terça-feira, junho 03, 2008

Monólogo da Árvore

Ah… Nós caímos...
Derrubaram-nos…
Não só a nós, mas tudo ao redor...
Ao longo de quilômetros, milhas de distância, ouço todas as outras caírem.
Deitam-nos ao chão, nos violentam e assim dão-nos utilidade.
Fazem de nós o que não somos.
Éramos seres vivos e nos converteram em matéria bruta.
Nosso reino fora subjugado ao reino destes.
No topo da cadeia alimentar, estão nossos algozes!
São eles, os detentores de poder do reino animal.
O homem, dito mais completo e perfeito organismo de seu reino, nos pisa como gigantes a caminhar sobre gravetos.
A grandeza de teus atos limita-se a si mesmos, mas os propósitos de suas ações ultrapassam quaisquer fronteiras.
No cume de sua genialidade destroem-se entre si.
Ministros da guerra.
Ceifadores funestos.
Semeadores estéreis.
Eu cá estou, não sendo eu e sim aquilo, em singelo monólogo farfalhando palavras ao léu.

quinta-feira, maio 29, 2008

É preciso experimentar

Experimentemos a mudança, pois só assim poderemos tocar outros corações.
Experimentemos nossas próprias invejas antes de alimentá-las.
Experimentemos nossas próprias ofensas antes de proferi-las.
Experimentemos nossos próprios julgamentos antes de julgar alguém.
Experimentemos nossas próprias ciladas antes de pensarmos naquelas que planejamos criar.
Experimentemos nossas próprias brutalidades antes de cometê-las sempre que nos convier.
Experimentemos nossas próprias falsidades para refletirmos se realmente queremos praticá-las.
Experimentemos nosso próprio veneno e decidamos se devemos expeli-lo ou não.

É preciso experimentar para saber se realmente iremos gostar e se, de fato, teremos prazer.
É preciso sofrer o que faremos os outros sofrerem.
É preciso sentir aquilo que faremos com que os outros sintam.
É preciso conhecer o mal que pretendemos perpetuar.

Mas também é preciso refletir sobre o bem que poderíamos propagar.
É preciso experimentar a gentileza que podemos oferecer.
É preciso experimentar a sinceridade que podemos demonstrar.
É preciso experimentar o carinho com o qual podemos presentear.
É preciso experimentar a doçura com a qual podemos cativar.

Que a vida esteja repleta de experiências, em oposição às teorias nas quais insistimos em acreditar.
Que esta vida se sobressaia à vida com a qual nos contentamos.
Que esta vida não seja um ensaio, mas um improviso.
Que esta vida não seja um plano, mas um repente.
Que esta vida seja vivida — e não apenas um ponto de partida.


terça-feira, maio 27, 2008

Réplicas Tétricas

Andam a seguir pessoas, e de longe a espreita, as veem como presas em potencial.
Tome direção à esquerda e lá estão eles.
Vire à direita e mais uma vez se depare com os mesmos.
Corra e na boca do lobo estarão.
Pelos corredores, escadas, elevadores, banheiros, nos odores dos ares farejam seus passos.
Observam afastados e no olhar sustentam o brilho do mal.
Seguem exalando energia nociva, trucidando reses.
Promovem o acaso, e ao cabo do caso escapam ilesos.
Por pouco não falam, grunhem sons grotescos.
Vibram horror, causam repulsa.
De suas peles, expelem suores sebosos emplastrados de medo e desalento.
Emitem vapores sulforosos em atmosfera subumana.
Suas vitórias são perdas de si.
Suas perdas são relatos anônimos.
Suas almas são censuras e tarjas, escuras e cruas.
Sua fome é réu primário.
Sua sede é Rei deposto.
Suas vidas são o reflexo do mundo como se passou a acreditar.
Seus fantasmas transcrevem traços fechando-nos em círculos anelares.
Seus corpos inanimados se animam por sopro cético.
Suas imagens são réplicas tétricas.

