domingo, abril 27, 2025

Falsos faróis

Somos guiados pelos faróis do medo,
que não emanam nada além de luz artificial.
Tememos cair nas sombras do esquecimento
e, paradoxalmente,
é justamente para onde mais tememos que caminhamos.

Sê tu mesmo o farol de teus barcos,
que, um a um,
deslizam leves como folhas de papel
sobre a superfície revolta de tuas águas,
envoltas em partículas de luz
que lapidam a alma do buscador.


quinta-feira, abril 24, 2025

Poema a ferro e fogo

Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.

Feridas de sangue,
vertido em silêncio.

De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.

Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.

Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.

Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.

Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.

Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.

Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?

Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.

Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.

Entrego minha vida
ao fogo da criação.

Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.

Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.

Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.

Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.

Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.

E dela fazer criação.

O que antes era peso
será agora fundação.

Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.

Não aguardo o sinal.

Sou eu o sinal.

quarta-feira, abril 23, 2025

Entre Linhas

Há quem pegue meus livros e exclame:
— “Nossa, você os marca? Que dó!”
Mas dó tenho eu de quem os lê em silêncio,
sem ousar deixar um traço, um suspiro, uma cor.

Se o livro me atravessa e me marca a alma,
por que não posso eu, com minhas mãos, marcá-lo também?

Ler não é apenas mirar palavras com os olhos —
é sinergia, encontro, faísca entre mentes.
É troca de ideias, de vivências, de sentires.
É conversa sussurrada nas margens,
é discussão entre linhas,
é aprendizado que respira e inspira.

Os livros têm vida.
E merecem ser tocados.
E esse toque deixa marcas.

domingo, abril 20, 2025

Tu és aquilo que mais temes, o que mais evitas — e ainda assim, não podes fugir de ti. És criação e destruição de si mesmo, em eterna transmutação.

sábado, abril 19, 2025

Humana

Olho rostos desconhecidos
como quem contempla uma pintura:
artista invisível que tanto me inspira,
autor de inúmeras obras.

Desenha formas infinitas
que dão vida à minha imaginação —
traços humanos que ilustram
minha inspiração abstrata.

Sou demasiado humana —
peço perdão por buscar tangibilidade no amor.
Mas é humana a voz que materializa meus pensamentos,
é de carne o meu entendimento,
é sanguíneo o fluxo de minhas ideias.

Estou atada à perspectiva da minha natureza,
fadada à minha condição.
Por mais que eu busque compreensão no que está além,
me encontro, inevitavelmente, inserida
na humanidade que me forma.

Escapam-me realidades acima
da mortalidade que me define.
Peço perdão pela dualidade
que me significa diante das coisas.

Realizar a travessia
só me parece possível
por meio do espírito que anima esse corpo,
distante das barreiras materiais
deste mundo tridimensional.

sexta-feira, abril 18, 2025

Realidade virtual

O mundo virtual se assemelha a um oceano, com movimentos de ir e vir das ondas.
A todo momento, uma nova onda quebra na praia —
mas, no fundo, é feita da mesma água que não sacia a sede.

Nos permitimos apenas a superfície,
onde todos se encontram,
mas ninguém se vê,
com medo de nos afogarmos nas profundezas do esquecimento.

Casas vazias

Ficamos ausentes de nós mesmos.
Somos como casas cujas fachadas impressionam de tão lindas,
mas que, por dentro, são vazias, impessoais e desabitadas —
meros caixotes vendáveis, padronizados.

Não se encontra calor humano.
Tudo tem se tornado apenas inúmeras imagens,
representações de um ideal impossível de alcançar.

Quando alguém ousa realizar, na prática, essa fantasia vendida,
percebe que tudo não passa de um sonho,
e a verdade se torna difícil de suportar.

Então fugimos, outra vez,
para o abrigo confortável das telas, 
onde as quimeras são possíveis — ao menos na imaginação.

Mundo das mentes que projetam,
mas nunca realizam.

