domingo, novembro 24, 2024

Alma

A alma tem uma forma diferente e sutil de se comunicar com o corpo. Em um movimento quase involuntário, voltei-me para dentro de mim mesma e comecei a destrinchar quais seriam os grandes propósitos que me guiam pela vida e como eles se manifestam por meio da minha postura diante das coisas. Como um explorador de si mesmo, busquei entender o que me moldou a ser quem sou e o que me move a agir como ajo no mundo exterior. 

Mergulhei, tal qual uma forasteira em terras estrangeiras, abrindo cômodos escuros e esquecidos do meu inconsciente. Parecia uma terra de ninguém. Grande parte do trajeto permanecia tomado pelas trevas, pelo silêncio e por sobressaltos diante do desconhecido.

Fui me aproximando, cada vez mais, de um espelho embaçado, de um ambiente úmido e ocre, de águas turvas. Essa postura austera, arredia, de pelos eriçados diante das ameaças externas — que me parecia tão dura e por vezes desnecessária — revelou-me sua verdadeira natureza, sua origem e seus porquês. Era uma alma muito antiga que havia passado por inúmeras experiências, vergado sob incontáveis ilusões, acreditado e defendido tantas causas perdidas que não eram as suas próprias.

Essa alma estava cansada de girar em círculos e de se deixar levar para longe de si mesma. Decidiu, então, se aproximar do corpo, de modo a poder se comunicar com ele sempre que sentisse necessidade de seguir adiante, sem mais se deixar levar pelas utopias e quimeras da vida. Foi assim que ela ergueu um sistema de defesa: um “muro emocional” carregado pelas energias de experiências remotas. Esse muro tornou o corpo intuitivo, alerta e cauteloso diante de ameaças que poderiam mais uma vez distraí-la no caminho de volta para casa. 

Esse muro impediu que o rumo se perdesse diante de cada vitrine colorida que surgisse. Afinal, os olhos já estavam calejados por tantas luzes usadas para desfocar a visão de longo alcance.

A alma enxerga tão longe que a consciência mal consegue acompanhar. Ela mira com tamanha precisão que a razão não saberia explicar. Sua paciência parece infinita diante de tantas fantasias. Resiliente, ela espera. Mas ela também urge e move involuntariamente o corpo, que, aos poucos, se deixa levar de volta para casa.

 

quarta-feira, outubro 16, 2024

Sobre a consciência

O ser humano é uma máquina em operação cuja governança principal parte de seu cérebro. O programa que roda nessa máquina é a consciência; esse software realiza ações mecânicas baseadas nas necessidades orgânicas do corpo humano. De forma primária, ações e reações são esboçadas na relação do organismo com o meio em que está inserido. O conjunto dessas experiências presentes vai se acumulando na forma de memória (sensações e lembranças), erguendo uma estrutura que dará origem à identidade daquela pessoa específica, tornando-a única. Essa estrutura é regida pela consciência que habita esse ser orgânico, englobando o consciente e o inconsciente, e trabalha em sinergia com a mecânica cerebral, de modo que o organismo vivo lhe permite experienciar o meio material, conferindo-lhe maior robustez.

À medida que essa consciência toma ciência de si mesma, em um ato similar ao de uma pessoa que se olha no espelho e vê refletido o seu "eu", identificando-se como uma persona, ela se torna mais complexa, e seus pensamentos, mais abstratos.

Quanto mais abstrato o pensamento, mais poderosa se torna a consciência em termos de análise e reflexão sobre si mesma, ampliando seu campo de visão quanto à sua função e propósito em relação à vida humana em geral. Atingimos, então, uma expansão da consciência. Acredito que ela pode se expandir ao infinito, uma vez livre do organismo que habita.