sábado, março 21, 2009

Fel da vida

Lamentável é não enxergar para além dessas paredes
Acredite. O horizonte fica preso aqui na garganta
E a fome deixa de existir
Assim como o contentamento se estende em frustração
Pagando o espaço físico ocupado
Preso a uma terra de promessas
Num labirinto insensato
Numa redoma caótica
Em meio a toda essa retórica furiosa
Endurecida em palavras lapidadas
Derramando verbo absoluto
Ardendo como sal no lume
Revertendo antinomias
Tombando abaixo do consenso
Patenteando uma pobreza chapada
Gravada e enfeitada
Em propagandas prostitutas
Hipocrisia das mentalidades
Cristalizando o fel da vida

segunda-feira, março 16, 2009

O ladrão que roubava levitando

Quem poderia imaginar que você, um cara considerado atraente, inteligente e todas essas bobagens que costumam dizer numa mesa de bar qualquer ou num almoço em família naqueles típicos domingos quentes e enfadonhos, em que todos se reúnem famintos e logo que se satisfazem dão uma desculpa qualquer para voltar para casa o mais rápido possível, se tornasse o que se tornou.

Ah, você foi uma criança tão viva; prendia insetos em vidros e garrafas e se divertia com o desespero deles. Jogou bola, tomou chuva e caiu de cama sem nunca se arrepender. Irradiava liberdade, tão impulsivo, despreocupado. Era mesmo um prodígio, como todos os garotos de sua idade acreditavam ser.

E agora que já está crescido, como acha que será? Agora é aquele momento em que todos esperam por suas decisões, aspiram pelos grandes feitos, querem motivos pelos quais se orgulhar daquele garoto que hoje já não existe mais. Você sempre se pergunta o que querem de você, sem ao menos pensar no que você quer. Deixe que pensem isso ou aquilo. Veja só no que se tornou. Se ao menos pudesse voltar atrás, se disciplinar, se conformar, se empenhar naquilo em que qualquer um teria se empenhado. Mas não. Você simplesmente não aceita os fatos.

É por isso que sente sempre aquele enjoo chato. Não é nada que você tenha comido; são só alguns minutos indigestos e culpados. Você quer mudar, quer ser melhor. Mas melhor em quê? A pergunta permanece no ar até o enjoo passar.

Você quer dar uma volta, deixar os pensamentos livres, mas sabe que, se o fizer, não irá resistir e fará tudo de novo e de novo, até que um dia irão descobrir. Procura uma desculpa para ficar, cava um desânimo. Precisa tomar um banho e relaxar. Não adianta se preocupar.

Parece ridículo falar sozinho consigo mesmo, como se fosse uma terceira pessoa observando suas fraquezas de perto e alertando sobre os perigos. Mas é isso o que faço. Sinto-me melhor sendo analisado por alguém de fora, mesmo esse alguém sendo eu, afinal não há espaço para mais ninguém nesse papel.

Quero alimentar a ilusão de que um grande observatório conspira contra mim e está prestes a me desmascarar. Assim fica mais fácil lembrar dos cuidados que devo ter em relação aos meus atos. Sinto-me culpado às vezes, mas isso não me envergonha. Tenho prazer no que faço. Creio que tenho direito a determinadas satisfações, sem excessos, claro.

Sempre que posso, me aconselho a fazer a coisa certa, mas a coisa certa nem sempre é vista com bons olhos. Minha consciência finalmente me convenceu de que tudo depende do ponto de vista. Nada é universal. Não quero nem pensar nas consequências de meus pensamentos, muito menos nas dos meus atos.

Está decidido: preciso de um banho, é o melhor que posso fazer no momento. Banho frio me deixa alerta, então escolho esquentar o corpo e tentar relaxar. Assim que terminar, farei um café. Diabos, o café também me deixa alerta. Preciso mesmo é de um chá. Quem sabe um leite quente. Mas odeio leite. Então fico com o chá.

Você já se sente melhor, renovado, pelo menos está livre do suor. Pare de limpar o rosto. Não vê que já está limpo? Parece uma obsessão, um tique.

Olhe-se no espelho. Até que é bonito, não é mesmo? Não penteie os cabelos como se fosse sair. Passe as mãos na cabeça e os coloque para trás. Isso basta. Nem se dê ao trabalho de se vestir; fique assim como está. Faça o chá e vá se deitar. Não. Não e não. Acho que vou deixar de lado a ideia do chá. Preciso de um cigarro.

Não seja idiota, você não fuma. Hoje eu fumo. Fumo o dia que eu quiser e paro quando quiser.

Você não tem cigarros em casa e é por isso que quer fumar. Porque sabe que precisará sair para buscar um maço. Eu te conheço. Sei aonde quer chegar. Por que não diz logo que vai sair para fazer aquilo de novo? Por que não me deixa em paz? Você não quer paz. Quer que eu continue a te acusar, sei disso. Deve estar louco. Pense o que quiser. Não ligo a mínima. Você precisa mais de mim do que eu de você.

Não seja estúpido. Quem você acha que sou? Alguém de verdade tentando te convencer a fazer a coisa certa? Estou começando a me preocupar com sua sanidade. Não venha com essa conversa. Sei muito bem que você sou eu forjando alguém externo. Mas agora me deixe agir. Fique à vontade. Você nunca precisou do meu consentimento para nada mesmo. Quer discutir apenas para travar uma luta contra si mesmo.

