quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Ato da vida

Numa tarde de quarta-feira, sentei-me sobre a mureta de um prédio corporativo no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, e fiquei observando o movimento das pessoas que iam e vinham apressadas. Senti-me, ao mesmo tempo, próxima e infinitamente distante da realidade que via em efeito time-lapse daquela gente.

Imaginei quais pensamentos inundavam suas cabeças, o que se passava em seus corações acelerados. Pensei no som de suas vozes adiantadas em velocidade 2x, em como os observava como objetos de estudo e em como sou, junto com eles, personagem deste ato da vida.

Naquele dia, meu olhar seguia na direção do horizonte, com visão de longo alcance. Alguns olhares permaneciam estáticos, congelados na tela do smartphone, conectados a tudo aquilo que não tinham. Outros pareciam vazios, perdidos no espaço em devaneio.

De repente, zeitgeist, o espírito do tempo, soprou em meu ouvido uma mensagem: Busque! Sua voz robótica reverberou eternamente, em uníssono com meus inúmeros pensamentos de programação padronizada.

Desviei o olhar por um segundo e, no meu ecrã ocular de alta resolução, surgiu a mensagem: Estabelecendo conexão... Ao lado, uma pequena ampulheta girava, indicando o tempo de espera para o desempenho das tarefas do sistema operacional.

A mensagem vinha do coração, hardware de linguagem misteriosa, executando instruções codificadas, transcritas em pensamento intuitivo: Conecte-se com o que você já tem!