Pelas manhãs
quando o silêncio recua diante do canto dos pássaros que despertam
ouço ao longe o ruído indistinto de um comboio pesado
atravessando o tempo do alvorecer.
É um barulho fantasma
um não-existir das linhas férreas ausentes do chão da vida.
Ele carrega o revolver condensado da mediocridade cotidiana
e vem de um espaço liminar
entre o fim da noite
e a promessa do amanhecer.
Desaparece quase imperceptível no ar
assim que os pensamentos se firmam na terra
e os afazeres tomam conta do dia e das horas
e já nos encontramos todos tomados
pelo ordinário da matéria que nos cerca.
O misterioso som me acompanha
nos bastidores da vida
mas dele me esqueço
até reencontrá-lo no eterno retorno rotineiro dos dias.
Sempre me deixo levar ao longe
rumo ao seu sumiço costumeiro
e ficamos assim em valsa
indo e vindo
dançando entre inícios e fins.