domingo, fevereiro 02, 2025

Aceite

Aceite o som da sua voz e, assim, o mundo a escutará.
Aceite o tom de suas palavras e, assim, os outros as entenderão.
Aceite o dom de seus versos e, assim, os poetas os sentirão.
Deixe emergir à tona o seu mais profundo suspiro.

quarta-feira, janeiro 15, 2025

A escolha de ser

Eu escolho a mim mesma.
Escolho meus pés para me conduzirem pelo caminho.
Escolho minhas pernas para me mover pelos espaços que decidir explorar.
Escolho meus olhos para enxergar além e acima dos cenários que decidir visitar.
Escolho minha boca para proclamar as vitórias e verdades que preciso viver.
Escolho meu corpo como guia pelos caminhos onde posso crescer e florescer.
Escolho minha consciência para iluminar a jornada rumo à expansão.
Escolho acreditar, pedir e confiar em meus instintos e intuições.
Trago o espírito que me move para o espaço físico, neste mundo.

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Predador

Você olha para sua sombra projetada lá fora, e ela ri da sua cara todas as vezes que você tenta controlar o que quer que seja, em uma ação desesperada para conter seu próprio caos interno. Diante desse riso metálico e diabólico, seu espírito se apequena cada vez mais, como um coelho assustado que projeta uma imagem pretensiosa e fraudulenta de si mesmo. É como um caçador que persegue uma presa em um looping eterno: meramente um cão correndo atrás do próprio rabo, um predador que consome a si mesmo em uma fuga e perseguição incessante de vários aspectos descontrolados de sua psique.

Ele representa uma fraude, vencendo batalhas inglórias em sua mente fraca e adoecida — um verdadeiro impostor. Nas camadas mais profundas do seu inconsciente, corre um rio poluído e estancado pela resistência imposta por crenças há muito tempo inúteis. Todos aqueles que repetem as mesmas histórias que as suas o incomodam porque refletem aquilo que o habita e que você não aceita. Um dedo apontado para fora é um dedo apontado para o espelho; um golpe desferido na vítima é um golpe sobre si mesmo.

Que espírito miserável é esse que vaga nas sombras de suas tormentas internas? Falta-lhe o silêncio aterrador em meio aos gritos e gemidos de dor que ele insiste em imputar aos outros. Essa punição e tortura nada mais são do que o reflexo de seu mundo interior: frágil e vulnerável.

segunda-feira, dezembro 02, 2024

Substância primordial

Não existe uma ideia completamente sua, pois as ideias têm vida própria em um lugar onde se concentram todos os arquivos possíveis, além do espaço-tempo. Elas habitam um espaço aberto e acessível a qualquer um que seja capaz de alcançá-las. A partir desse ponto, tocadas pela mente, viajam através do mundo interno da psique que as acolhe e revelam apenas aquilo que o consciente em questão pode absorver, expressando-se e tomando forma no mundo material dentro dos limites das crenças e valores do intelecto que lhes dá vida.

Assim ocorre o nascimento de uma nova ideia: ela provém do encontro entre o inconsciente e o consciente, que dá origem a uma substância etérea capaz de nos impulsionar pelos trilhos da história humana e universal. Para cada ser que a concebe, a ideia traz consigo uma essência única e original, derivada da união entre luz e sombras.

domingo, novembro 24, 2024

Alma

A alma tem uma forma diferente e sutil de se comunicar com o corpo. Em um movimento quase involuntário, voltei-me para dentro de mim mesma e comecei a destrinchar quais seriam os grandes propósitos que me guiam pela vida e como eles se manifestam por meio da minha postura diante das coisas. Como um explorador de si mesmo, busquei entender o que me moldou a ser quem sou e o que me move a agir como ajo no mundo exterior. 

Mergulhei, tal qual uma forasteira em terras estrangeiras, abrindo cômodos escuros e esquecidos do meu inconsciente. Parecia uma terra de ninguém. Grande parte do trajeto permanecia tomado pelas trevas, pelo silêncio e por sobressaltos diante do desconhecido.

