sexta-feira, junho 06, 2025

Revolução Silenciosa

O movimento mais revolucionário que uma pessoa pode empreender é a transformação do seu cenário interno. Mais do que levantar bandeiras e defender grandes causas externas, é o ato de olhar-se no espelho à procura de sua própria verdade, mover-se rumo a si mesmo, em busca de solo fértil, de seu espelho d'água, isento da contaminação externa que borbulha em caminhos equivocados e herdados, ávidos por nada.
Esse avanço desbravador pelas próprias terras demanda a coragem de confrontar narrativas impostas, sempre firmadas sobre os mesmos papéis: oprimido e opressor, vítima e algoz, num eterno dualismo em que forças opostas se anulam mutuamente. Esse olhar, que se projeta para fora, mergulha na ilusão de uma solução que está sempre além, distante, afastada da realidade última: nós mesmos.

O Vício da Possibilidade

O inconsciente não desperta fantasmas inúteis. As figuras que aparecem em sonhos e devaneios trazem mensagens do nosso interior, que precisa ser explorado repetidamente.
Padrões repetitivos não devem ser subestimados: são as paredes do labirinto, onde está codificada a chave que ativa nosso Self, libertando-nos das amarras da mente. A individuação acontece quando paramos de lutar contra os fantasmas e começamos a dialogar com os símbolos que eles representam.
No centro do labirinto está o Self — o núcleo da totalidade psíquica — e o caminho, embora pareça nos fazer perder, na verdade nos ensina a nos encontrar.
O labirinto não é só um espaço, mas um processo. Cada volta aparentemente inútil é um avanço na espiral da individuação. A chave está na parede, que é interna. A mente, com suas crenças, medos e narrativas fixas, se transforma ao ser decifrada.
Aqui, o observador é também o observado. Ao perceber seus próprios ciclos, a realidade muda. A estagnação dá lugar à observação ativa de si, alterando a consciência.
Esse movimento gera desconforto pelo tempo “perdido” na estagnação, provocando culpa, medo e autopunição. Mas o atraso só existe na realidade que criamos, onde corremos atrás de possibilidades que nos paralisam, com medo de falhar.
O medo de escolher errado nos mantém suspensos, viciados no desejo idealizado que nunca se realiza, pois, ao concretizá-lo, o ideal se desfaz.
Nos sonhos, a presença de outras pessoas serve apenas para materializar a mensagem do inconsciente. Nossa mente, ancorada na materialidade, precisa de imagens e arquétipos para acessar conteúdos inconscientes. Sem imagem, não há ponte entre inconsciente e consciência.
O nó que bloqueia o movimento está entre o desejo de integrar e o medo de falhar. O impasse paralisa.
O medo quer me manter esperando, buscando a ação “correta”, e evita que eu me arrisque, como se a possibilidade fosse mais valiosa que a realidade. Dentro da ação, o resultado é irreversível; se for um erro, não haverá mais chance de acerto. O medo protege da falta de garantia.
É preciso romper com o vício da possibilidade e aceitar que não existe ação perfeita ou garantida — apenas aquela que se escolhe conscientemente, assumindo o risco inerente à vida.
O que eu quero não é a perfeição do possível, mas a imperfeição do real.
Tudo que se repete — erro, medo, demora, autossabotagem — é um código simbólico que, ao ser decifrado, aponta a saída. O padrão é prisão e mapa ao mesmo tempo. Não se trata de evitá-lo, mas de compreendê-lo: cada repetição é um chamado para expandir a consciência e sair do automático.

quinta-feira, junho 05, 2025

Pessoa

Fernando Pessoa: suas palavras desnudam-lhe a alma diante de nossos olhos e nos encantam e deslumbram com a beleza de sua forma, ao mesmo tempo profunda e intangível, mas acessível ao nosso coração. Não me canso de admirá-lo.

Red Flags: O Perigo que nos habita

Vivemos tempos em que a atenção aos sinais de perigo se tornou quase uma exigência cotidiana. "Red flags" se tornaram parte do nosso vocabulário emocional, como se a vigilância constante fosse a única maneira de evitar a dor. Mas será que, ao focarmos tanto no que pode nos ferir, não esquecemos de olhar para aquilo que, silenciosamente, também nos habita?

