Ao fim da tarde, uma sensação de cansaço repentino pousou sobre mim. Não era desânimo, tristeza ou desesperança, nada que pudesse ser nomeado ou diagnosticado.
O rosto miúdo, pousado sobre as mãos em concha em busca de
sossego, reflete uma exaustão interna de tudo o que se foi e agora retorna
lentamente para dentro.
O efeito anestésico cessou. Restou um reconhecimento ainda
confuso entre vislumbre e desorientação, como um braço que acorda formigando,
incapaz de se mover. Fico à soleira, pés ainda descalços, reconhecendo o chão
antes de atravessar.
Nem tudo o que vejo precisa ser dito; às vezes, só preciso
repousar. Sustentar a percepção num corpo sem chão, avançando sobre um novo
espaço.
Suspensão: após espalhar fragmentos meus porta afora, como
um espirro do espírito a expulsar algo que irrita as vias do respiro, partes
minhas que considerei ameaça agora batem à porta, querendo retornar à casa.
Muitos deles calei, tapei-lhes a boca num impulso de medo do
que poderiam dizer. Outros feri ao fingir que não existiam. Quebrei-os,
caminhei sobre seus cacos, feri os pés. Juntos sangramos, como se a indiferença
não deixasse cicatrizes.
Eu, que também existo, desejo ouvir, dialogar, receber,
reconhecê-los como parentes distantes que retornam após longa ausência,
trazendo histórias e aventuras remotas, incendiando-me o coração com
curiosidades diversas.