Fui me aproximando, cada vez mais, de um espelho embaçado, de um ambiente úmido e ocre, de águas turvas. Essa postura austera, arredia, de pelos eriçados diante das ameaças externas — que me parecia tão dura e por vezes desnecessária — revelou-me sua verdadeira natureza, sua origem e seus porquês. Era uma alma muito antiga que havia passado por inúmeras experiências, vergado sob incontáveis ilusões, acreditado e defendido tantas causas perdidas que não eram as suas próprias.

Essa alma estava cansada de girar em círculos e de se deixar levar para longe de si mesma. Decidiu, então, se aproximar do corpo, de modo a poder se comunicar com ele sempre que sentisse necessidade de seguir adiante, sem mais se deixar levar pelas utopias e quimeras da vida. Foi assim que ela ergueu um sistema de defesa: um “muro emocional” carregado pelas energias de experiências remotas. Esse muro tornou o corpo intuitivo, alerta e cauteloso diante de ameaças que poderiam mais uma vez distraí-la no caminho de volta para casa. 

Esse muro impediu que o rumo se perdesse diante de cada vitrine colorida que surgisse. Afinal, os olhos já estavam calejados por tantas luzes usadas para desfocar a visão de longo alcance.

A alma enxerga tão longe que a consciência mal consegue acompanhar. Ela mira com tamanha precisão que a razão não saberia explicar. Sua paciência parece infinita diante de tantas fantasias. Resiliente, ela espera. Mas ela também urge e move involuntariamente o corpo, que, aos poucos, se deixa levar de volta para casa.

 

quarta-feira, outubro 16, 2024

Sobre a consciência

O ser humano é uma máquina em operação cuja governança principal parte de seu cérebro. O programa que roda nessa máquina é a consciência; esse software realiza ações mecânicas baseadas nas necessidades orgânicas do corpo humano. De forma primária, ações e reações são esboçadas na relação do organismo com o meio em que está inserido. O conjunto dessas experiências presentes vai se acumulando na forma de memória (sensações e lembranças), erguendo uma estrutura que dará origem à identidade daquela pessoa específica, tornando-a única. Essa estrutura é regida pela consciência que habita esse ser orgânico, englobando o consciente e o inconsciente, e trabalha em sinergia com a mecânica cerebral, de modo que o organismo vivo lhe permite experienciar o meio material, conferindo-lhe maior robustez.

À medida que essa consciência toma ciência de si mesma, em um ato similar ao de uma pessoa que se olha no espelho e vê refletido o seu "eu", identificando-se como uma persona, ela se torna mais complexa, e seus pensamentos, mais abstratos.

Quanto mais abstrato o pensamento, mais poderosa se torna a consciência em termos de análise e reflexão sobre si mesma, ampliando seu campo de visão quanto à sua função e propósito em relação à vida humana em geral. Atingimos, então, uma expansão da consciência. Acredito que ela pode se expandir ao infinito, uma vez livre do organismo que habita.


quinta-feira, outubro 10, 2024

Estilhaço

 Existem saberes que são como um martelo que te quebra de dentro para fora. Uma mente estilhaçada pelo inevitável é como uma espada nas mãos de um guerreiro cego.

domingo, outubro 06, 2024

Projeção

Eu sempre sonhava com ele, aquele que, para mim, representava segurança e confiança. A figura que desempenhava esse papel em minha vida morreu, como todo e qualquer mortal. Minhas ilusões infantis de ter ao meu lado alguém capaz de me proteger contra tudo e todos se desvaneceram, dando lugar a uma avassaladora desesperança e a uma sensação de impotência diante das circunstâncias.

Mas, nos meus sonhos, ele sempre reaparecia como alguém que volta dos mortos para restaurar o caos instaurado após sua partida. Primeiro, eu esperava que ele realmente voltasse à vida, como por um milagre. Depois, ansiava por alguém que pudesse substituí-lo, assumindo o controle da situação e oferecendo direcionamento e comando, como um governante que conduz seu povo.

