quinta-feira, agosto 06, 2009

O Hidrante

O hidrante quebra na esquina a jorrar emoção alheia
Uma porção de fio d’água se atira do parafuso
Parece frio desviar-se a esquerda esquivando-se do “objeto”
Ninguém irá agachar-se a atarraxar o parafuso
Analisar a dureza já gasta o cansaço abatido
Plantado na calçada arrebentada
Um estorvo para os apressados
Sapatos inquietos de lá para cá
De cá para lá toc toc toc
Formigas maçarocas
Os olhos bolas de gude a quicar como sapatos apressados
Ora, vamos lá
Para que serve um hidrante?
Como definir um hidrante?
Que função utilidade teria o hidrante na esquina desta vida?
São tantos hidrantes plantados na calçada
Os hidrantes não estão a vista dos pensamentos
São dois daqui à esquina seguinte, três de lá à rua seguinte
São tantos que nem vejo quantos
Hidrantes no nível da rua
Emergência ambulante
Como que brotando das calçadas
Sangram a se esgotar pelo o ralo
Deitado em esquecimento
Vou-me embora
Olho para trás
Lá está ele
Fica o hidrante na rua
Selado na eternidade
Vem comigo em meu caminho
Ainda me lembro

Se é que se pode esquecer...

terça-feira, julho 28, 2009

Polos à parte

Assim que nossos caminhos não mais se cruzarem,
Num entendimento elementar,
Destoando em cruzamentos,
Imagens reversas,
Retóricas dissonantes,
Haveremos de nos dirigir
Aos polos opostos:
Ártico,
Antártico,
Ao extremo Norte-Sul,
Divergindo entre estações,
Alternando entre dia e noite,
Do inverno austral
Ao Sol da meia-noite,
Da florada das ideias
Ao declínio das doutrinas.

Unidos por oposição,
Em partes compostas,
Do abrir ao fechar do sorriso,
Como cortinas de teatro
Que ocultam o vazio pano de fundo.

Assim, deste ou daquele modo,
Absolutos e transitórios,
Num passar,
Num ficar,
Num olá,
Num adeus,
Sem que possamos medir a distância
Entre nossos pensares e pesares.

Tudo se faz linhas,
Linhas imaginárias,
Desenhadas para apartar,
Que a tudo tendem a dividir
Em polos à parte,
Onde haveremos, cada qual em seu eixo,
De erguer observatórios em defesa de si mesmo,
De erguer fortalezas em nome do isolamento.

Haveremos de combater nada além de nós mesmos.
Haveremos de abrigar a verdade de nossas ilusões.
Haveremos de viver a quimera das oposições.

Haveremos, então, de nos armar, cortar laços,
Na iminência das tão sonhadas alianças,
A anos-luz de nossas essências.


terça-feira, julho 21, 2009

Sonhos

Daqueles que se vão
Sonhos perduram no tempo
Dentro daqueles que deles compartilhou
Os sonhos que não afloraram
Viajam para todo lugar
Em arranjos musicais
Tempestades guturais
Fenômenos naturais
Na eterna imensidão
No infinito deste céu
Num sopro vento sul
Em reluzente amor astral
Indo e vindo
Fluído como as ondas
Do início ao fim sem fim

quarta-feira, julho 15, 2009

Olhos

Os olhos tragam imagens desolados
Percorrem, assassinos, despedaçando, fragmentando
Malditos sejam estes olhos que parecem dizer
Muito além do que digo
Espelhos manchados
Par cruel a engolir o espaço
Esféricos imundos refletem o nada
Assustam com o nada
O nada...
O nada que deles propaga
Acesos em chamas, furiosos sedentos
Inflamados, febris
Caçadores impunes
Capturam destroços
Partes do nada
Malditos sejam...