segunda-feira, maio 26, 2008

Dementes

Reles dementes,
Morrem suas mentes,
Passos cadentes,
Vontades pendentes,
Dores dormentes,
Sorrisos sofridos,
No peito se estampa a culpa,
Culpa da qual não tem culpa,
Caminha a sombra de impressões de que algo está errado,
Áspero anseio! O que será?
Poderia ser a chuva na janela,
As árvores na calçada,
A beleza morta nas flores do floricultor,
As luzes de natal,
O carro apressado que avança o sinal,
O silêncio da noite,
O nó na garganta,
Os ponteiros do relógio,
Os jornais que voam na ventania,
As notícias de ontem que se apagam em uma poça qualquer de hoje,
As palavras cruzadas,
A previsão do tempo,
A previsão dos signos,
O alinhamento dos astros,
Tolas crendices astrais, donas de um destino previsto, por elas lhe é devorado o futuro.
Deixe-os crer, mas não decidir no que acreditar.
O destino destina-se destemido e revela-se à luz do tempo!

quinta-feira, maio 15, 2008

Ígneo dragão

Assim que emergi, cuspindo todo o meu ser para fora, marcou-me o voo do dragão celeste.
Foi-se em meu primeiro suspiro de vida, desintegrando-me em átomos.

Dragão da alma, alma de dragão — a cada bater de asas, expelia fagulhas que se juntavam e incendiavam toda a minha vida.

Reza o tempo entre as contas do rosário — uma a uma — até que reste apenas a oração que recomeça.

Das trevas abissais arrasta-se a serpente.

Seu bote é infalível.

O veneno corre — e o combate se instaura.

Fecha-se o ciclo de Ouroboros.

No horizonte do combate, queimo o combustível da minha vida em incessantes golpes do destino; e, quanto mais ela se esvai, mais forte é o perfume da origem do ser.

Criadora na origem quando me manifesto, uno-me ao meu próprio corpo — celeste e físico — fazendo jorrar o sêmen fundador.

Sou o sol no ápice, no instante em que me preparo para governar o que criei.

Em meu corpo, ornado de escamas indestrutíveis, as criações se afirmam sem julgamento, até que sejam colocadas em xeque, conduzidas ao labirinto das escolhas.

Bem e mal, em linha tênue, desprendem combinações ambivalentes, cadenciadas em versos que canto ao panteão quimérico de deuses e demônios que em mim se manifestam — e me elevam ao ígneo dragão.


segunda-feira, maio 05, 2008

Realidade

Realidade, ó anarquia decrépita.
Expele verdades tal qual pus da ferida.
Descarada mentira estapeia-me a cara.
No correr do dia e ao cair da noite, se diz cumprir o segredo do sucesso!
Nada melhor que um jargão porcalhão!
A vida é uma festa, então pague o ingresso!
Todos a postos, meneia a multidão,
Contundida argamassa.
Certeza dos fatos, aprazível remédio.
Tecnologia em ascendência,
Miríade virtual.
Bem-vindos senhores e senhoras escancaram-se as portas,
Façam de vos nutritivo alimento,
Sinto cheiro de carne... Fareja o caçador.
Os ardis maquinários,
Ornam o espaço e a todos envolve em sutil perversão.
Tenazes sujeitos sujeitam-se ao fim,
O tempo urge em aguda distorção.
Homens formiga, débeis corpos cansados.
Desejos dragados,
Amálgama universal.
Colossal compressor,
Humanidade anônima.
Ardida chicotada.
Poderosa imagética, em esboço amador.

quarta-feira, abril 30, 2008

Abandono

Peço-te que me abandones, deixe-me viver e morrer na dor de não pertencer a ti.
Imploro-te para que estejas próximo, pretendo não perder-te de vista, porém não almejo ver-te nitidamente.
Contento-me apenas com tua sombra sorrateira, mas temo em breve isto não ser sustentável.
Coloco-me na transição entre os extremos.
A dúvida consome meu ato de decisão, estes minutos são finais e os próximos serão meu fim.
Deixe-me até que meus caminhos não mais cruzem os teus, até que a dor lacere meu peito e meus sentidos não mais sejam confiáveis.
Espera-me em planos secretos, onde minha existência consagrada de vida se deixa tomar por teus apelos.
Assim sendo irei para quem sabe um dia retornar novamente.