De repente, percebi que não era exatamente que eu quisesse que ele voltasse; na verdade, eu queria ser ele. Absorver a personalidade que tanto me causava admiração, incorporá-la em mim e me tornar a pessoa que tanto chamei.

Eu sei que, nos meus sonhos, ele é uma projeção de tudo o que desejo ser ou de tudo o que sinto que preciso ser.

segunda-feira, setembro 02, 2024

Peregrina

Para quem já viajou inúmeras vezes sem um destino traçado, pelas linhas férreas das frases impressas em uma folha de papel, saltando de uma epígrafe a outra, suspirando entre parágrafos, inspirando-se em cada sentença enunciada.

Conversei com cada forma-pensamento do mundo das ideias, das mentes mais brilhantes às mais ordinárias, que convergem em um mesmo rio mental, envolvido pelo éter da alma humana.

No íntimo de cada obra, disseminou-se o semblante de uma raça que se perpetuou através do espaço- tempo deste nosso pequeno universo. 

terça-feira, agosto 20, 2024

Como eu posso te alcançar?

Forjei, com as pedras, uma ferramenta que fizesse encaixar nos meus pés sapatos antigos.
Algo capaz de moldar essa coisa que me move pelo tempo e espaço de agora.

Há muito não chove, e desaprendi a nutrir esse ser que me habita.
O que faço dessa consciência que ocupa meu corpo?
Para onde devo guiá-la?
Será que perdi o ritmo para conduzir?

Meu sinal não chega até ela, nem ela até mim.
Eu até encontrei o caminho, uma ponte que, por vezes, surgia.
Mas o desgaste natural das coisas que o tempo consome apagou os passos que eu havia dado em sua direção.

As memórias se confundem com uma fantasia do passado, de cores desvanecidas.
As palavras, antes tão claras, agora são ilegíveis, sob um papel à mercê do tempo—minha única percepção de dimensão.

O tempo, as cores, as formas, o espaço e os sentidos são meu mundo todo—e ele não passa de cognição, sinais elétricos enviados ao meu cérebro.

A música, trilha que carregava o campo magnético do meu coração—que parecia saber mais do que apenas bater—deixou escapar minha alma para fora do corpo.

E agora, como posso te alcançar?

quinta-feira, junho 27, 2024

Leitura

 Essa é a hora em que o mundo silencia e, além das palavras que sussurram na minha cabeça, posso ouvir o som da minha respiração e do meu coração. 

segunda-feira, março 25, 2024

Poder

O poder real e absoluto não tem nada a ver com o quanto se pode dominar e conquistar, mas com o quanto se pode expandir e dispersar-se para além de todas as fronteiras. 

quinta-feira, agosto 31, 2023

Me encontrar

Eu gostaria de me encontrar comigo mesma
Em algum lugar fora do espaço - tempo
E então questionar todos os desejos despertos ao longo dos anos.
Eu me olharia nos olhos, e eles estariam repletos e vazios ao mesmo tempo.
Seria eu um ser insondável por natureza, questionando-me como se isso estivesse em meu código genético?
Sempre há um ímpeto insaciável que me arrasta até os meus próprios mistérios, uma terra desconhecida que nunca consigo alcançar
Porque a sonda que envio para dentro do meu ser nunca atinge uma superfície sólida onde eu possa pousar?
E se eu vagar eternamente no espaço como poeira? 

terça-feira, agosto 08, 2023

Possível

Se realmente existe a imortalidade das coisas, ainda é possível ver a chuva do outro lado do oceano.
É possível presenciar as auroras boreais tão distantes daqui, onde o horizonte não alcança.
contemplar o desabrochar das flores no extremo oposto do planeta
ver o nascer do sol em um lugar onde nunca o vi nascer
observar as florestas e sentir o aroma das coisas tão distantes de onde estou
ouvir vozes e idiomas desconhecidos para mim
enxergar os rostos de seres em realidades tão diversas da minha
mesmo que não haja tempo, experimentar tudo aquilo que ainda não provei
saborear todos os gostos que nunca conheci
me conectar a todas as pessoas que jamais imaginei.
viver o dia que nunca esperei
deixar para trás
chegar ao destino
compreender definitivamente
alcançar completamente.