terça-feira, julho 07, 2009

Mundo Sombrio

Ao som indefinido do mundo componho a harmonia perfeita do que se parecem apenas ideias e por trás desta cortina de fogo vejo escorrer por entre os dedos apenas restos do que um dia tanto reluziu.
Caminhando em passos desconexos, onde impera o reino fragmentado das várias ideias, projeto no chão uma imagem disforme, réplica do que sou.
Minha sombra multifacetal segue meus passos, ouve meus pensamentos dia e noite, me acalenta em seus gélidos braços, no leito onde a esperança me desespera.
Na atmosfera onde tudo se desfaz, não há espaço para a concretude, nem para o equilíbrio, exceto pelo tempo, roda que gira sem cessar, metálica, pesada e indigesta a que estamos condenados.
Mundo sombrio, em sua escuridão me detive, seja por ser inevitável, seja para de longe observar os pequenos feixes de luz que fazem das sombras ainda maiores e da alma uma dolosa nostalgia e esta sem precedentes segue vazia a vagar pelo espaço, terreno inóspito, onde o porvir parece não existir.

terça-feira, junho 30, 2009

Dor

Gosto de ferir-me os dedos
Rasgo lhes a pele
Sugo-lhes o sangue
Um gosto metálico, desagradável
Escorre ardido, dolorido
Mordo a chaga, estanco a fenda
Humor instável
Temperamento sanguíneo
Cravo as unhas na ferida
Provoco incessante
A dor cresce aos poucos
Assim, um pouco mais a cada investida
Sensação mais ou menos aguda
Picadas de vespa
Deixo adormecer a dor para acordá-la novamente
O caminho de volta é um caminho sem volta
A penetrar na pele uma dor que nasce na alma

sexta-feira, junho 26, 2009

Ioiô

Correndo de cá para lá
Matando o corpo em agonia
Bate cansaço, ó meu deus
Passou-se a semana a voar
Bate de cá para lá
Bate no peito agonia
Quando se vê já se foi
Quando se vê já foi dia
Ah que já fora-se o tempo
Ioiô vai e vem
Já se foi

sexta-feira, junho 19, 2009

Das verdades

Verdades vêm tarde
Verdades faladas machucam
Porque ferem os ouvidos, o ego
Porque nos lembram de que somos humanos
De tudo aquilo que já sabemos no fundo ser mesmo verdade
Do caráter que intimamente conhecemos
Das limitações, que nem sempre queremos
Perdidas em meio a exigências
Autossuperações
Mas quando nos falam
Em alto e bom som
Dos defeitos que sempre enumeram, qualidades que deveriam ser muitas
Ah então nos lembramos, de que somos mesmo humanos falíveis
Nos lembramos de que devemos ser muito além
Muito além do que somos
As verdades que dizem machucam
Mas não mais do que aquelas que calam
Verdades caladas não lembram jamais, de que somos humanos
Estão acima e além do que somos
E então as verdades machucam
Faladas e caladas
Porque não conhecem jamais, daquilo que é humano

sexta-feira, junho 12, 2009

Teus passos

Teus passos no corredor deixam vestígios de som quase amargo de escassa saliva na boca fechada
Minha casa um labirinto de sons escuros sobressaltados sons sumos de limão
E quando tomam o aspecto entre doce e azedo aperto os olhos para abri-los e ver tudo ao redor ainda mais nitidamente num gozo momentâneo e intenso para se dispersar aos poucos feito perfume pulverizado no ar
As gotículas caem em câmera lenta do alto até o chão colorindo corredor labirinto em fragrâncias prazer delas breve alegria
Giram avulsas a dançar cores e flores
Frenesi brasa ardente
Tempero açafrão
Sopros cordas vozes
Cântico à vida
Ponte entre ausência presença
Ode aos passos que se deram
Calores exaltados
Canto à tua presença
Deles pegadas restos que ficaram
Calores exalados
Canto à tua ausência
Teu ir e vir
Fluído fluxo
Que ora se elevam
Ora se cavam na superfície agitada do corredor labirinto de teus passos
Instrumentos sonoros ecoam pelo ar postos em vibração
A agitar sons destemperes feito guizos a volta do pescoço
Dança veloz de chocalhos cascavéis
Enfim explosão de teus passos descompassos
Manando rio tosse convulsa em desmedido corredor labirinto de teus pés
Passo a passo embaralhado deleite
Deixe que se vá
Os passos se acalmam após turbilhão

domingo, junho 07, 2009

Saindo...

