Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.
Feridas de sangue,
vertido em silêncio.
De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.
Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.
Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.
Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.
Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.
Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.
Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?
Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.
Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.
Entrego minha vida
ao fogo da criação.
Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.
Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.
Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.
Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.
Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.
E dela fazer criação.
O que antes era peso
será agora fundação.
Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.
Não aguardo o sinal.
Sou eu o sinal.