terça-feira, março 18, 2025

O ciclo

De mim, restou a nostalgia dos vitrais coloridos de outrora.
Do real, sopra uma brisa quente do verão das sensações.
As imagens que se desenrolam na memória misturam-se a devaneios de um tempo que não aconteceu.
Lembro-me de ter tanto a dizer; hoje, predomina o silêncio diante do tempo passado, atual e vindouro.
A luminosidade do dia, que se altera com o movimento orbital da Terra, acompanha a rotação da consciência em torno do inconsciente, trazendo luz aos pensamentos e sentimentos que vêm à tona.
Tudo isso parece dizer do que sou feita: o alicerce sobre o qual se ergueu o castelo de cartas do que sou ou penso ser.
Estou eu fadada ao movimento cíclico a que todos os corpos celestes estão sujeitos, cujos padrões regulares de deslocamento no espaço seguem incessantes pela eternidade?
Por trás das “loucuras” de que acusam os livres, escondem-se as mais cruas verdades. Abrace o mistério e siga escrevendo.

segunda-feira, março 17, 2025

Ajuste sua bússola

Experimente desviar o olhar que busca lá fora um sentido para o que sente dentro de você e, simplesmente, abrir os olhos para enxergar a situação em si mesmo, a partir do seu espaço interior. Então, você começará a se questionar sobre a tendência "natural" de seus pensamentos ao pessimismo, à sensação de vazio diante das coisas que não dão certo.

Seguindo esse raciocínio, você ajustará sua bússola interna rumo ao verdadeiro sentido que o move: o espaço de si mesmo. Se as velas de sua nau forem posicionadas e impulsionadas pelo vento interno, o caminho se revelará em propósito. Isso não significa que tempestades não serão enfrentadas, pois, assim como o bom tempo, elas fazem parte da vida e do existir.

 

Raridade

Raridade é afeto genuíno, 
aquele que não se resume a palavras
e habita o coração. 


sexta-feira, março 14, 2025

O verbo

Desvia meus olhos da ilusão do olhar, mira-os na profundidade do verbo ver, para que eu possa enxergar.


quarta-feira, março 12, 2025

Travessia à espreita da morte e das sombras

Do alto de sua insignificância, ele caminha a passos largos,

eternamente ameaçado,
armado até os dentes,
infinitamente inseguro.

Acredita-se à frente,
como se soubesse o amanhã.

O ego.
A persona.
Espelho convexo, projetando para o exterior imagens virtuais e distorcidas.

Mente ácida, de efeito corrosivo sobre sua superfície, sobre sua realidade.

Sua rota bélica lhe impõe um destino inevitável:
o confronto com Ele, o desconhecido.

O ego, sob a sola do sapato que o esmaga contra o cimento da realidade, agoniza.

Sob o peso de sua miséria, tal qual um inseto pisado,
levanta em vão uma questão que parece espremê-lo ainda mais contra a dureza do chão que o suporta e o sufoca:

De quem são os pés que lhe impõem a verdade, que lhe extraem o sangue e o último suspiro de morte?

terça-feira, março 11, 2025

Legado

Tudo o que somos hoje foi construído em algum momento do espaço-tempo; suas raízes estão em nossos ancestrais e nos alcançam por meio de nossa linhagem.
Que a memória de meus antepassados seja honrada através dos tempos. Que todas as gerações sejam abençoadas, com gratidão, pela história que ajudaram a construir.

domingo, março 09, 2025

Raízes antes de Marés

Percorre tu mesmo o teu próprio chão, 
revolve a tua terra, 
passa o arado, 
planta a semente 
e só então deságua no oceano de outras almas.


sexta-feira, março 07, 2025

Esboço de mim

Eu sou um desenho, um traço inacabado.
O ego é isso: um esboço, uma ilusão.
Vou me dobrando para me adaptar.
Autotransformação dói.
Me rasgo, me curvo.
Me reconfiguro, me reconstruo.
Realizo mais um voo em direção a mim mesma. Expurgo demônios.  

segunda-feira, março 03, 2025

Escrever

Escrever não é um monólogo, mas um diálogo com todos aqueles que já abracei, de quem me despedi, com quem me reencontrei e por quem me encantei.

Eles e eu, que me afirmo sendo um, somos mais que uma unidade; somos um coletivo de meus próprios eus espalhados pelo tempo e espaço.