Quando vou-me para estes lugares,
Repletos de luz
De música
E gente
A gargalhar
Articular
Pavoneando-se
Em artifícios
Customizados em tópicos banais
Ali fico eternamente a mentir estar ouvindo
Prefiro nada dizer
Recosto-me ao assento mais macio
Os olhos fixos num ponto fixo
A alma solta a vagar no espaço
Dali a mil anos luz
A fugir dessa chatice

quarta-feira, junho 03, 2009

Noites de inverno

Garoa lá fora a perder de vista vapores naturais
Como a fumaça de um navio distante a se afastar
Pairam de mansinho por sob a noite fria
Num beijo de boa noite aqueço o coração
Recua devagar a sombra na soleira
De mim resta o silêncio
Flauteando o sono entre as cobertas
No silêncio irrompe o latido dos cães
Nesta noite um afago nostálgico
Fico a imaginar o mundo encantado
Desenhando sombras na parede
Dos vestígios de luz do hall
Despistando as investidas de Hipnos
Elevando o instante ao infinito
Vai passando devagarinho
Coral que aos poucos perde a entonação
A alma chama
A voz cala
Longínquas são as pátrias
Pátrias do meu coração
E das terras apreensão
Delas pouco sabe a razão
Num sopro a me levar
À margem do rio que ousaste atravessar
Embarcação errante névoa traiçoeira
Não há rosto nos homens doutra margem
Numa noite que me parece infinita
Hei de embarcar a remar sem direção
E me juntar aos homens sem rosto noutro lado da margem

domingo, maio 31, 2009

Aperto no peito

Aquele aperto que brota no peito
Embotando a vista
Cheirando a chuva
Saudade anunciada
A beijar-me o rosto
Passarinho escarlate
Que há sentimento
De sussurrar ao pé da orelha
Num decoro musical
Versos verões d’ouro
Perdão dos compridos meses
Que nos impedem mergulhar
Viajar onda canção
Um tempo às nossas costas
Traz o desabrochar das rosas
Chaga aberta
A deitar espinhos
Reticências fragmentos
Em variáveis infiéis
Dor: nem forte nem aguda
Vai passando devagarinho
Do vinho ao vinagre
Embebendo a alma
Viço danado
Estufa um suspiro
Trazido do ventre
À jaula do peito
Então me resta, do que nada adianta
Bato com as mãos espalmadas no muro
Vou-me embora a assoviar

quarta-feira, maio 27, 2009

Dos tempos de Poděbradova

Do quarto da pensão onde eu morava na Rua Poděbradova, vinha a noite me chamar, a caminhar, a degustar a solidão daqueles dias.
Da janela avisto poucas luzes tremulantes, distantes feito estrelas, provocando minha imaginação, a quem estariam a iluminar?
Aquele céu frio me acalmava os pensamentos, que saiam soltos, perdidos na brisa gelada.
Sem que pudesse aprisioná-los quietos neste corpo escorado à janela, havia um desejo de me juntar a noite, me esgueirar por entre as sombras dos arvoredos, projetar-me maior no asfalto destas ruas.
Alma marginal, soturna a vagar em silêncio aterrador. Corpo quente, afagado entre casacos, sobretudos, cachecóis, das botas sobem ruídos pausados como alguém que bate à porta.
Os sons da noite se ajuntam em sobressaltos, mistérios infinitos cúmplices entre si.
Experimentava o sabor da cidade, sua essência fantasma em que uivava um passado vivo.
Minh ’alma rumo a si mesma, queria estar só, ouvir o calar do mundo, o ronronar dos sonos, o sopro gelado, recolher-se a si mesma, expandir-se em cidade.
Este céu que a todos cobre, àqueles do outro lado do oceano a quem conheço, a mim que mal conheço.
A sensação de desamparo agrada-me os sentidos, a brisa em redemoinhos beija-me os olhos e os fecho para sentir com mais intensidade.
Aspiro profundamente como se quisesse engolir o momento, detê-lo aqui dentro, mas o deixo escapar e confundir-se com a alma do mundo.
A madrugada traz magia aos concretos da cidade, nostalgia à natureza. Uma beleza melancólica de prazer demorado, fugidio.
Os pés querem avançar cada vez mais longe, sem que possam encontrar mais nada, além da madrugada dos tempos de Poděbradova.

