a solidão dos passos na calçada,
da fragata apagada, rebocada
na calada da velada madrugada?
Sou só eu e minha alma desbocada,
destampada na maré desalentada.
Um suspiro desse nada
nessa noite estrelada.
Um arrepio dessa pele
já gelada e desgastada.
Sentadas no chão, cúmplices ambivalentes, sussurramos segredos cruéis.
Tão pura e crua, livre de mim.
Sua voz é suave e me encanta.
Seu perfume é jasmim, sua presença, divina.
Ergue, em brinde, uma taça de vinho: quente, doce, suave, servil...
Meu rosto, nas sombras, se esconde do seu—manchado, borrado, pintado, culpado.
Devolvo-lhe o brinde num tubo de ensaio: gelado e amargo, abismo, absinto.
Amável, afaga-me os cabelos, deita-me no colo, compadece-se.
Meus gestos agrestes—implacável, me esquivo.
Seus olhos tão dóceis procuram suporte—molhados, sinceros.
Minha língua afiada te injeta veneno, te expulsa para longe, te quebra cristal.
Empurro-te, excluo-te—simplória, te amo.
Tão longe, estou perto—sou ferro, sou cal.
Tão perto, está longe—é favo, é terra.
Te espero no eterno.
Num instante, me espere.
Para sempre quadradas, redondamente enganadas.
A sensação de caminhar dissimuladamente calma e lenta até você, fingindo-me madura e segura de mim, é como uma dor delgada que termina em ponta aguda.
Num esforço excessivo, ofereço um jeito assim, meio displicente, ao desejar-lhe bom dia.
Aparentemente equilibrada e, de certa forma, desdenhosa.
Ah… mas se pudesse me ver por dentro…
Uma voz suave lhe fala aos ouvidos seus desejos mais secretos, assim como uma melodia sussurrada no saxofone, soprando sensualidade em um tom apaixonado, sem limites morais.
O sangue me sobe à cabeça, deslizando pelas veias, avançando acelerado, aquecendo todo o meu corpo.
O coração galopa em disparada à medida que vencemos a distância entre nós.
Aflitiva, a respiração falta-me; mal sei se chegarei até você.
Inadmissível, seu olhar me despe da gélida couraça, quebrando-me em pedaços.
Fogo… faz-me arder dos pés à cabeça, exceto pelo estômago, que gela.
Quanto de ti me perpassa o pensamento na fração de segundos em que nossos olhares se cruzam e os corpos quase se tocam…
Sigo empurrada por força magnética; você, por condução elétrica.
Exalando-se em esfera estimulante, correm-me pulsões atômicas.
Seguem-se explosões nervosas,
Sentidos latentes,
Sintomas pungentes,
Viagens lancinantes,
Mescladas de prazer,
Acompanhadas de volúpia.
Mergulho impiedoso,
Deixa o corpo à revelia,
Às transparências levianas,
Às delícias da libido,
Aos desejos da lascívia.
Abandonado ao teu comando,
Quimera ilícita de domínio e rendição.
Amado menino, ente querido,
Deite-se logo, venha dormir,
Feche os olhos e venha comigo.
Durma bem, durma em paz,
Que a nuvem do sono o traga para mim.
Venha, me siga,
Aproxime-se mais.
O portão está aberto! O que estás a esperar?
A noite o aguarda,
O bosque tão calmo o convida a entrar.
Seus passos vacilam? Não temas, meu anjo!
Entre e desvende,
Embrenhe-se nos matos,
Beba da fonte que, fresca, o presenteia,
Alimente-se dos frutos que, doces, se oferecem.
Deixe que as árvores o acolham,
Toque suas raízes e permita que o envolvam,
Abrace seus troncos e deixe que o enlacem,
Agarre seus galhos e permita que o elevem,
Aspire o perfume de suas flores e deixe-se envolver.
Entregue-se, perca-se, não procure voltar.
Puro e inocente, me encanta o seu olhar.
Acompanhe incessante o assovio que o chama.
Ouça, menino,
A natureza dos prados,
Harmoniosa música.
Toca...
Pio de coruja,
Coaxo de sapo,
Canto da cigarra e do grilo,
Em orquestra florestal.
Lua cheia, luz difusa.
Dançam, prateados, cintilantes reflexos.
O melódico vento move as ramagens.
Menino, apresse-se!
Chamam-no à frente.
Vacilantes, os passos deslizavam sobre a lama.
— Que queres? — pergunta o pobre menino.