Vou inspirar profundamente
E exalar o ar até que ele se acabe,
Enxergar o infinito reverberar em uma frequência desconhecida,
E então, o que acreditei ser impossível será possível.

domingo, dezembro 09, 2012

Virando a página

Para todos nós que fomos capazes de olhar e ver,
o que fica de nossas impressões?

A marca de um toque na areia.
Os círculos feitos na água, que se expandem e desaparecem.
Os espaços entre o suspiro profundo da alma e a necessidade básica de respirar.
A distância entre uma imagem fantástica e um coração descompassado, que não obedece ao desejo de conhecer.

Os ponteiros do relógio que se despencam em círculos repetidos.
O dia que se torna noite.
O giro que disfarça o brilho constante do sol.
A roda que esconde o fascínio pela vida em toda a sua extensão.

Os círculos que se elevam e despencam.
Os declínios e ascensões.
As eras que vão e vêm.
As ondas que se afastam e retornam.
As fases que se repetem.
As estações que se alternam.
As histórias que se repetem.
Os ciclos que se cumprem.

O suspiro exausto de um dia duro é também a necessidade básica de respirar.
As idas e vindas são um primeiro contato que aguarda um segundo passo.
Ânsia pela iniciativa de seguir adiante, sem se voltar para trás.
Desejo de superar o ciclo e virar a página.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Mudanças proclamadas

Há muito sentimos brotar a necessidade de mudar. Essa necessidade tornou-se quase uma urgência nos últimos anos. Então, chegou-se a um consenso de que está na hora de transformar nossa realidade.

Sabemos disso e, no fundo de nossos corações, ansiamos por um novo mundo. No entanto, muitos — talvez a maioria de nós — não levam em consideração o quão doloroso é o processo de transformação e mudança.

Esse processo não é externo; não começa lá fora, no mundo, nem nas pessoas ao nosso redor. Ele começa dentro de nós, e precisamos entender que não é algo fácil, agradável, confortável, tranquilo ou pacífico.

É um processo turbulento, doloroso, incômodo, porque mexe com aquilo a que estamos acostumados, condicionados e educados. Definitivamente, mudar não é fácil.

Falar sobre a necessidade de mudança é simples, é cômodo, pois sequer iniciamos nossa jornada. Mas mudar um comportamento que repetimos há 5, 10, 20, 30, 40 anos torna-se uma tarefa tão difícil quanto escalar o pico de uma montanha. É uma batalha árdua contra condicionamentos e hábitos que repetimos há anos.

Mesmo uma pequena mudança será dolorosa, pois nos tirará do lugar onde estamos acostumados a estar. Ela removerá um comportamento ao qual nos acomodamos, nos lançará para além das paredes que construímos ao nosso redor e nos exporá além da segurança que conhecemos.

A transformação demanda a subtração infinita de valores, comportamentos, segurança, conforto, acomodação, costume, repetição, entrega. Quando iniciada, a mudança vai removendo um a um, como alguém que arranca pragas de um jardim abandonado à própria sorte. A remoção é dolorosa. A desintoxicação machuca. Deixar para trás um comportamento repetido por anos não é fácil.

A maioria das pessoas deseja passar pela transformação, mas poucos estão realmente dispostos a abrir mão de seus vícios, comportamentos, conforto e acomodação para, de fato, alçar voo rumo ao desconhecido. Deixar para trás o mundo ao qual estamos acostumados exige grande esforço, causa dor e sofrimento, pois trata-se de uma batalha diária travada dentro de nós.