domingo, maio 24, 2009

Dalila

Porque peço, acalmar essa ânsia, de humor semiárido. Estes pés inquietos réquiens de Dalila.
Pobre coitada, andar sob o sol lhe parece uma lástima, tua pele suada a lagrimejar pelas curvas, ardendo-lhe os traços.
Estrada vazia, marginais margaridas impedidas no asfalto, fantasmas do vento.
Numa falha contida, vaidade ou orgulho, se apressa adiante, de que adianta correr?
Sentimento de perda, prisioneiro do tempo, retesado no bojo, no seio de “Lila”.
Seu olhar judiado, indaga o espaço em profundos naufrágios. Tudo são lugares cravados, raízes do vácuo, memórias fulgentes.
Cegueira brilhante, os olhos se ajuntam e o clima tórrido cria ondulações no ar, silfos dançantes.
Dalila se apressa a equilibrar-se na solidez do asfalto, retilínea ilusão.
Teu andar a galope, rapidez malcriada, confessa essa pressa.
Dalila, depressa, se expressa compressa.
Prolonga um suspiro, um tiro, um espirro.
Um sopro agitado mesclado no vento, teu hálito quente sedento de um fim.
Chega Dalila, chega... Seu destino é o fim. Mas chegar não é findo.
Enfim um jardim, um abalo da alma. A intensidade da voz.
Ah Dalila o seu fim, para mim é um limite.
Dalila, objeto, causa ou motivo, escopo do povo.
Dalila, um intuito, um agouro do tempo.
Dalila despida do tempo, não mais ela mesma.
Se acalme Dalila, o seu fim está longe do fim.

quinta-feira, maio 14, 2009

Estátua de Canis

Do alto da estátua escorre uma gota d’água.
D’água da chuva, d’água da rua.
Uma lágrima, um choro, um lamento de Canis.
Tocou-lhe o dorso e correu para o chão.
Então a hora finalmente chegou.

Cão raivoso de presa afiada,
no regaço desta terra sulcada
pelas duras pegadas das presas brutais.
Rondando, circulando à espera,
deleita-se em caminho tortuoso.
Cava obcecado.

Ah, coiote…
Quem está caçando desta vez?
Suas vítimas nunca são as mesmas.
Seu prazer se projeta em desafio.
Coiote, você está vazio.
Não provoque.
Não adiante o que já está decidido.

Vivendo a sombra de si mesmo,
você está morto.
Posso senti-lo roçar
as pedras imóveis
da estátua de Canis.

O que quer?
O que pode querer?
Não se atreva.
Por acaso esqueceu-se da vida?
Não se atreva a ameaçar.
Não mire estes olhos para o sacrifício.
Cego na ilusão de Canis,
nada vejo além de uma sombra baixa
rastejando ao redor da efígie.

O que pensa estar guardando nessa imagem?
Não há cheiro de carne em seu hálito.
As presas permanecem seladas
na boca fechada.
Seu faro se perde no ar.
Seu tempo está se esgotando,
destinado ao eterno esquecimento
ao lado de Canis.

Deseja o coração
se extinguir
numa ordem natural,
resultado de um breve suspiro de vida?

Latrans, você não entende?
Você não é permanente.
Não se engane, coiote.

Chacal imortal, é isso o que quer?
Não lhe basta a beleza da transitoriedade?
Chacal.
Coiote.
Meu querido lobo das pradarias,
não seja tolo.

Entenda, para que possa caminhar ao lado daquele a quem tanto admira,
que as águas cálidas do pranto de Canis
o ergam à altura de Lupus, a constelação.


terça-feira, maio 05, 2009

Dois reluzentes cristais

Não...
Não foram seus olhos quem viram o que afirmou ter visto o coração
Não...
Não é sempre que se deve confiar no que dizem os olhos
Mas se seus olhos mesmo já fechados insistirem em lhe dizer o que veem
Se implorarem para que uma vez mais se abram as janelas
Fazendo iluminar dois brilhantes cristais
Se só assim puderem afirmar
Então...
Guarde seus dois preciosos cristais em seu interior
Lá onde um universo pulsante se alinha às batidas do coração
E então siga para além de onde podem te levar as janelas abertas
Vá... Voe para além de onde pode a vista enxergar
Deixe ser, não há medidas que possam, então, conter em esferas dois reluzentes cristais
Sem pensar no que dizer
Palavras jamais dirão
Palavras jamais verão
Palavras jamais saberão
Mas deixe que falem pelo que não há palavras
Deixe-as correr
Deslizar por uma superfície contida
Sem que possam aprisionar
Como as janelas que emolduram a infinitude do horizonte
Num pequeno espaço envolvido em recortes
Se são elas quem irão dizer a quem deixá-las falar
Tomar todo aquele que delas beber
Invadir quem delas se alimentar
Serão elas quem trarão todos aqueles que nelas se aventurarem
E nos aproximará como num abraço aqui para dentro de mim
Tendo então, cumprido seu papel
Unindo-nos num só
Palavras não serão mais necessárias
Pois tudo o que disserem já saberemos
Em nosso íntimo revelado