Estrutura secreta da colmeia

Muito do que acredito ser
é resultado da influência que sofro do inconsciente coletivo.
Quanto mais mergulho no meu próprio inconsciente,
repleto de tudo e de todos,
contendo todos os tempos,
cheio de luz e sombras,
mais me surpreendo e me deslumbro
com as imagens do que realmente sou
e do que acho que sou,
mescladas em um espelho
que me revela inúmeras faces
de uma mesma pessoa.

Abelha que sou,
parte do zumbido ancestral,
saboreio o mel a meu modo
e, ainda assim, habito a colmeia.
Voo — e pouso — solo.

quarta-feira, abril 16, 2025

Linhas sem Margem

Encontro inúmeras portas por abrir.
Sinto-as como tudo e qualquer coisa.

Atravesso o inconsciente,
enquanto a consciência
permanece à soleira.

Guardo no peito
um pacto silencioso
entre as instâncias.

Não me aproprio de nada.
Seria a travessia
uma brincadeira?

Ciranda de roda,
gato e rato —
símbolos que sobem
do fundo à superfície.

A consciência recolhe, decifra.
Escrever é escavar o Self
com palavras.

Mergulhos se tornam linguagem,
ponte entre partes,
fragmentos,
corpo sem molde.

Dança com o invisível,
fio condutor,
circulação de fluido vital,
átomos à deriva.

Sou eu:
linhas sem margem.

 

Almas silentes

Almas silentes
caminham caladas,
alheias,
indiferentes,
interiorizadas.

Pairam sobre as coisas
como fantasmas —
etéreas,
alinhadas
à sombra projetada dos objetos.

Amam todas as coisas em segredo,
como quem se esconde do sol
nas encostas,
fugindo do calor.

Rochas —
sustentam vidas
que desejam prover.
Mas rochas não alimentam.
Não frutificam.

Mutismo petrificado.
Inertes.
Inativas.

Sentem dores em sigilo.
Quietude enganosa.

No cerne,
magma a queimar.
No fundo,
pedras preciosas,
silenciosas.

domingo, abril 13, 2025

Cartografia da Alma

O poder está no coração, e o eixo, na razão.
Do meu barco, a razão é o leme;
o sopro que o leva: meu coração.

Navego entre desejos e decisões;
nas águas, o encontro — entre mente e emoção.

Minha alma viaja, tal qual astronauta em traje espacial.
Cada porto, uma lição.
Cada mundo, adaptação.

sábado, abril 12, 2025

Marcha dos Postes

De dentro do meu carro em movimento, vejo passar ligeiros os postes de iluminação, um a um, todos iguais e uniformes, como soldados marchando em direção ao destino.

Estendo a mão e, de longe, dedilho os fios de alta tensão como cordas de um violão, acompanhando o som que toca no rádio e me leva distante em pensamentos.

Toco a vida como quem toca um novo instrumento: desafino, acerto as notas, deslizo, encontro o tom — e então vibra o coração.

sexta-feira, abril 11, 2025

Latência

Respiração entrecortada,
acelerada.
Dos poros,
suor frio.

Em mim,
o Diabo —
força bruta,
pulsional,
à espera de ser integrada.

Pausa.
Silêncio.

Revela-se o tempo,
a gestação.

Breve impulso:
estou a caminho —
lenta,
incerta,
embotada.

Minha alma chora
silenciosamente,
decepada da capacidade
de sentir profundamente
sem punição.

Perdi o leme.
Entrei em tempestade.

Não fuja:
olhe.
Respire com ela.

Poder criativo latente,
preso nas zonas sombrias da psique.

O amor cresce
no chão da vida.

A prisão
se tornará
libertação.

segunda-feira, abril 07, 2025

Trincheiras do eu

Pessoas machucadas, por vezes, são como lâminas afiadas — usadas para autodefesa ou ataque — sempre à procura de estancar o próprio sangramento. Nessa luta eterna contra tudo e todos, a verdadeira batalha é travada contra si mesmas, e o guerreiro segue a vida deixando um rastro de sangue — seu e de suas 'vítimas' — que o persegue como um fantasma, até que decida, ele próprio, tratar de seus ferimentos.

