sexta-feira, dezembro 05, 2025

Pescador de almas

Ele fala por mim,
expressa o que sinto e não revelo,
como se o mistério se desvendasse em suas palavras.
É o espelho no qual me vejo: assusta-me e atrai-me,
água sagrada derramada em meu vaso vazio.

Um grito que me chama,
lente convexa que amplia minha visão sobre mim.
Ele é Sol no zênite, fogo que se consome,
e eu sou o éter que se dissolve, sentido sem forma,
propósito não vivido.

Ele se apropria de seus infinitos eus;
eu busco a mim e não encontro —
ou encontro e não reconheço.
Meus eus não conversam: ilhas que se desconhecem.

Ele me revela,
empresta-me voz, traduz-me na língua-mãe da minha alma.
Expõe minhas personas escondidas, silenciadas, dispersas.
Toca em mim o que nem eu toquei.

Arranca de mim o indefinível,
materializado num homem estrangeiro,
brilhante como estrela de inverno.
O impossível que não alcanço me alcança tão facilmente.

Como pode a morte me encontrar na esquina?
Vi-me nua diante dessa chama:
como pode alguém que não eu despir-me para meus próprios olhos?

Não é o homem — o homem morreu.
É o símbolo vivo, Sol no meu céu,
farol da minha busca interior,
do diálogo dos meus habitantes dispersos.

Ele é o que está fora e quer vir para dentro,
a palavra que meu silêncio esperava,
a flecha certeira que diz do que sinto mais do que penso.

Escreveu para mim e para tantos que, no futuro,
aguardávamos por suas palavras viajantes
que nos despertariam para nós mesmos.

É mar que me invade e me inunda, pescador de almas,
trazendo do fundo o alimento que nos nutre por inteiro.
Pessoa é o portal pelo qual atravesso.