sexta-feira, abril 18, 2008

Guerra

Cá onde estou, rebenta uma guerra de matéria neural,
Propagada além da ossatura e fluxo venal,
Decorre em espasmos mentais.
Guerra psíquica,
Campo minado do inconsciente,
Sopro volátil de entidade incorpórea,
Agente infeccioso de contagio moral.
Revoltas sensações cavam trincheiras no terreno da razão.
Na linha de frente marcham kamikazes,
Entregando-se à dor incurável.
Sádicos lamentos fraturam-me a alma.
Invadem-me apetites coléricos e,
Irrompem-se calorosas batalhas.
Verborreicos açoites castigam-me o espírito,
Fulminantes delírios laceram-me o peito.
Lufada vital traga-me sementes de ouro,
Crave-as em meu corpo astral,
Remova do meu coração as flechas que o perfuram,
Dos meus pés grilhões que se arrastam,
Dos meus olhos pesares que os pesam.
Só não dê novamente uma trégua, pois dela se ergue uma onda que a todos os sentidos engole.

terça-feira, abril 15, 2008

Eu

Eu tenho um nome, mas ainda não sei quem sou.
Eu tenho vários sonhos, mas ainda não sei quem sou.
Eu tenho várias perguntas a fazer, mas ainda não sei quem sou.
Eu tenho várias respostas a dar, mas ainda não sei quem sou.
O tempo está passando e eu ainda não sei quem sou.
O tempo continuará a passar e eu continuarei a não saber quem sou.
Não sei o que irá ocorrer quando eu souber quem realmente sou, se é que um dia irei saber.
Por enquanto me contento em dizer que sou um ser humano que tem suas vontades, que sonha, que tem suas opiniões, que tem suas crenças, que vê o mundo de certa maneira, que tem suas necessidades básicas, que apresenta controvérsias, que tem seus defeitos, que tem suas virtudes, que se questiona e que tem esperanças.
Eu não sei o que me espera no futuro, mas sei o que eu espero dele.
Eu percebo as coisas que vejo e toco e penso sobre as que não posso ver nem tocar, por enquanto isto é tudo, mas não é o suficiente.
Eu estou escrevendo, porque acho que assim irei exteriorizar o que sou ou o que acho que sou.
O que eu acho que sou é o que sou, mesmo isto não sendo verdade, porque também não sei até que ponto tudo isso é verdade. Digamos que seja verdade agora, mas talvez no futuro deixe de ser, pois no futuro certamente eu não serei mais esta pessoa que está escrevendo sobre si mesma, eu serei outra pessoa.
Assim, fica difícil saber quem realmente sou, porque todo tempo eu deixo de ser o que sou agora para ser o que sou depois.
Acho que quando descobrir quem realmente sou, serei tudo o que sou, o que fui e o que serei ao mesmo tempo.
É possível que eu seja não apenas um, mas vários ao mesmo tempo.
E se possível for, saberei que sou vários e não um, ou que sou um englobando vários?
Existiriam respostas para estas questões? E se existissem, seriam elas verdade?
E se algo hoje for verdade e amanhã já não for mais?
Isto significa que as verdade são mutáveis, portanto não são totalmente confiáveis e se não podemos confiar nem nas verdades, então no que podemos confiar?
Podemos confiar em nossas afirmações?
Se essas afirmações são propensas a transformações, hoje se firmam, mas um dia cairão por terra.
Um dia as respostas foram perguntas, mas hoje são o que são e o que são é o contrário do que foram.
Afinal, nada podemos controlar a não ser aquilo que achamos que podemos e isto me leva a perguntar o que seria então palpável.
Existe uma realidade, ou ela não passa de um mero conceito que criamos?
Se fomos nós quem criamos este conceito, como poderíamos garantir ser ele real?
O que sei agora é que na vida de nada tenho certeza, pois tudo nela esta em movimento.
Os momentos em sua individualidade são eternos, por existirem da forma como sempre foram no espaço e tempo em que se passaram, mas são um e não o todo.
Acredito que no todo de tudo, deva existir o todo de cada um, nisto creio já faz algum tempo e se continuar a acreditar, acharei que é verdade. Ainda assim não é garantido, mas faz parte do que fui e do que sou no momento, sendo assim, parte do caminho já fora trilhado.

