domingo, maio 04, 2025

O cântico das oposições

Meu mundo interno
é permeado por antagonismos —
espaços vazios e silenciosos,
terrenos povoados e barulhentos.

Não é feito apenas
de santuários pacíficos,
perfumados de incenso;
há também o cheiro do sangue pisado,
porque caminho
sobre minhas próprias feridas.

A busca sincera
atravessa o contraste —
não a harmonia forçada.

Os gritos que ecoam de dentro
não podem ser abafados
em nome de um equilíbrio
moldado por uma falsa paz interior.

Aqui há paz
e há guerra.
Luz e sombra.
Choro e riso.
Grito e sussurro.

O cântico das oposições
vive aqui.

Minhas palavras
são um caldeirão
onde fervem dores e amores,
sombras e luz.

Ali, o coração
cozinha as vivências,
transformando-as em alimento —

que nutre,
serve
e revela:

a mim,
e a quem desejar
desfrutar deste banquete.

 


quinta-feira, maio 01, 2025

Diálogo entre oceanos

Cá estamos nós dois, permitindo-nos navegar em devaneios no mar um do outro. Nossos pensamentos emergem, emanados do mais profundo oceano abissal das emoções. Nossas vozes se traduzem em palavras na superfície das águas, e as deixamos vagar livres, leves e soltas, até que encontrem, em nossas margens, um porto seguro onde possam atracar os nossos sentimentos.

Soberania interna

Para você, que não cedeu às vozes de fora,
às falsas autoridades.

Quem não precisa ser forte — o quanto baste —
para suportar o fato de ser vulnerável e humano?

Você não quer um trono. Quer abrigo.
O prazer virá —
quando desejar sem medo
e receber sem defesas.

Equilíbrio não é rígido, é fluido —
como a água que passa de um cálice ao outro.

Não force.
Não corra.
Não recue.
Apenas permaneça.

Misture o que parecia oposto.
E espere o vinho se formar.

Você não está quebrado — está em processo.
Você não está perdido — está partindo.
Você não está sozinho — está se encontrando.

Deixe de ser juiz ou salvador.
Torne-se soberano.

quarta-feira, abril 30, 2025

Livra-me

O livro não é corpo imaculado,
é matéria bruta, viva.
Em suas linhas,
corre o sumo vital das ideias.
Beber dele,
saciar nele a sede de conhecer,
movimenta a correnteza do ser.

Cada página virada
traz a essência de uma transição:
início, meio e fim —
marcos de uma travessia
que se desnuda sob o olhar
de quem do livro se apropria.

Ele guia uma jornada única
para cada um que se conecta
e se acende,
ativando a corrente elétrica
que gera iluminação.

Traz luz à consciência
e nos mergulha em transformação.

Se o livro me marca,
por que não haveria eu de marcá-lo?
Deixar os rastros da minha leitura
riscos, anotações, marcações,
cores e dobras nas páginas lidas.

O livro é livre
para ser o que quiser
nas mãos de quem o lê.

Esquecidos

Vivemos agarrados ao desejo de ser lembrados —
nesse mar de vozes que clamam por aprovação,
vamos nos apagando de nós mesmos.
Habitamos a superfície,
onde todos se veem, mas ninguém se enxerga,
com medo de mergulhar
e nos perder nas profundezas do esquecimento.
Quem sou eu,
se não há quem saiba,
ou chame
pelo meu nome?

terça-feira, abril 29, 2025

Entre a Imagem e a Verdade

Em tempos de validação externa, erguem-se fachadas imponentes como castelos — harmoniosos por fora, mas caóticos por dentro. À primeira vista, parecem conter força e significado, mas basta adentrar suas muralhas ilusórias para encontrar um vazio profundo: um salão desabitado de autenticidade. Ali, ecos de vozes alheias moldam imagens de padrões repetidos, cuja pressão do coletivo ofusca a centelha do ser.

