sexta-feira, dezembro 19, 2025

Suspensão

Ao fim da tarde, uma sensação de cansaço repentino pousou sobre mim. Não era desânimo, tristeza ou desesperança, nada que pudesse ser nomeado ou diagnosticado.

O rosto miúdo, pousado sobre as mãos em concha em busca de sossego, reflete uma exaustão interna de tudo o que se foi e agora retorna lentamente para dentro.

O efeito anestésico cessou. Restou um reconhecimento ainda confuso entre vislumbre e desorientação, como um braço que acorda formigando, incapaz de se mover. Fico à soleira, pés ainda descalços, reconhecendo o chão antes de atravessar.

Nem tudo o que vejo precisa ser dito; às vezes, só preciso repousar. Sustentar a percepção num corpo sem chão, avançando sobre um novo espaço.

Suspensão: após espalhar fragmentos meus porta afora, como um espirro do espírito a expulsar algo que irrita as vias do respiro, partes minhas que considerei ameaça agora batem à porta, querendo retornar à casa.

Muitos deles calei, tapei-lhes a boca num impulso de medo do que poderiam dizer. Outros feri ao fingir que não existiam. Quebrei-os, caminhei sobre seus cacos, feri os pés. Juntos sangramos, como se a indiferença não deixasse cicatrizes.

Eu, que também existo, desejo ouvir, dialogar, receber, reconhecê-los como parentes distantes que retornam após longa ausência, trazendo histórias e aventuras remotas, incendiando-me o coração com curiosidades diversas.