Tremem as vestes do impaciente garoto.
— Corra, esconda-se! — dizia o soldado.
Ávido, o menino se esgueira por entre os arbustos.
Corre, mas logo cessa.
À sua frente, revela-se um rio.
Cercado, não há saída.
Senta-se à margem, o soldado, à espreita, hesita.
— Ó, que fazes aqui, tão belo garoto? — inquiriu o soldado.
— Estou à procura da Dama do Sono. — responde o menino.
— Ó, não! Deixe disso! Volte para casa. A Dama do Sono há muito se foi.
— Não posso, pois no sonho viajei e não sei como voltar.
— Deves te esconder o quanto antes. Tu corres perigo!
— Que perigo?
— Tolo garoto, não sabes onde estás?
— No reino do sono. Por Deus, estás a me assustar! Afinal, quem és tu?
— Sou alma errante, em eterna condenação!
— Como vieste para cá?
— Fui soldado em combate, na guerra. Muitos matei, decepei, lacerei. Meu corpo
doía, minha alma rasgava. Rendi-me ao cansaço e deitei-me na relva. Fechei os
olhos e nunca mais os abri. Afoguei-me na culpa e, cá estou, a pagar sentença.
— Pobre soldado! Como sofre teu coração! Diga-me a saída, preciso voltar!
— Garoto, tu deves tentar acordar. Preciso ir, meu tempo se esvai!
— Aonde vais?
— Afogar-me novamente em minha sentença. Nas águas do rio devo me afundar.
— Não vá! Tenho medo. Fica comigo!
— Se eu fico, o rio transborda e engole a nós dois. Menino, de tão bela alma,
não mereces tal fim.
Foi-se o soldado. Ficou o garoto.
— Ó, meu anjo, não ouça atormentada alma. Os condenados nada
sabem, estão presos a revoltas, vergonhas e tumultos. Vejo que encontraste algo
muito precioso e, ao mesmo tempo, perigoso. Este rio à tua frente é a chave do
meu reino.
O garoto, em confusão, deitou-se à margem, olhando para o
sentido em que corriam as águas, tingidas de vermelho.
Estendeu a mão para beber... Mas que susto tomou ao perceber que o rio era de
sangue!
Rio que se esconde no jardim das profecias...
Quando a lua está cheia, as almas se lhe escapam.
Águas sangrentas e pulsantes transbordam em lamúrias,
Arrastando de volta almas em penúria.
— Ó rio, virulento e turbulento! Dominaste-me em tuas águas!
Maculaste-me com teu sangue!
Serpente líquida, lambes-me o corpo,
Cujo veneno sucumbe em minhas veias.
Ó menino, meu anjo sagrado,
Não deves provar de sua peçonha,
Nem ao menos cair em tal perversão.
Acorde, garoto! É hora de brincar.
A Dama se foi, sua inocência deixou.
O sonho... acabou.
Surgíamos repentinamente, quase sempre juntos, sem necessidade de combinar. Alienados de tudo e de todos, não fazíamos questão de companhia alheia, mas isso não significava envolvimento um com o outro; era apenas a sintonia de nossos canais. Entre nós não havia vínculos, compromissos ou formalidades inúteis. Falávamos quando desejávamos; se nada nos ocorresse, ficávamos calados, observando as pessoas e o tempo passarem.
Era comum nos sentarmos para desenhar. Vínhamos de lugares diferentes e escolhíamos, sozinhos e sem nos consultar, um canto onde passávamos boas horas do dia. Cada um com sua caixa de lápis de cor, apontadores, folhas A4 e uma prancheta no colo. Nem eu nem ela sabíamos desenhar com primor ou destreza; desenhávamos sem nos preocupar com linhas tortas, curvas desniveladas, formas disformes. A intenção não era superação nem competição; o importante era estar ali, desenhando nossas realidades irregulares.
Folhas e folhas rabiscadas, coloridas, rasgadas. Não escrevíamos nada nelas, apenas quando achávamos necessário datar. Assim que finalizava um desenho, ela o estendia diante dos olhos e o mirava sob diversos aspectos, até se cansar e partir para outro.
Vi-a sorrir em silêncio várias vezes, mas nunca perguntei o motivo. Preferia imaginar eu mesmo do que ela estaria rindo, e isso me fazia, na maioria das vezes, rir sozinho. Quando ela pousava o papel sobre a grama e seguia adiante, eu os observava sem nada dizer. Não sei bem o que pensava, mas sei que não os julgava nem bonitos nem feios. Eram peculiares.