Pense em como é difícil mudar um simples hábito. O ser humano tende, infelizmente, à repetição e à acomodação. Suponha que você tenha um vício — seja álcool, remédios, chocolates, cigarros, refrigerantes, cafés (seja o que for). Você o repete diariamente durante anos porque está acostumado, e, por isso, ele se torna prazeroso, confortável, agradável. Ele acalma, relaxa, diverte, satisfaz, faz sentir-se bem. Assim, aos poucos, entregamos nossa satisfação, nossa “felicidade”, nosso contentamento a fatores externos: a terceiros, substâncias, alimentos, bebidas, comportamentos etc.

Cada vez mais nos tornamos dependentes de elementos externos e, com isso, nos enfraquecemos, nos sabotamos, passamos a depender sempre desse ou daquele suprimento, dessa ou daquela pessoa, para nos sentirmos seguros, confortáveis, felizes e satisfeitos.

Gradualmente, nos tornamos reféns, vítimas, fracos, dependentes, anulados. E então, nos vemos incapazes de caminhar com nossas próprias pernas, incapazes de promover a mudança que tanto aspiramos.

Como fazer acontecer? Como promover transformações? Como visualizar mudanças se não somos capazes de modificar nossos próprios comportamentos? Se não conseguimos vencer nossos próprios vícios, derrotar nossos próprios fantasmas? Se não estamos dispostos a sair da zona de conforto e suportar a dor de modificar sequer um pequeno hábito?

Se não temos coragem de agir sozinhos porque dói, porque temos medo, porque não queremos sentir desconforto, insatisfação ou contrariar nossos próprios desejos e padrões, como assumiremos o controle de nossas ações?

Muitas vezes, não temos força de vontade suficiente para mudar pequenas coisas em nós. Então, percebemos que o que queremos não são mudanças nem transformações, mas a perpetuação do que já somos: do falso conforto, da falsa segurança, da previsibilidade ilusória, da repetição, dos vícios e manias, das mentiras e ilusões. Queremos continuar nos entregando às fraquezas contra as quais nos recusamos a lutar.

Chegamos, então, à conclusão de que nosso desejo de mudança não era sincero, mas uma ilusão. Esperamos, em vão, que algo ou alguém faça por nós o que não temos disposição de fazer por nós mesmos. Afinal, todos somos capazes, mas poucos se arriscam a levantar voo rumo ao desconhecido.

Afastamo-nos da capacidade de enxergar que, na maioria das vezes, optamos por não fazer a transição.

A dificuldade não deve ser encarada com desânimo, mas como um desafio. Para aprender a voar, é preciso se arriscar a cair, errar e se machucar — para, então, levantar-se e tentar novamente. Nada é para permanecer imutável.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Show de horrores

Tenho andado por aqui já não é de hoje.
Sempre me trazem de volta e de volta a qualquer lugar... ao mesmo lugar.
Comprimo toda a extensão destes anos, dessa infinitude, num pequeno invólucro.
A partir daí, a consciência segue a se esquecer, a tornar-se gradativamente medíocre e pequena.
Apegada e presa, atada a valores e ilusões, venho mentindo estar tudo bem desde então.
Tapo os olhos para não ver o horror. Tenho medo. Não posso abri-los e encarar meu próprio rosto.
Temo as respostas às perguntas que faço, então me mantenho na superfície, adio a descida às profundezas deste oceano desconhecido.
Estou sempre ponderando se vou mesmo fundo na verdadeira natureza da consciência que move este veículo carnal perdido em sua pequenez.
Descobrir, buscar aquilo que, no fundo, já sei, mas escondo para não perder o controle.
No silêncio profundo desta consciência infinita, um aviso emerge de tempos em tempos: não há como escapar, nem se esconder, você sabe!