quinta-feira, abril 30, 2009

Cruzamento não paralelo

Confesso, queria tê-la como inimiga
Seguir-te os passos até o inferno
Caçar-te na multidão
Ávida de teu sangue
Prestes a derrubar-te
Queimar em ódio ácido
Na eminência de destruir-te
Fazer de um estúpido desejo
O sentido de nossa existência
Superar-te diante de teus olhos
Dominar-te os pensamentos
Causar-te insônias incuráveis
Úlceras gástricas
Secar-te a boca
Gelar-te da cabeça aos pés
Imputar-te os mais sujos desejos
Envolver-te o pescoço
Privando-te lentamente do ar
Tirarem-te das órbitas os olhos
Rasgar-te a pele em pedaços
Engolir-te completamente
Insuflar-te tremores e choques
Remover-lhe a consciência
Lançar-te longe contra o espelho
Ouvir-te cair despedaçando tua imagem
Fazer-te gritar, urrar, sussurrar
Privar-te dos sentidos
Prensar-te contra a parede
Rir ante teu rosto perplexo
Levar-te a falar, detonar
Sorver-lhe o fôlego
Puni-la e perdoá-la
Venha! Levante-se!
Golpeie-me para longe!
Lute! Lute comigo
Quero lutar com você
Apenas com você
Ver-te atacar
Revidar minhas investidas
Sentir-lhe a fúria
Porque adoro nossa luta
Porque, então, fico no céu
Na mais imunda lama
Existiríamos, nos extinguiríamos
Apenas nós duas
Em meio a nossos insultos
Pobres diabas
Consumindo-nos no calor do embate
Você é minha
Tão minha que preciso lutar
Sugar-te as forças
Para que fique
Eternamente
Comigo
Não há dúvidas de que te odeio
De que te amo
De que preciso
Estar em combate contra você
E sentir o calor de tuas ofensas
A frieza de teu desprezo
Você e eu uma só
Eu e você nada a ver
Você sou eu
E eu você
Do avesso
Reverso do verso
Você fora
Eu dentro
De um maldito reflexo
Meus olhos anseiam trazer-te para perto
Até que possam engoli-te inteira para dentro de si mesma
Desejando tê-la em meus braços
E neles vê-la padecer
Confesso, queria poder acreditar em você
E assim lutar sempre com você
Com você e não contra você
Mas estamos em um cruzamento não paralelo entre ambas

sexta-feira, abril 24, 2009

Sublime Nebulosa III

Seus passos quebram o silêncio de sua presença
Reflete a luz de toda e qualquer estrela
Elevada à última potencia
Propaga a natureza das coisas
Derrama a verdadeira essência do ser
Alimenta todas as terras, todos os céus, todos os mares, todos os fogos
Ergue-se pleno de tudo o que é
Indefinível
Éter, sangue, seiva
Alma, cosmo,
Sol, estrelas
Galáxia, corpo celeste
Partícula, gota d’água
Molécula, átomo
Fagulha, célula, núcleo
Elevado à liberdade desconhecida
Além do olhar angular
Da saliva sedenta
Do desejo cruento
Das vontades linfáticas
Do orgulho corrompido
Da dor e prazer
Do medo perverso
Do tempo e do espaço
Da verdade e da mentira
Do bem e do mal
Da vida e da morte
Do céu e do inferno
De deus e do diabo
Ser sublimado em absoluta unidade
Desmembrado em infinita multiplicidade
Seus pés que outrora caminhavam
Mansos, tranquilos
Agora correm, deslizam
Não há limites
Não há barreiras
Irradiam transcendente grandeza
Voam além deles mesmos
E vão para todo lugar
Estão onde o pensamento estiver
Eterno e transitório
Absoluto de todas as coisas
Ser de suprema sabedoria
Ouça o que ele diz
Pois o que ele diz as palavras não traduzirão
Deixemos que seja
Pois tudo está repleto
De sublime nebulosa



quinta-feira, abril 23, 2009

Dédalo purgatório II

Invólucros vazios
Desprovidos das mais ávidas paixões,
Dos ímpetos de empenho,
Do interesse natural
Pela sedução das maravilhas.