Preciso achar um lugar calmo, numa rua morta. Não será nada demais. Vou esperar no telhado até que nenhum ruído mais se ouça e então levo as coisas que me interessam e tudo estará terminado. Você é mesmo um idiota. As coisas que te interessam não interessam a mais ninguém. Isso tudo não passa de um capricho estúpido, uma desculpa para que você possa se deleitar com seus poderes gravitacionais. Sei que posso fazer. Não há prazer maior do que sentir que sou especial, quase um herói, talvez invencível. Não seja tolo. Quer que o descubram? Esse é um segredo entre nós. Você prometeu que o manteria entre nós, lembra? Não posso arriscar pôr tudo a perder por você. Não me faça voltar atrás. Você é uma exceção. Não precisa me lembrar. Já sei. Só me deixe tentar de novo. Quero sentir mais uma vez como é levitar e controlar meus movimentos com exatidão. Não precisa disso. Pode tentar de outra maneira. Claro que preciso, do contrário não posso controlar meus movimentos. Preciso estar alerta, numa situação delicada.

Sempre me arrependo do que fiz. Você não merece essa dádiva. Devia ter mantido você longe de mim, longe de minhas capacidades. Agora é você que está sendo idiota, porque afinal você sou eu, não é mesmo? Infelizmente sou, aquela fatia que quase ninguém conhece em si mesmo, mas justo você, um egoísta, por sorte me descobriu. Fique quieto. Chegou a hora. Todos estão dormindo. Vou entrar e levar o que puder comigo.

Quem vê assim até pensa que você é um ladrão de mão cheia, mas não passa de um sacana que leva apenas papéis com anotações alheias. Diários. Até cadernos de receitas você já roubou. Francamente, você é ridículo. Gosta mesmo de observar a mediocridade na vida das pessoas ou isso é apenas um hobby?

Acho que é tudo isso, somado à emoção de poder levitar e sentir que posso fazer qualquer coisa com esse poder e, diante disso, optar por simplesmente me apoderar da mediocridade na vida das pessoas. Sou mesmo demais. Nada é mais improvável do que minha conduta que soma superioridade e originalidade.

Por favor. Você já vive rotineiramente a mediocridade de sua própria vida. Por que roubar a dos outros? Não faz sentido. Roubo apenas aquilo de que necessito. Então quer dizer que você precisa da mediocridade dos outros, é isso? Ora, nada é mais sólido do que isso. Nenhum bem material é mais palpável que isso. Preciso disso mais do que nunca. Preciso da solidez, da estabilidade, da certeza, do provável que existe nas coisas que roubo. Preciso disso como de um remédio. Eu o tomo e espero que faça efeito na minha vida. Espero esperar tudo o que todos esperam.

Você é mesmo louco. Está remando contra a maré. Todos, no íntimo, desejam desvencilhar-se de uma existência ordinária, enquanto você quer justamente o contrário. O que todos desejam não é exatamente o que esperam, e também não é exatamente o que precisam. O que desejam é, ao fim das contas, ter uma vida medíocre, estável, confortável, previsível, óbvia, calculada para um futuro garantido. E é exatamente isso o que quero sentir.

Mas por que quer sentir isso? Porque já estou cansado de não sentir nada, de não ser nada, de não fazer nada do que para essas pessoas faça sentido. Quero estar entre elas. Quero me sentir parte. Você não entende, nem entenderia. Mas você já faz parte disso. Você está aqui, não está? É isso o que quer. Veja, não é preciso lutar. Basta deixar correr a corrente e se deixar levar. Você acha mesmo que é tão diferente assim das outras pessoas?

Como assim? Do que está falando? Ora. Será que não percebe? Eu poderia te dar qualquer coisa e você não faria nada além do que qualquer um faria. Você diz ser quase um herói, um gênio, por almejar apenas a mediocridade alheia com o poder que tem, mas na verdade você não é nada além de um escravo, como qualquer outro. Do que está falando, droga? Estou dizendo que o que você faz não é nada genial, não é original. O fato de não buscar poder ou fama não faz de você especial. Você acha que qualquer um faria o contrário, mas isso não é verdade. Muitos fariam o que você faz, e o que você quer, outros também querem. Acredite: você não é o único a não sentir nada, a refletir no íntimo que deveria ter feito algo mais, ter dado sentido à sua vida medíocre ou ao mundo, sabendo que, no fundo, o que quer é o que todos querem. Uma vida como todos querem e sonham ter: uma casa, dinheiro na conta para pagar dívidas, pagar sonhos, estudos, satisfações pessoais, pagar sua participação na sociedade. Estamos sempre em dívida, e dinheiro nenhum no mundo poderá pagar por seus anseios, pois estes não têm preço.

E agora, o que acha que irá fazer? Aposto que ainda não sabe. Talvez nunca saiba. Mas ainda assim irá fazer aquilo que todos nós sabemos fazer tão bem: comprar, vender e contar o tempo que temos. Negociar. Sabendo disso, você se revolta. Não quer deixar acontecer. Mas as coisas acontecem como numa corrente. E eu te pergunto: que ordem é essa que nos faz rodar todos os dias? Não entende que nada disso é preciso para se sentir parte? Já pensou realmente no que seria se sentir parte? Claro que sim, e é o que quero. Não é verdade. As pessoas, para se sentirem parte de um grupo, de um meio, de uma sociedade, precisam comprar seu lugar nela. Mas as coisas não precisam ser assim para nos sentirmos parte. O que fazemos é exatamente o contrário: não nos inserimos, não nos unimos. Estamos nos separando, nos jogando uns contra os outros, nos explorando, nos escravizando, nos limitando a uma realidade pobre, bruta, abusiva. Nossos potenciais são desconhecidos, estão limitados por essa realidade que nos sufoca e aprisiona. Poderíamos alçar voo para além dessa mediocridade. Poderíamos trabalhar a favor da vida, não apenas das nossas próprias vidas, mas de toda e qualquer vida. Em vez de nos escravizarmos em troca de dinheiro, um pedaço de papel que se alimenta do nosso suor e das nossas energias, que draga nossas percepções, nos cega, nos impõe limites, nos controla como títeres.