quarta-feira, abril 09, 2008

Na linha de um trem sem fim

Assobia o apito do trem, sonoro convite à infinita viagem.
Sobem a bordo os anseios de quem os tem.
Por trilhos outrora trilhados, conduz passageiros que passam — e no passado se fincam.
Vagos vagões trepidam, aflitos.
Ferrugem e fuligem forram os leitos.
O trem engrena planos possíveis,
enveredado por desejos tirânicos.
Imprimindo velocidade assassina,
verga-se ao peso de férrea volúpia.
Caminho de ferro, que intuito terás?
Carregas o fogo da eterna vontade.
Em qual estação deve o intento saltar?
Na linha de um trem sem fim, esperamos o que nos espera.
Embarcamos no trem que busca tudo aquilo que se deseja — e, por nunca deixarmos de desejar, o trem se chama Sem Fim.

segunda-feira, abril 07, 2008

Fez-se e se desfez

Não mais lançava o olhar ao céu, pois se lhe seguiam alto os arranha-céus.
Não mais deitava a ver nuvens sossegadas sobre o gramado, pois se lhe passava uma avenida.
Não mais dançava sob os raios de lua, pois se lhe ofuscava as luzes da cidade.
Não mais apanhava os frutos da caramboleira, pois se lhe sobrepunha um passeio público.
Da natureza fez-se propriedade,
Da menina fez-se cidadã,
Da liberdade fizeram-se os direitos,
Da sede fez-se a necessidade,
Do tempo fez-se prisão,
Desfizera-se o tempo em que a menina vivia e fizera-se o tempo do qual vive a menina.
Ao fim e ao cabo, fez-se poesia, que dela e nela vive.


segunda-feira, março 31, 2008

Se

Não deveria esperar pelo sol nem pela chuva de amanhã,
Nem me preocupar se o dia será bom ou ruim,
Ou se será como imaginei,
Não deveria jogar a bola com tanta força para o outro lado do muro, porque corro o risco de não encontra-la jamais.
Se olhar para trás, sei o que irei ver,
Se olhar ao redor, vejo o que ficou e imagino o que vem além do horizonte,
Se olhar para o espaço onde estou, insisto em pensar nos passos que dei e naqueles que quero dar.
Se ficar onde estou começo a esperar,
Se voltar para onde estava me vem a esperança de poder modificar os quadros tristes e reviver os mais felizes.
Jogo a bola para o alto, sei que irá cair mais rápido do que esperava.
Mera ilusão ter a bola em minhas mãos.
Chuto a bola para frente, mas não corro para ver onde vai dar.
A partir daí, apenas a certeza de que não adianta esperar ela voltar, pois sou eu quem deve ir buscá-la.

quinta-feira, março 27, 2008

Poema escrito para um homem chamado Joseph Merrick

Enfim, construíra seu castelo encantado,
Sua igreja matriz,
Vivera seu sonho distante,
Sonhara milhões de sonhos mais,
Tornara-se um homem comum,
Recebera seus cumprimentos,
Fora admirado,
Sentira-se grato,
Vira-se nos olhos daqueles que o observavam com curiosidade,
Divertiram-se com sua imagem, ao passo de seu sofrimento,
Ainda assim, enxergara comovente beleza nos rostos que dele zombavam,
Seres celestes, senhores da vida, legitimados na perfeição,
Fizeram-lhe monstro, animal, bárbaro anômalo,
Fizeram-lhe marcas, dor e medo,
Quando, na verdade, era um anjo de medonha aparência,
Um corpo perdido no caos,
Ser transcendente, metafísico.
Era nobre.
Era apenas um homem. Queria sê-lo e o era.
Temia o mundo que lhe ofereciam,
Numa esfera abaixo da humanidade,
Para tanto, engendrou projetos quiméricos,
Levou-os às ultimas consequências.
- Sou um ser humano! – implorava a Deus que fosse verdade.
Fora um espelho quebrado, que refletiu a imagem e semelhança disforme dos seus.