Existe sede,
Existe fome
Em mergulhar profundamente,
Procurando desviar,
Ponderando se entregar
Ao sofrimento prolongado,
Que se estende pelo corpo,
Colérico e cansado.

Uma vontade corrompida,
Deveras falseada,
Forjada em satisfação,
Pagamento, haja vista,
Mentiras creditadas,
Falhas parciais,
Modelos imprecisos.

Consubstancia
Fatos e impressões,
Nada além
Do que está além
Do dizível e visível,
Apenas crível e viável,
Em eterna insatisfação.

Terra ávida e incessante,
Donde as buscas não têm fim,
Numa esteira sempre constante.

Uns se erguendo,
Outros caindo.
Em rios caudalosos,
Muitos corpos se entregam
Às correntes traiçoeiras.

Haverão de pagar,
Todos, pelo desejo, pelo ensejo,
Controlando seus humores,
Refazendo seus caminhos,
Desfazendo seus enganos,
Expiando suas culpas.

Neste Dédalo Purgatório,
Aos poucos se achegando,
Sem que haja dúvidas.

Tudo a seu tempo,
Um tempo que seja seu,
Desconhecido do relógio
Ao qual pobres diabos se apegam.

Venha...
Se achegue,
Num tempo somente seu.
Se entregue,
Mas que seja primeiro a si mesmo,
Amante a unir-se num só.

Hás de compreender
Que estás além da fome que te atormenta,
Da sede que te mortifica.

Hás de compreender
Que não há tempo algum
Em que se possa contar nem conter
O que somos.

E então, hás de chegar
Antes que te possas notar.

quarta-feira, abril 22, 2009

Magma infernal I

Neste magma infernal
Poderíamos cozinhar
De uma só vez derreter
Agonizando em meio a lavas
Mentiras e ilusões borbulhantes
Mas vamos perecer em fogo brando
Morrer em banho Maria
Espinheiras dançam no vendaval
Roçam-nos os corpos
Tiram-nos o sangue
Que percorre em linhas tortas até o chão
Terras tórridas
Amaldiçoadas
De rosáceas venenosas
E vapores sulfurosos
Carnicões fazem caminho
Via reino virulento
De serpentes peçonhentas
E insetos agressivos
Túrgidos pulmões
Aspiram asfixiados
Vamos todos arrastando
Como vermes na carniça
Sucumbindo neste inferno
De nada adianta se esquivar
Vêm chegando
Vêm chegando
Os demônios do relógio
Apressados como nunca
Mais perversos que suas vítimas


terça-feira, abril 14, 2009

Na chuva

Nesta noite maravilhosa e miserável
Em que andam a escorrer pelas calças água da rua
Sapatos sovados de lama
Pisam e murmuram coaxos de sapo
Em penúria embriagados de chuva
Ó meu deus, porque tanta carreira?
Já não sabe tragar céu aberto?
Para que tanta espera
Pendurado à marquise estreita?
Vai a solavancos se esgueirando entre as esquinas
Pobre diabo! Só chão para te aquecer
Terra chã para se esquecer
Só vai ele, depauperado
A levar chuva no lombo
Escoando a miséria humana
Ó e no passado
Num tempo em que não havia a estreiteza do olhar
O selvagem na chuva valsava
Civilizou-se no medo e bom senso
Precipitando-se acima das poças
Resvalando em sofrimento
Atalhando a morte
Um tempo que não vira nada
Um tempo que só influi
Deságua abaixo do céu