Quanto aos meus desenhos, Catarina os via pelo canto do olho enquanto eu os deixava no chão, até decidir pegá-los nas mãos. Olhava-os por alguns instantes, curiosa, até que o interesse se dissipava e ela os deixava onde estavam. Pediu-me alguns dos meus desenhos; pretendia guardá-los. Lembro-me de ter pego também alguns dos seus. Eu os guardava e os olhava de vez em quando. Eram mais ricos que qualquer conversa jogada fora.
Catarina era diferente das pessoas com quem eu convivia no colégio. Tínhamos a mesma idade, dezessete anos. Não falávamos de festas, shows, noitadas; falávamos de música. Não falávamos das pessoas do nosso convívio, mas daquelas que nem conhecíamos, daquelas que imaginávamos existir mundo afora. Lembro-me de uma tarde em que, sentados no gramado do campo, conversávamos sobre a vida de um pescador qualquer na Itália. Divertia-nos imaginar pescarias no Mediterrâneo. Dizíamos alguns disparates sobre as ilhas da Sardenha e da Sicília, ríamos de nossas bobagens, vivíamos no mundo da lua.
Nossas palavras, risos, silêncios e desenhos estavam livres de senso e responsabilidade. Éramos muito além do conhecimento dos livros; éramos imaginação atemporal.
Apesar de levar uma vida normal como qualquer outro garoto da minha idade, sentia-me sempre estranho diante das coisas, das pessoas, dos acontecimentos, das obrigações e até das diversões comuns ao mundo jovem. Naquele tempo eu ainda fazia parte de tudo que me dizia respeito, mas a vontade de estar rodeado por aquilo me escapava cada vez mais. Embora estivesse sempre acompanhado de amigos quando saía, ou nos encontros em casa, no colégio ou onde fosse, não sentia necessidade de estar ali.
Tinha, na maior parte do tempo, vontade de estar sozinho ou talvez no campo com Catarina. Mas não tinha coragem suficiente para me afastar e permanecer apenas em minha própria companhia. O que iriam pensar? Essa pergunta tola sempre me perseguia e, por causa dela, persistia em viver rodeado de pessoas que me pareciam conhecidas. Afinal, eram meus amigos, mas eu não os conhecia em nada, assim como eles não me conheciam.
Esse incômodo me persegue até hoje, e tenho certeza de que o mesmo acontece com Catarina. Não a vejo há anos; não sei onde está morando nem o que faz. Ainda assim, sinto-me ligado a ela mais do que a qualquer outro amigo com quem mantenho contato.
Com ela, as coisas aconteciam naturalmente, de forma fluida. Estávamos ligados por algo especial, não por sentimentos de paixão ou atração, mas por compreensão. Nunca saímos juntos, nunca nos ligávamos. As vezes em que nos encontrávamos eram sempre no campo. Não era um encontro porque não combinávamos horário nem dia; não nos prometíamos nada. Quando nos dava vontade, lá estávamos juntos.
Sei que Catarina ainda hoje é como eu, perseguida pelo mesmo incômodo permanente. Nem ela nem eu fazemos questão de estar acompanhados, mas sim de estar onde estamos e como estamos, sem nos preocupar se é isso mesmo que deveríamos fazer. Creio termos nos definido neste bosquejo: uma condição sem condições.
Tá aí uma coisa que todos esperam.
Fazem filas e por ele esperam a vida toda, em tudo que fazem, como se fosse um ponto final, um resultado feliz.
Em geral, sucesso se define por uma promoção, seja ela amorosa, financeira, profissional ou espiritual, resultante de uma grande batalha, esforço, dedicação, estudo, perseverança, trabalho árduo, dentre outras coisas do gênero.
Apesar dos sacrifícios que se fazem, dizem que vale a pena.
O sucesso foi alojado no topo da montanha mais íngreme da cordilheira, e poucos conseguem escalar até o fim.
O fim é mesmo a palavra mais adequada, pois o sucesso nada mais é que o desfecho de uma história.
Todos têm, mais ou menos — uns mais, outros menos —, ideia do sucesso que pretendem atingir.
Sucesso: ascensão, algo de que se possa orgulhar. Olhos alheios se voltam com admiração.
Imagine só: nós, ou melhor, você, no topo da montanha, petrificado de alegria e satisfação; ali, crava bandeiras vitoriosas e dá cabo a mais uma história, dentre tantas outras, no livro dos bons.
