Vejo um bando torpe em movimento constante
que não sai do lugar,
girando feito peões sobre si,
eternamente, sem cessar.
Meus olhos se cansam de olhar
e ver como agonizam em órbita errada;
eu, que os vejo, me vejo
como num espelho a me assustar,
presa ao mesmo campo gravitacional.
O efeito implacável do tempo,
a repetir-se,
nos enfraquece e nos desgasta
feito metal corroído,
a ranger, estalar,
no tom cinza da vida.
Cronos, entidade incorpórea:
sem que percebesse, deixei-o
me abraçar pelas costas;
hoje sou eu quem vai a ele de encontro
e o abraça de frente.
Seu zunido, correndo pelos trilhos,
num grito agudo estampido nos ouvidos,
parecia querer me esmagar.
Deixo-o se achegar.
Dentro do cenário,
ver não é o bastante:
é preciso deixá-lo atravessar-me,
feito espada a me cravar no peito
sua lâmina afiada.
Isso é se expressar.
Corra — pode correr —
o sangue da vida,
até que se esgote o último fio,
restando o eco
que reverbera a imensidão
da finitude deitada sobre mim.
Irei testemunhar tudo isso
sem nada esperar ou pedir.
Ofereço apenas minha voz,
encarnada nestas duras palavras
que constatam
e registram
seu existir.