Crepúsculo psíquico

Enquanto estivermos protegidos pelas muralhas da coletividade, estaremos seguros dos perigos do terreno desconhecido da individuação.
Nossa face pacífica, cuja voz é suave — quase um sibilo harmônico na multidão — carrega dentro de si uma feição desfigurada, desesperada, cuja voz é grave — quase um grito gutural de um titã adormecido e oprimido.
Na superfície, reina a luz, a paz; nas profundezas, reina a escuridão, o caos para o qual fechamos os olhos.

sexta-feira, abril 04, 2025

Subsistência 1 X Existência 0

A busca pela sobrevivência e pela subsistência despende uma grande quantidade de energia, drenando parte da força que poderia nos impulsionar rumo às camadas mais profundas de nossa psique. O tecido social forma uma teia que nos envolve coletivamente na materialidade última, turvando nossa visão para as inúmeras nuances sutis de nossa existência. Segue o jogo da vida, com um placar imune às justiças, opiniões e crenças incontáveis. 


quarta-feira, abril 02, 2025

Incompleta

Infinitamente incompleta.
Hoje os limites colapsam e os horizontes se expandem.
O que quer que nos tenha feito ver, um espelho diante de si — caminho sem volta.

domingo, março 30, 2025

O peso da guia cega

É sempre mais fácil dizer o que fazer quando a pele rasgada não é a sua.
Ser farol, quando os olhos perdidos não são os seus.
Mas guiar o outro, quando não se pode conduzir a si mesmo, é meramente angariar uma plateia de cegos rumo à perdição.


quinta-feira, março 27, 2025

Verbo e Alma

 A arte é minha morada, 
o mundo, meu interior. 
A escrita é meu fôlego,
a palavra, onde me faço coração.

Vira-lata Caramelo

Eis que ela corria no encalço de seu cão, que fugia em liberdade, só folia!
A vira-lata virava a esquina, euforia.
Orelhas ao vento, harmonia.
Nos olhos, pura alegria.
Em plena estripulia!
Latidos estridentes, só energia.
As patas no asfalto, sinergia.
Palpita o coração em melodia.
Caramelo, pura simpatia!

quarta-feira, março 26, 2025

Palavras

As palavras que nascem no pensamento podem morrer presas à garganta. 
As palavras lançadas ao vento podem brotar em narrativas ou se dissolver no espaço. 
As palavras escritas no papel tornam-se imortais, atinjam elas ou não o alvo.


Dicas de como se proteger de ataques gratuitos na internet:

Ao utilizar figuras de linguagem, como a ironia, faça seu comentário e, logo em seguida, adicione, entre parênteses ou colchetes, uma explicação de que se trata de uma ironia, esclarecendo sua real intenção ao empregá-la. Se possível, peça desculpas pelo incômodo de causar desgaste mental ao levar as pessoas a refletirem sobre o tema proposto.

Espero ter ajudado. Sigam-me para mais dicas de sobrevivência no ambiente virtual (isso foi uma ironia, pois me refiro a dar dicas sobre a falta de senso alheio na interpretação de texto; por isso, peço perdão).

Brincadeiras à parte, quero apenas trazer à baila uma reflexão sobre os tempos de tensão em que estamos vivendo. As pessoas estão tão reativas que não param mais para refletir sobre o real sentido do que se quer dizer. Elas não estão mais compreendendo sátiras e ironias, tomando tudo ao pé da letra. Isso reflete nosso imediatismo diante das coisas.

Estamos banindo as figuras de linguagem de nossa comunicação em nome desse afobamento em reagir de pronto, julgar de imediato, sem parar para refletir, interpretar e compreender o sentido das coisas. Falta clareza em meio a esse caos. Estamos constantemente armados, prontos para alvejar aqueles que ousam levantar questões.

O excesso de informação e o aceleramento do tempo têm nos acarretado crises de ansiedade, falta de senso e entendimento.

Pare, respire, inspire-se.

terça-feira, março 25, 2025

Terra dos inefáveis

Santa casa dos impossíveis 
Eu moro na rua dos invisíveis 
No bairro dos imprevisíveis 
Cidade dos indestrutíveis 
Nação dos intransponíveis 
Sob o céu dos infalíveis