terça-feira, março 18, 2008

Pecado do amor

Vamos nos encontrar no cais de um navio prestes a afundar, ali me beijes irradiando certa dúvida, pois só assim lhe verei por dentro.
Se a noite for duradoura prometo lhe dizer palavras suaves até você dormir e quando isto ocorrer tomarei em uma taça fina de cristal, meu veneno favorito.
Em goles dolorosos a cicuta desce, marcando toda minha passagem por este mundo.
Quando acordares estarei a iluminar, como os raios do sol, sua face agora desamparada sem minha presença carnal.
Não me julgues, pois ao teu lado meu corpo não mais acordou.
Saibas que lhe devo o mundo e este lhe darei, repleto do amor que jamais pude conceber em vida.

segunda-feira, março 10, 2008

Pensamento

Não se permita pensar em outro que não este pensamento
Pensamento este que se estampa entre vários outros
Emana em infinidade
Como peças que se sobrepõe
Como círculos circunscritos em si mesmos
Rudimentos artísticos de labor mental
Incógnitas de uma expressão algébrica
Deixe que seja
Assim nasce na alma e deságua no corpo.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Saudade

Saudade é uma explosão que se dá de dentro para fora,
É alento de dor mergulhado no prazer da lembrança perpétua,
Silencioso vestígio de sua presença,
Irreparável ausência de sua pessoa.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Partícula

O canto de um pássaro num fim de tarde. Conversas isoladas num canto.
Fotos congelam imagens em paralelo a uma memória esquiva, sem provas convincentes.
Um perfume exala lembranças — vestígios não investigados.
Rumores, murmúrios, sons disformes flutuam no espaço e desaparecem como transeuntes no horizonte enevoado.
Não há nitidez, a não ser pelas moléculas de água que, contra a luminosidade existente, apresentam um formato supostamente arredondado.
Água: forma manipulável e volume fixo; fria, quente, morna — contrapondo-se à prateleira de livros, duros, sólidos, maciços.
A partícula d’água pousa sobre o livro, provocando uma verdadeira revolução, vindo a evaporar.
O livro permanece o mesmo, intacto, exceto por uma minúscula mancha em sua página.
O que pensava eu, exatamente, quando a vi pousar?
E os demais, o que pensavam?
Quem mais, além de mim, a viu?
Seria sensato pousar meus pensamentos sobre as páginas de um livro, como gotículas d’água que se precipitam, causando uma tempestade a borrar as palavras impressas?
Minhas linhas, junto de seus parágrafos, se tornariam um só borrão de tinta sobre a superfície amarelada de uma folha de papel.
Amarelada, apagada, sem a melodia das folhas do outono, sem a riqueza dos raios de sol.
Pés que se arrastam abaixo da cúpula virtual aspiram pelo ruído quebrado das folhas secas no chão outonal — assim como o sangue, concentrado nas veias, se projeta diluído em crepúsculo no céu.
Aqui e acolá, permeio, atravesso, me exponho, me fecho e me restrinjo, cingindo os sentidos à tona.