Atualmente, fala-se tanto na importância de estar atento às ameaças externas, aos perigos que o outro representa em relação a nós mesmos, buscando nos proteger. Mas, afinal, de que queremos proteção?
De abuso, invasão do espaço íntimo, decepção, desilusão?

Aprendemos a erguer barreiras, mas será que também aprendemos a nos aproximar? Me parece que não...

É preciso prestar atenção às “red flags” de si mesmo. Nosso olhar está sempre voltado para os sinais que enxergamos no outro, mas raramente olhamos para os nossos próprios sinais de alerta. O problema está sempre lá fora, mas será que ele também não habita dentro de nós, justamente porque vivemos focados nele?

Realizamos a tarefa de conservar nossa essência e verdade interior a todo custo — mas… a que custo?

Essa reflexão parte de uma série de fracassos que vivi ao me impor meias verdades. Tentativas de me proteger ou de me adequar, que, no fim, apenas me afastaram de mim mesma e das relações que poderiam ter sido mais autênticas.

Talvez o maior risco não esteja apenas no outro, mas na nossa dificuldade de reconhecer os sinais que emanam de nós mesmos. O perigo que nos habita é, muitas vezes, aquele que mais negligenciamos e, é ele quem mais nos afasta da possibilidade de encontros genuínos.

quarta-feira, junho 04, 2025

Eterna Estrangeira

Os trechos da vida que me tocam
são os que mais falam de mim —
uma beleza desconhecida,
oculta nos bastidores do que posso ver.

O desejo revela
mais sobre mim
do que sobre o objeto,
alvo longínquo.

Um amor que só se permite à distância,
não se deixa aproximar ou tocar,
por medo de macular o que é puro,
como se, para salvá-lo,
eu precisasse conservá-lo
sem uso —
amor platônico, inútil.

Essa minha parte desencaixada,
imune às exigências do mundo,
é meu cerne, meu núcleo.
E eu a odiei —
desprezei minha própria essência
para me moldar onde nunca coube.

No esforço de seguir
sem engolir de todo a narrativa
imposta pelo coletivo,
fracassei duplamente:
entre me moldar
e me aceitar.

Estou presa nesse cabo de guerra,
nessa disputa sem fim
entre opostos
que não concordam.

Sigo estrangeira —
em meu próprio mundo,
em que minha alma não se molda
e meu corpo não se encaixa.

Nessa eterna não-pertença
mora a semente
que, sem rega, jamais brota:
o singular que sou,
que clama por viver segundo minha própria medida.

O que me desconcerta e me tira o fôlego
pertence ao espaço não integrado de mim —
a identidade que escapa,
beleza estrangeira
que sinto não me pertencer.

Não mora lá fora,
pulsa dentro,
no aguardo de conexão.

É minha, mas parece outra —
de outro lugar,
outra vida —
em um estranhamento de si,
idioma incompreensível,
imbuída de símbolos e mistérios
indecifráveis.

Cá estou,
presa entre dois mundos.

terça-feira, junho 03, 2025

Transfiguração

Visto-me daquilo que me assombra,
acreditando que, assim, estarei a salvo do predador que afirmo ser.


Estou acuado,
à procura de salvação,


sem em nada encontrar amparo
além de mim, tão fraco.


Visto-me de algoz,
me apresento invencível.


Torno-me o veneno que me dão de beber,
para evitar a morte,


para evitar a queda.
Afirmo ser tudo aquilo que me ameaça,


me torno as sombras que me seguem
e me asseguram.


Sou eu mesmo:
meu objeto de medo e repulsa.


Estou como um cão que persegue o próprio rabo,
sem nunca alcançá-lo.


Na ilusão de controle,
abandono, por completo, quem sou —


e me entrego, rendido,
ao que fiz de mim.


O que vejo é o que sou

O que vejo
é o que sou.

Não existe um lugar a se alcançar
além daquele onde já estou.

Não tem como ser de outra forma:
não posso partir de um ponto
de onde eu já não esteja.

Não há resposta
fora da experiência presente.