Nesse labirinto de espelhos, buscamos incessantemente o reflexo do outro para nos reconhecermos, enquanto nos esquecemos de habitar nossa própria imagem.
Um simples peão, à margem do tabuleiro, pode, um dia, tornar-se rei — não pela aclamação das massas, mas pelo despertar do soberano interior. Sua coroação não acontece sob aplausos, mas no silêncio sagrado da alma que, enfim, aprende a reinar sobre si mesma, assumindo para si o próprio poder.

domingo, abril 27, 2025

Solidão coletiva

Em nossa sociedade narcísica, erguemos muros invisíveis ao redor de nós mesmos, transformando-nos em fortalezas de segurança máxima contra tudo e todos. Lá dentro, sonhamos com uma liberdade que nos negamos a viver. Divididos entre juízes e vítimas — por aparência, posição social ou qualquer outro critério ilusório — seguimos rumo a solidão coletiva.


Falsos faróis

Somos guiados pelos faróis do medo,
que não emanam nada além de luz artificial.
Tememos cair nas sombras do esquecimento
e, paradoxalmente,
é justamente para onde mais tememos que caminhamos.

Sê tu mesmo o farol de teus barcos,
que, um a um,
deslizam leves como folhas de papel
sobre a superfície revolta de tuas águas,
envoltas em partículas de luz
que lapidam a alma do buscador.


quinta-feira, abril 24, 2025

Poema a ferro e fogo

Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.

Feridas de sangue,
vertido em silêncio.

De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.

Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.

Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.

Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.

Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.

Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.

Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?

Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.

Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.

Entrego minha vida
ao fogo da criação.

Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.

Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.

Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.

Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.

Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.

E dela fazer criação.

O que antes era peso
será agora fundação.

Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.

Não aguardo o sinal.

Sou eu o sinal.

quarta-feira, abril 23, 2025

Entre Linhas

Há quem pegue meus livros e exclame:
— “Nossa, você os marca? Que dó!”
Mas dó tenho eu de quem os lê em silêncio,
sem ousar deixar um traço, um suspiro, uma cor.

Se o livro me atravessa e me marca a alma,
por que não posso eu, com minhas mãos, marcá-lo também?

Ler não é apenas mirar palavras com os olhos —
é sinergia, encontro, faísca entre mentes.
É troca de ideias, de vivências, de sentires.
É conversa sussurrada nas margens,
é discussão entre linhas,
é aprendizado que respira e inspira.

Os livros têm vida.
E merecem ser tocados.
E esse toque deixa marcas.

domingo, abril 20, 2025

Tu és aquilo que mais temes, o que mais evitas — e ainda assim, não podes fugir de ti. És criação e destruição de si mesmo, em eterna transmutação.

sábado, abril 19, 2025

Humana

Olho rostos desconhecidos
como quem contempla uma pintura:
artista invisível que tanto me inspira,
autor de inúmeras obras.

Desenha formas infinitas
que dão vida à minha imaginação —
traços humanos que ilustram
minha inspiração abstrata.

Sou demasiado humana —
peço perdão por buscar tangibilidade no amor.
Mas é humana a voz que materializa meus pensamentos,
é de carne o meu entendimento,
é sanguíneo o fluxo de minhas ideias.

Estou atada à perspectiva da minha natureza,
fadada à minha condição.
Por mais que eu busque compreensão no que está além,
me encontro, inevitavelmente, inserida
na humanidade que me forma.

Escapam-me realidades acima
da mortalidade que me define.
Peço perdão pela dualidade
que me significa diante das coisas.

Realizar a travessia
só me parece possível
por meio do espírito que anima esse corpo,
distante das barreiras materiais
deste mundo tridimensional.

sexta-feira, abril 18, 2025

Realidade virtual

O mundo virtual se assemelha a um oceano, com movimentos de ir e vir das ondas.
A todo momento, uma nova onda quebra na praia —
mas, no fundo, é feita da mesma água que não sacia a sede.

Nos permitimos apenas a superfície,
onde todos se encontram,
mas ninguém se vê,
com medo de nos afogarmos nas profundezas do esquecimento.

Casas vazias

Ficamos ausentes de nós mesmos.
Somos como casas cujas fachadas impressionam de tão lindas,
mas que, por dentro, são vazias, impessoais e desabitadas —
meros caixotes vendáveis, padronizados.