O negócio é o seguinte: arranje um objetivo X, apaixone-se por ele e que este seja fonte de desejos, vontades.
Sonhe com ele, lute por ele, viva por ele, empenhe-se por ele, sacrifique-se por ele, arrisque-se por ele.
Vá! Siga adiante, dê fim à angústia que o consome. Esta não se repete, não é a mesma, nem para você nem para mim, então não me venha dizer o segredo do sucesso, pois o seu não é como o meu!
Desejo mesmo, mais do que ter sucesso, querer tê-lo assim como o concebem.
O sucesso, aquele de que todos falam, deve ser mesmo glamoroso; do contrário, a fila não seria crescente para nele embarcarem.
Quando o vivo em meus sonhos, sou tudo que sempre quis ser. Mas e agora? O que sou além de sonhos em querer ser?
E você, sabe o que quer ser?
Como pode saber o que quer ser se nem ao menos sabe o que é agora?
E então, sabe mesmo o que quer ser?
Será que o que é agora não conta?
Querer ser, querer fazer, querer se tornar...
E se não quisesse nada além do que é agora?
Sem a carreira brilhante com a qual sonha, você não é nada?
Sem o salário incrível que irá receber, não será nada?
E ser o que é agora, neste exato momento, não é incrível?
Ou será que é muito pouco, para o muito que sonha ser?
Lute agora, para ser no futuro.
É só isso?
Só não se esqueça de que o agora contém tudo o que importa ou que deveria importar: você.
Por trás de todo sucesso, de suas conquistas e de seu teatro mundo afora, existe você, nós...
Você não é o sucesso que quer conquistar. Ou é?
As conquistas estão sempre lá fora, e é por isso que não detemos o que está aqui dentro.
E quando sentimos que não há nada lá fora que já não esteja aqui dentro... nós?
Por que buscar lá fora o que já está aqui?
A forma como enxergamos se dá através do prisma de nossa visão ou ponto de vista, que nos reflete no mundo nem sempre da forma como imaginávamos.
Poderíamos abrir as portas para tudo o que quisermos, aqui mesmo.
Não que tenhamos que nos estagnar, mas sim nos voltar para algo maior — quem sabe para nós mesmos, que nos envolvemos e circundamos o mundo exterior.
Só não é tão fácil quanto procurar lá fora, porque aqui dentro, por vezes, pode estar uma bagunça que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser ajeitada ou simplesmente deixada de lado.
O que faço não é o que sou, porque o que sou não pode ser feito.
Sucesso: siga o modelo, suba as escadas e seja feliz!
Que tola pretensão a minha, achar que poderia ajudar aqueles
que não querem ajuda...
Mundo tirano! Não, o mundo não é tirano. O problema são as
pessoas, que podem fazer um mal danado a si mesmas, aos outros e ao próprio
mundo.
Acreditei, como uma imbecil, que, envergada de palavras e
ideias, poderia mudar o mundo. Minha ambição nem chegou a tanto. Bastava-me uma
única pessoa, que não se trata de qualquer um, mas daquela que, para mim, é
única.
Em determinados momentos, no calor da palavra, interrompida
pelo soluço do choro, quase implorei para que minhas palavras fizessem efeito.
Pedia, mesmo sabendo, no fundo, que não seria suficiente, que não apenas me
ouvisse, mas ao menos pensasse a respeito.
Pedia, por favor, que entendesse o que eu estava dizendo e, mais uma vez, por
favor, que refletisse sobre isso. Sei que, às vezes, pensa, mas o que sempre
parece prevalecer é a vontade de permanecer imóvel—afinal, assim é mais cômodo.
Num primeiro momento, veio o êxtase e a satisfação de poder
ajudar, pois acreditei ter plantado uma semente. Achei que seria apenas questão
de tempo para que germinasse, para que brotasse e fixasse raízes na terra,
transformando-se, no futuro, em uma verdadeira árvore.
Várias vezes sonhei com o dia em que me deitaria à sombra dessa árvore. Mas a
semente não cresceu. Por mais que eu regasse, não brotou. Então, um dia,
percebi que nunca me coube a tarefa de fazê-la florescer.
Trata-se de uma vida, e não posso decidir por outra que não
seja a minha.
Mas nada me impede de plantar a semente. A partir daí, não sou eu quem deve
alimentá-la—ela precisa alimentar-se de si mesma. Esse é o momento mais
doloroso, porque nunca deixei de acreditar.
