, seco e frio.

Nos ouvidos, sopra o vento marítimo do passar do tempo das coisas.

Cresce no peito um suspiro profundo, que se esvai vagarosamente pelas vias nasais, num ar quente e pesado, até tocar o frio do mundo — acolhido em observação calada.

Em meio ao meu zarpar e ficar, o que nasce da morte sou eu mesma.