Poderíamos ser muito além do que somos. Poderíamos ser todas as coisas. E, na verdade, somos todas as coisas, mas acreditamos que somos uma só, desconectada de todas as outras. Por isso nos escravizamos para nos sentirmos parte dessa sociedade escravista e elitista. Quanto de nós foi explorado em vão ao longo dos anos, explorado em troca de moeda corrente. Poderíamos não explorar, mas desvendar. Exaltar o nosso melhor. Dar valor a algo muito além de um papel. Devolver o real valor da vida, da vida como um todo e não como unidade. Prezar pelo amor e não pela raiva, pelo medo, pelo ódio, pela indiferença, pela competição, pelo ganho. Prezar pela vida em sua totalidade. Entende o que digo? Fazemos parte de algo muito maior do que esta sociedade. Fazemos parte do universo. Somos um todo. Se pudéssemos nos sentir assim e, com isso, nos empenhássemos pelo todo... O que estamos fazendo? Estamos nos matando, nos explorando, virando a cara para aqueles que não têm nem sequer o que comer. Poderíamos todos ter uma vida digna. Não somente eu, meu amigo, minha família. Mas todo ser humano na Terra.

Entende o que digo? Isso sim é fazer parte. O resto é mera segregação.

sábado, março 07, 2009

Aida

Aida acorde
Venha até aqui
estou aqui fora, no jardim
Estou à sua espera
Venha...
Ainda é cedo Aida
Sinta...
Sente a brisa marítima,
soprando ao pé do ouvido?
É para você
um sopro harmônico
do mar para você
De longe toca uma canção no rádio
daquelas que te faz vibrar
No íntimo você quer dançar
Dance comigo Aida
dance comigo...
Sua dança traz o mar para perto
ele avança manso e se arrasta a seus pés
Aida é pura música
Gira no ar como um anjo
Sorria
o sol nasceu para você
A sinfonia são seus passos
seu rosto iluminado
Você nasceu para brilhar
É tão fácil se encantar
por Aida
Aonde quer que você vá
a luz irá te buscar
As estrelas irão te procurar
o mar irá te abraçar
Com a força da maré
num campo gravitacional
Ideal para que erga-se com as ondas
Aida orbita no universo
acima das constelações
Para além de galáxias distantes
seu corpo é dança
sua alma é música
É a harmonia do cosmos
É mais do que posso dizer

segunda-feira, março 02, 2009

De pé

Você está desmoronando
Aguente firme
Parece não haver jeito
Aguente firme
Respire fundo
Não chore agora
De que adianta lamentar?
Peça, feche os olhos, faça um desejo
Não diga nada
Respire fundo
Não chore, prometa
Estenda a conversa para compensar o silêncio que se estenderá noite adentro
De pé
De pé
Engane a espera
Mas a espera se estende noite adentro
De pé
A espera não se deixa enganar
Se estende vida afora
Respire fundo
Não chore
Fique de pé
Prometa que nada irá prometer
Lembre-se de si
Que irá se estender para além do espaço e do tempo
Um sussurro e o vento arreganha as janelas, estilhaça os vidros
E isso é só o desenrolar da história de todos que um dia ficaram de pé.

sábado, fevereiro 28, 2009

Arranhando paredes

Arranha paredes
Debate-se no chão
Esqueceu a lição?
Sabe dizer se é noite ou se é dia?
Aonde você vai?
Não me faça ir até ai
Sabe onde está?
Lá fora o sol está queimando, penetrando a crosta danificada deste planeta
E tudo o que você consegue fazer é se debater e arranhar as paredes
Se pudesse sair, veria o sol ou quem sabe a lua, as estrelas e os planetas
Pura luz a inundar tudo ao redor sem se cegar
Ou enxergar na vasta escuridão do espaço sideral algo além de si mesma
Erguendo-se para além das paredes.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Remador

Certo dia me lembro ter visto um barco sozinho no rio de manhã bem cedo, o sol mal tinha nascido
Era um sujeito solitário, mais velho com chapéu na cabeça, desleixado
Havia remado ainda a pouco, ao redor do barco a água ondulava
Com um tipão cabisbaixo enrolou um fumo, acendeu o cigarro, tragou uma vez e seus olhos fitaram o horizonte, se perderam no nada, vazios
A fumaça do fumo se esvaiu
Se curvou para uma tosse rouca, aquele não era um pescador
Era um tipo calado que remava sem curiosidade, parecia conhecer todas as coisas, mas num instante pareceu ter se esquecido
Parecia não se importar com as coisas à sua volta, mas sei que não é bem assim, sei que não é
Aquele não era conhecido meu, do contrário eu poderia pensar que fosse meu pai chegando ou partindo
O homem do barco foi remando e passando devagar, não parecia ir a lugar algum, mas ele foi tão longe que ainda hoje me lembro
Não que isso interesse, mas hoje me parece um dia daqueles em que alguém rema perdido

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Senhoras Vaidosas

De dia se pintam tal qual boneca de louça
Os olhos são dois borrões negros
Sobre estes uma névoa azul se espalha
O rosto envolto a uma nuvem de pó
A boca de um vermelho escarlate
Colares de contas diversas serpenteiam lhe o colo
Ornadas de pulseiras e brincos pendurados puxando-lhe os lóbulos
Vaidosas se esgueiram pelas ruas, ônibus, lojas, cafeterias
Bailam, oscilam no tempo
Detêm-no
Estancam-no
Impedem-no
Quem sabe, brincam com o tempo
Ele vem chegando, e digo não
Vem sussurrando, finjo não ouvir
Me engole, me vomita
Passa, repassa, nos marca
Passa, repassa, nos mata
Implacável
Sutil
Há de chegar o tempo
E com sua chegada haveremos de partir



terça-feira, janeiro 06, 2009

Sabe...