Tudo o que posso ver
reflete o que sou,
do contrário, me seria invisível
aquilo a que não me toca a consciência.

Não posso falar
fora do que sou.

Meu mundo e realidade sou eu,
porque é a partir de mim
que posso caminhar
e enxergar
o que digo estar fora de mim.

Mas a forma como vejo o que está fora
reflete o que está em mim.

Tudo aquilo que está além de mim
me escapa,
e, para mim,
não existe.

A resposta está
no próprio olhar que pergunta.

O olhar que busca
é já o encontro.

segunda-feira, junho 02, 2025

O colapso que revela

Pelas rachaduras dos muros que ergui contra mim, vejo entrar uma luz. Permito-me aproximar um pouco mais do colapso da estrutura e olhar por entre as frestas, à procura do desconhecido que se oculta à minha consciência.

Mãe

Mãe é a janela aberta por onde entra o sol que aquece todos os cantos da casa. E essa casa é o meu coração.

Sob o Sol

Estrela que embala os animais em cálido adormecer,
Guia luminoso dos pássaros, em busca de sustento,
Fonte ardente onde os répteis se rendem, em banhos imóveis,
Corpo celeste que nos traça a órbita e nos dá direção.

Cá estamos, no caos, sob sua luz,
Irradiando-se sobre fracos e fortes, sem distinção.
Sempre dançamos entre o desejo de expor-nos
E a urgência de proteger-nos dessa força vital.

Sementes trazidas de terras longínquas e misteriosas
Eclodem sob suas bênçãos silenciosas.

domingo, junho 01, 2025

O Que Me Habita

O questionamento sempre foi uma constante na minha vida. Minha imagem, ou identidade, parece ter se formado a partir de perguntas, transformando-me numa grande interrogação.
Sinto que a certeza das coisas sempre me escapa, como uma mão que tenta segurar o ar entre os dedos, sem considerar que tal elemento se destina ao inspirar e expirar da respiração que nos mantém vivos — de natureza livre e fluida —, e não ao agarrar e reter.
Os olhos estão sempre à procura de respostas, mas a busca devolve ainda mais perguntas, numa equação que nunca se resolve.
Posso até me esconder do olhar alheio e acreditar que estou livre, mas... e do meu olhar que me vê através do olhar do outro? E do meu olhar que se dirige ao outro, como uma flecha apontada? E do meu olhar que se volta a mim, como uma arma carregada? Até que ponto estou, de fato, livre?
Se sou eu quem me quer, sou eu quem não me tenho. Estando em mim, mas não me possuindo, sigo tateando os móveis da casa no escuro: guio-me pelo posicionamento, mas a certeza de cada coisa em seu lugar me escapa, e me faz tropeçar. Saio de casa e volto hesitante, como quem esquece as chaves.
O tempo todo me esqueço e me lembro de quem sou. O que vale a pena, em mim, é somente aquilo que me habita. 
O mistério das coisas — e de mim mesma — me atravessa de uma ponta a outra. As certezas, tão distantes de me habitarem, parecem antes me desconstruir como ser. Sigo me afirmando na não-afirmação, buscando moldar o que não tem forma, entender o incompreensível, sondar o insondável. Coloco-me numa posição de eterna viajante, em busca de...

sábado, maio 31, 2025

Banquete das Forças Ocultas

Minha alma é como as águas de um rio subterrâneo, que passa sem que alguém possa ver.
O de baixo nutre o de cima. O interior sustenta a superfície.
Aqui, as sombras também podem falar; elas têm seu lugar à mesa.
De uma ponta a outra, todos se sentam reunidos: uns tão alheios, outros compenetrados; alguns são etéreos, outros, densos, feito matéria.
Eletricidade e magnetismo compartilham uma só refeição.