Travamos longas discussões sobre o que se foi, tecendo comentários parciais sobre o passado, prevendo cenários do futuro e entretendo-nos com curiosidades superficiais.

Nós, como infinitos personagens que somos, gargalhamos das histórias narradas diante do espelho da vida.

O mundo aqui dentro é vasto e rico, muito além do mundo exterior, que costumamos priorizar além da conta.

domingo, março 02, 2025

Nos bastidores: o desconhecido

A arquitetura reta, linear e estática do mundo material me parece um tanto opressora. A solidez das coisas me escapa a cada piscar de olhos, quando a escuridão do movimento ocular se sobrepõe à tela anterior, redesenhando-a ao abrir das pálpebras.

Eu, que concentrada ocupo um corpo denso, sinto-me deslocada e fora de contexto nesse plano tridimensional, vasto e, ao mesmo tempo, estreito. Em meu interior, percebo que algo se passa nos bastidores, oculto à minha consciência. Sua presença se faz notar por um movimento rápido — como o de uma sombra passando pelo canto do olho —, uma forma indefinível, além de um borrão escuro que me acompanha ao longo dos meus movimentos. Um fantasma de mim mesma, uma inteligência fora dos meus domínios.

sábado, março 01, 2025

Carnaval

O nosso carnaval tornou-se a beleza da alegria forjada, desfilando nas redes sociais. Ele é o samba da superficialidade das relações humanas, a busca incessante por uma plateia que aplauda nosso mergulho em uma piscina rasa de aparências. O que se faz e o que se permite ser não ultrapassa a régua dos olhares e opinião pública.

O carnaval, fantasiado e transfigurado, não questiona as máscaras sociais; ao contrário, convida ao seu uso: a satisfação simulada da exposição nas redes. Os papéis desempenhados pelas pessoas estão sempre à procura de uma audiência. O que se é quando ninguém vê perdeu a importância em um mundo regido pelo senso geral.

Do contentamento no sentimento coletivo dessa festa, restou apenas uma satisfação moldada pela exibição de retratos ilusórios.

sexta-feira, fevereiro 28, 2025

Paixão

Apagarei os fogos de artifício e acenderei as velas da paixão...

A paixão não se resume ao sentido estrito do relacionamento amoroso; ela se estende ao encantamento por algo que nos move por inteiro rumo ao nosso mundo interior dos sentidos.

Em meio a todo o ruído em que estamos envoltos, ainda assim, figura a arte — na música, na arquitetura das edificações, nas palavras impressas — que atrai o olhar de quem está afinado com a beleza genuína da criatividade e que nos imputa inúmeras paixões.



terça-feira, fevereiro 25, 2025

Luto

O luto nos apresenta a imaterialidade do amor. Essa característica etérea, inerente ao amor, dói em nosso coração feito de carne, acostumado ao toque da pele, à sede e à fome de nossa dimensão de sentidos.

sexta-feira, fevereiro 21, 2025

Amor

Esse desarme que o amor causa, um baixar de guarda, um suspiro que eleva o peito, cheio do mais puro elemento da vida, que escapa devagarinho dos pulmões, nos deixa completamente entregues às venturas e desventuras de amar aquilo que nos faz vibrar, deixando-nos conduzir como em uma dança, uma valsa etérea do coração.

Esse movimento de ir e vir, bombeado pelo coração, inspirado pela inalação do ar, da vida, é um milagre singelo do que nos escapa e nos detém. E então, finalmente, chegamos ao amor genuíno, destino que não podemos conter.

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

Diário

      Querido diário,

Hoje irei enumerar algumas tarefas difíceis de realizar, mas extremamente necessárias para meu crescimento e desenvolvimento como ser humano:

1.       Lançar no grande vácuo as palavras que reverberam em minha mente. Como sementes, elas podem não atingir nenhum solo fértil nem germinar, mas, se não forem lançadas, jamais brotarão. Que essa semente, então, seja lançada nesse grande nada, pela mera ação em oposição à inação.

2.       Oferecer aos outros e a mim mesma tudo aquilo que gostaria de receber. Mesmo que jamais receba algo de quem quer que seja, terei a mim para me oferecer suporte.

3.       Tornar-me instrumento daquilo que desejo ver no mundo. Do outro, não espero nada; de mim, espero tudo.

4.       Lançar uma pequena pedra no oceano. Ela pode não provocar um tsunami que arrebente na praia, mas formará ao menos pequenas ondulações na superfície da água ao romper sua camada superior.