Ei! Você sabe, não sabe?
Ah você sabe... Mas não me diz nada
Sabe dos males que sofro
Dos segredos que guardo
Das palavras que calo
Das coisas que falo
Dos dedos que estalo
Das pernas que agito
Dos olhos que fitam
Dos sorrisos que dou
Dos abraços que troco
Do tango que toco
Das críticas leves
Das piadas alegres
De como me sinto
Sabe o quão distante estou
Sabe de quando estou aqui
De quando falo, me expresso, me exalto
E sabe que até pareço gente
Sabe que sou gente. Sou não sou?
E você sabe como é o meu jeito
Sabe que ele não agrada muito
Sabe que não é doce é desconfortável
Este jeito não está certo, não pode estar certo
Isso não é jeito, é mais um desajeito
Um jeito sem jeito
Sabe que não estou certa
Mas se não estou certa...
Então onde estou?
No preto ou no branco
Em cinza ou vermelho
Você sabe de tudo
Sabe...
Seja lá quem você for, seja lá onde estiver
Você é um maldito que sempre sabe mais e mais e mais sobre cada vez menos e menos e menos...
Tem cheiro de fogo
Frescor de sorvete
Tudo tão bonito
Elogios soam estranhos
Desconsertam
Mas a realidade é mui crua
Um vexame, um glamour
Você não sabe de nada
Nem sequer me conhece.


domingo, dezembro 28, 2008

Infinito


O melhor da vida são viagens mal sucedidas
Noites mal dormidas
Momentos sós e particulares
Dias angustiados, calados, aluados
Deles reflete o sol, o ápice da luz
Deles dias e noites são sentidos aguçados
Levo-os para longe, mas logo os trago de volta,
Deles preciso beber
Sorver o veneno, absorver a cura
Até que cessem os sete fogos
Assim, ao por do sol em brinde aos aspirantes
Exasperado anoitecer me leva numa valsa lenta
Rodopiando-me desesperadamente ao redor de sua órbita
Estrelas terríveis no céu se movem junto à dança
E fazem-se assombrosas constelações, chorando âmbar celeste
Ah se meus pés pudessem aferrar-se ao solo e se aquietar por um instante
Seriam eles escravos desta terra já de longe corrompida
A mente derrama do corpo, por certo assoberbados
Juntam-se a revelar a tormenta desta alma
Um manifesto
Um motim
Fatigados pela vigília
Cruzando sombras indubitáveis
Fazem-se luz! Mais pura luz!
Muito além da tristeza, da felicidade ou saciedade
Duradouro extenso sol
Reinado em manto negro
Infinitos pontos lúcidos, lúdicos, luminosos
Perene lúmen
Império transcendente
Sim sou eu
Que não sei equilibrar, sou eu...
Nem luz nem trevas, nem presença nem ausência.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Pingo

Ele anda em círculos, farejando o espaço.
Numa prisão escura, deita-se à espera de que venham resgatá-lo.
Carregam-no até lá fora, enquanto seus olhos se perdem no nada.

Pode sentir o sol aquecendo-lhe a pelagem, o vento soprando nas orelhas, o orvalho da grama refrescando-lhe o couro.
Vaga por um mundo desconhecido, sem cor, sem luz, sem sombras, sem imagens.
Há apenas odores, vapores, sensibilidades táteis e voláteis, tremores, sussurros, suspiros, zunidos, silvos, vozes agudas que lhe chicoteiam os ouvidos.

Estou ao seu lado, decodificando suas reações. Pode sentir?
Uma vaga lembrança o deixa alerta, tensionando-lhe os músculos,
para depois fazê-lo voar longe, deixando seus olhos perdidos em órbita,
preso à espera de que venham buscá-lo.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Frutas de cera

Hoje passei por aí, e foi ali que as vi.
Tão lindas, tão lisas...
Brilhavam, pequenas e indefesas, numa peça de cristal.
Perfeitamente redondas, desenhadas para seduzir.

Ofereciam-se por um preço qualquer – não importa.
Objeto de desejo, entregues à vontade alheia.
Frutas de cera, delicadamente pousadas sobre o móvel, imóveis à espera de qualquer um que lhes pague o preço.

Enchem-me os olhos vê-las assim, tão disponíveis, ao meu alcance...
Poder tocá-las, cheirá-las...
Não se trata de um desejo pelo original, e sim de uma vontade pela réplica.
O que me fascina é sua artificialidade óbvia, de valor superior ao do original.

No ápice, sua existência não importa mais do que a vontade de tê-las.
Não me dou ao luxo de justificá-las; não há dúvidas de que são o que preciso.
São o que preciso ter...
São o que quero ter...

Sobre um móvel, imóveis a me esperar.


segunda-feira, dezembro 01, 2008

Rumo


Eu estava andando rumo àquilo que me leva sempre ao mesmo lugar
Enquanto rumava, pensava no descanso que estava por vir
Mas também pensava no tempo que sempre me afasta
Eu me afastava cada vez mais indo de um lugar ao outro
Enquanto rumava, o vento cortava o tempo e o pensamento gerava espanto
Mas abaixava a cabeça e continuava rumando
No horizonte nada mais havia, além do rumo que tomavam as coisas
Alguns segundos, um momento apenas, para decidir o destino de uma vida
Contados, arrastados num relógio qualquer, foi por pouco que tudo se foi
Em uma rua qualquer de Copacabana, na chuva, na lama, em meio à sujeira, ao caos, uma vida rumava, parecia querer ficar, mas ela rumava em destino a seu destino final.
Como eu, ela se afastava de um lugar ao outro, mas no instante de alguns segundos, seu destino faria com que se afastasse demais, além do horizonte do rumo que tomavam as coisas.
Na rua, na chuva, na lama, uma vida, cronometrada, computada em 80 anos
80 anos, na rua, na chuva, na lama, os segundos, os minutos, os meses, os anos, as décadas se afastavam para longe do horizonte do caos.
Nada parecia estar decidido ainda. Mas estava. Ela terminou, aos poucos, rápida e devagar, assim como no dia em que começou.
Ela rumou para tão longe que a ninguém cabia mais alcançá-la e eu continuei a rumar sempre para o mesmo lugar.
O rumo que tomava coisas, pessoas, sentimentos.
Nenhum rumo mais, além deste ou daquele.
Numa fração de segundos uma vida de valor inestimável, valia menos que um segundo sequer.
E fora este, o rumo que tomava coisas, pessoas, sentimentos.