quinta-feira, abril 09, 2009

Nevasca

O arrasto das rodas me aterroriza
Flocos de neve debatem-se
Uivam lá fora
Ah, por Deus, não posso parar
A paisagem irá me engolir
De um branco angustiante
Maldita ilusão em cartões postais
Lembro-me dos enfeites de natal
De como são reconfortantes
Do calor que transmitem
Em datas especiais
Salpicados em branco plástico
Mantenho a perspectiva
Desde o começo procurei um suporte
Ancorando-me em memórias
Mas este porto é tão remoto
Como pesa o ar aqui dentro
Um carro dança no gelo
As correntes tilintam
A cada avanço na estrada
Um recuo do sol
Crepúsculo perverso
Vem a galope
Arauto funesto
Gelando-me o sangue
Exaurindo-me as força
Um suspiro escorrega
Da garganta profunda

quinta-feira, abril 02, 2009

Mundo

Mundo
Toque
Toque para mim sua canção
Mostre
Mostre para mim a sua luz
Diga-me
Diga-me tudo o que você tem a dizer
Não se esconda de mim
Dance
Dance sua música para mim
Leve-me
Leve-me embora para todo lugar
Abrace-me
Abrace-me forte
Fale comigo em sua língua
Em todas as línguas que você aprendeu
Em todas as línguas que você ensinou
Em todas as línguas que você experimentou
Mostre-se para mim
Mostre-me seu verdadeiro potencial
Mundo, você é meu mestre
Você é meu pai
Minha mãe
Meu irmão
Meu amante
Mundo mostre-me tudo o que você é
Não se esconda
Seja tudo o que você realmente é
Então, depois escolha o que é melhor
Ser o que você é
Ou ser outra coisa
O que é melhor?
Viver morrendo
Ou simplesmente viver
Mundo
Diga-me
O que você pensa?
O que há de errado com você?
O que há de errado conosco?
Com você e comigo
Com você e todos nós
O que há de errado?
Como você se sente a respeito de tudo?
Mundo mostre-nos o mundo como ele realmente é

quinta-feira, março 26, 2009

Tentando buscar

Estou tentando continuar
Continuar buscando
Mas quando acordo
Quando me levanto
Quando me deparo comigo
Procuro encontrar qual busca seria a minha
Uma busca, um intuito, um caminho certeiro
Uma busca que não está aqui dentro de mim
Ela há de estar lá fora, precisa estar
Pois aqui dentro não pode estar
Aqui dentro a busca não se encaixa
Não se encaixa às buscas disponíveis do mundo lá fora
Lá fora não tem espaço para o que existe aqui dentro
Ou será que aqui dentro não há espaço para o que ofertam lá fora?
Para que eu possa me ajustar às opções oferecidas lá fora
Às propagandas que fazem, de que a vida acontece lá fora
Minha vida está acontecendo aqui dentro
Lá fora minimizo esta vida, sufoco esta vida
Para que a vida que lá fora me ofertam se encaixe aqui dentro
Lá fora posso trocar de vida, se não gostar desta ou daquela
Experimentar tantas vidas quanto quiser
Até encontrar aquela que me faça aceitar as coisas como elas são
As coisas como são é a vida que nos vendem
Os chicletes têm o que gosto que tem e se não lhe agrada
Busque os da concorrência
As ofertas nos parecem infinitas
Mas são um limite
Barreiras
Por trás das barreiras estamos todos à espera
Em busca do que nos oferecem
Mas e quanto às coisas que não podem nos oferecer?
Quanto àquelas que não têm como nos oferecer?
Estas vamos deixando de lado, vamos esquecendo
Deixando-as morrer pelo caminho que nos foi ofertado
Pela ordem que rege lá fora
É preciso se adaptar
Se moldar
Mas não é isso o que somos
Um pedaço de barro que se possa moldar
O que somos talvez não represente um modelo
O que somos são todas as coisas
Porque o que somos está vivo e em movimento
É fluido e não estático
O que somos simplesmente é
Independente das inúmeras identidades que possamos adotar
Trocar, buscar, representar
Não há respeito pelo que somos
Pois o que somos está além do respeito
As buscas que precisamos buscar
Já foram encontradas
Do contrário não estariam expostas em uma vitrine
Existem aqueles que não querem as buscas
Mas alimento
Alimento para que seus corpos possam sobreviver
Aqueles que não se ajustam às buscas
Que estão à margem dos sonhos
Das incríveis realizações
À beira da morte
Existem aqueles que são...
E aqueles que se vão...