sábado, dezembro 22, 2007

Medo

Tenho medo.
Medo de mim e de todos os outros.
Medo de olhar e ver.
Medo de descobrir tudo que existe por trás deste rosto.
Medo de que esta expressão não exista.
Medo de que as lágrimas que rolam sejam ilusões.
Medo da angústia que corre dentro destes olhos.
Medo de assistir às provas entranhadas na superfície desta íris esverdeada e brilhante.
Medo de escutar esta voz.
Medo de ouvir o que tem a dizer para o reflexo no espelho.
Medo de perder o chão.
Medo de descobrir sobre esta natureza.
Medo dos crimes cometidos involuntariamente, deliberadamente cientes de si mesmos.
Medo dos resultados e diagnósticos.
Medo da escuridão que se perpetua.
Medo das falhas, erros, tentativas e posteriores acertos que acertam contas no futuro.
Medo das dívidas contraídas.
Medo das contribuições e transgressões.
Medo da conformidade, da realidade.
Medo da dor e da sujeira.
Meda da esfera de ação alcançada.
Medo do descontrole.
Medo do despotismo.
Medo da liberdade.
Medo de que tudo se desvaneça e desintegre as convicções e credenciais.
Medo da plenitude desconhecida.
Medo da incapacidade de admitir o medo.
Medo do medo.
Medo de viver com medo.
Medo de perder o medo.

quinta-feira, maio 24, 2007

Preocupações preocupantes

Preocupo-me quando comigo preocupam-se, porque assim em mim se exaltam preocupações preocupantes e me preocupo muito mais!
Não há portanto, com o que se preocupar, pois estou em perfeito estado mental, espiritual, intelectual.
Físico, corpóreo, material, natural, neural, emocional.
Cardíaco, maníaco.
Caduco, aluado, esquisito.
Excêntrico, lunático, paranóico.
Demente, decente, impaciente, paciente.
Exaltado, tresloucado, desarmado, apiado.
Desmanchado, manchado, rebocado, estilhaçado.
Abatido, arrebentado, arruinado.
Esfacelado, despedaçado, desalentado, arrochado.
Falido, fatigado, fendido.
Quebrantado e permutado.
Por fim preocupado.

quarta-feira, maio 09, 2007

Piratas

Piratas lançados! Homem ao mar!
Tombamos em mar revolto, eu, tu e nós mergulhamos. Ar não nos falta. De volta, submergimos.
Lado a lado, nadamos até terra firme.
Na praia, sorrimos, pois faremos amor,
loucos em fogo,
cantando e dançando embalados no rum.

Somos piratas audazes em busca do grande tesouro.
E afirmo: o tesouro é o amor.
Jóia esquiva e cativa, dela não se calcula o valor.
Tal tesouro não pode ser guardado por um só guardião, nem detido por um único ser.
Deve ser dividido, espalhado e propagado para além dos séculos que virão.

Não tem nome, não tem idade, nem origem, e tampouco se esconde.
Somos verdadeiros piratas, pois juntos desfrutamos toda riqueza conquistada.
Respeite-nos, pois somos piratas que prezam o tesouro celeste.
Leais somos nós, eu e tu.
Fiéis companheiros de guerra.
Mãos dadas em mau e bom tempo.
Duais em eterna operância.
Um cai, o outro levanta.
Assim se dá nossa busca.

quinta-feira, abril 19, 2007

Espaços vazios, linhas em branco.

Me definam, em algumas linhas do espaço em branco ou em todas elas, não ultrapasse a margem.
Me definam da forma que quiserem definir, sejam suas ideias e opiniões claras ou não, sejam elas baseadas ou não na realidade dos fatos.
Aqui a realidade não sou eu e sim vocês, portanto definam nas linhas vazias do espaço em branco o que sou, baseado em suas impressões e no que acreditam.
Definam se sou boa ou má,
Definam se sou tudo ou nada,
Definam se estou apta ou não,
Definam se amo ou não,
Definam se sou luz ou trevas,
Definam livremente através de um olhar que seja,
Definam, por favor, o que não sou capaz de definir,
Definam bem ou mal, afinal são vocês e não eu,
Definam no espaço em branco e nas linhas vazias, porém não ultrapassem as margens...
Nos espaços em branco e nas linhas vazias, vocês podem me definir, podem me desenhar, me escrever, me editar, me construir, me destruir, me reconstruir, me apagar, me colorir...
Onde não há nada todos podem tudo...
Preencham os espaços e as linhas vazias como quiserem.