terça-feira, novembro 11, 2008

Indefinível


Existem batalhas que não se pode vencer nem perder, sinceramente, nem sei o que se pode fazer em relação a elas, também não sei dizer como deveríamos nos portar diante delas, nem ao menos definir como nos sentir.
Há coisas para as quais não achamos início, nem meio nem fim, só caminhos possíveis dentro do impossível, afinal, nem tudo acontece como gostaríamos que acontecesse.
Na maior parte do tempo em que caminhamos pensamos em como ele (o caminho) deveria ser, mas ele nunca é como achamos que deveria, não sei se é possível ser como gostaríamos, ou se é impossível querermos o caminho da forma como ele é sem o sonharmos inserido em projetos perfeitos.
Nem sempre encontramos o caminho do certo ou do errado. Por vezes, muitas vezes até, estamos diante de um caminho que nem sequer podemos definir.
Será quantas vezes desistimos do caminho que sabemos que jamais irá se definir, quantas vezes abandonamos o indefinível, quantas vezes o deixamos de lado, quantos vezes nos desinteressamos dele, quantas vezes o esquecemos?
Eu não saberia definir, afinal, na há definição para o indefinível, mas então o que há para ele?
Será que poderia haver alguma intenção? Alguma dedicação? Algum tempo? Quem sabe algum espaço, ou mesmo algum interesse?
E quando o indefinível está diante de nós? E sabemos que ele jamais irá se definir, mesmo buscando alguma explicação que possa nos convencer de sua importância, de seu sentido, de uma existência encaixada em um contexto racional qualquer, será que poderíamos dar-lhe alguma coisa? Uma coisa que não se precise definir, algo nosso, algo de valor.
Poderíamos oferecer um olhar? Poderíamos enfrentar uma batalha ao lado do que não se pode vencer nem perder, ao lado de algo em que possamos acreditar, sem que nada dele se possa esperar e ainda assim não desistir?
Poderíamos navegar em um imenso vazio repleto de todas as coisas para as quais não temos explicação, poderíamos suportar a presença do indefinível, compartilhar parte do caminho com personagens que não se podem definir vitoriosos, nem perdedores, personagens que apenas lutam ou se deixam levar sem ter garantia nenhuma?
Lutam diante de si mesmos, sem que se possam definir, existem sem que se possam entender, seguem adiante sem que se possa dizer um sim ou um não. E quem são afinal? Será mesmo esta a questão? Saber quem são, ou o que são? Seria mesmo importante saber? Ou melhor, poderíamos saber?
O que seria mais importante, aceitar o indefinível ou excluí-lo, fazê-lo exceção e assim isolá-lo de nós e de todo o resto?
Deixá-lo entrar, fazer parte, ou fazê-lo sair, se desligar?
Qualquer um poderia perguntar o que aqui defino como indefinível, e a resposta me parece óbvia, poderia ser qualquer coisa, qualquer um, e é.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Sintam-se a vontade para decidir

Lendo algumas notícias consideradas polêmicas e lendo várias opiniões sobre essas notícias do momento, do ano passado ou do século passado, percebo uma coisa: Ficam um bando de gente chamando o “outro” ou os “outros” de tolo, idiota, irracional, vingativo, frouxo, conformista, sacana, cego, dentre vários outros adjetivos negativos, sobre suas posições diante dos fatos noticiados, muitas vezes com fervor, tanto por parte de quem é a favor da posição de quem noticia os fatos quanto por parte de quem se coloca contra suas posições (mesmo que no meio jornalístico se insista em dizer serem pretensamente neutras suas posições diante do fato noticiado).
Então parece mesmo que somos todos, sem exceção, IDIOTAS, cada qual no seu mundinho, com suas verdades. Mas cada indivíduo inserido em seu mundo particular forma uma grande massa dentro de um mundo maior e mais abrangente. Neste mundo maior que não é meu nem seu (afinal nós já somos donos de nosso próprio mundo particular) não existem verdades absolutas, se alguém acha que é dono da verdade está enganado, pois ninguém é dono da verdade! Portanto não vamos deixar que ninguém venha nos dizer o que devemos ou não fazer! Se em nosso universo de ideias achamos que devemos agir em pró de uma causa, pois então vamos agir sem esperar que os outros concordem, pois esses outros já têm suas verdades estabelecidas em seu universo de ideias.
Se alguns querem pensar no que fazer diante dos fatos de forma sóbria e sensata (se é que existe sobriedade na maioria de nossos atos) vamos então deixar que estes fiquem pensando no que fazer!
Se alguns querem agir agora diante dos fatos, impulsionados pelas ideias que os movem em direção a uma ação, pois então vão em frente!
Se alguns são contra aqueles que optaram por agir diante de um fato, porque acham que aqueles são um bando de alienados, tolos, irracionais, frustrados, ou um bando movido por besteiras que não conseguem nem sustentar seus próprios argumentos, então não participem do movimento, pois fiquem a vontade para propagar suas opiniões bem embasadas!
Todos de alguma forma crêem estarem certos sobre alguma coisa, todos acreditam em alguma coisa, nem sempre as opiniões irão convergir para o mesmo ponto e, na maioria das vezes, não vão mesmo, afinal cada um tem já sem mundinho particular, com suas opiniões já formadas, suas crenças, seu discernimento e tudo o mais já estabelecidos, pois então façam o que acham certo, lutem pelo que acreditam, ou fiquem no campo das divagações ou quem sabe não lutem por nada!
Mas saibam que ninguém é dono da verdade! Agimos dentro das normas pré- estabelecidas, da moral, da ética, dos direitos e deveres como cidadãos, e devemos sim, procurar sempre segui-las da melhor forma possível, pois se não fizéssemos isso não seria possível vivermos em sociedade. Porém, não há como fazer um manual de como interpretar e enxergar os fatos que ocorrem no mundo que valha para todas as pessoas, não há formas de fazer um manual que ensine todas as pessoas a pensarem da mesma forma.
As pessoas a principio decidem no que irão acreditar, claro que esta decisão é influenciada por uma série de outros fatores externos que nos são impostos no dia-a-dia, estamos todos sujeitos a manipulações, e devemos todos seguir uma linha padronizada de formas de agir em sociedade, mas dentro de toda esta massificação, dentro de toda esta padronização somos ainda indivíduos e por isso decidimos, não sem influencias externas, mas ainda assim decidimos. Podemos não ser totalmente livres para decidir sobre qualquer coisa, mas dentro de nossa liberdade restrita somos capazes de decidir a conduta que iremos tomar diante dos diversos fatos da vida. Portanto, sintam-se a vontade para decidir. Mas diante das possibilidades, vamos nos esforçar pelo menos um pouquinho para agirmos com maior tolerância diante das diferenças, para não cairmos nas sombras do preconceito, vamos procurar entender melhor o próximo, respeitá-lo, vamos experimentar saídas menos egoístas.
Lembrando que estas são apenas saídas apresentadas, claro que nem todos concordam, são reflexos da forma como interpreto e enxergo o mundo em que todos nós habitamos, é este o olhar do meu mundo para O mundo. Parece-me razoável que possamos contar com uma multiplicidade de olhares de mundos particulares para O mundo.