sexta-feira, maio 30, 2025

Vídeo game da vida

No videogame da vida, nada se move porque você não se move.
Temendo mover-se e errar, erra-se na estagnação.
Se olhar para o outro como parceiro de jogo, e não como mero adversário, por meio das narrativas impostas aos players, começamos a nos mover adiante — e não em círculos.
Seguindo fielmente o script do jogo, tornamo-nos NPCs: jogadores não jogáveis, sem protagonismo sobre a própria vida.
Sim, fomos programados, somos programáveis, bonecos coadjuvantes; mas, diante disso, não pare de jogar.
Jogue, permaneça no jogo, mas aprimore-se e mova-se em direção a novas fases.
O simulacro é inevitável, mas crie, neste jogo criado, suas próprias experiências e aprendizados.
O que puder ser de si, seja. Solte, o quanto puder, o espelho coletivo de ações e reações.
Não é se isolar do todo, mas se unir a ele a partir de si mesmo.
O coletivo que se dispõe à união genuína — e não à mera massa de manobra — é poderoso, e quem detém o poder está ciente disso, programando o sistema a fim de manter o jogo sob controle.
A identidade é um muro invisível de controle sobre aquilo que não tem forma nem se pode moldar.
Tire os dedos dos botões que te definem e conduza a si mesmo neste jogo.

quinta-feira, maio 29, 2025

Diante do inevitável

Não há meios de expor minha essência.
Se o fizer, o que será desse corpo que me reveste?
A imagem forjada para proteger e sustentar os ossos e vísceras sob minha pele irá desaparecer.
Para me mover em meio às dissonâncias, minhas e alheias, foi preciso um exército de carne e osso.
A essência foi revestida pela matéria bruta e isso, sem dúvida, a endureceu; os muros erguidos oprimem.
Toda e qualquer falha e disparidade entre o que há fora e o que há dentro se converte em trincas, rachaduras, buracos, feridas por onde escapa o sangue vital.
O rei de um reinado falido gestou um exército corrompido.
Do alto da torre, nada se enxerga além de grande confusão; aos poucos, o caos se instaurou.
A mão que move as peças sobre o tabuleiro de xadrez congelou em xeque-mate.
O rei, em seu desprezo pelas coisas mundanas, é ele mesmo o objeto de seu desprezo.
A torre de onde busca visão ampliada, numa posição privilegiada, está ruindo,
lentamente se dissolvendo em partículas inquietas que dançam no ar; seus olhos marejados observam como quem nada pode fazer diante do inevitável. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Saberes à Prova de Fogo

Livros banidos pelo fogo lamentam sob o trepidar das chamas da ignorância.
Saberes servidos à mesa errada podem desandar.
Paladares imaturos não apreciam sabores exóticos.

Resistências que nos impuseram bloqueios
minaram o acesso a fontes autênticas
e nos deixaram à míngua,
conduzindo-nos à fome.

Aos pequenos que queimaram obras grandes: pobres almas, jogadas à miséria.
Volta e meia, cessa a combustão de um homem que se verga ao chão das ilusões.

Atear fogo sobre palavras impressas não apaga o sopro criador.

As ideias sobem do solo ao céu,
em uma fumaça espessa que se dissipa no tempo, através das eras,
com odor carregado de matéria orgânica, bruta, vital.

Cedo ou tarde, o saber renasce das cinzas.

terça-feira, maio 27, 2025

A mordida do transcendente

O transcendente me habita como quem morde,
quebrando com firmeza o que me paralisa.
Rasga véus, desfaz nós,
rompe bloqueios
que, silenciosos, me impedem de seguir.
 
Sussurra:
— Cuidado com o excesso,
não te firas ao tentar ferir o que te prende.
A mordida precisa ser precisa, justa, necessária.
 
E então, após o estalo do que se quebra,
vem o alívio, e a fome revelada.
 
— Do que te alimentas agora?
— O que te nutre, após romper as cascas e os elos?
 
Aprendo que a força não é apenas a de romper,
mas, sobretudo, a de ensinar a escolher o alimento certo,
a nutrir minha essência com aquilo que me sustenta e me faz crescer.
 
O transcendente me move:
da ruptura ao cuidado,
da dureza à suavidade,
da fome à sabedoria.
 
Me sacio na oferta de luz à consciência.
 

segunda-feira, maio 26, 2025

Dom da quietude

Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.

Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.

Mas não te enganes com minha calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.

Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.

Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.

Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.