Este hospício de caminho sem volta, ruas sem saída... não há nada senão o impossível, a impotência e a fraqueza. Alienação, isolamento, uma torre de retenção para enfermos que dormem profundamente no pior dos pesadelos.
Estou doente, entorpecida... Quero sair, mas não consigo. Estou morrendo... há muito estou morrendo.
Não consigo me mover. É preciso calar tudo ao redor para que eu possa ouvir o pranto desesperado desta voz que chama, desta mão estendida, deste corpo que pede apoio, deste eu que se afoga numa fachada de afazeres e metas a cumprir, numa realidade pervertida e vazia.
Então sobe um suspiro que vem do íntimo e acredito estar tudo bem. Não está... Tudo não passa de um pesadelo.

Um dia, acreditei em tudo que me diziam, aceitei tudo o que me afirmavam, concordei com tudo o que me informavam. Andei nos trilhos, na medida traçada do possível, me esforcei...
Hoje já não é mais assim. Não acredito mais no que me dizem, não aceito mais o que me afirmam, nem concordo mais com o que me informam.
Saí dos trilhos, invadi a medida traçada do possível, pisei na margem. Por mais que eu queira, não há como voltar a ser o que era. Só posso fingir, disfarçar...

Involuntariamente, permaneço a me questionar, a buscar as cordas acima do palco que movem esta encenação de títeres. Muitas das perguntas permanecem em segredo. Nem todos entendem, então me calo, para que falem as vozes da razão, os donos da verdade, as certezas absolutas, as afirmativas assertivas, as colocações comprovadas, as autoridades inquestionáveis.
Por dentro, permaneço a rir deste circo, como um louco que esboça um sorriso escrachado no rosto. Imagino, então, minha fotografia exposta no quadro da polícia entre os procurados. Crime: desvio de conduta.
Fecham-se as cortinas.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Não conte comigo

Certo dia disse como todo e qualquer mortal: “Conto com todos”, “Conto contigo”, “Conte comigo”.
O que mais de tantas ilusões eu disse?
Não conte mais...
Não conte comigo, nem com todos. Não conte mais...
Quando de todas as ilusões, uma sequer tenha valido realmente a pena, não me conte, nem comigo conte.
Por um acaso contastes mesmo consigo, com quem quer que seja, sem que lhe postasse uma bela dose de cobrança, acrescido de certa desconfiança, expectativa e medo?
Não conte comigo, não estou aqui para lhe oferecer segurança, estabilidade, previsibilidade, nem para amparar um peso que mal se sustenta de pé sobre suas próprias bases.
Não, este não é um recado ou aviso pessoal, esta é uma realidade que se encaixa ao ser humano.
Não é preciso segurança, nem estabilidade, não é preciso buscar eternamente tais ilusões de estado que a nada levam a não ser ao caos.
Não é preciso depender, se apegar, agarra-se, como um desesperado que se afoga. Não há porque encontrar um porto seguro para de lá jamais sair, se manter constante, sempre o mesmo. Não há necessidade de se ancorar, se apegar.
Não conte comigo para o dever ser, nem para o sonho dourado do amanha, para o sucesso vindouro.
Não conte comigo para projetar o futuro, desenhar ilusões, colorir um apego desesperado pela segurança almejada.
Não é preciso se arrastar em sentimentalismos e emocionalismos para provar do amor, muito deste calor a que chamamos humano não passa de um amontoado entulhado de ideias e afetações medíocres.
As paixões a que muitos se curvam não passam de auto satisfação, por vezes um sofrimento pelo qual se atinge prazer, uma confusão doentia, um conflito inútil do ego. Prisão para a alma.
Escravos da dor, do estúpido vir a ser. Ciclos, idas e vindas, novidades de uma vida que não passa de repetições disfarçadas.
O mesmo se perpetua ao longo dos séculos e no tempo se nutre para tornar-se cada vez mais forte a roda que gira e resvala sempre pelos mesmos caminhos.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Limite