terça-feira, outubro 28, 2008

Colorindo

A cada abrir e fechar de olhos, algo novo surge, numa corrente elétrica perpassando o espaço sem se apoiar em condutor de espécie alguma
Os olhos pintam cores de beleza ímpar, decodificadas fantasiando a realidade

As cores se dispersam
Se concentram
Contorcendo-se
Misturando-se
Num foco desfocado, brincam e dançam
Lançam-se lentas, velozes

Deslizam lambendo toda a superfície em pinceladas deliciosas
Num turbilhão maquiam meu mundo, minha realidade
De perto são cada vez mais cores, mais flores, pintores

Azul profundo, tranquilo, num demorado suspiro
Faz-me sorrir, com os olhos, dois brilhantes pincéis
Ou quem sabe chorar, colorindo-me de emoções

As nuances me acolhem, me abraçam
Num território matizado de gradações multicores
Beijam-me os olhos nutridos por contrastes

As cores revelam-se
Desnudam-se
Confiam-se a mim em meu jogo tingido, pintado de cores

Os olhos funcionam assim como uma droga, que ilude, distrai
Almejam o belo com um sentimento agradável, aprazível
Envolvem-me numa projeção avassaladora, que me despedaça o tempo todo

Meus olhos junto dos mecanismos cerebrais, geram, criam cores nas coisas, em uma lógica inteligível
Mas as cores não estão lá, não estão lá...
Ah os olhos com sua retina, bastonetes e cones perfeitos são apenas glóbulos lúdicos
E as cores me parecem tão reais verdadeiras e autenticas que diria poder tocá-las, senti-las, cheirá-las, degustá-las

quarta-feira, outubro 22, 2008

Enxaqueca

Rastros de um mal encefálico
Dor aguda que saltita entre altos e baixos
No ápice espeta
Pressiona as têmporas, intermitente
Deixa os olhos sensíveis às gradações de luz
Os ouvidos sensíveis a sons dissonantes
Tensões tendenciosas, o melhor é o silêncio
Queda livre em dor perene, nada pode amortecê-la
Dor esquiva ao toque alheio, não quer nada nem ninguém
Projeta áureas reluzentes pairando no ar
O humor logo se altera mais insociável que o normal
Não se pode olhar para cima
Com um chumbo prensando o topo do crânio
Nem para frente se pode olhar
Com uma placa metálica chapada na fronte
Mão tola, impaciente que nada parece querer segurar
Visão nevoada, anuviada torna-se menos confiável
Vertigens e enjoos desequilibrados
Os passos são lentos e insensíveis
As cores se multiplicam
Os cheiros se atenuam
O ar se rarefaz
E é ela a chegar...
Batendo-me a porta
Da cabeça aos pés
Enxaqueca!

segunda-feira, outubro 20, 2008

Estamos quase lá...

Somos tão parecidos
Por vezes, quase iguais
Quase...
Nossas almas que parecem girar perdidas
Quase tão perdidas quanto eu e você
E somos assim tão semelhantes
Mesmo “material”
Com uma essência que quase nos escapa
Assim quase próximos
Sempre e quase os mesmos
Mas sempre nos separam
Nos distinguem
Nos classificam
Nos dão nome
Nos posicionam
Nos isolam
Mas sabemos que estamos unidos, seja como for, não é bem assim que nos veem, não é mesmo?
Na verdade permanece um abismo entre nós, mas nele decidimos que estaremos de mãos dadas
Quase não sabemos o quão especiais, nem o quão simples e ordinários somos
E somos mais do que isso, não quase, mas sempre
Estamos quase lá...
Estamos quase lá...
Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito” - Albert Einstein

quinta-feira, outubro 16, 2008

Caminhando só na noite

Passos distantes, quase abstratos
Deslizam no asfalto,
Negro, superficialmente brilhante.
Reflexos difusos, tais como pensamentos—
Espalhados, deixados no chão.

Afastados do ruído,
Dos estalos dos brindes,
Dos talheres pousados sobre a louça,
Das vozes sobrepostas,
Das risadas vibrantes,
Das mesas repletas,
Das orquestras sinfônicas das reuniões—
Por vezes suaves, agradáveis,
Por vezes secas, insuportáveis.