O poço

A poesia me atravessa como quem volta para casa.
Entendo: a mágica das palavras não é me levar para longe,
mas me devolver ao centro, ao calor do pertencimento,
ao lugar onde todos os sonhos se assentam; neles, e deles, faço parte.
E, ao emergir do poço, com o balde cheio,
volto à rua, ao dia,
sabendo que a poesia me ensinou a não negar o vazio,
mas a habitá-lo, com ternura e espanto.

domingo, maio 25, 2025

Máscaras

Quanto de mim sou eu mesma, senão as mil máscaras com as quais me apresento?

Silêncio Intrauterino

Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.

Prestes a me soterrar, a umidade e o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.

As vozes... de quem são as vozes que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de mim, ouço emanar.

Entre assaltos e sobressaltos, tropeço vida afora.
Entre saltos, bate o coração que banho no aço da espada.

Meu diafragma, desordenado, perde-se no caos da respiração acelerada, entrecortada, rachada pelo machado do medo.
Meus olhos, à procura da ameaça que espreita, olham atravessados — trespassados pelas setas do ambiente.

Os nervos, rijos, vibram como fios de alta tensão, à beira do curto.
Na iminência da eclosão, aquieto-me.

O falso só existe porque existe o verdadeiro.
O desamor só existe porque existe o amor.
A escassez se opõe à abundância.
Cada estado revela a presença de seu oposto.

Posso, então, repousar em paz diante do fato de que, para todo mal, há também o bem — sempre.
Portanto, a beleza não se perdeu, o amor não se acabou, a alma não se desvaneceu — apenas se recolheu diante do horror que se alastrou.
Toda ruína provém de um reinado.

sábado, maio 24, 2025

Ler e Ser Lida

Os olhos correm por sobre as linhas desenhadas em palavras.
Detenho-me sobre um trecho que me toca o coração.
Desvio-me para o além.
Pouso brevemente o livro sobre o peito.
Fecho os olhos,
trazendo o sentimento do fundo à superfície.
Num suspiro profundo,
esboço um leve sorriso, acolhendo a sensação
de ler e ser lida nas páginas de alguém
que, como eu, pisou os pés sobre areias movediças.
Eu sou ele, e ele sou eu: um espelho, portal de conjunção,
encontro atemporal.

Trigo d’alma

Estrondos de trovões, abruptos, fazem a terra tremer, açoites dos ventos, céu carregado em mil megatons: forma-se a tempestade que varre os campos. Chuva de verão, ruidosa, se destaca, porém passageira — logo, dissipam-se as nuvens.

Chuva calma e tranquila serenamente cai sobre o solo fértil, verdadeiro alimento a fazer brotar o trigo d’alma — silenciosa e discreta, mas permanente e de efeito duradouro.

Assim seguem-se os ciclos sazonais: a natureza revela várias faces e nuances, mas nunca se detém sobre um só viés; segue o fluxo do eterno movimento: transmutação. As águas que nascem na fonte seguem a correnteza, de rumo desconhecido, desenhando a paisagem das planícies e montanhas.

Assim são a terra, o céu e o homem. Mais vale perseverar diante daquilo que é duradouro, para quem deseja trilhar o caminho que leva à estabilidade e à força interior, do que se deter sobre fantasias efêmeras, às quais, dedicamos uma vida inteira. Para aqueles que se voltam para si, há sempre um vasto território a desbravar. Permaneço fiel a mim.

sexta-feira, maio 23, 2025

Tudo Só Ei de Ser Eu

Venho caminhando em silêncio.
Nos pés — desconforto.
Sinto meu peso.
Meu corpo, desajeitado,
parece não caber na própria marcha.

Minha sombra cresce —
ao meio-dia da consciência.
O sol toca o zênite,
e tudo o que sou se projeta no chão.

Dos poros, vaza um suor frio.
Premonição
da aproximação.
Incerteza.

É chegada a hora:
diante dela, não recuar.
Permanecer.

Onde apoiar os pés para atravessar?
Confiarei.
Há de se sustentar
o meu peso,
até que se cumpra o tempo de ir.

E o que de mim surgir adiante,
que venha.
Não temerei a forma do que serei.

Tudo só ei de ser eu.