quarta-feira, março 28, 2007

Liberdade

Porque esse ciclo?
Você começa e começa muito bem, no papel de uma criança que absorve os ensinamentos que lhe são passados a respeito do mundo e como uma descobridora deste mundo cria seu próprio mundo em meio a brincadeiras.
Daí os pais e as pessoas ao seu redor começam a te influenciar involuntariamente com suas opiniões, crendices e com seus medos, a partir deste momento algo já lhe é roubado, mas não é algo que se possa perceber no momento em que acontece, porque as coisas acontecem com tanta naturalidade, a final sempre foi assim...
É natural lhe roubarem uma parcela de sua liberdade, posto que você sendo uma criança, não possui ainda uma estrutura de caráter formada, portanto não sabe discernir o certo do errado, o bem do mal e assim por diante. Então é necessário que lhe roubem este bem, posto que você não está ainda em condições de decidir por si próprio.
Quem decide o que você não pode decidir, são os que por lei, podem decidir (faz sentido?).
A primeira fase da perca vem repleta de dor momentânea, ou seja, a "birra" que uma criança faz quando seus desejos não são realizados, a dor da liberdade que lhe foi tirada no momento é intensa porque a criança não entende ainda o porque de não poder realizar seus desejos no momento em que sente vontade.
Daí ela passa ao longo dos anos um lento e doloroso processo de perca gradual de sua liberdade, até que se torne madura o suficiênte para entender que a liberdade tem limites e que esses limites devem ser respeitados para que não aja uma punição.
A punição existe para aqueles que não são e não foram capazes de conter suas vontades visando realiza-las a qualquer custo, mesmo que seja preciso passar por cima de uma série de leis e conceitos.
E se todos fossem livres sem regras a seguir? Não isso não poderia ser!
Porque as pessoas são dotadas de naturezas diferentes e sendo assim, quem garante a ordem? Poderia-se questionar o porque da ordem.
A ordem existe por uma necessidade e essa necessidade surgiu de pessoas que tiveram "seu espaço" roubado, essa noção de espaço nem sequer existia, pois as noções surgiram depois, mas havia com certeza o desconforto, algo que não se poderia explicar exatamente e esse desconforto gerava uma necessidade e a necessidade gerou um acordo geral entre os membros de um grupo que se entendiam sobre o efeito do maldito desconforto.
Não se chega a um acordo, não se toma uma decisão ao menos em grupo, assim de forma tão simples até porque como disse as pessoas tem naturezas diferentes, portanto necessidades diferentes, mas através da discussão pode-se chegar a um consenso.
A discussão, a reunião como concebemos hoje não é nem de perto as mesmas de quando as necessidades gerais começaram.
O fato então são as diferenças, desde as mais insignificantes às mais discrepantes, muitas vezes dizemos que o povo é uma massa guiada pelos seus respectivos líderes e que essa massa é totalmente influenciável, pois não possui uma opinião formada e daí uma série de outras carências intelectuais que lhes foram ou não impostas. Mas essa massa não pode ser apenas uma massa única e homegênea, pois dentro dela existe uma série de diferenças e diferenças essas que em suas respectivas realidades são muito grandes.
Um observador distante da realidade que analisa, pode considerar as diferenças como insignificantes, quando na verdade não são, pelo menos não a realidade em que estão subscritos o grupo em questão.
As massas formam ciclos, mas a massa não é um só pensamento, a massa não almeja sempre as mesmas coisas, a massa somos nós, ela é todo e qualquer um. A massa não se distingue, mas nós nos distinguimos e os outros também.
O ciclo se iniciou, não se sabe bem onde e nem quando exatamente. O ciclo de contenção dos desejos, de contenção das vontades, de aspiração para um futuro melhor. O ciclo do sonhar para suportar a realidade, para carregar o mundo que se sobrepõe ao que somos ou ao que gostaríamos de ser, o ciclo da natureza e condição humana.
Acompanhada do ciclo, vem a realidade que dele não se desprende, a realidade é determinada pelo próprio ciclo, mas não só por ele, antes de mais nada é determinada pelas pessoas.
Como pano de fundo temos o tempo que circunda o ciclo e a realidade, mas o tempo foi só uma criação das pessoas assim como a realidade e como se não bastasse temos o espaço em que nos situamos, sem isso estamos perdidos, é o fim ou o começo não sei dizer... Nem sei se somos porque o que nos define é um emaranhado complexo proposto pelo ciclo vicioso, selado pelo tempo e espaço.
Então situados no espaço vagamos por uma série de lugares, em alguns acredita-se que podemos encontrar a paz, a felicidade e em outros já nem tanto, mas o problema é que os lugares são sempre impositivos, tentam sempre nos moldar com o tempo como se fossemos traços em um quadro, os lugares são cruéis com a alma e eles fazem isso a troco de que?
No começo somos livres forasteiros, mas com o tempo você precisa se encaixar como uma peça no quebrar cabeça, para que a imagem não seja danificada.
Você como personagem da cena representada no ambiente em que está, é colocado em seu lugar para que tudo esteja nos conformes e a cena possa continuar em perfeita ordem dentro dos limites do roteiro.
Porque será que almejamos algo tão distante como a liberdade em sua totalidade?
Porque precisamos vencer tantos obstáculos para atingir uma ínfima parcela de liberdade?
Porque os humanos precisam de toda essa teia e ao mesmo tempo sentem vontade de se desvencilhar da mesma?
Até quando a humanidade irá se manifestar?
Me pergunto porque a vida é esse ciclo sem fim.