Seja como for, os passos se vão, cada vez mais longe,
Mergulham num prazer quase necessário—
A necessidade de estar só.

Rumo à brisa descompromissada,
Rumo ao inevitável frescor e torpor—
Tão precisos,
Tão queridos,
Íntimos e próprios.

E quem sabe o que irão encontrar logo à frente?

Se for a lua em céu estrelado,
Quem sabe refletida sobre negras águas...
Se forem as luzes artificiais sombreando-me os passos,
Se for o vento a levantar-me os cabelos, fazendo-me cócegas,
Se for o vento a erguer-me as vestes, causando-me arrepios...

Se for a noite, que a mim se entrega num leito de negro cetim,
Se for a noite, que aos meus pensamentos engole voluptuosamente,
Se forem meus passos e a noite em coito apaixonado—
Que sejamos um só,
Meus passos e a noite,
Em silenciosa cumplicidade.


sexta-feira, outubro 10, 2008

Nós e os "outros"

O que mais decepciona é perceber que, para fazer com que as pessoas cooperem em não destruir a natureza, o planeta, é preciso convencê-las de que isso será benéfico para elas, de que contribuirá para a propagação da espécie humana, de que será bom para as futuras gerações.

Mas será que, para fazer o bem a algo ou a alguém, precisamos fazê-lo apenas porque isso nos faz sentir bem diante de nossa ação nobre? Porque nos faz sentir melhores, acreditar que fazemos a diferença, entre outras razões?
Será que devemos nos engajar em uma causa apenas porque ela nos beneficiará no futuro? Porque nos trará vantagens, nos tornará pessoas melhores?
Será que as coisas não têm um valor em si mesmas?
Um valor independente de nós? Exterior a nós?

Vamos assumir que as coisas existem independentemente de nós e que não existem apenas para nos servir.
Vamos admitir que o mundo não gira ao nosso redor. Que este mundo que criamos como nosso, às custas da vida de inúmeros seres, pode não ser o melhor — ou, ao menos, que ele não é o único que existe; que é um artifício.
Vamos ajudar independentemente do que venha a nos acontecer.

Deveríamos assumir as consequências de nossos atos porque foram nossos atos — e de mais ninguém.
Os desastres naturais não são apenas crimes contra os seres humanos vitimados, mas, principalmente, contra a própria natureza. Devemos nos condoer pelos que morreram, mas não apenas pelos de nossa espécie, pois os “outros”, que para a maioria são apenas “outros”, também são seres vivos.
Deveríamos considerar os atos que cometemos contra a natureza, pois, se ainda é consenso que a vida é algo sagrado, devemos pensar não apenas em nossas próprias vidas, mas em qualquer forma de vida.

Em nenhum momento a natureza se rebelou contra nós. Ela não é vingativa como nós, seres humanos. Não se pode atribuir a ela características humanas.
Os animais não estão invadindo as cidades, como costumamos dizer; somos nós que estamos invadindo seus espaços. Eles não são assassinos, como frequentemente afirmamos. Entre os animais, o único capaz de cometer assassinato somos nós. Não nos cabe projetar neles características que são exclusivamente nossas.

Somos o animal mais complexo da cadeia alimentar, mas também o mais egoísta, o mais destrutivo, o maior predador — movido por interesses que ultrapassam, e muito, as necessidades biológicas comuns a qualquer ser vivo.
Somos a humanidade, mas também somos natureza. Fazemos parte dela, ou pelo menos algum dia fizemos. Mas, a cada dia, nos afastamos mais dessa natureza — de nossa própria natureza. E talvez esse afastamento seja, paradoxalmente, uma característica essencial da nossa espécie. Talvez a tendência à artificialidade faça parte de nossa essência, e nossa complexidade nos leve cada vez mais longe na abstração — porque, no fim, talvez sejamos apenas o fruto de nossa própria criação.

Talvez, na verdade — se é que ela existe —, sejamos apenas o velho mamífero das cavernas, reinventando a si mesmo constantemente, numa duradoura ilusão.

terça-feira, outubro 07, 2008

Aproveite

Ahhh como adoro frases típicas de auto – ajuda que nos dizem coisas tais como:

A vida é uma só, aproveite-a bem!
Viva cada momento, cada segundo com intensidade com se este fosse o último, aproveite o tempo que tem para ser feliz!

Eu pergunto: Mas o que é isso? A vida é um produto, que deve ser consumido/ aproveitado antes que vença a data de validade? Será que é isso o que querem dizer?

E como será que devemos então aproveitar de maneira adequada cada segundo de nossas vidas? Sim, pois a vida esta sendo cronometrada detalhadamente na base dos segundos, devemos nos apressar o quanto antes para nos satisfazer, nos tornarmos felizes.
Deveriam mesmo é lançar um manual de como aproveitar bem o resto do tempo que ainda possuímos de vida.
Aproveitar o RESTO.
Não gastar atoa o tempo que ainda nos SOBRA.

Resto... Sobra...
A vida é o que? Resto de tempo? Sobra de tempo? A vida é o tempo? Ou o tempo é a vida?

Vamos aproveitar...
Vamos aproveitar essa coisa que nos move, porque com ela nada mais podemos fazer a não ser aproveitá-la, usá-la, consumi-la até o fim.

Conquiste seu espaço!
Eu diria: Ora, pois já o tenho! Tudo que ocupa lugar no espaço e tem massa é matéria – já nos dizia a Química. Sou matéria, portanto, ocupo o espaço seja ele conquistado ou não.

Conquiste seus ideais!
Eu diria: Ora já os conquistei na medida em que os tenho.