5.       Continuar agindo e acreditando no meu crescimento, mesmo sem enxergar resultados. O fato de não ver não significa que não exista. Persista.

6.       Falar sozinho, mas falar. Palavras não ditas se acumulam como poeira na alma. Que saiam, nem que sejam apenas para preencher o silêncio.

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

Mentes férteis

Nossas mentes são como terras férteis:
plante conhecimento e colha sabedoria.
Eis o seu manancial de criação.

Onde está o pensamento crítico?

Atualmente, o cérebro está sofrendo um bombardeio de informações desconexas: mensagens curtas, vídeos curtos e conteúdos virais de natureza repetitiva. Isso faz com que as pessoas se tornem ansiosas crônicas, desatentas e impacientes para refletir, ler algo, absorver a ideia e questionar, em vez de simplesmente engolirem todo tipo de conteúdo sem o mínimo de critério. Onde está o pensamento crítico?

A forma como a tecnologia vem sendo utilizada, com estímulos excessivos, tem causado impacto nas pessoas e, principalmente, nas crianças em processo de formação. A arquitetura psíquica está sendo remodelada com grandes lapsos, o que é preocupante. Não se questionar é calar a própria voz e em silêncio seguir o fluxo das massas.

Esses são questionamentos e reflexões desenvolvidos através das interações que tenho com mentes críticas. O aperfeiçoamento intelectual demanda troca de ideias entre as pessoas; afinal, a vida não é um monólogo, mas sim um diálogo.


quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Ato da vida

Numa tarde de quarta-feira, sentei-me sobre a mureta de um prédio corporativo no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, e fiquei observando o movimento das pessoas que iam e vinham apressadas. Senti-me, ao mesmo tempo, próxima e infinitamente distante da realidade que via em efeito time-lapse daquela gente.

Imaginei quais pensamentos inundavam suas cabeças, o que se passava em seus corações acelerados. Pensei no som de suas vozes adiantadas em velocidade 2x, em como os observava como objetos de estudo e em como sou, junto com eles, personagem deste ato da vida.

Naquele dia, meu olhar seguia na direção do horizonte, com visão de longo alcance. Alguns olhares permaneciam estáticos, congelados na tela do smartphone, conectados a tudo aquilo que não tinham. Outros pareciam vazios, perdidos no espaço em devaneio.

De repente, zeitgeist, o espírito do tempo, soprou em meu ouvido uma mensagem: Busque! Sua voz robótica reverberou eternamente, em uníssono com meus inúmeros pensamentos de programação padronizada.

Desviei o olhar por um segundo e, no meu ecrã ocular de alta resolução, surgiu a mensagem: Estabelecendo conexão... Ao lado, uma pequena ampulheta girava, indicando o tempo de espera para o desempenho das tarefas do sistema operacional.

A mensagem vinha do coração, hardware de linguagem misteriosa, executando instruções codificadas, transcritas em pensamento intuitivo: Conecte-se com o que você já tem!

quarta-feira, fevereiro 05, 2025

A linguagem do coração

Por que não consigo entender essa linguagem?
Creio que o coração é um órgão de código criptografado, 
Ilegível para aqueles que não possuem a chave para decifrá-lo.
O enigma do coração.
Sua pulsação vem como ondas que golpeiam a encosta rochosa da minha consciência.
Bato às portas fechadas, entre a esperança e o medo de que se abram.
O líquido denso que corre pelos túneis escuros do meu coração insurge-se de um oceano não pacífico.
Como posso desconhecer esse território dentro de mim?
Veios vermelhos de sangue!
Como pode me deixar tão perdida?
Zunido aterrador!
Que labirinto foi esse que você desenhou?


terça-feira, fevereiro 04, 2025

Tempestade

Porque aqui dentro existe um turbilhão de ideias.

Sinto a tempestade se formando,
o céu escurece,
a pressão atmosférica chega ao ponto de ebulição.

Não engula.
Afine sua garganta para deixar explodir o grito que você não deu.

As comportas estão cheias.
Deixe transbordar, ou vão estourar.

As águas precisam correr para regar os campos que secaram.
Deixe passar e arrastar todo o entulho e acúmulo.
Deixe levar. Não olhe para trás.

Não espere por nada.
Siga o fluxo e a força da natureza interna que se acumulou.

Este não é o fim, nem o começo, mas o processo.