terça-feira, março 20, 2007

Tiros no escuro

Atiraram em mim, e caí escada abaixo.
Atiraram e acertaram.
Atingiram-me nas vísceras.
Atingiram-me no coração e o explodiram em pedaços.
Atiraram-me na cabeça e fizeram do meu cérebro fragmentos.
Atingiram-me nos membros e privaram-me dos movimentos.
Atingiram-me nos olhos e os arrancaram de suas órbitas.
Atingiram-me nos ouvidos e desfizeram meus tímpanos.
Atingiram-me na boca e tiraram-me a palavra, tiraram-me o sorriso...

Eu atirei...
O som do projétil disparado no ar ecoou.
Atirei na escuridão e acertei.
Atingi a matéria estática.
Atingi nada mais que o espaço, mas no espaço havia algo...
Atingi o tempo, mas no tempo havia algo...
Atingi o que me atingiu e, juntos, agonizamos, esvaímo-nos em sangue imundo, que inundou tudo ao redor.

Ambos atingidos, estancamos o fluxo, costuramos os furos...
Glóbulos brancos e vermelhos espalhados, perdidos, enfraquecendo-nos aos poucos pela perda incessante.
Desfiz-me, descontrolei-me e atirei para todos os lados.
Atirei e acertei o alvo errado.
Dei as costas e acertaram-me, até que nada mais pudesse ser feito.

quarta-feira, março 14, 2007

Nada além

Ao redor o que se tem não é apenas o que se pode ver.
O que se diz ter passado e ficado, não fica não.
Reversão.
Possibilidade de impossibilidade.
Definição indefinida.
Desintegração e reintegração.
Disseram-me: "Faça o que tiver de fazer e não olhe para trás".
Não irei olhar.
A intensidade não se pode prever, nem mesmo a velocidade.
E disseram-me: "Assim a vida é".
Sim assim é.
Assim se conjugam os verbos.
Assim foi, assim é e assim será.
Vidas conjugadas e julgadas num conjugado apertado de ideias.
Papéis e papelões.
Figuras e figurões.
A imagem foi contida no papel.
E o papel contém o que jamais poderá ser contido.
A alma já se foi, se é que se pode nela acreditar.
A muito no que se acreditar e não há nada no que se acreditar.
Um devaneio...
Acorde não há nada além de si mesmo, os outros são os outros.
Acordei e sim os outros ainda são os outros, mas alguns são muito além dos outros.
Alguns sou eu e muito mais, são eu e minha dor, são eu e meu prazer, são eu e minha razão, minha força, minha sanidade e insanidade, minha totalidade incompleta, meu eterno amor e gratidão.
Claro, são eu e muito além do que sou, porque sem alguns nada sou.
São o melhor dos melhores e não é preciso nada além do que são.