Não se encontra calor humano.
Tudo tem se tornado apenas inúmeras imagens,
representações de um ideal impossível de alcançar.

Quando alguém ousa realizar, na prática, essa fantasia vendida,
percebe que tudo não passa de um sonho,
e a verdade se torna difícil de suportar.

Então fugimos, outra vez,
para o abrigo confortável das telas, 
onde as quimeras são possíveis — ao menos na imaginação.

Mundo das mentes que projetam,
mas nunca realizam.

Estrutura secreta da colmeia

Muito do que acredito ser
é resultado da influência que sofro do inconsciente coletivo.
Quanto mais mergulho no meu próprio inconsciente,
repleto de tudo e de todos,
contendo todos os tempos,
cheio de luz e sombras,
mais me surpreendo e me deslumbro
com as imagens do que realmente sou
e do que acho que sou,
mescladas em um espelho
que me revela inúmeras faces
de uma mesma pessoa.

Abelha que sou,
parte do zumbido ancestral,
saboreio o mel a meu modo
e, ainda assim, habito a colmeia.
Voo — e pouso — solo.

quarta-feira, abril 16, 2025

Linhas sem Margem

Encontro inúmeras portas por abrir.
Sinto-as como tudo e qualquer coisa.

Atravesso o inconsciente,
enquanto a consciência
permanece à soleira.

Guardo no peito
um pacto silencioso
entre as instâncias.

Não me aproprio de nada.
Seria a travessia
uma brincadeira?

Ciranda de roda,
gato e rato —
símbolos que sobem
do fundo à superfície.

A consciência recolhe, decifra.
Escrever é escavar o Self
com palavras.

Mergulhos se tornam linguagem,
ponte entre partes,
fragmentos,
corpo sem molde.

Dança com o invisível,
fio condutor,
circulação de fluido vital,
átomos à deriva.

Sou eu:
linhas sem margem.

 

Almas silentes

Almas silentes
caminham caladas,
alheias,
indiferentes,
interiorizadas.

Pairam sobre as coisas
como fantasmas —
etéreas,
alinhadas
à sombra projetada dos objetos.

Amam todas as coisas em segredo,
como quem se esconde do sol
nas encostas,
fugindo do calor.

Rochas —
sustentam vidas
que desejam prover.
Mas rochas não alimentam.
Não frutificam.

Mutismo petrificado.
Inertes.
Inativas.

Sentem dores em sigilo.
Quietude enganosa.

No cerne,
magma a queimar.
No fundo,
pedras preciosas,
silenciosas.

domingo, abril 13, 2025

Cartografia da Alma

O poder está no coração, e o eixo, na razão.
Do meu barco, a razão é o leme;
o sopro que o leva: meu coração.

Navego entre desejos e decisões;
nas águas, o encontro — entre mente e emoção.

Minha alma viaja, tal qual astronauta em traje espacial.
Cada porto, uma lição.
Cada mundo, adaptação.

sábado, abril 12, 2025

Marcha dos Postes

De dentro do meu carro em movimento, vejo passar ligeiros os postes de iluminação, um a um, todos iguais e uniformes, como soldados marchando em direção ao destino.

Estendo a mão e, de longe, dedilho os fios de alta tensão como cordas de um violão, acompanhando o som que toca no rádio e me leva distante em pensamentos.

Toco a vida como quem toca um novo instrumento: desafino, acerto as notas, deslizo, encontro o tom — e então vibra o coração.

sexta-feira, abril 11, 2025

Latência

Respiração entrecortada,
acelerada.
Dos poros,
suor frio.

Em mim,
o Diabo —
força bruta,
pulsional,
à espera de ser integrada.

Pausa.
Silêncio.

Revela-se o tempo,
a gestação.

Breve impulso:
estou a caminho —
lenta,
incerta,
embotada.

Minha alma chora
silenciosamente,
decepada da capacidade
de sentir profundamente
sem punição.

Perdi o leme.
Entrei em tempestade.

Não fuja:
olhe.
Respire com ela.

Poder criativo latente,
preso nas zonas sombrias da psique.

O amor cresce
no chão da vida.

A prisão
se tornará
libertação.