Há algum tempo opero no limite. Até onde se estendem as fronteiras que me cercam, entre visão e cegueira, eminencia de emergir. Prestes a submergir de volta ao fundo, ao silêncio eterno dos oceanos calados, onde mal se propagam as ondas de som. Universo infinito a calar o caos insignificante das vidas que aqui se chocam para sobreviver.
Certo dia chorei no caminho para casa, um retorno custoso, certa do cansaço. As lágrimas continham no sal amargo das águas que rolam, um sentido que se afasta dos dramas da vida, da teia de relacionamentos que nos envolvem e aprisionam nas mais obscuras tragédias. Um mundo de milhares de egrégoras, imensos cúmulos a escurecer, entristecer.
Aos poucos a mente que insiste em reger meus movimentos, pensamentos, sentimentos, começa a desvelar o caminho linear e certo da vida, um novelo intrincado, labirinto confuso, um quebra-cabeças que jamais se encaixa. O filme retrocede ao passado e então começo aos poucos a desaparecer, apagar-me diante dos eventos que forjaram uma história de vida.
Pondero sobre a possibilidade de definitivamente apagar os registros que me identificam como parte da vida daqueles que assumiram papéis neste filme da vida e então me desloco do universo onde meu ser significa o que quer que seja para aqueles que por mim passaram, para um em que ainda não emergi como vida assim como a concebemos.
Num mundo de silêncio e observação, sem que haja interferência dos dramas de demasiadas origens, das dores de infinitas naturezas, um eterno entender, uma compreensão que transcende a vida humana se me revela possível, um ser que independente da matéria, pura energia a existir e mover-se infinitamente além do tempo. Além da humanidade. Além da verdade. Além da moral. Além do organismo simples e complexo.
E se pudesse ser além das fronteiras do saber. Além do conhecido. Do experienciado. Do possível.
E se eu pudesse deixar de ser a individualidade de um ser que se difere dos outros neste mundo. E se pudessem cair os muros do que sou, da personalidade que anima este corpo, da singularidade que impulsiona esta vida e se pudesse fazer parar esta mente que tagarela e ofusca a beleza do silêncio.
E se pudesse deixar a transitoriedade para ascender ao que não teve princípio nem há de ter fim.
Aos poucos o movimento foi apagando as milhares de existências e o coração que a pouco se ressentia em deixar e se desapegar, foi-se aquietando e aceitando o desconhecido, ouvindo pacientemente as vozes se calarem, os vultos se apagarem, as ameaças se extinguirem, chamando para si o infinito daquilo que jamais fora experimentado. É certo que as retas paralelas irão se cruzar em algum ponto no espaço. Suspiro aliviada.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Um dia

Um dia...
Um dia teremos isso e seremos aquilo e então seremos felizes...
Um dia chegaremos lá...
É sempre um dia,
Um dia que não se sabe qual, porque nos parece longe
Um dia que não é amanhã, nem depois, apenas um dia...
Assim como estes três pontos no final das frases que parecem não querer terminar, ou que parecem querer dizer mais, sem ainda saber o que...
Tudo fica em extenso, nada pousa, por isso nada do que um dia queremos que seja, podemos tocar.
Não podemos tocar esta ilusão, mas podemos vivê-la e, por tanto querer que seja feita realidade, podemos por ela viver e lutar.
Pela ilusão brindamos e torcemos para que um dia... você sabe... quem sabe um dia...
Mas sabemos que a cada passo do tempo, um dia se torna cada vez mais distante, como se de nós quisesse escapar...
Uma poeira no vento, uma fumaça na brisa, soprada cada vez mais para frente...
Enquanto isso nós vamos ficando por aqui, sonhando eternamente com o dia em que um dia chegará para nós, tal qual sombras a esperar pela luz gloriosa do sol.
Hoje o céu permanece nublado, carregado de sonhos, perspectivas, desejos, ilusões...
Um dia quem sabe ele se abra e então teremos alcançado o tão esperado dia.
É sempre muito distante, aquilo que não se pode ter, se não fosse o desagrado dos dias de hoje, quem sabe hoje não pudesse se tornar um dia, aquele dia!