A palavra final não é minha, nem mesmo a decisão. A força
motriz não sou eu, e sim você—mas isso não significa que esteja só.
Dê as cartas, faça sua aposta... Só não jogue com os meus sentimentos.
No fim, a sensação de impotência é tão grande que me faz
pequena diante das coisas. Não tenho nada, nem mesmo o chão.
Pudera eu não ter plantado. Mas plantei, arei o solo e
reguei a pequena semente—só não imaginei que fosse tão frágil a ponto de não
revelar sequer um traço de verde.
Talvez frágil seja você. Ou, quem sabe, eu. Somos menores que um núcleo de
átomo.
O som das minhas palavras se propagou num imenso vazio e não
refletiu em lugar algum.
Dentro de mim, sentia carregar uma galáxia de
microrganismos, células e milhares de partículas banhadas por alguma utilidade
maior.
Mas hoje, justamente hoje, sinto carregar nas costas uma galáxia de estrelas
sem qualquer serventia.
Nem sei se é mesmo preciso ser útil. Parece até uma obrigação, um pré-requisito
para existir.
Alguns creem sacudir o mundo proclamando suas ideias. Outros
creem que não movem sequer um grão de areia. No fim, tudo depende daquilo em
que você acredita—ou deixa de acreditar.
Seria mais fácil mudar o mundo do que a si mesmo? Ou será que só se pode mudar
o mundo mudando a si mesmo, como uma corrente que contagia todos ao redor?
Não tenho certeza. Mas quem tem?
Creio que muitos. Talvez esse seja o problema.
Ou talvez não...
Em casa, todos dormem…
Sua mente insone se angustia cada vez mais sob a opressão do silêncio.
Levanta-se da cama, procurando o controle da TV.
Madrugada. Droga de filme B!
Desiste da TV.
Alarmes acionados: empecilho para os vadios da noite.
Do outro quarto, sonoros roncos ecoam.
Pé por pé, desativa o alarme. Os roncos continuam. O caminho está livre.
Veste uma roupa qualquer.
A fuga tem início.
Desce vagarosamente as escadas. Os roncos permanecem regulares.
Onde estão as chaves do carro? Por que nunca as deixam no
gancho?
Vai até a cozinha e lá estão elas, sobre a mesa.
Abre a porta, evitando ruídos. Os roncos… ainda os ouve.
Sinal livre.
Agora, a parte mais difícil: ligar o carro. A arma do crime. Sem provocar um
escarcéu.
Gira a chave na ignição. Olhos fechados. Implora para que o
som da mecânica falhe desta vez.
Maldição! Funcionou — e muito bem.
Motor ligado. Não há mais como voltar atrás.
Assim que se afasta de casa, sente-se cada vez melhor. Liga
o som e perde o rumo.
Duas da manhã. Cidade fantasma.
Maria Fumaça. Maria Gasolina. Maria em fuga.
Acelera o carro e, junto, vai seu coração.
Nada mais importa. Está partindo. Toma a estrada.
Estremece, mas não se arrepende. Está decidida. O momento chegou.
Ultrapassa os limites de velocidade e quer ainda mais.
Não há como voltar atrás. Nem quer.
Pelo espelho, olha para o banco traseiro.
Lá está ela. Sentada. À espera.
Olhos vidrados. Está em serviço.
Por vezes, atende a chamados de emergência. Se ela vem, não
há retorno.
No volante, sente um frio na espinha. Enjoa.
Os olhos continuam a observá-la.
Está obstinada. Chamou, e ela veio atender-lhe o pedido.
Pela última vez em sua vida, olhou pelo espelho e piscou para ela.
Girou o volante, e o fim se deu num piscar de olhos.
A fuga. Ato consumado.
Os veios dos rios cortam caminhos,
e os caminhos atravessam o fluxo dos rios.
Caminhos e rios se cruzam,
se unem,
se aliam,
se abraçam,
se beijam.
Caminhos e rios se nutrem.
Brotam caminhos onde nascem os rios.
Caminhos seguem,
rios deságuam — e caminhos florescem.
Caminhos e rios se ornam de cores:
verde em vida,
vermelho em versos,
azul em afeto,
amarelo em arte.
Delicados em profunda devoção,
dádivas dos deuses.
Pudera eu trilhar caminhos…
Pudera eu beber dos rios…
sem lhes tirar a vida que naturalmente me oferecem.