A felicidade, lamentavelmente, tornou-se mercadoria vendida como água. Ora pois, se para ser feliz, aproveitar a vida, viver momentos intensos e mágicos, para os quais já existem modelos pré – definidos, milhares de possibilidades ofertadas: boates, festas, bares, shoppings, parques de diversão, zoológicos... Faz com que a “felicidade” seja alcançada somente através destes modelos, pelo menos para alguns (alguns que são numerosos).
Milhares de festas que vendem suas entradas, seus ingressos para a “felicidade” e diversão, mesmo para a liberdade, noção muita das vezes reduzida a tais aspectos, criando pessoas entorpecidas pela “felicidade” extrema, contorcendo-se de tanto rir, sempre a procura de entretenimento, sedentas de tudo quase que por obrigação, perdidas num mundo onde tudo é possível, quando no fundo sabemos, que não o é.
Vendem-nos “felicidade” num pacote colorido e vistoso, de “felicidades” possíveis, organizadas e previsíveis dentro de nosso alegre e empolgado sistema capitalista.

Mas, por favor, aqueles que me lerem, não pensem ser eu uma militante socialista ou comunista, pois definitivamente não o sou. E nem que eu não me divirta e seja “feliz” inserida nestes padrões padronizantes (me perdoem a redundância), pois afinal, também faço parte do empolgado e frenético sistema, o que não me impede de criticá-lo e de aspirar por algo muito além do que ele me oferece já que as possibilidades por ele ofertadas são em minha opinião insuficientes.

Não se preocupem com isso, preocupem-se em se sentirem bem, encaixados na política do bem – estar, pois acima de tudo devemos ser “felizes”, assim mesmo, nestes termos. Porque está tudo bem, somos nós quem fazemos o mundo girar, muitas vezes ao nosso redor.
Nascemos para ser feliz! E o resto vem como que por encomenda pelo correio expresso. Só deveríamos ter cuidado porque no pacote pode se esconder uma bomba relógio, ah e aqui o tempo não tem parada, está disparado, não adianta correr nem tentar alcançá-lo.

E mais uma vez se impõe o tempo, aquele que nos resta e que não devemos perder, porque estamos sempre muito apressados, quase atrasados, para nos divertir, nos realizar, nos entreter, fazer acontecer, para sermos não se sabe o que.

Mas não há com que o que se preocupar afinal isso aqui é só um desabafo, uma chatice. Aproveitem a viajem, pessoal! Aproveitem a viajem...

segunda-feira, outubro 06, 2008

Tristeza

Se cada coisa soubesse falar,
e se a tristeza tivesse vida própria,
como se existisse além daqueles
que sabem reconhecê-la,
que sabem recebê-la,
quem sabe, detê-la,
que sabem dizê-la,
quem sabe, vivê-la...

E quando nos parece invisível,
ou mesmo uma luz,
uma estrela no céu,
mais distante que o próprio céu,
lá de cima a brilhar,
no escuro a chorar,
no escuro a calar,
no escuro, um alívio,
um ponto de fuga,
fixado no olhar.

Só...
Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão,
no silêncio,
no vazio,
sem nada mais conhecer.

Só...
Somente ela no topo,
aqui embaixo a nos dizer
que está só,
que veio para ficar.

Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Na corrente deste jogo

Desapareço assim do nada
Reapareço assim como quem nada quer
Saio de fininho e me esquivo na multidão que me esbarra
Observo tudo de longe
Como se pudesse repousar no movimento do universo
Em silêncio a dançar sob o burburinho
Distante a evitar olhares indiscretos
Como se me pudesse esconder por trás de uma cortina invisível
Privando-me de alheia presença
Sem fazer-me notar, nada noto além de mim mesma
Envolta a estranhos íntimos e semelhantes
Impessoais e acelerados, personagens de si mesmos
Eu ponto fixo num sossego desbotado
Calado e sufocado assentado na plateia
É a estreia do espetáculo a cada dia em que me jogo na corrente deste jogo.

terça-feira, setembro 23, 2008

O filme

Dos olhos, jorra um mar salgado,
debatendo-se em convulsões chorosas.
Anuviados pela dor alheia,
chovem cumplicidade.

Fixos no horizonte azulado da tela da TV,
embebidos em dramaturgia cinematográfica,
histórias atuadas, por vezes tão próximas
de nossa história vivida,
de nossa história de vida,
de nossa história sofrida,
de nossa história querida.

No final, para além dos créditos finais,
sobram-nos grossas listras coloridas,
acompanhadas de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

No final, para além de nossos créditos totais,
resta-nos um tênue fio de vida,
acompanhado de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

E, na extensão da imensidão,
pela última vez rolam os dados.
O filme acaba, mas seu fim é só o começo...


domingo, setembro 14, 2008

Tripartida

Foi-se meu espírito a assoviar, levezinho a pairar pelo ar.
E minh'alma, que pena! Penada, foi-me impossível segui-la às revoadas.

Ambos livres, saltam tensões, alusões.
Dos dois, não sei qual sou mais eu, menos eu.
Detentos do corpo, pesado e selado,
sorrisos e choros só ele estampava.

Já eu, trilogia, tripé, tripartida.
Se alma, se corpo, se espírito, não sei qual mais sou.
Assim me levam, me enlouquecem, me tiram a razão, o senso.
Os três, como balas, traçam o espaço, perpassam o tempo.

Em mim os guardo todos.
De mim, me guardam toda.
Pois, no fim de mim, enfim, vão-se remover os pensamentos,
os princípios, a moral, a crença e a descrença,
as questões, o prazer e a dor, a memória e o saber.

De mim se alimentarão, até nada mais sobrar.
A luz se apagará, os olhos se abrirão.
Uma porta irão ver, por trás da qual avistarão
uma fresta iluminada por uma senda anil no céu.

A porta, aos poucos, se fechará, e nas trevas travar-se-á o fim.
Eterna condenação!
Essa força que me reduz a pó...

Poderia acreditar que, em cadeias sintomáticas,
retornarei como alguém,
por trás de um nome, de um rosto e de uma condição,
sempre com sofreguidão.

Só não sei o que é pior:
se sumir na imensidão ou existir na pequenez.